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O modo de fazer um feitiço é importante?


Por Padre José Antônio Fortea - Suma Daemoniaca pág 66


Não, dá na mesma usar vísceras de animais ou o cabelo da vítima, dá na mesma usar um boneco de cera ou desenhar um pentagrama no chão rodeado de velas. É indiferente a utilização de uns materiais ou de outros, de algumas conjurações ou de outras. O que realmente faz com que tudo dê resultado é a invocação do demônio. A maneira como ele é invocado é irrelevante.

No entanto, para o demônio interessa fazer que seus servidores acreditem que tais rituais e materiais tenham importância, pois assim faz as pessoas pensarem que elas têm a capacidade de dominar essas influências. Pelos ritos, o bruxos acreditam que mantêm o domínio da situação.

O que eu falo sobre os malefícios e feitiços vale também aos exorcismos. São indiferentes ps objetos e ritos com os quais exorcizamos o demônio. O importante é a fé em Deus. Podemos exorcizar o demônio munidos somente com o nome de Cristo e a fé. Ainda existem exorcistas que dão uma grande importância ás maneiras e objetos com os quais se realizam o exorcismo.

Em qualquer caso, ainda que o sacerdote esteja somente armado com o nome de Cristo, a oração fará que o demônio revele ao exorcista a existência de algumas coisas que o atormentam mais que as outras, uma vez que certos símbolos o atormentam de determinado modo, pois os pecados que o levaram à reprovação e agora atormentam sua alma foram específicos.

Durante muitos anos sustentei a postura apresentada na questão 45 (Título do artigo), postura essa que me parecia a mais racional, uma vez que me agarrei a ela unhas e dentes. No entanto, a prática do exorcismo foi desmentido tal colocação de modo tão claro que mudei minha opinião. Considerava que existia algum tipo de relação desconhecida entre determinados objetos e o espírito. Usar ou não algum tipo de material humano (unhas, fio de cabelo ou sangue, por exemplo) da pessoa contra a qual se vai fazer o feitiço não é indiferente. Assim como tampouco é indiferente que esse objeto maléfico (aquele com o qual foi feito o malefício) seja queimado caso seja encontrado.

Ademais, pensava que, se isso era válido para o mal, também o seria para o bem. Quer dizer: eu acreditava, em um exorcismo, o mais importante era a fé, mas que não era a mesma coisa usar um objeto ou outro para exorcizar.

Apresentarei alguns exemplos: em determinado momento em que Deus nos revelara (por meio do possesso) que teríamos de usar cinzas da Quarta-feira de Cinzas junto com o óleo do crisma sobre um possesso, teve fim uma grande possessão, que caso contrário, haveria de se prolongar por vários dias. Em outros casos, fazer sinais-da-cruz sobre determinada parte do corpo possesso pode cortar o mal, inclusive em horas.

A tese de que a única coisa que importa é a fé e de que o objeto ou o modo são indiferentes me parecia uma tese tão bela como despretensiosa e inofensiva. Eu considerava que o fato de o material ter certa relevância neste campo, tanto para fazer malefícios como para exorcizar, não significava que caíriamos na magia, e sim significava simplesmente reconhecer que entre o material e o espiritual existem relações muito mais complexas do que imaginamos, e todas elas regidas não pela irracionalidade, mas por uma racionalidade tal que nos supera.

Mantive essa segunda postura durante três anos. Depois houve novamente um progresso em mim com relação à primeira postura. Hoje em dia eu acredito que o objeto para fazer um malefício e o modo de fazê-lo são completamente indiferentes. São os demônios que nos fazem acreditar que importam. Os demônios têm maior interesse em atacar uma pessoa que os invocam de determinada maneira, sob certos rituais ou usando determinados objetos. Em si mesmo, os rituais são indiferentes, mas o Inferno quer nos convencer do contrário, para criar assim uma espécie de ciência maléfica. O que importa para a eficácia de um malefício são duas coisas: a vontade de quem o realiza e invoca os demônios, e a vontade dos demônios de atacar uma pessoa.

A mesma doutrina é válida para conseguir um milagre ou uma intervenção de Deus. Os objetos de um ritual (um sacrifício no Antigo Testamento, uma liturgia de adoração) são indiferentes, importa apenas a vontade de quem pede e o desejo de Deus. Não existe uma fórmula para fazer um milagre. A vontade de quem invoca, clama e pede, a vontade de quem atua é que realiza o ato.

Então, por que nos exorcismos determinados elementos parecem ter uma eficácia concreta para afligir e afastar demônios? Somente porque são símbolos de realidade espirituais. E o símbolo pode afligir os demônios a ponto de expulsá-los.

 

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