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Sobre o Concílio Vaticano II

Por Carlos Ramalhete

O caso para mim é relativamente simples: primeiro, o Concílio Vaticano II foi convocado num momento delicado. Não há como saber se sem ele teria sido pior ou não, e qualquer coisa nesse sentido é especulação; ele foi convocado, os textos foram publicados, e pronto. Temos que conviver com isso.

Depois disso, ele foi usado como gatilho para implantar uma revolução que já estava em preparação e *que ele não mandou fazer*. Isso tem duas consequências:

A primeira é que não foi feita a exegese necessária em textos assim complicados, devido à velocidade do ataque. Pode-se dizer que ele continua na embalagem de fábrica.

A segunda é que se tornou necessário politicamente falar bem do Concílio, até como forma de tentar diminuir o alastramento da revolução que foi feita em nome de um seu falso "espírito". Louvar o Concílio, para hierarcas conservadores, é uma maneira de dizer "isto não te pertence" aos tresloucados que fingem basear-se nele para propor o erro.

Este "isto não te pertence" serve para que seja possível salvar o CVII do mal uso que dele foi feito, mas isto ainda resta por fazer. Hoje não há como saber o que é o verdadeiro CVII, como logo depois de Nicéia I não havia como afirmar uma cristologia ortodoxa baseando-se nos textos conciliares.

A diferença entre Nicéia I e o CVII é que lá foi fogo de madeira de lei: lento e profundo. Foram séculos de crise ferocíssima. Já no CVII foi fogo de palha: uma deflagração quase instantânea, mas sem bases, sujando tudo de cinza e fuligem.

O fogo de palha ainda não acabou de arder, mas o pior já passou. Resta acabar de debelar o incêndio, limpar tudo e aí se poderá dizer, sem razões políticas e sem que o CVII esteja servindo de corda de cabo-de-guerra ( que poderiam ser resumidas em "o CVII é da Igreja, não da TL"), o que ele realmente é e o que ele realmente ensina.

Mas ainda que isso não fosse dito, é-me difícil imaginar que um Concílio convocado pelo Papa João XXIII, levado a cabo por Paulo VI, e defendido e posto em prática por João Paulo II e Bento XVI, possa ser considerado uma idéia ruim (ou resultado de uma idéia ruim). Ao contrário, creio que foi mesmo algo que surgiu do coração de Deus, obra do Espírito Santo, fruto do amor de Deus pelos seres humanos e pelo mundo.

Eu sei que Deus escreve certo por linhas tortas, e é capaz de o mesmo evento que serviu como gatilho de uma revolução demoníaca (porque "Maria, a mulher trabalhadora que organizava os operários em sindicatos" - sim, eu ouvi isso de um padre - é coisa do Capeta; é necessário perceber que não se trata de algo meramente humano) trazer tesouros ocultos pela confusão pós-conciliar.

Mas *no momento*, enquanto o fogo de palha ainda não apagou completamente, enquanto não é feita a limpeza e não se contam os mortos e feridos, eu vejo o CVII como simplesmente algo com que temos que conviver, sabendo que foi e é usado como desculpa para todo tipo de abuso.

Quando ouço alguém começar falando bem do CVII, sei que no mais das vezes o que vem não presta. Mas só qdo tivermos acesso real a ele, com interpretações magisteriais definitivas, etc., poderemos comemorar. É a minha opinião, note bem. Quer falar bem do CVII e ao mesmo tempo pregar o que a Igreja sempre disse, ótimo. Mas é perigoso usar quase tudo do CVII como premissa, porque ainda não dá para separar o erro e a confusão da ortodoxia usando-se-o como pedra de toque.

E o mesmo vale para quase toda prática pastoral. O exemplo da tradução da CNBB, que D. Estêvão tentou justificar e JPII mandou corrigir, mas o mesmo pode ocorrer com quase tudo, do padre enfiado atrás do altar falando em vernáculo (um atentado à universalidade da Igreja, feito no momento histórico em que passou a ser mais comum do que nunca estar no estrangeiro) à relutância em chamar hereges de hereges, para voltar ao tema inicial. O próximo Papa, ou o Papa depois desse, pode perfeitamente lançar uma encíclica dizendo em termos bem mais crus que os usados na Dominus Iesus que hereges ("h-e-r-e-g-e-s") vão pro Inferno de cabeça pra baixo. "De supliciis infernalibus hereticorum" seria um nome legal.

Ademais, não podemos deixar de considerar a hipótese de que, se não houvesse existido o Concílio, talvez a crise fosse ainda maior.

Certamente, mas aí já é ficção científica.

Como imaginar, por exemplo, a Igreja, na contemporaneidade, reiterando antigos anátemas (quiçá proferindo novos), contra muçulmanos, judeus, cristãos não-católicos?

Ela seria mais respeitada (ou menos desrespeitada...), ao invés de ser percebida como conivente com o neo-paganismo, como é hoje feito por estes grupos.

E será que as igrejas estariam mais cheias se as missas ainda fossem celebradas (parcial ou inteiramente) em latim, ou estariam mais vazias?

Provavelmente mais cheias. Pouquíssimas igrejas novas foram construídas nos últimos 40 anos, e a população duplicou. De uma esmagadora maioria de católicos praticantes na população, temos hoje uma minoria ínfima.

Por outro lado, será que não podemos atribuir à renovação trazida pelo Vaticano II, com a flexibilização da liturgia e uma maior abertura ao diálogo, a vitalidade com que os movimentos, sobretudo o carismático, atraem multidões às igrejas, especialmente os jovens?

A meu ver, estes movimentos são uma resposta ainda incipiente e desordenada aos horrores imanentistas perpetrados com o CVII como desculpa. Há algumas coisas muito boas, note bem; temos o pessoal da Morada do Senhor, que é uma comunidade gaúcha extremamente pós-conciliar no bom sentido, que consegue reunir o antigo e o novo em um imenso amor a Deus.

Mas a maior parte, como a RCC, é composta de filhos que não foram alimentados em casa devido ao imanentismo do clero e voltam da rua roendo algo que acharam no lixo.

Entendo que o sentido da existência da Igreja, enquanto continuação da obra de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra, é salvar as almas, atraindo mais e mais pessoas a si. Não a qualquer preço, é claro. E é tendo sempre isso em mente que devemos avaliar o Vaticano II. Isso me faz lembrar da parábola do filho pródigo: os tradicionalistas radicais se parecem com o outro filho, inconformado com a festa feita pelo pai por ocasião do retorno do filho que se havia perdido. O imenso amor do pai pareceu absurdo e inaceitável aos olhos do outro filho: "Ora, o filho pródigo está chegando agora, e toda a casa deve se mobilizar para recebê-lo?! E eu, que nunca me desviei, que sempre fui fiel, como fico?" Mas o amor do Pai é um só, não há preferência.

O que há é a sensibilidade e a sabedoria do Pai em relação àquele que se perdeu. Cabe a nós confiar no Pai e saber que Ele sempre sabe o que faz.

E, como leigos, trabalhar para que as loucuras cometidas em nome do Concílio passem logo. Temos que ajudar a apagar o fogo, para que a Igreja possa ser limpa da fuligem e das cinzas e se possa descobrir o CVII verdadeiro.

 

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