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Anticlericalismo

Anticlericalismo não é, necessariamente, perseguição ao clero, e sim um movimento que perseguia a Igreja. É o liberalismo do século XIX aplicado ao âmbito religioso, que confiscava igrejas, assassinava padres, obrigava freiras à exclaustração (em nome da liberdade!!!!), queria regular quantas Missas poderiam ser celebradas na semana, impediu a manifestação pública do catolicismo.

A separação entre a Igreja e o Estado, entendida segundo a filosofia liberal, NÃO é boa nem necessária.

Existem quatro erros ligados à relação entre a Igreja e o Estado:

a) a confusão entre Igreja e Estado;
b) a supremacia direta da Igreja sobre o Estado;
c) a supremacia (direta e indireta) do Estado sobre a Igreja;
d) a separação entre Igreja e Estado.

A Igreja defende, ao contrário desses quatro, a união, que é reconhecer a cada âmbito suas próprias características. Assim, segundo a doutrina católica, ao Estado cabe a legítima autoridade na esfera civil, e à Igreja a legítima autoridade na esfera religiosa. Nos assuntos mistos, deve haver mútua colaboração e, surgindo um conflito, prevalece a autoridade da Igreja, pois é indiretamente superior (como a alma prevalece sobre o corpo em situações de confronto). Também na esfera civil, embora ao Estado pertença a autoridade, não pode este deixar de observar a moral e a lei natural, pelo que sua desobediência nesse aspecto pode gerar um "lembrete" da Igreja.

Isso a doutrina.

Na prática, por vivermos em uma sociedade pós-cristã, a separação é TOLERADA pela Igreja, nunca aceita como correta. E tolerada somente na medida em que não se converte em laicismo nem em, em nome da separação, se invoca a supremacia do Estado sobre a Igreja.

Concluindo: em tese, a Igreja não aceita a separação (exceto se, por separação, entendermos o contrário de confusão), embora não aceite, com a união, uma mistura das autoridades e dos âmbitos nem uma negação da legítima autonomia de cada esfera; na prática, também não aceita, mas tolera em circunstâncias extraordinárias.

Os liberais, anticlericais, distorceram tudo e, em nome de sua ideologia, não só propuseram a radical separação entre a Igreja e o Estado como, na prática, submeteram a Igreja aos seus caprichos estatais. E isso invocando a liberdade... México, França e Espanha que o digam!

São Josemaría Escrivá abordou o clericalismo e o anticlericalismo em algumas de suas palestras e tertúlias. Um ponto em que ele disserta um pouco sobre isso está no livro Questões Atuais do Cristianismo, em seu ponto 47. Vai abaixo a íntegra:

"Tive oportunidade, Monsenhor, de ouvir as respostas às perguntas que lhe fazia um público de mais de 2000 pessoas, reunidas há ano e meio, em Pamplona. Nessa altura insistia na necessidade de que os católicos se comportem como cidadãos livres e responsáveis e “de que não vivam de ser católicos”. Que importância e que projecção dá a esta ideia?

Sempre me incomodou a atitude daqueles que fazem de chamar-se católicos uma profissão ou daqueles que querem negar o princípio da liberdade responsável, sobre o qual assenta toda a moral cristã.

O espírito da Obra e dos seus sócios é servir a Igreja e todas as criaturas sem se servir da Igreja. Gosto de que o católico traga Cristo, não no nome, mas na conduta, dando real testemunho de vida cristã. Repugna-me o clericalismo e compreendo que, ao lado de um anticlericalismo mau, exista um anticlericalismo bom, que procede do amor ao sacerdócio, que se opõe a que o simples fiel ou o sacerdote se sirvam de uma missão sagrada para fins terrenos. Mas não pense que com isto me declaro contra quem quer que seja. Não existe na nossa Obra nenhuma preocupação exclusivista, mas somente o desejo de colaborar com todos os que trabalham para Cristo e com todos os que, cristãos ou não, fazem da sua vida uma esplêndida realidade de serviço."

De resto, o que importa não é tanto a projecção que tenho dado a estas ideias, especialmente desde 1928, mas a que lhe dá o Magistério da Igreja. Há pouco tempo, o Concílio - com uma emoção, para este pobre sacerdote, que é difícil de explicar - lembrava a todos os cristãos, na Constituição Dogmática Lumen gentium, que devem sentir-se plenamente cidadãos da cidade terrena, participando em todas as actividades humanas com competência profissional e com amor a todos os homens, procurando a perfeição cristã, à qual são chamados pelo simples facto de terem recebido o baptismo."

No ponto em questão, São Josemaria, como é de seu salutar costume, dá novo sentido às palavras. Quando cita um "anticlericalismo" bom, está a dizer que não se deve clericalizar os leigos, não se deve dar um ar sacerdotal às estruturas temporais.

Por outro lado, como o mesmo santo sempre ensinou, aliás, em consonância com a doutrina da Igreja (do contrário, não seria santo), essas estruturas temporais, sem deixarem de ser temporais, sem perder seu aspecto laical, sua natureza civil, sem misturar Igreja e Estado, devem ser temperadas com o Evangelho. Cristo deve reinar nelas também.

E é contra esse reinado social de Cristo que se levantaram os anticlericais (ou, na linguagem de Escrivá, os maus anticlericais). Na sacristia, a Igreja poderia atuar (e, ainda assim, com liberdade bem restrita), mas não na sociedade. Nem os leigos, muito menos os padres.

Pouco tempo atrás, a imprensa mexicana, de tradição liberal fortemente anticlerical, escandalizou-se pelo Presidente Vicente Fox estar em uma Missa... Não estão contentes com a Igreja separada radicalmente do Estado em uma nação católica como o México: querem proibir mesmo um chefe de Estado de ser católico. Não basta a separação: é preciso a exclusão. Não apenas a Igreja não deve se meter, mas um presidente, se quer ser assim, não pode ir à Missa.

Mesmo México onde o Papa foi multado por andar de batina em sua primeira visita. Mesmo México onde os legionários e outros padres precisam de autorização especial de Roma para andar de terno e gravata, e não de batina, quando lecionam EM SUAS PRÓPRIAS UNIVERSIDADES!!!

Para complemento, A Conjuração Anti-Cristã, de Mons. Henri Delassus, 1910.

Uma obra excelente, inclusive elogiada pelo Papa São Pio X.

A conjuração anticristã ( TOMO I )

A conjuração anticristã ( TOMO II )

A conjuração anticristã ( TOMO III )

 

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