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O II Concílio Vaticano e a Tradição Católica - I

Atribuem ao CV II coisas que teriam ocorrido com ele ou sem ele. Nunca saberemos como teria sido sem o CV II, estamos aqui no campo da suposição. Mas o que ocorreu na sociedade em 1968 não foi fruto do CV II. Eu tenho uma opinião muito particular a esse respeito. O CV II conseguiu o que Trento não conseguiu: acontecer antes da crise.

Se as decisões de Trento - as decisões pastorais de Trento - tivessem ocorrido meio século antes, talvez não tivéssemos um Lutero, ou ele não teria tido a força de convencimento que teve. A época de Trento é chamada contra-reforma. Mas foi Trento - e sua aplicação por S. Pio V - que fez a verdadeira reforma de que a Igreja necessitava. Uma reforma, repito, pastoral.Valorizamos muito, e com razão, o aspecto dogmático do Concílio de Trento.

Mas o que ele definiu dogmaticamente? A doutrina de sempre, e não poderia ser de outra forma. Precisou fazer essas definições para condenar claramente os erros de Lutero. O CV II não precisava definir dogmas - embora tenha Constituições dogmáticas, é bom lembrar disso - porque os erros que se propôs combater já estavam claramente condenados. Entretanto, essa condenação tinha praticamente caído no vazio. Sinal claro de que, para que houvesse uma efetiva reforma na vida da Igreja, era necessária uma mudança pastoral.

Há grande paralelo entre Trento e S. Pio V, CV II e João Paulo II. Dois grandes Papas, que não o eram na altura do Concílio, mas que implementaram, apesar das inúmeras dificuldades, as suas decisões. É normal, na História da Igreja, que o período depois de um Concílio seja conturbado. O período depois de Trento também foi, só que ninguém atribui isso a Trento. Atribuem ao protestantismo. Então, por que atribuir as dificuldades pós-CV II ao Concílio, e não a Hans Kung e companhia? Talvez, sem o CV II, tivéssemos tido um cisma modernista. Aliás, sei que há quem preferisse isso. Querem vê-los fora da nossa Igreja. Mas pensemos com olhar histórico. Se tivesse sido possível contornar a crise com Lutero, sem a sua excomunhão, hoje mal nos lembraríamos dele. A atual perspectiva pastoral é de evitar ao máximo a excomunhão. Ironicamente, o CV II e os Papas que o aplicaram conseguiram isso com os modernistas, mas não conseguiram com Lefèbvre. Claro que a questão é complexa, e há vários pontos aqui que vou preferir não abordar, ao menos por agora.

Mas fica a reflexão. O CV II distinguiu entre modernismo e modernidade, secularismo e secularidade. Estas distinções eram extremamente necessárias. Os críticos do CV II, de ambos os lados, ainda não captaram esse ensinamento. Apenas mais uma reflexão, por agora, sobre o pós-Concílio. Essa fase costuma ser complicada e confusa, depois de todos os Concílios. É quase inevitável que seja assim. Dois exemplos que são ilustrativos.

1. Antes do CV II, tínhamos o Catecismo de S. Pio V e uma síntese do mesmo elaborada por S. Pio X. Ali estava, claramente expressa, a doutrina da Igreja. Quando havia uma dúvida, era só recorrer a essas fontes. O CV II decidiu que era necessário apresentar a doutrina da Igreja - a mesma doutrina de sempre - em uma linguagem que facilitasse o diálogo com a sociedade atual. Escreveu, para isso, uma série de documentos. Mas ficamos quase 30 anos antes de que saísse um novo Catecismo, e mais ainda antes de sua síntese no Compêndio. Agora estamos novamente com os 2 pés no chão, e só não conhece a doutrina quem não quer. Mas, antes, poderia caber qualquer coisa no espírito do Concílio.

2. Antes do CV II, tínhamos um Código de Direito Canônico, de 1917. O CV II decidiu que se fizesse um novo Código, mas este só saiu em 1983. Nos quase 20 anos de intervalo, era forte a tentação de, em lugar de seguir a legislação vigente - pois o Código de 1917 continuava vigente - seguir o espírito do Concílio.Fazendo uma analogia, antes do CV II a Igreja tinha os 2 pés no chão. Estava firme, mas parada. E a Igreja não pode ficar parada, o pastor precisa ir atrás do seu rebanho, e melhor ainda se vai na frente dele. Mas, para caminhar, precisamos levantar um pé do chão. Há uma certa insegurança. E o demônio, quando viu a Igreja num pé só, tentou dar uma rasteira. Mas as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Logo após o Concílio, nem mesmo os que depois se intitularam tradicionalistas foram contra seus documentos. A rejeição ao Vaticano II deve-se, então, não ao texto do Concílio (se assim o fosse, eles não elogiariam como o fizeram segundo o que postaste, e haveria críticas desde o final do sínodo), mas ao caos que os progressistas fizeram quando seqüestraram o espírito conciliar. Sim, ambigüidades existem. Mas são defeitos de forma, não de fundo. Aliás, aparentes contradições existem até na Bíblia, e ambigüidades estão presentes em muitos documentos eclesiásticos, será preciso resolvê-las, e essa resolução passa pela interpretação do Vaticano II dada pela Santa Sé. Um dos grandes erros tradicionalistas é querer resolver a crise revogando o Concílio ou considerando-o causa dos males. Pode ter sido instrumento, quando mal interpretado, mas nunca causa. As ambigüidades não foram motivo para as críticas tradicionalistas logo após o Concílio. Quer dizer, as ambigüidades existiam no texto do Concílio, mas logo após sua conclusão não havia tradicionalismo, não havia uma corrente que criticasse o Vaticano II pelas ambigüidades.

As ambigüidades existiam, eram notadas, mas até os que depois se diriam tradicionalistas, interpretavam o Concílio de maneira ortodoxa. Reconheciam que havia ambigüidades, porém nunca culpavam o Concílio, e sempre o interpretaram de modo coerente com a Tradição e o Magistério anterior. Porque razão esses mesmos que aprovaram e interpretaram de modo ortodoxo, mudaram de posição e passaram a achar que o erro não era de interpretação, mas do Concílio em si? Antes, viam uma possibilidade de interpretação ortodoxa; mas depois não mais: Porque isso? A resposta pode ser que os tradicionalistas só surgiram para criticar o Concílio (que antes aprovavam, ainda que cientes das ambigüidades, e interpretando seus textos de modo ortodoxo), quando, por causa dos excessos dos progressistas, passaram a não mais considerar possível uma interpretação coerente dos seus documentos à luz da Tradição.

Só existe uma possibilidade para o católico: Aceitar o Concílio Vaticano II, mas tomar cuidado para não adotar uma hermenêutica condenada pela Igreja, pois a oposição a um Concílio LEGÍTIMO é infundada. A pastoralidade do Concílio não importa em recusa de seus textos e sua doutrina. Pode haver ambigüidades, mas não são motivo para uma negação do Concílio. Todos os que tomam uma postura de oposição ao Vaticano II não se limitam a "lembrar que é falível", mas criticam-no como se fosse a causa dos males, acusam-no de heresia ou de suspeito de heresia. A SSPX diz isso com todas as letras: o Concílio, na mente deles, errou, ensinou modernismo, favoreceu a heresia e deve ter seus documentos revogados ou ignorados. É o que eles dizem!Por outro lado, o Concílio é infalível, sim. Quem disse o contrário? Se basear em textos da SSPX para defender a postura da própria SSPX? Isso é petição de princípio!

Fundamentar a autoridade de algo nesse próprio algo é um erro crasso em lógica! O Concílio pode não ser Magistério Extraordinário, mas, como ensina a mesma doutrina de sempre, é Magistério Ordinário, o qual é também infalível. Está no Catecismo, no Compendêndio etc. A infalibilidade não ocorre apenas na definição de dogmas ou de moral, mas na reiteração da mesma doutrina. Assim, temos duas situações:

a) ou o Vaticano II reiterou a mesma doutrina de sempre, e, por isso, é Magistério Ordinário, e, também por isso, infalível;

b) ou o Vaticano II é falível e, pois, não pertence ao Magistério Ordinário, tendo, então, ensinado doutrina diferente daquela que sempre a Igreja ensinara. Aceitar essa segunda posição, porém, importa em considerar o Concílio expressão de mero Magistério Autêntico, o que não procede, ou de fautor de heresia, o que é um absurdo.

Outro ponto é que o diálogo com os irmãos separados não faz com que deixemos de considerá-los hereges ou cismáticos. Não é porque dialogamos com a Igreja Ortodoxa, que deixamos de considerá-la cismática, nem porque dialogamos com o protestantismo, que deixamos de considerá-lo uma heresia. A atitude do diálogo não impede que tratemos as coisas como elas são. Aliás, se os ortodoxos não estivessem em cisma, não dialogaríamos com eles, pois já seriam católicos. O mesmo com os protestantes! E mais: se fossem católicos, se não estivessem em cisma ou em heresia, não os chamaríamos de irmãos separados. A própria denominação de "separados" é um reconhecimento de que são cismáticos e/ou hereges!

Por outro lado, reconhecer os tradicionalistas como cismáticos é um dever de justiça. Quem nega submissão ao Papa (e a SSPX o faz na prática!) é cismático, sim. Esse é o conceito de cisma: negação da sujeição ao Romano Pontífice! Esse tratamento aos tradicionalistas como cismáticos, todavia, não impede o diálogo. Há quem diga que só se dialoga com os protestantes e com os ortodoxos, enquanto se acusa os tradicionalistas. Isso não é verdade! Desde a fundação da SSPX, a Santa Sé tem se empenhado em dialogar com os tradicionalistas, e nunca cessou de buscar a reconciliação, como vemos nas notícias sobre encontros e correspondências entre essa sociedade e o Papa. E mais: há uma Comissão Pontifícia especialmente encarregada do assunto, fundada pelo Papa só para dialogar com os tradicionalistas, a Ecclesia Dei.

Temos que ter cuidado com os extremos e ser fiel ao que os papas sempre disseram, mas a "extremidade" aí são, por um lado os modernistas, por outro os tradicionalistas... E os Papas, naturalmente, incluem João Paulo II e Bento XVI.Nota-se como sempre pode haver mais de uma interpretação para a mesma frase? Diferentes interpretações de um mesmo texto é algo inerente à linguagem humana. Claro que pode haver maior ou menor ambigüidade, assim como interpretações e traduções propositadamente distorcidas. Interessante a entrevista de Levada, ele reconhece o problema da tradução. E também propõe uma solução: Como solução, confessou que «espera que para o qüinquagésimo aniversário do Concílio --dentro de dez anos-- faça-se uma cuidada tradução oficial do Concílio nos principais idiomas».

A mesma solução que a Igreja sempre apresenta, ser mais fiel ao CV II, nunca afastar-se dele. Opor-se à heresia, sim. Opor-se à Igreja, não.

A Igreja já fez seu julgamento - basta ver o que João Paulo II e Bento XVI dizem. Não há nenhuma "Newchurch", como o bispo Williamson gosta de dizer. Não há ruptura. No entanto, os tradicionalistas falam como se essa ruptura fosse uma possibilidade real. Daí se vê o estrago que o SSPX faz na cabeça dos seus adeptos e os que são "ligados" a ela.

Também é questionada a afirmação de João Paulo II de que o CV II fez uma "sugestiva síntese da relação entre o cristianismo e o iluminismo". Fui checar, no "Memória e Identidade", pg 126, o que disse esse grande Papa. Vejamos o início do cap. 25, pg 171, que nos pode ser muito útil: Como é óbvio, a história do homem desenvolve-se em dimensão horizontal no espaço e no tempo; mas é atravessada também por uma dimensão vertical. De fato, quem escreve a história não são apenas os homens; com eles, escreve-a também Deus. Desta dimensão da história, que podemos chamar transcendente, se afastou resolutamente o Iluminismo; a Igreja, pelo contrário, volta continuamente a ela: um claro testemunho neste sentido foi também o Concílio Vaticano II.

Percebe-se que, doutrinariamente, essa relação entre cristianismo e iluminismo é de oposição. Enquanto um nega o transcendente, o outro o afirma. É muito interessante conhecer a história do Concílio, que nos mostra as várias correntes de pensamento e nos ajuda a entender muito do que ocorreu depois. Entretanto, é preciso fazê-lo tendo em conta as duas dimensões da história, ou seja, em espírito de fé. Nunca podemos esquecer que o principal participante de um Concílio é o Espírito Santo. E que Ele pode se servir, e efetivamente se serve, até de querelas humanas para expressar mais adequadamente a Verdade.

Como vimos, o Papa João Paulo II tem clareza de que iluminismo e cristianismo são opostos, e pensa que isso expressam os documentos conciliares. Mas houve, no CV II, também uma preocupação pastoral, que orienta como deve ser a relação deste ponto de vista, a do pastor. E, como nos ensinou Cristo, o pastor cuida da ovelha ferida. Neste contexto está o trecho da pág. 126.

Nos documentos do Concílio Vaticano II pode-se encontrar uma sugestiva síntese da relação entre o cristianismo e o iluminismo; é verdade que os textos não falam disso diretamente, mas, se examinados mais profundamente à luz do atual contexto cultural, oferecem muitas indicações preciosas a tal respeito. O Concílio, na exposição da doutrina, escolheu adotar uma linha não polêmica; preferiu apresentar-se como uma expressão mais daquela inculturação que acompanhou o cristianismo desde os tempos dos Apóstolos. Esta sim é uma voz autorizada para explicar qual é o espírito do Concílio. Um espírito de diálogo com a cultura atual, mesmo sabendo que há oposições inegáveis. Mas sabendo que estas não se resolvem com a polêmica, com o confronto. É necessária uma compreensão da cultura da humanidade e uma inculturação, que não é contaminar a fé com aquilo da cultura que lhe é incompatível [esse é o modo errado de tentar fazer a coisa], mas é, pelo contrário, uma cristianização da cultura, uma nova evangelização, como falará tantas vezes. E João Paulo II aproveita para destacar que a inculturação não é novidade nenhuma,dado que acompanhou o cristianismo desde os tempos dos Apóstolos.

Seguindo as suas indicações, os cristãos podem ir ao encontro do mundo contemporâneo e estabelecer com ele um diálogo construtivo; podem também, como o samaritano do Evangelho, inclinar-se sobre o homem ferido, procurando cuidar das suas feridas neste início do Séc XXI. A solicitude em levar ajuda ao homem é incomparavelmente mais importante do que as polêmicas e acusações relativas, por exemplo, ao fundamento iluminista das grandes catástrofes históricas do séc XX; de fato, o espírito do Evangelho exprime-se antes de mais nada na disponibilidade para oferecer ao próximo a própria ajuda fraterna.Ou seja: o iluminismo é a grande ferida do séc XX e início do XXI. E a humanidade ferida precisa do bom samaritano que devemos ser nós. João Paulo II responsabiliza o iluminismo nada menos do que pelas grandes catástrofes históricas do séc XX. Mas diz que a nossa atitude não deve ser de rejeição, mas de descobrir onde estão as feridas e cuidar delas.Nos tempos de Cristo, os fariseus se escandalizavam de que Ele comesse com os publicanos e pecadores. É essa atitude que não podemos ter.

A conclusão é de que João Paulo II interpreta muito bem o Concílio, como não poderia deixar de ser. E que há quem interprete distorcidamente tanto o Concílio quanto a interpretação que dele fez o Papa. Mas também estes merecem que nos debrucemos sobre eles como o bom samaritano.

Impressionante que essas palavras venham de um homem que vivenciou muito de perto essas grandes catástrofes do séc. XX, que foi pessoalmente vítima do nazismo, do comunismo e do terrorismo... Como Deus é grande!

O que realmente houve, e foi proposital: evitaram-se termos que estivessem demasiadamente ligados a uma única linha teológica ou filosófica, para acomodar a diversidade teológica existente e propiciar o desenvolvimento da Teologia em diálogo com o mundo moderno. Há aí uma "faca de 2 gumes", da qual não há como fugir. A diversidade, naqueles pontos que estão abertos à livre discussão teológica, é muito positiva. Mas é impossível propiciar isso sem abrir também frestas ao erro teológico. E, aparentemente, no pós-Concílio o erro abundou mais do que a inovação teológica autêntica. Isso pode ser só aparente, porque o erro faz mais barulho.

E é importante ter claro que a "fresta" não se deve ao texto em si, mas às distorções que fazem dele, e principalmente ao descumprimento da primeira das regras, de que os documentos do Concílio devem ser lidos à luz da Tradição da Igreja. E o segundo ponto é a necessária obediência ao Magistério, quando este indica que não se pode aceitar esta ou aquela interpretação, essa regra, que é de uma hermenêutica profundamente católica, não está "nos textos do Concílio". Por isso, é possível dizer que há, sim, falta de clareza nos textos, e, ao nos depararmos com textos obscuros ou pouco claros (que alguns chamam de ambigüidade - embora a própria palavra "ambigüidade" seja ambígua), se não cumprimos essa primeira regra, claramente distorcemos as coisas, e cria-se ou o progressismo ou o tradicionalismo, ambos perniciosos.

Há duas questões: a primeira é a distorção do sentido dos textos do Concílio pela inobservância das regras citadas; a segunda é a constatação de que, além desse descumprimento, alguns textos do Concílio são, sim, pouco claros, e, se mais claros fossem, não dariam tanta brecha para esse descumprimento. Ainda assim, pode ter sido uma opção deliberada dos Padres Conciliares ter alguns textos pouco claros (que nem são tantos assim!), na esperança de que eles gerassem uma teologia sadia e ortodoxa. Não foi o efeito esperado, aparentemente, mas ainda assim não podemos julgar da intenção do Papa.

A existência de uma distorção progressista dos textos pouco claros do Concílio ajuda na argumentação de que, apesar da pouca clareza desses textos, há, sim, como interpretá-los de modo ortodoxo, a saber, à luz da Tradição como se faz com qualquer documento, pós ou pré-conciliar.

Não podemos falar do Concílio como se ele representasse uma unanimidade de pensamento. Aliás, em muito caso as imprecisões, ou os termos "não inequívocos", decorreram justamente de uma diversidade de pensamento. Foram aceitos termos que acomodassem as diversas correntes de pensamento ali presentes [inclusive, talvez, algumas que representavam erros teológicos anteriores ao Concílio]. E que, portanto, pudessem ser aprovados pelo plenário. Vocês já experimentaram escrever um texto entre 20 pessoas, para submeter à aprovação de 500?

Não conhecemos profundamente a história do CV II, com certeza a maioria dos que estão nos lendo não viveu nos anos 60, mas certamente houve grandes debates em torno de alguns desses termos. Mas é justamente ao analisar essas questões que não podemos perder o olhar de fé, e reconhecer o papel do Espírito Santo. Porque, se algum termos são imprecisos, nenhum deles é errado, muito menos herético. Todos admitem interpretação de acordo com a tradição da Igreja. E, sem negar os inúmeros problemas do pós-Concílio, podemos ter também um olhar otimista. Se os padres conciliares foram ingênuos, então nós também somos.

Em muitos casos essa amplitude da terminologia era necessária. O erro faz muito barulho, e o avanço teológico autêntico muito menos. A Igreja tem colhido maravilhosos frutos do Concílio, que não podemos negar. O Magistério de João Paulo II explorou maravilhosamente algumas dessas "aberturas" dadas pelos documentos conciliares, por exemplo. Aliás, o próprio João Paulo II é um fruto do Concílio. Se o CV II não tivesse aberto as portas para o diálogo com o ateísmo, possivelmente o presidente da Rússia não teria tido a oportunidade de perguntar, quando soube que tínhamos um Papa polonês: "Quem deixou esse homem ser cardeal"?

Uma observação: Desde quando faz parte da Tradição desobedecer e criticar o Magistério? A distinção entre o que é pastoral e o que é doutrinal ou dogmático é muito importante. Mas é preciso fazer essa distinção corretamente. O pastoral e o doutrinal misturam-se continuamente. Nenhum documento é exclusivamente administrativo, pastoral ou doutrinal. Estas coisas se misturam. Se assim é em um documento, imagine em um Concílio!

O Magistério da Igreja deve ser obedecido sempre. Por isso também é importante destacar a importância que tiveram na vida da Igreja as decisões pastorais de Trento.

Uma pequena comparação usando a Medicina. Quando o médico recebe um doente, precisa fazer basicamente duas coisas: diagnóstico e tratamento.O diagnóstico refere-se a algo totalmente objetivo. A doença é real, e você pode diagnosticar melhor ou pior, aproximando-se mais ou menos da verdade. E a doença permanece ao longo do tempo. A lepra dos tempos de Cristo é a mesma hanseníase de hoje, ou mudou muito pouco. Sem querer entrar na polêmica do outro tópico [vejo razões de um lado e do outro], o que provoca a doença é o Mycobacterium leprae. Era essa bactéria há 2.000 anos e é ela hoje. Posso entender melhor a doença, posso chamar por outro nome. Mas a realidade não muda. Isso é o que acontece no campo da doutrina.

Já o tratamento pode mudar muito. Dos tempos de Cristo para cá, o modo de se tratar esse doente mudou totalmente [o que faz inclusive que pareça que a doença é diferente, embora não seja]. E, mesmo atualmente, pode haver diferentes correntes entre os médicos. Alguns preferem um remédio, outros preferem outro. Cada um terá os seus argumentos. E doentes diferentes podem necessitar estratégias diferentes de cura, mesmo tratando-se da mesma doença. É preciso levar em conta situações regionais, como a epidemiologia... Estamos, aqui, no campo da "pastoral". A diversidade é não só legítima como necessária.

Um Concílio não pode ensinar uma heresia. Ele pode traçar linhas pastorais que nem todos considerem as mais adequadas. E, normalmente, deixará abertas diversas possibilidades em termos de linha pastoral. Agora, naquilo que se normatizar para toda a Igreja, a única resposta possível do povo cristão é a obediência. Uma frase muito interessante diz: é melhor errar com a Igreja do que acertar sem ela. Claro que essa frase não se refere a questões dogmáticas [nas quais a Igreja não erra], mas às pastorais. Outro exemplo atual que ilustra bem a questão: O celibato sacerdotal não é dogma. Não é um ponto de origem divina. Pode variar, e de fato variou, de acordo com tempo e lugar. Um católico pode, portanto, pensar que seria conveniente que a Igreja mudasse as suas decisões relativas ao celibato. Em um sínodo em que isso esteja em discussão, um bispo pode legitimamente defender que a Igreja mude no seu proceder, trazendo para isso os argumentos que considere conveniente.

A própria Igreja pode abrir exceções à sua regra e permitir a ordenação de padres casados no Rito Romano, como tem feito com convertidos do anglicanismo. O que não se pode fazer é o que infelizmente fez o bispo Milingo, que recentemente incorreu em excomunhão, ao sagrar, ou intentar sagrar, como bispos, padres casados, em aberta oposição ao Magistério. A questão aí não é doutrinal e sim disciplinar. E não deixa de ser interessante notar que, a partir de fundamentos totalmente diferentes e mesmo opostos, Milingo e Lefebvre incorreram em excomunhão pelo mesmo motivo: sagração ilícita de bispos.

Sobre o ponto: em matéria de disciplina, o que seria um erro? há 2 aspectos importantes de serem comentados:

1. Mais do que certo ou errado, em questões disciplinares há diferentes possibilidades, cada uma com suas vantagens e desvantagens. A disciplina da Igreja é como a de uma escola ou a que os pais têm para com os filhos. Podemos também pensar nas leis de um país. Apoiadas nos mesmos princípios, pessoas diferentes optam por soluções diferentes. Foi o exemplo dado também sobre o tratamento, no caso médico. No caso da Igreja, os princípios em que ela se apóia vêm de Deus [os mandamentos, por exemplo], mas as diretrizes concretas são de elaboração humana. Podem variar, por isso, conforme tempo e lugar. Isso do ponto de vista de quem elabora essas diretrizes disciplinares, no caso a hierarquia da Igreja.

2. Não podemos esquecer, entretanto, a promessa de Cristo: o que ligardes na terra será ligado nos Céus e o que desligardes na terra será desligado nos Céus. Ao fiel cabe obedecer em espírito de fé. O fato de que as leis sejam mutáveis [a do celibato, por exemplo, pode mudar] não nos exime de cumprir a lei vigente. Quem pensa diferente pode até trabalhar para que a lei mude, mas não desobedecer como se não houvesse lei. Depois do CV II houve uma confusão disciplinar que era até compreensível, embora não justificável. Hoje temos um novo Código de Direito Canônico e uma série de documentos disciplinares que só ignora quem quer. Por exemplo, ninguém pode alegar desconhecimento em matéria litúrgica depois dos vários documentos publicados nos últimos anos. E por aí vai...

O problema está mais na carga negativa que se dá a palavras como "ambigüidade" e "equívoco", nesse contexto, do que à existência de termos que possibilitem mais do que uma interpretação. Isso é inerente à linguagem humana. E não podemos estranhar-nos de que aconteça isso com termos de documentos do Magistério, porque acontece na própria Escritura. Por exemplo, os irmãos de Jesus. Não é este um termo equívoco? Agora, se cabe ao Magistério interpretar a Escritura, também cabe ao Magistério interpretar o Magistério. Compreender o conjunto do seu ensinamento, lido à luz da Tradição, é muito diferente de fazer um recorte descontextualizado e afirmar que a doutrina da Igreja mudou radicalmente, seja para aplicar a "nova leitura", seja para contestá-la.

Um exemplo concreto, que está nos fundamentos do ecumenismo tal como o compreende o CV II: Tendia-se a falar que a Igreja Católica é a Igreja fundada por Cristo. Isso está certo? Está. Mas tende a ser compreendido em uma perspectiva excludente: as demais confissões cristãs não são a Igreja de Cristo.O CV II optou por uma construção diferente, e nos diz que: "Esta é a única Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica (12); depois da ressurreição, o nosso Salvador entregou-a a Pedro para que a apascentasse (Jo. 21,17), confiando também a ele e aos demais Apóstolos a sua difusão e governo (cfr. Mt. 28,18 ss.), e erigindo-a para sempre em «coluna e fundamento da verdade» (I Tim. 3,5). Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como sociedade, é na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em união com ele (13), que se encontra, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica." (Lumen Gentium, 8)

O assunto que está sendo tratado é complexo, por isso também é complexa a construção frasal do texto. Cabe aí mais de uma interpretação? É algo a ser discutido. O fato é que, historicamente, o texto foi utilizado tanto para afirmar que a Igreja católica é a única Igreja de Cristo [o que a Lumen Gentium de fato diz, textualmente], como para afirmar que o CV II reconheceria como Igreja de Cristo o conjunto das igrejas cristãs [tanto para louvar essa postura como para abominá-la, dependendo de quem atribuía essa afirmação ao CV II].

Qual a interpretação que o própro Magistério dá ao texto? A que está na Dominus Iesus, 16: "Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica — radicada na sucessão apostólica — entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: « Esta é a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17), encarregando-o a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cf. Mt 28,18ss.); levantando-a para sempre como coluna e esteio da verdade (cf. 1 Tim 3,15). Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele ».54 Com a expressão « subsistit in », o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que « existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição »,55 isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica.56 Acerca destas, porém, deve afirmar-se que « o seu valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».57

2 pontos chamam a atenção:

1. As traduções em Português dos 2 documentos são diferentes, exatamente na expressão subsistet in, que é crucial para o entendimento do trecho. A Dominus Iesus traduz melhor a citação e ainda intercala a expressão original latina, para que não haja dúvida. Aparece aí a problemática da tradução mencionada pelo Cardeal Levada.

2. Ao explicar o trecho, a Dominus Iesus explicita que houve o esforço de harmonização de duas doutrinas complementares. O que, com um olhar de crítica, é tratado como "ambigüidade", o Magistério entende como complexidade, como harmonização.Vale a pena ver também a nota de rodapé 56, do trecho da Dominus Iesus citado acima:(56)" É, portanto, contrária ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula subsistit in a tese, segundo a qual, a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. « O Concílio, invés, adoptou a palavra "subsistit" precisamente para esclarecer que existe uma só "subsistência" da verdadeira Igreja, ao passo que fora da sua composição visível existem apenas "elementa Ecclesiae", que — por serem elementos da própria Igreja — tendem e conduzem para a Igreja Católica » [Congr. para a Doutrina da Fé, Notificação sobre o volume "Igreja: carisma e poder" do P. Leonardo Boff: AAS 77 (1985) 756-762]."

Podemos concluir é que os tradicionalistas esquecem a parábola do joio e do trigo... E recordam com saudosismo um tempo que nunca existiu. É magnífico o otimismo do CV II, que, como o então Cardeal Ratzinger comentou não pode se transformar em ufanismo. Nunca podemos também esquecer o que Cristo disse: o meu reino não é deste mundo.O CV II abriu as portas da Igreja para a modernidade, que é muito diferente do modernismo, e para a secularidade, muito diferente do secularismo. E lembrou a analogia de S. Paulo de que a Igreja é feita de pedras vivas, que somos cada um de nós, muito mais do que de edifícios materiais. E, em uma época em que muitos homens deixaram de ir às igrejas, é preciso que a Igreja vá aos homens. Essa é a nossa tarefa - de todos nós, que compomos o Corpo Místico de Cristo.

 

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