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As ambiguidades de Marcel Lefebvre


O PROBLEMA DA AMBIGUIDADE DAS PALAVRAS E DISCORDÂNCIA ENTRE O QUE SE FALA COM A SANTA SÉ E COM O POVO:

Essa diferença de linguagem, essa discordância de afirmações diante da Santa Sé e diante do mundo, ocorre desde o tempo das conversações com Dom Marcel Lefebvre.

Dom Lefebvre havia escrito ao Papa em 8 de março de 1980:

Para por um fim a algumas dúvidas que estão agora circulando em Roma e em certos meios tradicionalistas na Europa e na América sobre minha atitude e pensamento com relação ao Papa, o Concílio e a Missa do Novus Ordo, e temendo que essas dúvidas cheguem até Vossa Santidade, permita-me declarar novamente o que eu sempre afirmei:
Que eu concordo inteiramente com o parecer de Vossa Santidade de que o ... Concílio Vaticano II, declarado em 6 de novembro de 1978 na reunião do Sacro Colégio: “Que o Concílio deve ser entendido à luz de toda a Sagrada Tradição e na base do constante Magistério da Santa Igreja”.
Com relação à Missa segundo o Novus Ordo, apesar de todas as reservas que alguém deva ter sobre ela, eu nunca dissse que ela era em si mesma inválida ou herética...

E em 4 de abril de 1981, ele escreveu ao Cardeal Seper, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé:

Eu declaro novamente com relação ao Concílio que eu subscrevo a frase do Santo Padre que pede que ele seja aceito ‘à luz da tradição e do constante Magistério da Igreja’.
Com relação à Reforma Litúrgica, eu mesmo assinei o Decreto Conciliar e eu nunca declarei que suas aplicações foram em si mesmas inválidas ou heréticas.

Mas, por causa de idas e vindas e não concordância nas afirmações, o Papa João Paulo II, através do então Cardeal Ratzinger, hoje nosso Papa, quis deixar as coisas muito claras e exigiu que Dom Lefebvre assinasse sem ambigüidades e dupla linguagem algumas claras declarações, conforme consta na carta da Congregação para a Doutrina da Fé, de 23 de dezembro de 1982, assinada pelo então Cardeal Joseph Ratzinger: 14

“Depois de uma demora bastante longa em consultas, reflexão e oração, estou agora em condição de lhe apresentar propostas concretas em vista da regularização de sua própria situação e a dos membros da Fraternidade São Pio X. Eu deixo logo bem claro que essas propostas foram aprovadas pelo Soberano Pontífice e que é sob sua ordem que eu lhas comunico.

1) O Santo Padre nomeará o mais breve possível um Visitador Apostólico para a Fraternidade São Pio X, se o sr. aceita assinar uma declaração na forma seguinte :

1. Eu, Marcel Lefebvre, declaro minha adesão com religiosa submissão de espírito à integridade da doutrina do Concílio Vaticano II, ou seja, doutrina « enquanto se entende a luz da santa Tradição e enquanto se refere ao perene magistério da propria Igreja (cf. Joao Paulo II, Alocução ao Sacro Colégio, 5 nov. 1979, AAS LXXI (1979/15) p. 1452).
Esta religiosa submissão leva em conta a qualificação teológica de cada documento, como foi estatuída pelo próprio Concílio (Notificação dada na 123 a Congr. Geral, 16 nov. 1964).

2. Eu, Marcel Lefebvre, reconheço que o Missal Romano, estabelecido pelo Sumo Pontífice Paulo VI para a Igreja universal, foi promulgado pela legítima suma autoridade da Santa Sé, a quem compete na Igreja o direito da legislação litúrgica, e por isso mesmo e em si mesmo legítimo e católico. Por isso, não neguei nem negarei que as missas fielmente celebradas segundo o novo rito sejam válidas e também de nenhum modo desejaria insinuar que elas sejam heréticas ou blasfemas nem pretendo afirmar que devam ser evitadas pelos católicos.

Esses dois parágrafos foram maduramente estudados por parte da Sé
Apostólica e não podem ser modificados. Entretanto, admite-se que o sr. possa acrescentar, a título pessoal, um complemento cujo conteúdo poderia ser o seguinte:

Em consciência me sinto obrigado a acrescentar que a aplicação concreta da reforma litúrgica coloca questionamentos que devem exigir um solícito cuidado também da suprema autoridade. Por isso, desejo seja feita futuramente, por essa mesma autoridade, uma nova revisão dos livros litúrgicos.

O sr. pode eventualmente modificar esta última passagem, sob reserva naturalmente de que sua formulação seja aceita pelo Santo Padre.

2) Se o sr. declara sua disponibilidade em assinar a declaração acima, será possível fixar a data da audiência que o Santo Padre lhe concederá, e ele poderá marcar o começo da Visita Apostólica.

A situação dos padres que o sr. ordenou desde junho de 1976 será regularizada caso por caso, se eles aceitam assinar pessoalmente uma declaração tendo o mesmo conteúdo que a sua.

Eu devo acrescentar, enfim, que, no que concerne à autorização de celebrar a Santa Missa segundo o Ordo Missae anterior ao de Paulo VI, o Santo Padre decidiu que a questão será resolvida para a Igreja universal e, portanto, independentemente do seu caso particular.”

Com a negativa de Dom Lefebvre, o então Cardeal Ratzinger, em nome do Papa, lhe escreveu em 30 de julho de 1983:

« Excelência,

O Santo Padre cuidadosamente meditou diante de Deus sobre sua carta de 5 de abril, à luz de sua responsabilidade de Pastor Supremo da Igreja. Em seguida, ele me encarregou de responder em seu nome. É desse dever que eu me desincumbo na presente carta.

I. - Não seria nenhuma surpresa para o sr. saber que o Soberano Pontífice ficou
decepcionado e entristecido com a brusca recusa que o sr. opõe à sua generosa oferta de lhe abrir o caminho da reconciliação.

Com efeito, o sr. acusa de novo os Livros Litúrgicos da Igreja, com uma
severidade que surpreende depois das conversas que nós tivemos.
Como pode o sr. qualificar os textos do novo missal de ‘missa ecumênica’? O sr. sabe bem que este missal contém o venerável Cânon Romano; que as outras Orações Eucarísticas falam de uma maneira muito clara do Sacrifício; que a maior parte dos textos provém das tradições litúrgicas antigas.

Para citar apenas um exemplo, o sr. sabe que depois da oblação do pão e do vinho, este novo missal nos faz dizer como o precedente : “
sic fiat sacrificium nostrum in conspectu tuo hodie… Orate, fratres, ut meum ac vestrum sacrificium…”.

O sr. sabe igualmente que para a interpretação do missal,
o essencial não é o que dizem os autores privados, mas somente os documentos oficiais da Santa Sé. As afirmações do Pe. Bouyer e de Mons. Bugnini, aos quais o sr. faz alusão, não são senão opiniões privadas.

Ao invés, eu chamo a sua atenção para a definição autêntica da intenção e do significado do missal proposta no Proemium da Institutio Generalis, especialmente no artigo 2, assim como para as razões e as idéias determinantes da reforma, expostas nos artigos 6 a 9. Segundo esses textos oficiais,
jamais se quis uma redução dos elementos católicos da Missa, mas ao contrário uma presença mais rica da tradição dos Padres.

Nisso,
segue-se fielmente a norma de São Pio V, segundo as possibilidades de um conhecimento adquirido das tradições litúrgicas.

Com o consentimento do Santo Padre, eu posso lhe dizer ainda uma vez que toda crítica dos livros litúrgicos não está a priori excluída, que mesmo a expressão do desejo de uma nova revisão é possível, da maneira como o movimento litúrgico anterior ao concílio pôde desejar e preparar a reforma. Mas isso na condição de que a crítica não impeça e nem destrua a obediência, e que
não ponha em discussão a legitimidade da
liturgia da Igreja.

Eu lhe peço, pois, com insistência e em nome do Santo Padre, examinar de novo suas afirmações, com toda a humildade diante do Senhor e levando em conta sua responsabilidade de Bispo, e de rever aquelas que são irreconciliáveis com
a obediência devida ao Sucessor de São Pedro.

Não é admissível que o sr. fale de «
uma missa equívoca, ambígua, na qual a doutrina católica foi obscurecida », nem que o sr. declare sua intenção de « afastar os padres e fiéis do uso desse novo Ordo Missae ».

O sr. traria uma
verdadeira contribuição à pureza da fé na Igreja se o sr. se limitasse a lembrar aos padres e aos fiéis que se deve renunciar ao que é arbitrário, que é preciso se ater com cuidado aos livros litúrgicos da Igreja, que é preciso interpretar e realizar a liturgia segundo a tradição da fé católica e de acordo com a intenção dos Papas. De fato, no presente, o sr. infelizmente encoraja apenas a desobediência.

II. - Depois das conversas que se desenrolaram entre nós, eu pessoalmente pensei que não havia mais obstáculos a respeito do ponto I, quer dizer, a aceitação do segundo Concílio do Vaticano, interpretado à luz da Tradição católica e levando em conta as próprias declarações do Concílio sobre
os graus de obrigação dos textos.

Também o Santo Padre ficou surpreso de que mesmo a sua aceitação do Concílio interpretado segundo a Tradição continua
ambígua, pois que o sr. logo afirma que a Tradição não é compatível com a Declaração sobre a Liberdade Religiosa.

No terceiro parágrafo de suas sugestões, o sr. fala de « afirmações ou expressões do Concílio que são contrárias ao Magistério da Igreja ». Dizendo isso, o sr. retira todo o alcance de sua aceitação antecedente ; e, enumerando três textos conciliares incompatíveis segundo o sr. com o Magistério, e lhes acrescentando um « etc », o sr. torna a sua posição ainda mais radical.

Aqui, como a propósito das questões litúrgicas, é preciso notar que – em função dos diversos graus de autoridade dos textos conciliares – a crítica de algumas de suas expressões, feitas segundo as regras gerais de adesão ao Magistério, não está excluída.

O sr. pode também exprimir o desejo de uma declaração ou de um desenvolvimento explicativo sobre tal ou tal ponto.

Mas o
sr. não pode afirmar a incompatibilidade dos textos conciliares – que são textos magisteriais – com o Magistério e a Tradição. É-lhe possível dizer que, pessoalmente, o sr. não vê essa compatibilidade, e portanto pedir explicações à Sé Apostólica. Mas se, ao contrário, o sr. afirma a impossibilidade de tais explicações, o sr. se opõe profundamente à estrutura fundamental da fé católica e a obediência e humildade da fé eclesiástica que o sr. diz possuir no fim da sua carta, quando o sr. evoca
a fé que lhe foi ensinada na sua infância e na Cidade Eterna.
Sobre esse ponto, vale enfim uma observação já feita precedentemente a propósito da liturgia: os autores privados, mesmo se eles foram peritos no concílio (como o Pe. Congar e o Pe. Murray, que o sr. cita),
não são autoridade encarregada da interpretação.
Só é autêntica e autoritativa a interpretação dada pelo Magistério, que é assim o intérprete de seus próprios atos : pois os textos conciliares não são os escritos de tal ou tal perito ou de quem quer que seja que tenha podido contribuir para sua origem, eles são documentos do Magistério.

III, - Antes de concluir, eu devo ainda acrescentar isso: o Santo Padre não desconhece nem sua fé nem sua piedade. Ele sabe que, na Fraternidade São Pio X, o sr. insiste para que seja reconhecida a legitimidade dele, e que o sr. se separou de membros da Fraternidade que se recusavam segui-lo nessa atitude. Ele sabe também que o sr. se recusa ao que seria verdadeiramente o começo de um cisma, isto é a sagração de um Bispo, e reconhece que sobre este ponto decisivo o sr. se mantém na obediência ao Sucessor de São Pedro. Em tudo isso se encontra o motivo da generosa paciência com a qual o Soberano Pontífice procura sempre o caminho da reconciliação.

Mas sua carta de 5 de abril mostra também que o sr. põe à sua obediência reservas que atingem a própria substância desta obediência e abrem a porta a uma separação.

Ainda uma vez, em nome do Papa João Paulo II, eu lhe peço com cordialidade, mas também com insistência, para refletir diante do Senhor em tudo o que eu acabo de lhe escrever. Não se exige do sr. que renuncie à totalidade de suas criticas do Concílio e da reforma litúrgica. Mas em virtude de sua responsabilidade na Igreja, o Soberano Pontífice deve insistir para que o sr. demonstre esta obediência concreta e indispensável cujo conteúdo está formulado em minha carta de 23 de dezembro de 1982.

Se uma ou outra expressão lhe causa dificuldades insuperáveis, o sr. pode expor estas dificuldades : as palavras em si mesmas não constituem absolutos ; mas seu conteúdo é indispensável.

O Santo Padre expressamente me encarregou de lhe assegurar sua oração em sua intenção. Eu lhe asseguro igualmente a minha, e lhe peço aceitar, Excelência, a expressão de meus sentimentos de respeitoso devotamento em Nosso Senhor.

+ Cardeal Joseph Ratzinger,

Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Carta de Dom Rifan aos bispos da Fraternidade, 30 de janeiro de 2009

 

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