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Mentalidade Prática: O Secularismo


Por Padre Leo Trese


"Um dos obstáculos mais ocultos, e no entanto mais perigosos, para a plenitude da vida cristã é a atmosfera semipagã em que vivemos. Aqui, na América, tratamos a Deus do mesmo modo como tratamos um ex-presidente: com a deferência devida a quem foi uma figura poderosa, mas que na realidade, hoje conta pouco. Escutamos suas palavras com interesse, mas sem esse sentimento que nos move a agir de acordo com tudo que nos diz. Raras vezes se nega Deus abertamente; antes o ignoramos. E ignoramo-lo na vida política, econômica e social da nossa nação. Deus conta tanto como se fosse um outro cidadão qualquer.

Esta atitude para com Deus é o que chamamos espírito de secularismo.

 
A religião é boa, diz o secularismo. É bom ir à igreja aos domingos; é bom rezar. Mas quando a religião se relaciona com a nossa luta diária pela vida, devemos ser práticos. Quando se trata de fazer projetos, quando se trata de levar à prática as decisões, a única coisa que importa é isso: Como tirar o máximo de proveito? O secularismo acharia uma piada a idéia de olhar as coisas do dia a dia do ponto de vista divino. Esse tipo de pensamento fica para os visionários.

Deixemos a religião na igreja; esse é o seu lugar.

Dia após dia vivemos e respiramos nesta atmosfera de utilitarismo. Não é de estranhar, pois, que os nossos espíritos se infectem. Também não é de estranhar que encontremos indivíduos que continuam a considerar-se "católicos praticantes", ainda que o seu catolicismo se tenha reduzido há muito tempo à Missa dominical.

Temos o exemplo da mulher que recebe com freqüência a Sagrada Comunhão. " É claro - confidencia a uma amiga - que eu não me confesso de usar a pílula. Acho que isso é um problema meu e não da Igreja". A pobre mulher não chega a perceber que a sua fé está mais do que morta, e que as suas práticas religiosas estão reduzidas a uma casca de ovo vazia. Porque, se não acaba de compreender que a Igreja fala em nome de Deus ao interpretar a sua Lei, demonstra que não crê realmente na Igreja. E é absolutamente ilógica quando afirma que crê na Confissão e na Sagrada Comunhão, já que é a própria Igreja, em nome de Cristo, quem garante a realidade desses sacramentos. O secularismo - "deixem a religião no seu lugar" - já fez mais uma vítima.

São inúmeros os exemplos que se podem dar desta contaminação secularista, desta espécie de pensamento torcido. Temos os pais católicos que se esquecem dos ensinamentos da Igreja sobre as relações pré-matrimoniais: "Não vejo nisso nada mau. Os jovens de hoje são diferentes dos da nossa época. Aliás, todos os colegas da escola se portam assim". Vemos católicos que se dedicam aos negócios, ou à política, ou às mais diversas profissões, e que encolhem os ombros diante de umas "fraudezinhas": "Eu sei que a Igreja diz isso é errado, mas é preciso enfrentar os fatos se quero sobreviver. Todos fazem o mesmo, e se eu não o fizer, vou acabar dando-me mal".

E os católicos jovens que dizem: "A Igreja é muito reacionária, não entendo que uma ‘amizade colorida’ seja assim tão perigosa”. Temos também o caso do católico segregacionista que comenta :”É ótimo falar de justiça social, mas o Papa não convive com essa gente como eu”. Ouçamos a sogra católica: “Sim, eu sei que não está certo que um divorciado se case de novo, afinal de contas as crianças precisam de uma mãe". Também não falta o católico auto-suficiente que sentencia: "Embora este filme tenha sido desaconselhado, não me fará mal nenhum; tenho idade suficiente para julgar por mim mesmo”.

Nenhum dos que assim se manifestam teria valentia suficiente para dizer simples e diretamente: "Gosto de fazer as coisas quando me são fáceis, mas não quando supõem sacrifício". A todos esses, fá-los-iam baixar os olhos de vergonha os mártires de épocas passadas, e particularmente os mártires de hoje do outro lado da cortina de ferro. Nenhum deles se atreveria a confessar: "O que me acontece, simplesmente, é que não concordo com Deus".

Sempre tratarão de estabelecer uma distinção imaginária entre Cristo e a sua Igreja, e cegar-se-ão eles próprios na sua própria inconsistência. Se a Igreja não é o arauto de Cristo, para que crer em alguma coisa? Cristo não nos permitirá interpor obstáculos entre Ele e a sua Esposa. Não podemos passar pelo lado de fora da Igreja, confiando em encontrar Cristo do outro lado. É evidente que os exemplos que expusemos são as conseqüências extremas a que nos pode levar o poluído ar secularista que nos envolve. Talvez não tenhamos ido tão longe, mas não há dúvida de que necessitamos vez por outra de tomar a nossa temperatura espiritual e diagnosticar o grau de infecção.

Verdadeiramente, seremos bem-aventurados se tivermos aprendido a pensar com Cristo e com a sua Igreja, se nos tivermos treinado em viver por princípios, tanto nas coisas pequenas como nas de maior envergadura.

Isto significará que vivemos na presença de Deus em cada momento da nossa existência, e não somente aos domingos na igreja. Quererá significar que o ingrediente básico de todas as nossas decisões é "aquilo que Deus desejaria que eu fizesse". Quererá significar que Cristo e o seu Corpo Místico são indivisíveis e que é a Sua voz que fala através da Igreja. Com a graça de Deus, podemos viver num mundo secularizado sem que a infecção nos atinja. Mas isso é uma graça que temos de pedir".

Fonte: Não Vos Preocupeis – TRESE, Leo – Editora Quadrante - São Paulo 1991 - 3@ Edição - Tradução: Emérico da Gama .

 

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