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A inculturação no Rito de São Pio V


Por David A Conceição

Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus - I Coríntios 9

Atualmente quando falamos em inculturação na Liturgia, o que vem logo em nossas mentes são as profanações feitas em missas-temáticas apenas para exaltar uma diversidade regional de um (uns) determinado (s) grupos. Um erro de entendimento sobre o que é cultura e do que é inculturação. Pois se entende de modo relativo que cultura se resume à costumes, essa mentalidade gera um abono sobre as práticas vis em que o que é mal torna-se bom. Isso vem sendo doutrinado todos os dias pelos meios de comunicações sociais, resultado no indiferentismo popular sobre o erro contextualizado em
cultura. Principalmente sobre a imoralidade, que fez com que cristãos se levantassem para manifestar "Não à cultura da morte!" que pela frase evidencia o constraste do que pode ser denominado de cultura e de práticas e costumes, sendo esses últimos sempre de caráter passageiro.

O primeiro a utilizar da estratégia da inculturação foi Nosso Senhor Jesus Cristo, pois quando o Verbo veio ao mundo, humanamente e divinamente na mesma pessoa, Ele encontrou uma cultura dentro do judaísmo organicamente moldada através dos séculos desde pelo Patriarca Abraão. Uma cultura religiosa e uma cultura civil oriunda pela Lei de Moisés, e todo o seu ministério estava em torno dessa mesma cultura quando Ele ensinava através de parábolas e quando solucionava questões apresentadas pelos Doutores da Lei.

São Paulo, que em tudo O imitou também utilizou desse método para que o Evangelho fosse pregado e aceito além dos limites territoriais da Palestina. Todo conhecimento intelectual, jurídico e cultural foi de grande importância para a conversão dos gentis, pois a realidade dos pagãos era totalmente distinta dos judeus porque o foco maior era convencê-los de que Cristo é o filho de Deus, o Messias esperado. Já em outras religiões era preciso pregar o monoteísmo e que a divindade dele é a única e verdadeira, para isso ele utilizou-se da filosofia grega.

A mesma situação ocorreu no culto. A essência sacrifical da Missa já havia sido instituída por Cristo quando a celebrou de modo incruento na Quinta Feira Santa
Hoc est enim corpus meum;hic est enim calix sanguinis mei e foi fielmente preservado pelos Apóstolos e seus sucessores, os bispos. Mas todos os elementos que hoje se encontram no culto foi trazido e/ou teve base nas cerimônias judaicas tornando-se fixas pelas determinações dos Papas e dos primeiros Concílios mantendo-se as formas íntegras até os dias de hoje.

E assim cresceu a Igreja, indo a todos os povos da Terra anunciando a Boa Nova e fazendo discípulos.

Mas nem todos os povos da terra eram civilizados como na antiga Europa, ao encontrar novos territórios os missionários tinham que trabalhar com povos que nem ler e escrever sabiam, pessoas que ainda viviam de caça e pesca e religião. E para trabalhar a catequese desses nativos era preciso compreender e fazer-se compreender tanto pela língua como pelos hábitos locais. Essa era o modo do anúncio para que esses grupos se envolvessem na atmosfera católica os ensinando sobre civilização e sobre o Deus único verdadeiro.

Isso podemos constatar pelo trecho da carta de Pero Vaz de Caminha sobre a missão dos jesuítas:

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel, e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre frei Henrique,em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.Ali era com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia.

E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção.Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina, e começaram a saltar e dançar um pedaço.

Ealguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que aí tinham -- as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves, atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam não se afastando quase nada da terra, senão enquanto podiam tomar pé.Acabada a pregação, voltou o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo, na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para lho dar; e nós todos, obra de tiro de pedra, atrás dele.

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, a água espraia muito, deixando muita areia e muito cascalho a descoberto. Enquanto aí estávamos, foram alguns buscar marisco e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um tão grande e tão grosso, como em nenhum tempo vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira.E tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se apartou, e eu na companhia.

E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor a mandar descobrir e saber dela mais do que nós agora podíamos saber, por irmos de nossa viagem.Sobre isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque era geral costume dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há ali de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens destes degredados que aqui deixassem, do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ninguém entende.

Nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar.E que, portanto, não cuidassem de aqui tomar ninguém por força nem de fazer escândalo, para de todo mais os amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dois degredados, quando daqui partíssemos.E assim, por melhor a todos parecer, ficou determinado.

Aqui ficou claro que a imposição a força dos costumes morais e religiosos não seriam frutuosos, para não criar assim dizendo, um choque de cultura. Ao modo de que a convivência e a linguagem inculturada seria o passo adequado para que o povoado assimilasse os aspectos sociais civis e o Evangelho.

Alguns missionários utilizam o elemento da cultura no culto para o apostolado, um deles, que se descatou e foi muito conhecido pelas conversões realizada onde atuou, foi
Frei Guido Haazen, OFM que em da década de 50 criou a Missa Luba uma versão da Missa Tridentina baseada em canções tradicionais do Congo. Tendo sido cantada e gravada pela primeira vez em 1958 por "Les Troubadours du Roi Baudouin", um coro de crianças e adolescentes de Kamina.

A primeira gravação, feita em 1958, apresenta o vocalista solo Joachim Ngoi, foi lançada pela Philips em 1963 no Reino Unido e inclui, num dos lados, uma seleção de canções usadas como base para a Missa Luba. O apostolado ganhou tanta repercussão no mundo pelo talento artístico e pelas conversões que o disco da Missa Luba, com as partes fixas da Ordo Missae em latim no Gongo estava praticamente em todos as prateleiras das lojas com grande procura.

Para que essa inculturação evangelística fosse regular, Frei Guido teve a concessão de Pio XII.

Originalmente as músicas não eram escritas. A composição era resultado da cooperação geral, da espontaneidade e da inspiração. Posteriormente, foram publicadas as partituras do arranjo de Frei Guido.

No Credo o texto (a crucificação e morte do Redentor) é precedido da usual anunciação da morte, primeiro no Kyondo e então no Kikumvi (Tom-Tom). A isso, segue-se um genuino "kilio" (elegia - canção de luto) sem acompanhamento na percussão, cantado pela voz solista. A entoação lamuriosa é enfatizada pela repetição e sustentação das sílabas em "o" ("… etiam prono … bis, sub Pontio Pilato…).

Atualmente alguns discos podem sem encontrados em sebos, mas na era virtual também pode-se ouvir as faixas no You Tube que disponilizo abaixo.



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Frei Guido, OFM em missão 1952

O que nos diz São Pio X:

Uma vez que a música própria da Igreja é a música meramente vocal, permite-se também a música com acompanhamento de órgão. Em algum caso particular, com as convenientes cautelas poderão admitir-se outros instrumentos conforme as prescirções do Caeremoniale Episcoporum (.14)

Como a estratégia de inculturação na liturgia estava sendo trabalha por outros missionários, essa questão foi regularizada na Constituição Sacrossanctum Concílium, de tal modo que os critérios para o uso de elementos culturais deveriam primeiro ser analizada e aprovada pela Santa Sé, nada comparado com os erros cometidos atualmente. Toda inculturação deve ter ecos da evangelização e despertar nas profundezas da alma a mística do encontro com o Redentor, e a própria Tradição comprova que com espírito e ardor missionário, essa ação dá certo.

 

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