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Os Sete Vícios Capitais

I. CONCEITO

Todo ser humano é, em essência, bom. Todos nós trazemos inscritas em nossa mente e na nossa consciência a moral e as leis de Deus. Mas nós podemos anestesiar esse instinto divino a partir do pecado (cf. Rm 7,16-20), pois como uma “cicatriz” do pecado original, com o qual todo homem é concebido, o ser humano possui uma tendência ao mal.

Sabemos que o Sacramento do Batismo apaga o pecado original. Isto é uma verdade de Fé, na qual acreditamos com todas as forças da nossa alma. Porém, mesmo tendo sua alma limpa do pecado original, o homem vive nesta vida sempre inclinado para fazer o mal.

Embora próprio a cada um, o pecado original não tem, em nenhum descendente de Adão, um caráter de falta pessoal. É a privação da santidade e da justiça originais, mas a natureza humana não é totalmente corrompida: ela é lesada em suas próprias forças naturais, submetida à ignorância, ao sofrimento e ao império da morte, e inclinada ao pecado (esta propensão ao mal é chamada "concupiscência"). O Batismo, ao conferir a vida da graça de Cristo, apaga o pecado original e faz o homem voltar para Deus. Porém, as conseqüências de tal pecado sobre a natureza, enfraquecida e inclinada ao mal, permanecem no homem e o incitam ao combate espiritual.” (Catecismo da Igreja Católica, § 405)

Esta inclinação má que encontramos dentro de nós explica-se pelo fato de que nossa sensibilidade não aceita mais se submeter à razão; nossa vontade não tem mais forças para impor a verdade e o bem. Com isso, estamos sempre procurando satisfazer a sensibilidade. Ora, esta inclinação para fazer o mal se manifesta através dos chamados vícios capitais.

Estes vícios são chamados capitais porque são como que a cabeça, a fonte de todos os pecados. Dessas inclinações originam-se todos os atos maus que cometemos. Por soberba, por exemplo, o homem pode ter ódio de um outro homem, e até vir a matá-lo.

II. OS SETE VÍCIOS CAPITAIS

Ao estudarmos os sete vícios capitais, aprenderemos a vigiar nossas almas no sentido de fugir desses vícios e assim evitarmos muitos pecados.

Os vícios ou pecados capitais são sete:

1) Orgulho/Soberba: o princípio de todo pecado é o orgulho, a vaidade, pois é a tentativa de se igualar a Deus de ser auto-suficiente senhor de si, passando por cima da autoridade de Deus. O orgulho caracteriza-se por acharmos que os dons de Deus vêm de nós mesmos. Leva aos pecados da presunção, da vanglória (Gn 11 - O episódio de Babel). Nós passamos a procurar sempre reconhecimento, elogios, por nossos atos e acabamos nos gabando das coisas que fazemos. Com orgulho, a pessoa desanima no fracasso, pois acha-o impossível;

2) Avareza: desejo desordenado dos bens deste mundo. Os bens deste mundo foram feitos pra suprir nossas necessidades e a de nossos irmãos. A avareza é a síndrome de acumular, juntar, empilhar coisas. É o culto ao dinheiro. Leva a fraudes, roubos, mesquinharia e ambição, passar por cima dos outros. Em vez de senhores das coisas passamos a ser escravos delas (cf. Mt 6,23-34);

3) Inveja: é um vício pelo qual nós olhamos tudo que há de bem no nosso próximo como sendo mau, porque diminui nossa grandeza e nossa glória. Ou seja, não gostamos de ver alguém ser elogiado e nós não, não suportamos que tal pessoa tenha um objeto que nós não temos. No fundo, queremos ser sempre os mais notados e festejados. Vemos assim que a inveja nasce da soberba, que é aquela cegueira sobre nós mesmos. Pela inveja procuramos sempre atrapalhar o outro e nos alegramos quando o vemos atribulado.

Como a inveja nos leva a desprezar o próximo, ela é a origem de muitos pecados graves contra a virtude da Caridade, a qual nos leva a nos alegrar pelo bem que vemos no outro.

A inveja provoca:

- ódio - foi o ódio nascido da inveja que levou Caim a matar Abel

- murmúrio - a alma passa seu tempo a pensar mal dos outros.

- detração - ela já não pensa só contra seu próximo, mas tenta quebrar a reputação do outro;

4) Ira: é um estado de descontrole da paixão ou um desejo imoderado de vingança. O descontrole da paixão é a raiva, que chega a modificar nosso semblante; a vingança imoderada consiste em vingar-se quando não nos cabe vingar ou vingar-se de alguém que não nos fez nada que merecesse vingança.

A ira provoca ainda:

- indignação é nossa irritação contra alguém que achamos injustamente que está irritado conosco.

- maus pensamentos e juízos temerários.

- gritos e agitação.

- blasfêmias.

- acusações injustas.

- rixas e brigas.

5) Luxúria ou Impureza: Deus ordenou aos homens que se multiplicassem sobre a terra. Para isso, Ele instituiu a família, união de um homem e de uma mulher, que se unirão pelo ato conjugal para terem os filhos que Deus quer que eles tenham. Foi para proteger a instituição familiar que esse ato e tudo o que se relaciona com ele, ficou reservado ao matrimônio.

A luxúria é o vício que leva os homens a realizarem o ato sexual fora do casamento ou contrariando as normas naturais estabelecidas por Deus para ele. Esse vício provoca pecados contra o sexto e o nono mandamentos: atos, pensamentos, desejos, más companhias, filmes, revistas, e o adultério, que é a traição do juramento matrimonial.

A luxúria provoca também:

- cegueira espiritual: a alma fica desnorteada e a vergonha a leva a fugir de Deus.

- precipitação: nervosismo nas coisas do dia a dia, perda da concentração nos estudos.

- inconstância: um dia bem, outro dia má, a alma balança ao sabor das paixões.

- amor próprio: amor desordenado das coisas do corpo.

- imodéstia e despudor: roupas e as atitudes do corpo indecentes e provocadoras.

6) Gula: é um apetite desordenado pela comida ou pela bebida. Esta desordem pode existir na alma de cinco modos.
- procurando desordenadamente comidas caras e diferentes (tipo)
- comendo em excesso (quantidade)
- demasiada atenção na preparação (qualidade)
- comendo ou bebendo de modo voraz e sem educação (modo)
- se preocupando demais com a hora da comida (precipitação)

Devemos combater o vício da gula por ser algo de muito animal e baixo. Mesmo que o pecado que ele provoca seja, às vezes, pecado venial. Mas a gula pode nos levar a cometer também pecados mortais, quando comemos ou bebemos a ponto de perder o controle de si, de passar mal, etc.

A gula provoca ainda:
- embriaguez
- dissipação e dificuldade de se concentrar
- dificuldade para estudar.
- fuga da vida de oração

7) Preguiça: é a negação do esforço, é o comodismo. Este vício pode ser considerado de dois modos:

a) em geral: é a inclinação a procurar o repouso e o conforto do corpo: chama-se preguiça;

b) em particular: é o tédio pelas coisas espirituais, pela oração e por tudo que nos aproxima de Deus: chama-se tibieza/acídia;

No Antigo Testamento vemos como o povo hebreu sentiu saudades da escravidão do Egito e reclamou contra Moisés e contra Deus por terem fugido. E isso, apesar de todas as demonstrações de amor que Deus dava constantemente a eles: a travessia do Mar Vermelho, o maná, as perdizes, a água tirada da rocha, as curas milagrosas pela serpente de bronze etc. Esta atitude do povo hebreu mostra bem o que é a tibieza, e como nos prejudicamos quando nos afastamos do caminho da oração e do amor de Deus.

Como a tibieza opõe-se à Caridade, ela provoca um pecado mortal, pelo qual ofendemos a Deus, agimos contra o primeiro mandamento e recusamos os meios que Deus pôs a nosso dispor para alcançarmos a salvação.

A tibieza leva a alma aos seguintes pecados:
- desespero da salvação
- pusilanimidade - é a atitude medrosa, fraca, envergonhada, diante das coisas de Deus e da Igreja, tanto no nosso coração quanto nas manifestações exteriores da nossa Fé.
- fraqueza no cumprimento dos Mandamentos
- rancor e raiva contra os que nos chamam a atenção para que voltemos a rezar.
- ódio das coisas espirituais que impedem a alma de se soltar no pecado
- atenção voltada para as coisas ilícitas, interesse por elas, desejo de as praticar.

Este vício é dos mais difíceis de serem extirpados. O peso da alma é grande e a leva a cometer muitos pecados. É preciso fugir dele com todas as forças, pois cada dia ele cresce e se cria novas raízes na alma. Nunca deixar de rezar um pouco, mesmo que isso custe muito para a alma. Procurar com muita freqüência o confessionário e pedir ao padre ajuda para sair da escuridão. Confiar em Nossa Senhora e pedir a ela que devolva as forças da alma.

III. AS SETE VIRTUDES OPOSTAS

Virtude (de “vir” = varão, homem, que significa firmeza) é uma disposição para fazer o bem. Não é algo ocasional, pois até o pior criminoso é capaz de praticar atos bons ocasionalmente, mas sim, algo habitual e firme.

A Igreja ensina que há sete pecados capitais e sete virtudes opostas. Vejamos:

a) em oposição ao vício do orgulho/soberba, temos a virtude da humildade;

b) em oposição ao vício da avareza, temos a virtude da generosidade;

c) em oposição ao vício da inveja, temos a virtude da caridade;

d) em oposição ao vício da ira, temos a virtude da mansidão;

e) em oposição ao vício da luxúria/impureza, temos a virtude da castidade;

f) em oposição ao vício da gula, temos a virtude da temperança;

g) em oposição ao vício da preguiça, temos a virtude da diligência.

Sabendo o que os vícios capitais representam para a alma, procuraremos trabalhar pela prática das virtudes no sentido de diminuir sua ação. Isto porque, como mencionado anteriormente, deles brotam como de uma fonte muitos pecados.

1) Humildade (oposta à soberba): é o reconhecimento de nossa pequenez. É a verdade sobre nós mesmos, sabendo que tudo é Dom de Deus. Devemos recorrer a Nossa Senhora, que foi exemplo de humildade, para pedir essa virtude;

2) Generosidade (oposta à avareza): é o despojamento quanto aos bens materiais, compartilhando-os com aqueles que necessitam. Daí e vos será dado - disse Jesus. Deus ama o que dá com alegria. Deus é generoso com seus filhos, portanto, todo cristão deve ser generoso com seu próximo;

3) Caridade (oposta à inveja): é o olhar bom para o próximo, o amor para o próximo por amor a Deus. Amar nosso irmão sem julgá-lo. Ter paciência, perdoar sempre o irmão e a comunidade. O desafio da caridade é se alegrar com o bem do irmão. Devemos amar nosso irmão com palavras e obras;

4) Mansidão (oposta à ira): é a força revestida de veludo. É a calma, a tranqüilidade e o equilíbrio emocional. A mansidão é necessária para agradar a Deus, para a convivência e para manter a paz. Lembremos do exemplo de Jesus Cristo, manso e humilde de coração, e peçamos a Ele que faça o nosso coração semelhante ao seu. Diz ainda as Sagradas Escrituras: na vossa paciência, possuireis as vossas almas;

5) Castidade (oposta à luxuria): é o respeito de nosso corpo e ao corpo do próximo. É o 6º mandamento da Lei de Deus;

6) Temperança (oposta à gula): “a temperança é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. A pessoa temperante orienta para o bem seus apetites sensíveis, guarda uma santa discrição e "não se deixa levar a seguir as paixões do coração". A temperança é muitas vezes louvada no Antigo Testamento: "Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos" (Eclo 18,30). No Novo Testamento, é chamada de "moderação" ou "sobriedade". Devemos "viver com moderação, justiça e piedade neste mundo" (Tt 2,12).” (Catecismo da Igreja Católica, § 1809)

7) Diligência (oposta à preguiça): a palavra diligência vem de diliger = amar. É não se cansar de fazer as coisas, valorizando-as sempre. Caracteriza-se pela garra, força e amor.

Fonte: Veritatis Splendor

 

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