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120 anos da Imigração Ucraniana no Brasil


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Por Victor Fernandes


Comemoramos este ano o 120º aniversário da imigração ucraniana no Brasil. Nosso país, herdeiro que é da vertente latina da civilização ocidental, encontrou nessa diáspora a oportunidade de somar a esse portentoso legado o valoroso espólio trazido pelo povo da Ucrânia, nação cuja cultura reporta ao venerável mundo greco-bizantino.

Temos a particular satisfação de saudar a memória dos ucranianos que aqui se estabeleceram menos por aspectos pitorescos e lúdicos de sua cultura, como o preparo da iguaria do perohê ou a confecção de refinados pessânkas, e mais por caracteres perenes do zeitgeist ucraniano, entre os quais convém citar a infatigável resistência à adversidade e à dominação (evidenciada por séculos de luta contra as gélidas estepes e o invasor russo) e o cultivo de uma espiritualidade que mesmo sendo universalista porque católica (romana ou ortodoxa), não se furta a coerente e harmoniosamente preservar o que sempre foi próprio à Ucrânia.

O Brasil, tão alheio a suas origens (porque inculto), e tão negligente quanto a seu futuro, particularmente com aquele para além da história (porque espiritualmente relaxado), poderia muito se beneficiar caso conhecesse mais do salutar e precioso legado ucraniano. O CONS/PR espera que as comemorações em torno da imigração ucraniana despertem nos brasileiros uma espécie de desejo de emulação, pautado na reverência as milenares tradições filosófico-religiosas que impeliram seus fundadores, e também no vivo interesse pelas questões universais do homem.





Talvez muitos nem imaginem, mas no rico contexto das imigrações para o Brasil houve um povo que, se não foi tão numericamente expressivo quanto outros no contexto nacional, foi (e é) decisivo no específico contexto do Paraná. Trata-se do povo ucraniano, que aqui tem se estabelecido pelo menos desde 1876, com levas maiores de imigrantes a partir de 1895-1896.

Sempre às voltas com o imperialismo russo (czarista, soviético e agora eurasianista), a Ucrânia pagou um preço elevado por sua obstinada recusa a Moscou. Para aniquilar o altivo espírito nacional ucraniano, que tantos reveses deu às pretensões do Kremlin de converter o país em uma dócil província tomada de campos de trigo, Stalin procedeu a uma política de transferir sistematicamente populações russas à Ucrânia. Insuficiente que foi tal estratagema, o Politburo acabou se decidindo pelo extermínio da rebelde e insubmissa população mediante a imposição da fome, no massacre que ficou célebre nos anais dos genocídios sob o nome de Holodomor.

Helena Kolody, poetisa de origem ucraniana

Clarice Lispector, filha de judeus ucranianos


Apesar dessa conturbada história (ou exatamente por causa dela), os ucranianos desenvolveram um salutar apego as suas tradições, particularmente àquelas existentes em suas peculiares igrejas, em muito distintas do cristianismo praticado cá no Ocidente. Pode-se até certo ponto generalizar essas pecualiaridades às igrejas ucranianas porque, mesmo essencialmente dividindo-se em ortodoxas e católicas, são semelhantes quanto à liturgia, por elas chamada de Divina Liturgia de São João Crisóstomo.

Embora francamente minoritários na Ucrânia como um todo, os imigrantes que de lá vieram para o Brasil (de maneira geral originários da província de Haletsena) foram em sua acachapante maioria católicos. Assim, embora tenham trazido"inovações" na culinária, na arquitetura e na maneira de celebrar a Missa, não trouxeram uma ruptura com o catolicismo até então existente aqui. Pelo contrário: o apego que nutrem pela tradição tem sido uma importante retaguarda na luta dos católicos latinos para fazer frente ao relaxo e aos modismos que proliferam na Igreja brasileira atualmente.

D. Volodomer Koubetch, bispo eparca dos ucraíno-católicos


Por exemplo, não é segredo para ninguém o decidido apoio que deram aos padres de Campos-RJ, integristas exaltados, quando estes caíram em desgraça junto à hierarquia eclesiástica do País. Portanto, numa Igreja convulsionada por agitadores marxistas que vestem batina e sacerdotes bailarinos, e que por isso mesmo não é capaz de oferecer grande resistência à ação deletéria das minorias militantes, precisamos seguir contando com os ucraíno-católicos para que nos ajudem a reestabelecer as antigas dignidade e força de uma instituição que nós, católicos, cremos ser indispensável não "só" para a salvação, como também para a edificação e manutenção de uma ordem social estável e mais ou menos previsível para todos, crentes ou não-crentes. E isso é do interesse dos conservadores, católicos ou não.

 

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