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Sobre o vídeo da palestra do Monsenhor Clá


Surgiu um BUM sobre um áudio com a voz do Monsenhor João Clá em uma palestra cujas palavras sobre a pessoa do Dr Plínio de Oliveira soaria como -idolatria-. Perante esse episódio um irmão em Cristo Frederico Viotti escreveu uma boa reflexão. Continuamos a amar e admirar o Monsenhor Clá e todo o trabalho apostólico dos Arautos do Evangelho, que faz muito mais pela Igreja do que esses Zé Povinho que só ficam coçando o saco na frente do computador.

"Em primeiro lugar, eu não vi o tal vídeo ou áudio (apenas comecei e parei), mas soube que ele correu por muitos países, distribuído pela agência bolivariana de imprensa em função de um estrondo publicitário contra os Arautos que começou em uma pequena cidade da Amazônia equatoriana. Aparentemente, alguém teve a idéia de colocar um dos padres arautos como responsável pela tal administração (que está sem bispo).

Houve uma revolta no clero local, já que é uma região de guerrilha e os padres são da TL. Não tenho maiores notícias dessa história, pois não tenho contato com os Arautos. Também vi que os da Montfort distribuíram esse vídeo aqui no Brasil, mas não sei de onde ele surgiu, quem postou, quando foi produzido etc. De maneira que vou responder baseado no que imagino que seja essa reunião que ele está dando. Aparentemente, estamos diante de uma reunião que o atual Pe. João Clá Dias deve ter feito a seus subordinados entre os anos de 1994 e 1997 em algum auditório ou sede da TFP.

Imagino essa data pelo que está transcrito no texto (que espero seja fiel ao áudio) onde ele reclama que seriam lançadas pedras contra ele se a reunião fosse gravada. Ele não diria isso se estivesse no auditório dos Arautos, onde ninguém teria coragem de dizer nada contra ele. Ele está se referindo, portanto, a pedras que seriam lançadas por outras pessoas da TFP que teriam acesso a essas fitas.

Como não tive paciência de ouvir o áudio inteiro, tenho que responder baseado no que escreveu um irmão. Tenha presente que, no que vejo, o Pe. João é muito parecido com o Fedeli, cada um a seu modo e com a tendência de utilizar certos artifícios para empolgar a platéia que os ouve. O Dr. Plinio, com mais de uma pessoa, reclamou que o "João" estava querendo transformá-lo em um Totem.

E, para fazer isso, não foi necessário ele alterar a doutrina que dizia defender (tenha presente que ele conseguiu criar uma mentalidade igualitária mesmo defendendo uma doutrina contra a igualdade). Ele captou a benevolência de muitos elogiando o Dr. Plinio para, depois, afastá-los dele. Essa é, ao menos, a minha opinião. Antes de entrar na transcrição, devo dizer que esse texto, sem certos pressupostos, acaba causando um choque em quem lê.

Tentarei separar a doutrina das expressões mais emocionais do expositor.

Outro aspecto que é preciso ter presente é o fato de que estamos no século XXI e fomos formados na mentalidade dessa época, tão ferozmente contrária a certas práticas comuns na Igreja séculos atrás. Vamos ao texto, como está transcrito. É preciso que a gente tenha uma devoção a ele crescente, um ardor a ele cada vez maior, que a gente o queira com toda força da nossa alma.

"Que a gente não pense em outra coisa durante o dia senão ele, que passe o dia ávido, o dia ansioso, o dia desejoso de ter um encontro ainda que místico, interior, com ele, uma conversa, um contato com ele, e a gente, portanto, vá se unindo cada vez mais a ele, a ponto de não temos mais a nossa mentalidade, o nosso espírito, a nossa inteligencia, a nossa vontade, a nossa sensibilidade funcionando, a não ser assim: Eu já não vivo, é o sr. Dr. Plínio que vive em mim"

"Eu não faço nada no campo sobrenatural se não estiver unido a ele"."Dada à nossa circunstância muito especial [...] nós temos, isto tudo que está aqui na teoria, portanto, o contato com Deus Padre, com Deus Filho, com Deus Espírito Santo, com Nossa Senhora [...] através de Plínio Corrêa de Oliveira".

Com o gravador parado, não vem pedra (i.e. pensava não estar sendo gravado) [...]. Eu sou da opinião de que a Nossa união com Deus [...] esta se faz quando uma pessoa recebe e corresponde inteiramente à graça da sagrada escravidão (a Dr. Plínio)". Primeiramente, cabe lembrar que essas questões foram tratadas ainda na época do Fedeli, sendo que o livro "Servituto ex Caritatis" (que tratou dessas questões) exaustivamente trazia exemplos a esse respeito de vários santos.

Esse livro, após ficar pronto, foi submetido a um grande teólogo da época, Pe. Vitorino Rodriguez O.P, que examinou e aprovou o conteúdo do livro, assim como forneceu outros exemplos para provar a tese defendida. Em segundo lugar, essa reunião deve ter sido dada a um público que, ao menos em tese, tinha certos pressupostos que não são mencionados na reunião.

Esses pressupostos envolvem a vocação da TFP - que aquele público já conhecia - bem como a doutrina sobre o que é um Fundador, tanto do ponto de vista doutrinário e místico como jurídico. Em terceiro lugar, a transcrição de um texto como esse faz com que o leitor tenha sua atenção focada para uma visão parcial da vida de uma família de almas, como se o assunto tratado não estivesse dentro de um conjunto de outros assuntos que fornecem o seu devido contorno e dimensão.

Pelo que entendo, o problema de fundo dessa reunião do João Clá (sem que eu considere correta essa maneira dele expor) reside na questão de saber o que a Igreja ensina sobre a participação do discípulo na vocação de seu pai espiritual. Eu poderia transcrever exemplos de santos, mas vou tentar ser breve e tratar diretamente da doutrina sobre essa espécie de "inabitação mística" do Fundador no discípulo (alguns a chamam de "personalidade incorporante").

Há uma enorme quantidade de textos doutrinários sobre isso. Eles começam mostrando que o Fundador de uma família de almas é o pai espiritual dessa família, mediador, modelo de virtude, explicitação do carisma, canal das graças de Deus, imagem de Deus etc. Não é por acaso que S. Francisco Xavier chamava Santo Inácio de "meu Deus na Terra".

Para tratar desse assunto, é preciso lembrar algo que o mundo moderno já esqueceu, isto é, a virtude da obediência e seu sentido mais profundo dentro da doutrina católica. Diz Cornélio A. Lapide, comentando a passagem: "E [Jesus] desceu com eles [seus pais] e veio para Nazaré, e lhes era submisso", aproxima tal submissão da obediência religiosa. E dá as razões de tal sujeição: "A razão a priori, a primeira é que quem obedece ao superior, obedece a Deus, pois o superior é o vigário de Deus, segundo aquela palavra de Cristo: 'Quem vos ouve a Mim ouve e quem vos despreza a mim despreza' (Lc. X).

De onde S. Bernardo, em 'De Praecepto et Dispens' diz: 'Devemos ouvir aqueles que temos em lugar de Deus' (...) Portanto, quando o superior ordena algo, o obediente julgue que Deus lho ordena e obedeça alegremente, como a Deus" (C. A Lapide, Comentaria in Scriputuram Sacram, Ed. Vivès, Paris, 1876). S. Bento, patriarca dos monges do Ocidente, diz em sua Regra no Cap. V: "O primeiro grau da humildade é a obediência sem demora. É peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro que Cristo, seja por causa do santo serviço que professam, seja por causa do medo do Inferno, ou por causa da glória da vida eterna. Desconhecem o que seja demorar na execução de alguma coisa, logo que ordenada pelo superior como se por Deus ordenada fosse". (...) "A obediência prestada aos superiores é tributada a Deus" (S. Bento, Regra de S. Bento, Tip. Beneditina Ltda, Salvador, 1958, p. 29-30).

Continuando nessa mesma linha de raciocínio, transcrevo trecho de um livro dedicado a expor a doutrina de S. Marcelino Champagnat. Depois de expor claramente, com muitos exemplos, como a vontade do Superior representa a Cristo, o livro passa a considerar a mútua doação entre superior e inferior e conclui:

"Essas doações constituem a verdadeira união, podendo dizer-se então que o superior e o inferior não são mais do que um só e se poderia acrescentar, sem temor de equivocar-se, que então o inferior participa das luzes, da experiência, da sabedoria de seu superior e recebe abundantes graças de direção, de proteção, em uma palavra, as graças de estado". (Edelvives, El Superior Perfecto, según la doctrina del venerable siervo de dios J.B. Marcelino Champagnat, Editorial Luis Vives, Zaragoza, p. 29).

Aprofundando um pouco a radicalidade do propósito ou do voto de obediência, seja público ou privado, ensina S. Nilo: "Quando se encontram tais mestres (homens experientes, prudentes e pacíficos), eles pedem discípulos que renunciem a si mesmos e a suas vontades próprias, e sejam, sobretudo semelhantes a um cadáver, a fim de que, tal como a alma faz no corpo o que quer, sem resistência da parte deste, assim também o mestre possa pôr em ação sua ciência espiritual em seus discípulos maleáveis e obedientes" (S. Nilo, de Monast. Exercit., c. XLI, in P. Sejourné, Dic. Théol. Cath. XV, col. 3260).

Para S. Bento e Santo Inácio, o superior ocupa o lugar de Cristo (Jean-François Gilmont, Paternité et Médiation du Fondateur d'Ordre, in Revue d'Ascétique et de Mystique, Toulouse, 1964, pp. 407 e 408). É claro que tudo isso choca ao homem moderno, tão avesso a essa sujeição de um homem a outro homem. Não pretendo aqui tratar das diferenças entre a escravidão religiosa e a escravidão pagã, bem como sobre todos os contornos dos votos públicos religiosos (ou privados, feito por leigos) pois seus contornos são mais facilmente conhecidos pelo bom-senso.

A começar que a "escravidão" (no sentido católico de obediência levada à radicalidade) é voluntária e feita por amor à Deus, como explica bem Santo Tomás (II-UU, q. 186 a. 1, apud G. Kindt). Estando clara essa introdução, onde se pode perceber um pouco a diferença entre a mentalidade moderna igualitária e a mentalidade católica, ao menos sobre esse aspecto da obediência, precisamos tratar ainda sobre o que é um Fundador. É corrente que o Fundador é a doutrina viva de sua fundação e exemplo de vida (J.F. Gilmot, op. Cit. p. 412-416).

Fabio Ciardi, que redigiu um minucioso trabalho estudante o tema dos Fundadores, escreve: "os discípulos podem (...) ver a seu fundador como 'modelo' a imitar, o 'espelho' no qual se refletem, o 'protótipo' a quem conformar-se. (...) O Fundador, além disso, comunica a própria experiência espiritual mediante a palavra e o ensinamento... de modo que os discípulos saibam como Deus quis atuar na Igreja mediante o fundador (...) A relação entre o fundador e seus seguidores, comparada à de Jesus e de seus discípulos, apresenta elementos semelhantes.

Também o fundador, ao comunicar a inspiração recebida, difunde novamente o Evangelho e a ele remete, oferece-o como como uma leitura nova, que toma em consideração o crescimento da Igreja, e as exigência do mundo. (...) Comunica ainda o próprio 'espírito', quase como um 'código genético', isto é, a própria experiência espiritual. (...) Nesse sentido, o fundador se torna, como Cristo, o modelo para os discípulos.

Ao lado de expressões como 'espelho', 'princípio', 'exemplo', de molde a insistir na exemplaridade do fundador, uma das designações mais freqüentes e antigas legadas pela tradição e´ a de 'forma', O fundador aparece então como uma 'matriz' na qual se deve 'imprimir' cada discípulo para que reproduzam os contornos dele, 'protótipo' de uma série de filhos que se lhe assemelhem. O discípulo é chamado a 'reviver' seu fundador, a conformar-se com ele. (...) Sede meus imitadores, podem dizer os fundadores com S. Paulo, assim como o sou de Cristo (Cfr. 1Cor. IV, 16; II,1; Ga. IV,12; 1Tess. 1.6). (Fabio Ciardi, I Fundatori Uomini dello Spirito, Ed. Cittá Nuova, 1982, pp. 378-379).

Voltando ao texto de G.F. Gilmont, diz ele: "O fundador (...) reproduz Cristo de maneira adaptada a seus filhos. Há nesse termo 'forma' um sentido de perfeição ideal que se converte em concreta e viva por seu sentido pessoal que, ademais, é enriquecido pela alusão ao caráter de enviado divino. Querida por Deus, esta 'fôrma' não pode ser desprezada sob o pretexto de se ir diretamente a Cristo". Em um estudo que recebeu boa acolhida em vários meios, a julgar pelo número de vezes com que é citado, mas que não se pretende um tratado, o Pe. Franciscano Juberías CMF levanta hipóteses dignas de ponderação sobre a missão do Fundador.

Previamente, o Pe. Juberías apresenta tentativas bíblicas de explicação da paternidade do fundador, e que se resumem na aplicação analógica do conceito da exegese moderna de 'personalidade incorporante' (indivíduos que reúnam em si todas as características da coletividade e por meio dos quais esta é capaz de atuar, de modo que o escritor sagrado utiliza o mesmo nome ou expressão para referir-se ao indivíduo ou à coletividade: Israel=Jacó e povo hebreu; 'servo sofredor'=Messias e povo eleito, e outros); e também da 'geração espiritual', pela força criadora da palavra de Deus transmitida pelo profeta ou pelo apóstolo.

Depois, o autor entra em conjecturas mais profundas sobre a paternidade como causa eficiente e moral, e nos dá a seguinte reflexão: "Não se poderia pensar numa influência de caráter íntimo, direto, constante, que fosse o desdobramento ou prolongamento de sua própria vida sobrenatural e dos dons da graça com os quais Deus o enriqueceu? É o que, em termos de escola, se poderia chamar 'causalidade de tipo formal', ainda que subordinada, é óbvio, à causalidade divina e à causalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto cabeça da Igreja.

(...) Os dois esboços de explicação bíblica a que antes nos referimos, seja o da 'personalidade incorporante', seja o da 'geração pela palavra de Deus', parecem indicar esse sentido, isto é, o da presença e influência diretas, dinâmicas, constantes. São João da Cruz em 'Chama de vivo amor' diz palavras que merecem ser recordadas aqui, pois vêm muito bem a propósito.

Assim diz: 'Poucas almas alcançam tanto assim, mas algumas alcançam, sobretudo as almas daqueles cuja virtude e espírito deveriam difundir-se pela sucessão de seus filhos. Deus concede riqueza e valor às mentes chamadas a dar as primícias de um epírito, de acordo com a maior ou menor descendência que devem ter em doutrina e em espírito (2, 12) (Pe. Francisco Juberías DMF, La Paternidad de los Fundadores, in Vida Religiosa, Vol. 32, ene-dic, 1972, pp. 322-323).

O Pe. Juberías passa a propor, então, sua explicação da paternidade do fundador, baseando-se nos pressupostos bíblicos já assinalados, e nas palavras citadas de S. João da Cruz. Toma como ponto de partida o trecho de S. Paulo sobre o Corpo cuja cabeça é Cristo, e da qual vivem todos seus membros (Ef. IV, 15-16; Cor. II, 19).

E aplica analogicamente ao fundador o conceito de 'Capitalidade' (caput, itis) em relação a sua família espiritual: "Atendendo a estas considerações, não nos parece nenhum despropósito teológico pensar que os Fundadores exercem em suas famílias religiosas esta espécie de 'capitalidade secundária', ou seja, subordinada à de Cristo.

A eles Cristo comunica uma relativa plenitude da graça e de carismas, em ordem ao enriquecimento de seus filhos ao longo dos séculos. Exercem essa influência enquanto vivem sobre a terra e continuam, sobretudo, quando reinam junto a Cristo na glória, porque 'Deus não é Deus de mortos, mas de vivos' (Mt. XXII, 32). (...) A influência dos Fundadores sobre seus respectivos Institutos e sobre seus filhos, seria um desses casos, e dos mais destacados.

Isto tem muito a ver, em sua raiz, com os carismas da realeza e do profetismo de Cristo, comunicados a seus membros". (F. Juberías CMF, Op. Cit., pp. 322 e 323). Entremos agora em uma questão paralela, que é saber como se daria a união perfeita de espíritos entre discípulos e fundador, sem recorrer aqui ao vínculo jurídico da obediência, porém na união que o discípulo deve ter com o espírito do superior.

Lê-se em um livro que expõe a doutrina de S. Marcelino Champagnat, fundador dos irmãos Maristas: "Para que o religioso não se veja privado do alimento da graça, deve estar intimamente unido com o superior, ao qual deve considerar como canal da mesma". (...) Por sua vez, o súdito une-se ao superior de forma que não constituem ambos mais do que um só ser, franqueando-lhe sua consciência por freqüentes comunicações e mútuas relações, pela doação completa de si mesmo, de modo que o superior possa dispor do súdito como lhe aprouver e por sua vez o religioso está nas mãos de seu superior como se fosse um bastão.

O superior cobre com sua autoridade o súdito, lhe dá sua atenção, sua ciência, sua experiência, seus bons exemplos, seu afeto e sua solicitude paternal. Por sua vez, o súdito confia ao superior suas necessidades, seus problemas de todo gênero, seu respeito, sua docilidade, sua caridade e sua total abnegação. Essas doações constituem a verdadeira união, podendo dizer-se então que o superior e o inferior não fazem mais do que um só.

E se poderia acrescentar, sem temor de equívoco, que então o súdito participa das luzes, da experiência, da sabedoria de seu superior, e recebe abundantes graças de direção, de proteção; em uma palavras, as graças de estado. (Edelvives, El superior perfecto, op. Cit. pp. 28 e 29).

Alguém poderia ainda querer perguntar se esses princípios se aplicam a fundadores não canônicos ou de entidades não erigidas canonicamente.

Essa dúvida não procede, visto que os princípios expostos não são especificamente destinados a fundadores de ordens religiosas ou a entidades erigidas canonicamente. A esse respeito, é conveniente lembrar o caso do Pe. Foucauld e, de modo geral, qual a atitude da Igreja em face de instituições nascentes. O exemplo do Pe. Foucauld é cogente, visto que ele nem mesmo deixou uma comunidade organizada antes de morrer.

Diz novamente J.F.Gilmont a respeito do Pe. Foucauld: "Para discernir o verdadeiro espírito do fundador, uma dupla análise é necessária. Em razão da situação especial do Pe. De Foucauld como fundador, o exemplo dos 'Petits Frères de Jésus', é particularmente esclarecedor. Sabe-se que o Irmão Charles de Jesus não é, no sentido canônico, um 'fundador', porque ele não deixou, quando de sua morte, qualquer comunidade por ele organizada."

Para se conhecer o conceito católico de Fundador, é elucidativo tal exemplo, pois, segundo o conceituado parecer do Pe. Servo Goyenéche CMF, perito da Sagrada Congregação dos Religiosos, parecer este que foi redigido a pedido da Sagrada Congregação dos Ritos, eram necessárias duas condições para alguém ser considerado fundador dessa nova família religiosa:

A) o fato pelo qual se constitui uma determinada sociedade ou religião, com um escopo específico.

B) as normas que regem a dita sociedade ou religião.

O primeiro elemento é absolutamente necessário, e de si suficiente para que uma pessoa possa dizer-se fundador; o outro, comuníssimo, nem sempre se verificou". (SACRAM RITUUM CONGREGATIO, Lucionem - Canonizationis B. Ludovici Grignion de Montfort - Nova Inquisitio, 1947, p. XV).

Ora, no caso do Pe. Charles de Foucauld **nenhum** dos dois requisitos se verificou. Não obstante, os 'Petits Frères de Jésus' o consideram como seu fundador. E isso em função das características das relações entre discípulos e fundador. Salienta-se que o Pe. Charles de Foucauld não foi beatificado ou canonizado.

Por fim, resta a questão da Escravidão ao Dr. Plinio que, dita assim, acaba chocando quem não conhece seus contornos ou como era a vida interna na TFP. O que é essa escravidão? É a escravidão a Nossa Senhora (suprema liberdade) feita nas mãos de um "Diretor Espiritual", que, no caso em concreto, era o Fundador da TFP (o Dr. Plinio).

Essa intermediação além de ser voluntária, é um ato de humildade de quem a pratica. Há inúmeros exemplos dessa entrega voluntária nas mãos de outro homem na história da Igreja. Cito apenas o exemplo de S. Pedro Damião, dizendo a seu superior: "Olho-vos como a meu pai, como a meu dono, doutor e anjo tutelar, e tenho mais Fé em vossas luzes do que nas luzes de todos os doutores e anjos do Céu". (Edelvives, El Superior Perfecto, p. 25).

Ao contrário do que faz o João Clá nesse vídeo, o Dr. Plinio havia proibido que fosse feita "propaganda" dessa prática. Ela tinha que ser pedida voluntariamente por quem a desejasse, sem conhecimento de que outros também a tinham pedido. Era uma explicitação pessoal que, cada um podia ou não fazer, segundo desejasse.

Infelizmente, por infidelidade de muitos, o Dr. Plinio não aceitou mais ninguém nessa qualidade de "escravo" desde muito tempo antes de falecer (provavelmente, desde a década de 70). Em qualquer caso, transcrevo trechos do parecer do teólogo Pe. Arturo Alonso Lobo O.P (ilustre canonista e professor de teologia, publicou inúmeras obras, entre as quais se destaca os "comentários ao Código de Direito Canônico com texto latino e castelhano", sobre a Sagrada Escravidão (Sempre Viva):

"(...) Como expõe a consulta, aquele que deve ser o superior ou diretor é na realidade uma garantia da consagração que os membros fazem a Nosso Senhor Jesus Cristo por meio de Maria, e um promotor da fidelidade a Ela no que diz respeito às obrigações." (Vide 'Servituto ex Caritate). O parecer é muito maior, várias páginas. Basta dizer que o Pe. Arturo Lobo analisa todos os contornos dessa prática e a aprova.

Como disse, não ouvi o áudio e estou apenas respondendo ao texto transcrito, que entendo mostrar desejo de união mística com o Fundador (na medida em que esse Fundador é como Cristo, fim último desse desejo de união perfeito). É no mesmo sentido que um franciscano diria que é S. Francisco que vive nele e é através de S. Francisco que ele recebe as graças da fundação da qual participa. Essa é a união que existe ou deveria existir em relação aos fundadores.

Um franciscano é um outro S. Francisco, assim como um jesuíta é chamado a ser outro Santo Inácio. Isso porque são esses fundadores que os fazem conhecer a Cristo na vida espiritual para a qual foram chamados.

Preciso lamentar como se perdeu essa noção entre os católicos, bem como a importância dessa sujeição de nossa vontade a vontade de Deus (normalmente, através de seus superiores que, por sua vez, são também 'escravos' de Deus). Essa é uma escada de admiração, tão diferente da massificação igualitária do século em que vivemos e tão contrária ao espírito moderno que, até mesmo sem perceber, tem aversão à virtude capaz de corrigir o pecado de nossa época.

Há duas maneiras de mostrar o ideal de obediência. Uma mostra suas belezas, enquanto a outra transforma tudo em ridículo. A primeira é feita por Nosso Senhor e pelos seus santos. A segunda, por tipos como Voltaire, que procuravam extrair, da virtude da obediência, o seu valor religioso e metafísico, deixando tudo como ridículo. Precisamos tomar cuidado para não nos seduzirmos por aqueles que fazem como Voltaire.

Esses se aproveitam da mentalidade moderna para tentar expor ao ridículo aqueles que estão dispostos a abrir mão de suas próprias vontades por amor de Deus. "

Um cordial abraço. In Jesu et Maria

Frederico

 

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