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Dissecando a teoria conspitarória de Pe Kramer

Para quem não sabe, Pe Kramer é o autor de um Romance Policial que tenta a todo custo ressussitar mistérios até então escondidos sobre o Segredo de Fátima, toda a sua argumentação é em torno do subjetivismo e conspirações. Faz-se um esforço para fazer uma ligação com a crise atual com as revelações de Nossa Senhora em 1917. Esse é um dos trechos que ele diz que um dos avisos marianos seria sobre o Novus Ordo, vejamos:

A irmã Lúcia de Fátima disse que se aconteceria uma desorientação diabólica na Igreja. E não há nada que poderia ter feito mais, para realizar isso, do que a reforma litúrgica, que exaltou como sagrados, princípios estranhos dentro de uma liturgia aparentemente Católica.

De fato, há algo mais importante que a questão da desorientação diabólica. Estou me referindo à parte do Terceiro Segredo de Fátima que não foi revelada ainda. Eu sei que isto é um fato, porque pessoalmente conversei com um teólogo alemão, Reitor de seminário, e que é um amigo de longa data do Papa Bento. Quando Bento XVI era ainda Cardeal Ratzinger, por volta de 1990 ele revelou, para esse seu amigo, que no Terceiro Segredo de Fátima, Nossa Senhora previne para não se mudar a liturgia: literalmente, para não misturar elementos estranhos
dentro da liturgia Católica. “Nossa Senhora também alertou que haveria um Concílio diabólico na Igreja que causaria um grande escândalo. E claro, foram os documentos do Vaticano II – A Constituição da Liturgia – que deu impulso ao Papa Paulo VI para reformar a liturgia de uma tal maneira desastrosa, que causou uma tal perda da fé e confusão na Igreja.”

Por incrível que pareça existem leitores deste blog e até amigos meus que ADORAM, mas ADORAM essas teorias porque elas se encaixam fácil como resposta da crise que está findando no Pontificado Glorioso de Bento XVI. Vejamos então as contradições e incoerências que existem nos trechos analizados citado:

A irmã Lúcia de Fátima disse que se aconteceria uma desorientação diabólica na Igreja.

Foi Lúcia, tão somente ela, e nenhum de nós, que teve as visões com Nossa Senhora, na infância, na juventude e por toda a vida, e a quem foi confiada, pela Mãe Santissima, o encargo de pedir ao Santo Padre a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Atendendo ao que Nossa Senhora pediu, Lúcia assim o fez, reiteradas vezes, tendo sido atendida por nada mais, nada menos, do que três Santos Padres, Vigários de Cristo aqui na Terra.

Se existiu alguém com autoridade para pedir algo sobre a Consagração da Rússia, esse alguém foi Lúcia, e esse alguém assim o fez, sempre de modo absolutamente dócil e submisso à autoridade dos Santos Padres, instituída pelo próprio Cristo. É um tanto quanto desalentador ver Bispos que não foram visitados por Maria, quererem saber mais do que Lúcia soube, e querendo exigir, impôr, aquilo que os Papas têm de fazer. É desalentador ver ataques contra três Santos Padres, julgando como inválidos, incompletos, "mancos", aquilo que os três fizeram.

Mais desalentador ainda é ver leigos e alguns clérigos como Pe Kramer indo no mesmo barco, se julgando no direito de saber mais do que ninguém o que Nossa Senhora queria; tendo certeza absoluta de que os Santo Padres, que receberam cartas pessoais da vidente de Fátima, não atenderam seu pedido e, por consequência, o pedido de Maria, na íntegra; e os leigos, sim, saberem muito bem o que Maria pediu, e ainda se acharem capazes de dizer o que três, TRÊS Papas deveriam ter feito.

É deprimente e desalentador.

E não há nada que poderia ter feito mais, para realizar isso, do que a reforma litúrgica, que exaltou como sagrados, princípios estranhos dentro de uma liturgia aparentemente Católica.

A Igreja tem poder de criar e modificar os seus ritos. Assim, sobre “
o poder da Igreja sobre a administração do sacramento da Eucaristia”, o Concílio de Trento declara expressamente que “a Igreja sempre teve o poder de, na administração dos sacramentos, salva a substância deles, determinar e mudar aquelas coisas que julgar conveniente à utilidade dos que os recebem ou à veneração dos mesmos sacramentos, segundo a variedade das coisas, tempos e lugares” Concílio de Trento, sessão XXI, cap. 2 (Denz-Sho 1728)

De fato, há algo mais importante que a questão da desorientação diabólica. Estou me referindo à parte do Terceiro Segredo de Fátima que não fo
i revelada ainda.

A terceira parte do Segredo de Fátima, são na verdade duas imagens vistas pelos pastorinhos, na primeira Vê-se um anjo com uma espada de fogo apontada para terra, que parecia que ia incendiar todo planeta, mas das mãos de Maria saia um brilho que impedia este fogo de se aproximar de nós. E o anjo gritava, "penitência, penitência, penitência"
Em uma segunda imagem, eles viram um religioso vestido de branco, o qual julga-se ser o Santo Padre, e vários outros religiosos e religiosas, eles atravessam uma grande cidade toda em ruína, com passos trêmulos de pena e de dor o "Homem de Branco" ia rezando pelos mortos que via no caminho. Depois começa subir um monte encimado por uma cruz, chegando ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz é atingido e cai morto, e depois dEle foram morrendo muitos outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, e várias pessoas seculares de muitas classes e posiões.Sob os braços da Cruz dois anjos recolhiam em um regador de cristal, o sangue dos mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.

O comentário Teológico do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé está dividido em três partes: Revelação pública e revelações particulares, seu lugar teológico; A estrutura antropológica das revelações privadas; Uma tentativa de interpretação do Segredo de Fátima.

1) "O termo 'revelação pública' designa a ação reveladora de Deus destinada a toda a humanidade, que encontrou sua expressão literária nas duas partes da Bíblia: o Antigo e o Novo Testamento. Chama-se 'revelação' porque nela Deus deu-se a conhecer progressivamente aos homens, até o ponto de tornar-se ele mesmo homem, para atrair para si e para reunir em si todo o mundo por meio de seu Filho encarnado, Jesus Cristo.
Em Cristo Deus disse tudo, quer dizer, manifestou-se a si mesmo e, portanto, a revelação concluiu com a realização do mistério de Cristo que encontrou sua expressão no Novo Testamento".

2) A "revelação particular" , ao contrário, "refere-se a todas as visões e revelações que tem lugar uma vez terminado o Novo Testamento; é esta categoria dentro da qual devemos colocar a mensagem de Fátima. A autoridade das revelações particulares - prossegue o Cardeal Ratzinger - é essencialmente diversa da única revelação pública: esta exige nossa fé". A revelação particular, ao contrário, "é uma ajuda para a fé, e se manifesta como crível precisamente porque remeta à única revelação pública". Citando o teólogo flamenco E. Dhanis, o prefeito para a Fé afirma que "a aprovação eclesiástica de uma revelação particular contém três elementos: mensagem em questão não contém nada que vá contra a fé e os bons costumes; é lícito torná-lo público e os fiéis estão autorizados a dar-lhe em forma prudente a sua adesão". "Uma mensagem assim pode ser uma ajuda válida para compreender e viver melhor o Evangelho no momento presente; por isto não se deve descartar. É uma ajuda que é oferecida, mas que não é obrigatório fazer uso da mesma".

O
Cardeal Ratzinger sublinha também que "a profecia no sentido da Bíblia não quer dizer predizer o futuro, mas explicar a vontade de Deus para o presente o qual mostra o reto caminho para o futuro". A parte mais importante do Comentário Teológico está dedicado a "uma tentativa de interpretação do Segredo de Fátima". Do mesmo modo que a palavra chave da primeira e da Segunda parte do "segredo" é a de "salvar almas", a "palavra chave deste 'segredo'' é o tríplice grito: 'Penitência! Penitência! Penitência!'. Vem a mente o começo do Evangelho: "paenitemini et credite evangelio" (Mc 1,15).

Compreender os sinais dos tempos significa compreender a urgência da penitência, da conversão e da fé. Esta é a resposta adequada ao momento histórico, que caracterizava por grandes perigos e que serão descritos nas imagens sucessivas. Me permito inserir aqui uma lembrança pessoal: em uma conversa comigo, Irmã Lúcia me disse que lhe era cada vez mais claro que o objetivo de todas as aparições era o de fazer crescer sempre mais na fé, na esperança e na caridade. Todo o resto era somente para conduzir a isto".


3) Depois, o
prefeito da Congregação para a Fé passa a vista às "imagens" do Segredo. " O anjo com a espada de fogo à direita da Mãe de Deus lembra imagens análogas às do Apocalipse. Representa a ameaça do juízo que incumbe sobre o mundo. A perspectiva de que o mundo poderia ser reduzido a cinzas em um mar de chamas, hoje não é considerada absolutamente pura e fantasia: o próprio homem preparou com suas invenções a espada de fogo". "A visão mostra depois a força que se opõe ao poder de destruição: o esplendor da Mãe de Deus, e proveniente sempre dele, a chamada à penitência.

Deste modo é sublinhado a importância da liberdade do homem: o futuro não está determinado de um modo imutável, e a imagem que as crianças viram não é um filme antecipado do futuro, do qual nada poderia mudar. Em realidade, toda visão tem lugar somente para chamar a atenção sobre a liberdade e para dirigi-la em uma direção positiva. (...) Seu sentido é o de mobilizar as forças da mudança para o bem. Por isso estão totalmente fora de lugar as explicações fatalísticas do "Segredo" que dizem que o atentador do 13 de maio de 1981 teria sido definitivamente um instrumento da Providência. (...) A visão fala mais dos perigos e do caminho para salvar-se dos mesmos".


Passando às seguintes imagens, "o lugar da ação - explica o
Cardeal Ratzinger - aparece descrito em três símbolos: uma montanha escarpada, uma grande cidade em meio a ruínas, e finalmente uma grande cruz de troncos rústicos. Montanha e cidade simbolizam o lugar da história humana: a história como custosa subida para o alto, a história como lugar da humana criatividade e da convivência, mas que ao mesmo tempo como lugar das destruições, nas quais o homem destrói a obra de seu próprio trabalho (...) Sobre a montanha está cruz, meta e ponto e orientação da história. Na cruz a destruição se transforma em salvação; levanta-se como sinal da miséria da história e como promessa para a mesma". "Aparecem depois aqui pessoas humanas: o Bispo vestido de branco ('tivemos o pressentimento de que fosse o Santo Padre'), outros Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e, finalmente, homens e mulheres de todas as classes e estratos sociais.

O Papa parece que precede aos outros, tremendo e sofrendo por todos os horrores que o redeiam. Não somente as casas da cidade estão em meio a ruínas, mas que seu caminho passa no meio dos corpos dos mortos. O caminho da Igreja se descreve assim como uma via crucis, como caminho em um tempo de violência, de destruições e de perseguições.
Nesta imagem, não se pode ver representada a história de todo um século. Do mesmo modo em que os lugares da terra estão sinteticamente representados nas duas imagens da montanha e da cidade, e estão orientados para a cruz, também os tempos são representados de forma compacta". "Na visão podemos reconhecer o século passado como século dos mártires, como século dos sofrimentos e das perseguições contra a Igreja, como o século das guerras mundiais e de muitas guerras locais que encheram toda a sua Segunda metade e fizeram experimentar novas formas de crueldade. No 'espelho' desta visão vemos passas os testemunhas de fé de decênios".

O prefeito da Congregação da Doutrina da Fé afirma também que na via crucis deste século "a figura do Papa tem um papel especial. Em sua fadigosa subida à montanha podemos encontrar indicados com segurança juntos diversos Papas, que começando por Pio X até o Papa atual compartilharam os sofrimentos deste século e se esforçaram para avançar entre eles pelo caminho que leva à cruz. Na visão também o Papa é morto no caminho dos mártires. Não poderia o Santo Padre, quando depois do atentado de 13 de maio de 1981 fez-se levar o texto da terceira parte do 'Segredo', reconhecer nele seu próprio destino? Teria estado muito próximo das portas da morte e ele mesmo explicou ter sido salvo com as seguintes palavras: 'foi uma mão materna a que guiou a trajetória da bala e o Papa agonizante deteve-se no umbral da morte' (13 de maio de 1994). Que 'uma mão materna' tenha desviado a bala mortal mostra mais uma vez que não existe um destino imutável, que a fé e a oração são poderosas, que podem influenciar na história e, que ao final, a oração é mais forte que as balas, a fé mais potente que as divisões".

A conclusão do Segredo, prossegue o
Cardeal Ratzinger, "lembra imagens que Lúcia pode ter visto em livros piedosos, e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé. É uma visão consoladora, que quer tornar maleável pelo poder salvador de Deus uma história de sangue e lágrimas. Os anjos recolhem sob os braços da cruz o sangue dos mártires e regam com ela as almas que se aproximam de Deus. O sangue de Cristo e o sangue dos mártires estão aqui considerados juntamente: o sangue dos mártires flui dos braços da cruz. Seu martírio se realiza de maneira solidária com a paixão de Cristo e se converte em uma só coisa com ele". "A visão da terceira parte do Segredo tão angustiosa em seu início, conclui com uma imagem de esperança: nenhum sofrimento é vão e, precisamente uma Igreja sofredora, uma Igreja de mártires, converte-se em sinal orientador para a busca de Deus por parte do homem (...) do sofrimento dos testemunhas deriva uma força de purificação e de renovação, porque é atualização do próprio sofrimento de Cristo e transmite no presente sua eficácia salvífica".

O que significa em seu conjunto (em suas três partes), o "Segredo" de Fátima?, foi perguntado por último ao Cardeal Ratzinger. "Antes de tudo devemos afirmar como o cardeal Sodano: 'os acontecimentos aos que se refere a terceira parte do Segredo' de Fátima parecem pertencer já ao passado'.
Na medida em que se refere a acontecimentos concretos já pertencem ao passado. Quem tinha esperado impressionantes revelações apocalípticas sobre o fim do mundo ou sobre o curso futuro da história ficará desiludido. Fátima não nos oferece este tipo de satisfação de nossa curiosidade, o mesmo que a fé cristã não quer e não pode ser um mero alimento para nossa curiosidade. O que fica de válido já vimos de imediato ao início de nossas reflexões sobre o texto do Segredo': a exortação à oração como caminho para a 'salvação das almas' e, no mesmo sentido, a chamada à penitência e à conversão".

"Gostaria ao final de voltar ainda sobre outra palavra chave do Segredo, que com razão fez-se famosa: "meu Coração Imaculado triunfará", o que quer dizer isto? Que o coração aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que os fuzis e que qualquer outro tipo de arma. O fiat de Maria, a palavra de seu coração, mudou a história do mundo porque ela introduziu no mundo o Salvador, porque graças a este 'sim' Deus pode se tornar homem em nosso mundo e assim permanece agora e para sempre. O maligno tem poder neste mundo, o vemos e o experimentamos continuamente; ele tem poder porque nossa liberdade se deixa afastar continuamente de Deus".
"Mas desde que o próprio Deus tem coração humano e desse modo dirigiu a liberdade do homem para o bem, para Deus, a liberdade para o mal já não tem a última palavra. Desde aquele momento cobram todo seu valor as palavras de Jesus: "padecereis tribulações no mundo, mas tende ânimo, eu venci ao mundo" (Jo, 16,33). A mensagem de Fátima nos convida a confiar nesta promessa".

Deveríamos preocupar-nos menos com o lado profético, no sentido de previsão de acontecimentos, e mais com o lado "mensagem" das aparições de Fátima. Quais os 3 grandes "segredos" que Nossa Senhora nos trouxe? O mundo vai passar [está passando] por uma grande prova. Para enfrentá-la: - rezem o terço todos os dias [de preferência, intercalando a jaculatória: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente os que mais precisarem"] - façam penitência pelos pecadores - "tenham confiança, o meu Imaculado Coração triunfará"

Isso não tem nada de "bombástico".

Mas é a essência das aparições de Fátima.
Ainda há também na essência dos apelos das mensagens, uma presença Eucarística poderosíssima. Antes de Nossa Senhora vir em pessoa, Deus enviou aos pastorinhos o anjo da paz, que lhes deu a santa comunhão e ensinou uma belíssima oração Eucarística, de um caráter teológico muito profundo.

Mais 0rações, mais penitências, menos conspirações.

Eu sei que isto é um fato, porque pessoalmente conversei com um teólogo alemão, Reitor de seminário, e que é um amigo de longa data do Papa Bento. Quando Bento XVI era ainda Cardeal Ratzinger, por volta de 1990 ele revelou, para esse seu amigo, que no Terceiro Segredo de Fátima, Nossa Senhora previne para não se mudar a liturgia: literalmente, para não misturar elementos estranhos dentro da liturgia Católica.

Quantas premissas subjetivas! O reverendíssimo Pe Kramer me quer tornar um tradicionalista lefebvrista com um pseudo-argumento vago e duvidoso de que alguém nesse mundão de meu Deus lhe "revelou" isso? Ora, faça-me o favor! Me poupe! E ainda há católicos inteligentes que se tomam esse fato como provas cabais. Nada mais patético e ridículo.
Sem contar que para esse povo, as teorias gozam de infabilidade e valor dogmático. Roma que está errada por querer ocultar a "verdadeira" terceira parte do Segredo de Fátima.



Segundos os teóricos da conspiração de Fátima, é aí que está guardado a 3ª parte.

Um ativista sede-vacante de Anápolis me disse pelo msn que um dos seus Gurus, Araí Danielle [ativista sede-vacante português] tem em seu poder uma carta escrita pela irmã Lucia confirmando por exemplo, que a Rússia não foi consagrada. Poderoso esse Araí hein? A contradição dessa falácia se encontra no ano em que a "fofoca" aconteceu, em 1990. Vejamos o que o mesmo Cardeal Ratzinger disse ao Monsenhor Lefebvre em 30 de julho de 1983: " Excelência,

O Santo Padre cuidadosamente meditou diante de Deus sobre sua carta de 5 de abril, à luz de sua responsabilidade de Pastor Supremo da Igreja. Em seguida, ele me encarregou de responder em seu nome. É desse dever que eu me desincumbo na presente carta.

I. - Não seria nenhuma surpresa para o sr. saber que o Soberano Pontífice ficou
decepcionado e entristecido com a brusca recusa que o sr. opõe à sua generosa oferta de lhe abrir o caminho da reconciliação.

Com efeito, o sr. acusa de novo os Livros Litúrgicos da Igreja, com uma severidade que surpreende depois das conversas que nós tivemos.
Como pode o sr. qualificar os textos do novo missal de ‘missa ecumênica’? O sr. sabe bem que este missal contém o venerável Cânon Romano; que as outras Orações Eucarísticas falam de uma maneira muito clara do Sacrifício; que a maior parte dos textos provém das tradições litúrgicas antigas.

Para citar apenas um exemplo, o sr. sabe que depois da oblação do pão e do vinho, este novo missal nos faz dizer como o precedente : “
sic fiat sacrificium nostrum in conspectu tuo hodie… Orate, fratres, ut meum ac vestrum sacrificium…”.

O sr. sabe igualmente que para a interpretação do missal,
o essencial não é o que dizem os autores privados, mas somente os documentos oficiais da Santa Sé. As afirmações do Pe. Bouyer e de Mons. Bugnini, aos quais o sr. faz alusão, não são senão opiniões privadas.

Ao invés, eu chamo a sua atenção para a definição autêntica da intenção e do significado do missal proposta no Proemium da Institutio Generalis, especialmente no artigo 2, assim como para as razões e as idéias determinantes da reforma, expostas nos artigos 6 a 9. Segundo esses textos oficiais,
jamais se quis uma redução dos elementos católicos da Missa, mas ao contrário uma presença mais rica da tradição dos Padres.

Nisso,
segue-se fielmente a norma de São Pio V, segundo as possibilidades de um conhecimento adquirido das tradições litúrgicas.

Com o consentimento do Santo Padre, eu posso lhe dizer ainda uma vez que toda crítica dos livros litúrgicos não está a priori excluída, que mesmo a expressão do desejo de uma nova revisão é possível, da maneira como o movimento litúrgico anterior ao concílio pôde desejar e preparar a reforma. Mas isso na condição de que a crítica não impeça e nem destrua a obediência, e que
não ponha em discussão a legitimidade da liturgia da Igreja.

Eu lhe peço, pois, com insistência e em nome do Santo Padre, examinar de novo suas afirmações, com toda a humildade diante do Senhor e levando em conta sua responsabilidade de Bispo, e de rever aquelas que são irreconciliáveis com
a obediência devida ao Sucessor de São Pedro.

Não é admissível que o sr. fale de «
uma missa equívoca, ambígua, na qual a doutrina católica foi obscurecida », nem que o sr. declare sua intenção de « afastar os padres e fiéis do uso desse novo Ordo Missae ».

O sr. traria uma
verdadeira contribuição à pureza da fé na Igreja se o sr. se limitasse a lembrar aos padres e aos fiéis que se deve renunciar ao que é arbitrário, que é preciso se ater com cuidado aos livros litúrgicos da Igreja, que é preciso interpretar e realizar a liturgia segundo a tradição da fé católica e de acordo com a intenção dos Papas. De fato, no presente, o sr. infelizmente encoraja apenas a desobediência.

II. - Depois das conversas que se desenrolaram entre nós, eu pessoalmente pensei que não havia mais obstáculos a respeito do ponto I, quer dizer, a aceitação do segundo Concílio do Vaticano, interpretado à luz da Tradição católica e levando em conta as próprias declarações do Concílio sobre
os graus de obrigação dos textos.

Também o Santo Padre ficou surpreso de que mesmo a sua aceitação do Concílio interpretado segundo a Tradição continua
ambígua, pois que o sr. logo afirma que a Tradição não é compatível com a Declaração sobre a Liberdade Religiosa.

Aqui, como a propósito das questões litúrgicas, é preciso notar que – em função dos diversos graus de autoridade dos textos conciliares – a crítica de algumas de suas expressões, feitas segundo as regras gerais de adesão ao Magistério, não está excluída.

O sr. pode também exprimir o desejo de uma declaração ou de um desenvolvimento explicativo sobre tal ou tal ponto.

Mas o
sr. não pode afirmar a incompatibilidade dos textos conciliares – que são textos magisteriais – com o Magistério e a Tradição. É-lhe possível dizer que, pessoalmente, o sr. não vê essa compatibilidade, e portanto pedir explicações à Sé Apostólica.

Mas se, ao contrário, o sr. afirma a impossibilidade de tais explicações, o sr. se opõe profundamente à estrutura fundamental da fé católica e a obediência e humildade da fé eclesiástica que o sr. diz possuir no fim da sua carta, quando o sr. evoca a fé que lhe foi ensinada na sua infância e na Cidade Eterna.

Sobre esse ponto, vale enfim uma observação já feita precedentemente a propósito da liturgia: os autores privados, mesmo se eles foram peritos no concílio (como o Pe. Congar e o Pe. Murray, que o sr. cita),
não são autoridade encarregada da interpretação.

Só é autêntica e autoritativa a interpretação dada pelo Magistério, que é assim o intérprete de seus próprios atos : pois os textos conciliares não são os escritos de tal ou tal perito ou de quem quer que seja que tenha podido contribuir para sua origem, eles são documentos do Magistério. "

Já basta para convencer que o teólogo alemão Reitor do Seminário estava equivocado na sua revelação bombástica. A contradição não está em Roma nem no Cardeal Ratzinger, mas nos teóricos da conspiração que a cada momento inventam dados novos. Por acaso vocês sabiam que existiu, segundo os teóricos da conspiração, uma clone da irmã Lúcia?

Nossa Senhora também alertou que haveria um Concílio diabólico na Igreja que causaria um grande escândalo. E claro, foram os documentos do Vaticano II – A Constituição da Liturgia – que deu impulso ao Papa Paulo VI para reformar a liturgia de uma tal maneira desastrosa, que causou uma tal perda da fé e confusão na Igreja

O Concílio Vaticano II aconteceu num período conturbado de grande crise na Igreja e sua realização serviu de ocasião e pretexto para grandes erros, propagados em seu nome, gerando a confusão entre o que era realmente do Concílio e o que era difundido em seu nome, o que levou muitas pessoas a uma análise negativa a seu respeito.

Assim lamentava o Papa Paulo VI: “Acreditávamos que o Concílio traria dias ensolarados para a História da Igreja. Ao contrário, são dias repletos de nuvens, de tempestades, de nevoeiros, de procura, de incerteza” (Alocução de 29 de junho de 1972).

O então Cardeal Ratzinger, hoje nosso Papa, em entrevista ao Osservatore Romano, disse: “Os resultados do Vaticano II parecem cruelmente opostos às expectativas de todos, começando com as do Papa João XXIII e depois do Papa Paulo VI... É fora de discussão que este período foi definitivamente desfavorável para a Igreja”.

E o atual Papa também comentou: “O Cardeal Julius Döpfner dizia que a Igreja pós-conciliar é uma grande obra de construção. Mas um espírito crítico acrescentou que é uma obra de construção onde se perdeu o projeto e cada um continua a fabricar de acordo com o seu próprio gosto. O resultado é evidente”.

Mas ele acrescenta, com a mesma clareza: “nas suas expressões oficiais, nos seus documentos autênticos, o Vaticano II não pode ser considerado responsável por essa evolução, que, pelo contrário, contradiz radicalmente tanto a letra como o espírito dos Padres conciliares”.

Este aspecto negativo foi causado sobretudo pelo famigerado e pernicioso “espírito do Concílio”, que o então Cardeal Ratzinger chamava de “antiespírito”.

E esse “espírito do Concílio” impressionou tanto que até hoje, quando se quer explicar algo sobre o Concílio, alguns pensam que se está falando dele assim interpretado na linha modernista, e como se se estivesse aprovando todos os erros dali conseqüentes.

Devemos salvar a indefectibilidade da Igreja e o seu Magistério, fazendo as devidas distinções, e esclarecer aos nossos católicos para que não errem de alvo: ao atacar os erros podem estar atingindo ao mesmo tempo a própria Igreja e o seu Magistério.

Não se pode esquecer que o Concílio Vaticano II foi um verdadeiro Concílio da Igreja Católica, legitimamente convocado e presidido pelo Papa Beato João XXIII e continuado pelo Papa Paulo VI, com a participação de bispos de todo o mundo.

O fato de o Concílio Vaticano II ter sido pastoral não tira a sua autoridade de magistério, como bem explicou o Papa Paulo VI: “Dado o caráter pastoral do Concílio, ele evitou pronunciar de uma maneira extraordinária dogmas que comportassem a nota da infalibilidade, mas ele dotou seus ensinamentos da autoridade do magistério ordinário supremo; esse magistério ordinário e manifestamente autêntico deve ser acolhido dócil e sinceramente por todos os fiéis, segundo o espírito do concílio concernente à natureza e os fins de cada documento” .

O Concílio deve ser entendido e interpretado na hermenêutica da continuidade e não da ruptura com o passado, conforme bem explicou o Papa Bento XVI. E é o que entendia o Papa João Paulo II quando falava da "doutrina integral do Concílio", quer dizer, "doutrina compreendida à luz da Santa Tradição e referida ao Magistério constante da própria Igreja".

A expressão muito usada nos meios tradicionalistas de “interpretar o Concílio segundo a Tradição ou usando o critério da Tradição” não é muito precisa e pode ser mal utilizada. Devemos substitui-la pela expressão usada pelo Papa João Paulo II, acima citado: aceitar a doutrina do Concílio “compreendida à luz da Santa Tradição e referida ao Magistério constante da própria Igreja”.

É como a palavra de Deus escrita, a Sagrada Escritura, que necessita ser lida à luz da Tradição e do Magistério da Igreja. Ninguém vai dizer que a Bíblia é má, por necessitar de tal luz para a sua compreensão e evitar assim as interpretações dos hereges.

O Papa atual, quando cardeal, já havia explicado: “Em primeiro lugar, é impossível para um católico tomar posição a favor do Vaticano II contra Trento ou o Vaticano I. Quem aceita o Vaticano II, assim como ele se expressou claramente na letra, e entendeu-lhe o espírito, afirma ao mesmo tempo a ininterrupta tradição da Igreja, em particular os dois concílios precedentes. E isto deve valer para o chamado ‘progressismo’, pelo menos em suas formas extremas. Segundo: do mesmo modo, é impossível decidir-se a favor de Trento e do Vaticano I contra o Vaticano II. Quem nega o Vaticano II, nega a autoridade que sustenta os outros dois Concílios e, dessa forma, os separa de seu fundamento. E isso deve valer para o chamado ‘tradicionalismo’, também ele em suas formas extremas. Perante o Vaticano II, qualquer opção parcial destrói o todo, a própria história da Igreja, que só pode subsistir como uma unidade indivisível”.

Em sua Carta Pastoral “Considerações a propósito da aplicação dos Documentos promulgados pelo Concílio Ecumênico Vaticano II”, de 19 de março de 1966, Dom Antônio cita a advertência do “Santo Padre gloriosamente reinante”, Paulo VI, de 18 de novembro de 1965, contra a interpretação modernista dos textos conciliares: “Eis as suas palavras: ‘É este o tempo da verdadeira adaptação, preconizada por Nosso Predecessor, de veneranda memória, João XXIII, que a esta palavra não queria atribuir o significado que alguns pretendem lhe dar, como se fosse lícito considerar de acordo com os princípios do relativismo, e segundo a mente profana, tudo na Igreja de Deus: dogmas, leis, estruturas, tradições. Pelo contrário, com seu engenho agudo e firme, tinha ele [João XXIII] o sentido da estabilidade doutrinária e estrutural da Igreja, de tal forma que fazia dessa estabilidade o fundamento de seu pensamento e de sua ação’... Notemos, caríssimos filhos, ... que o Santo Padre... chama a atenção sobre a existÊncia de uma falsa interpretação do Concílio, como se a Igreja tivesse renunciado à imutabilidade de sua doutrina, de sua estrutura fundamental, do valor salvífico de suas tradições, para se lançar no mar revolto da evolução que desvaira os homens de hoje, e os faz crer que nada, absolutamente nada, há de perene e eterno que se imponha ao espírito humano”.

Mesma linha, portanto, da advertência feita pelo então Cardeal Ratzinger, acima citado, contra os que querem separar o Concílio Vaticano II de toda a tradição passada da Igreja.

O magistério vivo e autêntico existente na Igreja é contínuo, sem interrupção, e a assistência contínua e ininterrupta do Divino Espírito Santo é sua garantia contra todo o erro quanto à Fé e os costumes. E essa assistência divina não se interrompeu no Concílio Vaticano II. O Papa João XXIII, na convocação do Concílio, lembrou bem essa verdade. Após citar a passagem do Evangelho “Eis que estarei convosco todos os dias até ao fim dos séculos” (Mt 28,20), ele diz: “Esta divina presença, em todo tempo viva e operante na Igreja, é sentida sobretudo nos períodos mais graves da humanidade”

Mesmo que tenha havido, por parte de certos Padres conciliares de tendência modernista, intenções malévolas de querer produzir no Concílio textos que fossem como bomba relógio de efeito retardado, como alguns deles confessaram, no entanto, o Divino Espírito Santo não permitiu que tais intenções se exprimissem nos textos autênticos promulgados oficialmente pelo Magistério. E, para efeito de Magistério da Igreja, o que valem são os textos, e não supostas intenções de redatores.

Além disso, “o ato verdadeiramente conciliar, como ato da Igreja, e que merece a assistência do Espírito Santo, é o texto em sua plena formulação objetiva, aprovado por ato definitivo da Assembléia Conciliar e do Soberano Pontífice, não interessando a opinião particular que tenham podido sustentar certos Padres conciliares a respeito”.

As interpretações dadas por modernistas impressionaram o mundo católico e muitos pensaram ser esta a interpretação a ser dada ao Concílio. Mas, pelo contrário, o sentido dos textos é dado pelo Magistério da Igreja.

De modo semelhante, quando surgiram interpretações errôneas do decreto do Concílio Vaticano I sobre a jurisdição do Papa e dos Bispos, os Bispos alemães escreveram uma carta circular dando a interpretação correta e receberam do Papa Pio IX uma carta de aprovação desta correta interpretação. Não era correta a interpretação que poderia ter o texto ou a que lhe queria dar o Chanceler Bismarck, mas sim a que lhe dava o Magistério.

Do mesmo modo, o sentido correto dos textos do Concílio Vaticano II é dado pelo Magistério da Igreja e não pelos modernistas.

Logo após o Concílio Vaticano II, começaram a surgir as interpretações modernistas. A Santa Sé, através da Congregação para a Doutrina da Fé, imediatamente reprovou estas falsas interpretações e deu a correta, em carta aos presidentes das Conferências Episcopais, assinada pelo então prefeito Cardeal Ottaviani, cujos trechos principais transcrevemos:

“Como o Concílio Vaticano II, que com êxito terminou há pouco tempo, promulgou sapientíssimos documentos, em matéria doutrinal e em matéria disciplinar para promover eficazmente a vida da Igreja, recai, pois, sobre todo o povo de Deus o dever de se empenhar com todo o esforço para por em prática tudo quanto, por inspiração do Espírito Santo, nessa grande assembléia dos bispos, sob a presidência do Romano Pontífice, foi solenemente proposto ou declarado.”

“Pertence à Hierarquia o direito e o ofício de vigiar, dirigir e promover o movimento de renovação iniciado pelo Concílio, de tal maneira que os documentos e os Decretos do Concílio recebam uma reta interpretação e sejam executados à risca segundo a sua própria força e intenção. Essa doutrina deve ser guardada pelos bispos que, sob a cabeça que é Pedro, gozam do múnus de ensinar com autoridade. De modo louvável, de fato, muitos pastores já empreenderam explicar corretamente a doutrina do Concílio. É doloroso, no entanto, saber que de várias partes chegaram notícias nada boas, sobre abusos crescentes na interpretação da doutrina do Concílio, e também de peregrinas e audaciosas opiniões que surgem aqui e acolá e que não pouco perturbam o ânimo de muito fiéis.”

“São louváveis os estudos e esforços para investigar profundamente a verdade distinguindo com critério o que deve ser crido e aquilo que é proposto como opinião. Mas documentos examinados por essa Congregação constam não poucas sentenças que ultrapassam os limites da simples opinião ou hipótese, facilmente atingindo o próprio dogma e parecem mesmo em certo ponto atingir os fundamentos da fé.”

“A modo de exemplo, convém tocar em algumas dessas sentenças e erros porque elas se tornam conhecidas em relatórios de homens doutos e também nos escritos publicados.”

“1) Em primeiro lugar, ocorre a própria Revelação. Alguns recorrem à Escritura Sagrada excluindo a consulta à Tradição., coarctam o âmbito e a força da inspiração e inerrância e não pensam retamente sobre o valor dos textos históricos.”

“2) A respeito da doutrina da fé, afirmam que as fórmulas dogmáticas estão sujeitas a uma tal evolução que o seu próprio sentido objetivo fica sujeito a mudanças.

“3) Às vezes negligencia-se e despreza-se de tal modo o Magistério Ordinário da Igreja, principalmente o do Romano Pontífice, tido como mera opinião.”

“4) Alguns não reconhecem a verdade objetiva absoluta, firme e imutável e tornam todas as coisas sujeitas a um certo relativismo, por uma simulada razão, segundo a qual a verdade segue necessariamente certo ritmo de evolução da consciência e da história.”

“5) Ataca-se a própria adorável pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando ao tratar da cristologia usam-se tais conceitos de natureza e pessoa que mal se podem compor com as definições dogmáticas. Serpenteia um certo humanismo cristológico pelo qual Cristo é reduzido à condição de simples homem, que adquiriu aos poucos a consciência de sua filiação divina. Sua concepção virginal, seus milagres, sua própria Ressurreição são aceitas, mas, de fato, são reduzidos à mera ordem natural.”

“6) Do mesmo modo, ao tratar da teologia dos sacramentos, alguns elementos ou são ignorados ou não são suficientemente levados em consideração, principalmente no que se refere à Santíssima Eucaristia. Sobre a presença real de Cristo sob as espécies de pão e de vinho não faltam aqueles que favorecem a um exagerado simbolismo como se o pão e o vinho não se convertessem pela transubstanciação no corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas mudassem apenas de significação. Existem também os que opinam ser mais apto para a missa o conceito de ágape do que a idéia de sacrifício.”

“7) Alguns querem explicar o Sacramento da Penitência como meio de reconciliação com a Igreja, não exprimindo suficientemente a reconciliação com o próprio Deus ofendido. Esforçam-se por dizer que para a celebração deste sacramento não é necessária a confissão pessoal dos pecados, mas basta exprimir a função social da reconciliação com a Igreja.”

“8) Não faltam os que desprezam a doutrina do Concílio de Trento sobre o pecado original, ou de tal modo tratam do assunto que a culpa original de Adão e a transmissão do próprio pecado são ao menos ofuscados.”

“9) Não são menores os erros que cercam o âmbito da teologia moral. Pois muitos ousam rejeitar a razão objetiva da moralidade, outros não admitem a lei natural e adotam o que denominam moral de situação. Propagam-se perniciosas opiniões sobre a responsabilidade, no que diz respeito à sexualidade e ao matrimônio.”

“10) A isso tudo deve-se acrescentar a nota sobre o Ecumenismo. A Santa Sé louva aqueles que no espírito do Documento Conciliar sobre o ecumenismo, promovem empreendimentos para fomentar a caridade com os irmãos separados, e para atraí-los à unidade da Igreja, mas é doloroso saber que não faltam aqueles que, interpretando a seu modo o Decreto conciliar, querem uma tal ação ecumênica que ofende à verdade da Fé e a unidade da Igreja, favorecendo a um perigoso irenismo e indiferentismo, o que de fato é totalmente alheio à intenção do Concílio ( quod quidem a mente Concilii omnino alienum est).”

“Tais erros e perigos, singularmente se espalham aqui e acolá, o sumário deles, no entanto reunidos na síntese desta carta seja apresentado ao Ordinários dos lugares, para que dele tratem nas próprias Conferências Episcopais e oportunamente os relatem e manifestem sua opinião à Santa Sé antes da festa do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo deste corrente ano...”

Roma, 24 de julho de 1966.
(a) A. Card. Ottaviani.

Esta Carta da Congregação para a Doutrina da Fé é um dos inúmeros documentos da Igreja após o concílio Vaticano II nos quais se declara o verdadeiro sentido dos decretos e disposições conciliares, contra as falsas interpretações que foram surgindo.

Ela é assinada pelo insuspeito Cardeal Ottaviani, Prefeito da Congregação. Sua assinatura aqui tem obviamente muito maior valor do que aquela outra largamente difundida nos meios tradicionalistas, a respeito da missa de Paulo VI, quando, segundo palavras do mesmo cardeal, usaram indevidamente seu nome (cf.acima nota n. 85).

Os modernistas, é claro, continuaram a dar as suas falsas interpretações aos textos do Concílio.

Por exemplo, a célebre passagem da Lumen Gentium, n. 8, que fala da Igreja Católica: “Esta é a única Igreja de Cristo que no Símbolo confessamos una, santa, católica e apostólica; que nosso Salvador depois de Sua ressurreição entregou a Pedro para apascentar (Jo 21,17) e confiou a ele e aos demais apóstolos para a propagar e reger (cf. Mt 28,18 ss), levantando-a para sempre como ‘coluna e fundamento da verdade’ (I Tim 3,15). Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele, embora fora de sua visível estrutura se encontrem vários elementos de santificação e verdade. Estes elementos, como dons próprios à Igreja de Cristo, impelem à unidade católica”.

Os modernistas procuraram interpretar este texto assim: “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica; mas ela pode também subsistir em uma outra igreja cristã”. A partir daí pode se desenvolver todo um falso ecumenismo, que coloca no mesmo plano as igrejas protestantes e a Igreja Católica. Foi o que fez o teólogo modernista Leonardo Boff em seu livro “Igreja, Carisma e Poder”, pag. 138: “Se, de um lado, a Igreja católica, apostólica e romana é a Igreja de Cristo, de outro ela não é. Ela é a Igreja de Cristo porque ela aparece ao mundo sob esta mediação concreta. Mas ao mesmo tempo ela não o é, porque ela pode existir igualmente em outras Igrejas cristãs. O concílio Vaticano II, ultrapassando uma ambigüidade teológica das eclesiologias anteriores que tendiam a identificar pura e simplesmente a Igreja de Cristo com a Igreja católica romana, ensina com razão: ‘Esta Igreja (de Cristo), constituída e organizada no mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja católica (subsitit in: toma sua forma concreta na Igreja católica).’ Evita-se, assim, repetir o que afirmavam os documentos anteriores: ela é a Igreja de Cristo”.

Esta interpretação foi condenada pela Magistério da Igreja, no documento da Congregação para a Doutrina da Fé, intitulado “Notificação sobre o livro ‘Igreja, Carisma e Poder’ do Pe. Leonardo Boff, o.f.m.: “Partindo da famosa expressão do concílio ‘Haec Ecclesia (sc. Única Christi Ecclesia)... subsistit in Ecclesia catholica’, ele elabora uma tese diametralmente oposta à significação do texto conciliar quando ele afirma: ‘De fato, esta Igreja (a única Igreja de Cristo) pode também subsistir em outras Igrejas cristãs’ (pag. 131). O concílio ao contrário adotou a expressão ‘subsistit’ precisamente para mostrar que não existe senão uma só ‘subsistência’ da Igreja verdadeira, enquanto que fora de sua assembléia visível só existem ‘elementos de Igreja’, que, sendo elementos da mesma Igreja, tendem e conduzem para a Igreja católica”.

E a declaração Dominus Iesus, de 6 de agosto de 2000, sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, da mesma Congregação para a Doutrina da Fé, volta a insistir sobre a interpretação correta a ser dada ao “subsitit in”: “Com a expressão ‘subsistit in’, o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais:por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir (subsistir) plenamente só na Igreja Católica e, por outro lado, a de que ‘existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição’, isto é, nas Igrejas e comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica. Acerca destas, porém, deve afirmar-se que ‘o seu valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica’. É, portanto, contrária ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula ‘subsistit in’ a tese, segundo a qual, a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. Existe portanto uma única Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele”.

Quando da apresentação desta Declaração Dominus Iesus à imprensa, em 5 de setembro de 2000, o Cardeal Joseph Ratzinger, nosso Papa atual, deu a interpretação do Magistério a respeito das coisas boas que se encontram nas outras religiões, que são consideradas pelos Santos Padres como uma preparação evangélica. Desse modo, dá, também a explicação correta da passagem semelhante da Unitatis Redintegratio (n. 3), sobre o ecumenismo, quando, falando das outras igrejas separadas, diz que, apesar de suas deficiências, “o Espírito Santo não recusa emprega-las como meios de salvação, embora a virtude desses derive da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja Católica”:

“Portanto nem tudo o que se encontra nas religiões deve-se considerar como praeparatio evangélica, mas somente ‘quanto o Espírito opera’ nelas. Disso se segue uma inportantíssima conseqüência: caminho para a salvação é o bem presente nas religiões, como obra do Espírito de Cristo, mas não as religiões enquanto tais. Isto é de resto confirmado pela própria doutrina do Vaticano II a propósito das sementes de verdade e de bondade presentes nas outras religiões e culturas, exposta na Declaração conciliar Nostra Aetate: ‘A Igreja Católica nada rejeita do que há de verdadeiro e santo nestas religiões. Considera ela com sincera atenção aqueles modos de agir e viver, aqueles preceitos e doutrinas que, embora em muitos pontos estejam em desacordo com os que ela mesma sustenta e propõe, não raro, contudo, refletem lampejos daquela Verdade que ilumina todos os homens’ (N.A., 2). Tudo o que de verdadeiro e bom existe nas religiões não deve andar perdido, mas sim reconhecido e valorizado. O bem e o verdadeiro, em qualquer lugar onde se encontrem, provém do Pai e é obra do Espírito. As sementes do Logos estão espalhadas por toda a parte. Mas não se pode fechar os olhos para os erros e enganos que no entanto estão presentes nas religiões. A mesma Constitutição Dogmática do Vaticano II Lumen Gentium afirma: ‘Muito freqüentemente os homens, enganados pelo Maligno, desatinaram em seus pensamentos e mudaram a verdade de Deus em mentira, servindo à criatura mais que ao Criador’ (LG, 16).”

Aliás, o próprio texto da Declaração Dominus Iesus diz: “...Seria obviamente contrário à fé católica considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado dos constituídos pelas outras religiões, como se estes fossem complementares à Igreja, ou até substancialmente equivalentes à mesma, embora convergindo com ela para o Reino escatológico de Deus. Não há dúvida que as diversas tradições religiosas contêm e oferecem elementos de religiosidade, que procedem de Deus... Com efeito, algumas orações e ritos das outras religiões podem assumir um papel de preparação ao Evangelho, enquanto ocasiões ou pedagogias que estimulam os corações dos homens a se abrirem à ação de Deus. Não se lhes pode porém atribuir a origem divina nem a eficácia salvífica ex opere operato, própria dos sacramentos cristãos. Por outro lado, não de pode ignorar que certos ritos, enquanto dependentes da superstição ou de outros erros são mais propriamente um obstáculo à salvação (Papa João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris Missio, n. 55). Com a vinda de Jesus Cristo Salvador, Deus quis que a Igreja por Ele fundada fosse o instrumento de salvação para toda a humanidade (cf. Act 17,30-31) (Papa João Paulo II, ibidem, n. 11)). Esta verdade de fé nada tira ao fato de a Igreja nutrir pelas religiões do mundo um sincero respeito, mas, ao mesmo tempo, exclui de forma radical a mentalidade indiferentista 'imbuída de um relativismo religioso que leva a pensar que 'tanto vale uma religião como outra' '(Papa João Paulo II, ibidem n. 36). Se é verdade que os adeptos das outras religiões podem receber a graça divina, também é verdade que objetivamente se encontram numa situação gravemente deficitária, se comparada com a daqueles que na Igreja têm a plenitude dos meios de salvação (Papa Pio XII, Encíclica Mystici Corporis, Denz 3821)”.

Quando o teólogo Jacques Dupuis S.I. lançou seu livro “Para uma teologia cristã do pluralismo religioso” (1997), a Congregação para a Doutrina da Fé, emitiu uma Notificação em 24 de janeiro de 2001, onde recorda, no preâmbulo, a verdadeira doutrina do magistério a propósito do valor e da função salvífica das tradições religiosas: “Segundo a doutrina católica deve-se sustentar que ‘o que o Espírito opera no coração dos homens e na história dos povos, nas culturas e religiões, assume um papel de preparação evangélica (cf. Const. Dogm. Lumen Gentium, 16)’. É, portanto, legítimo sustentar que o Espírito Santo opera a salvação nos não cristãos também mediante aqueles elementos de verdade e de bondade presentes nas várias religiões; mas não tem nenhum fundamento na teologia católica sustentar que essas religiões, consideradas como tais, são caminhos de salvação, também porque nelas estão presentes lacunas, insuficiências e erros, que dizem respeito à verdade fundamental sobre Deus, o homem e o mundo”.

" Um dos problemas que mais agitaram os debates conciliares foi a questão da ‘colegialidade episcopal’. A imprensa de espírito modernista empenhou-se em criar uma pressão da opinião pública no sentido de que o Concílio modificasse a estrutura da Igreja, de monárquica, construída como está sobre um só, Pedro – uni, Petro – em colegial, ou seja, governada conjuntamente pelo corpo episcopal, composto dos Bispos do mundo inteiro, que teriam em Roma um senado, como seu representante, para condividir com o Papa o regime eclesiástico.

Depois de muitas emendas, o esquema conciliar sobre a Igreja modificou-se bem, de maneira a se conservar na linha traçada dogmaticamente pelo Concílio Vaticano I. Assim, foram supressas as expressões que poderiam indicar uma sujeição de São Pedro ao Colégio dos Apóstolos. Por exemplo, onde se falava do poder concedido a São Pedro, como primeiro dos Apóstolos e chefe do Colégio, foram eliminadas as expressões ‘como’ e ‘chefe do Colégio’, de maneira a dizer-se simplesmente que o poder foi concedido a São Pedro, sem ser em função de nenhuma condição do mesmo Colégio Apostólico, e, portanto, sem dependência alguma com relação a esse Colégio. Damos este exemplo para mostrar como realmente houve modificações no esquema de modo a afastar do mesmo as marcas de modernismo que nele havia. Não obstante, essas emendas ainda não pareceram suficientes à ‘Autoridade superior’, como se expressou o Secretário Geral do Concílio, a qual no caso era o Papa – única Autoridade superior aos Padres Conciliares ali reunidos.

E o Santo Padre fez ajuntar uma nota explicativa dando o sentido da doutrina do esquema relativa ao Colégio Episcopal. Nessa nota, com clareza, e mesmo certa superabundância, salienta-se o sentido precioso da ‘colegialidade’ episcopal, que não se pode tomar no sentido estrito, ou seja, de um corpo de muitos iguais, que o colégio episcopal juridicamente só tem poder na Igreja Universal em união como Papa, quando por este convocado, e sob sua inteira dependência. Na sua redação final, coma nota explicativa que dissipava qualquer dúvida, o esquema conciliar conseguiu impressionante unanimidade: apenas cinco Padres Conciliares votaram contra o mesmo na sessão de encerramento. Estávamos, pois, diante de um documento da Igreja docente que deveria ser acatado com plena e cordial aceitação por toda a Igreja. " Dom Antônio de Castro Mayer.

Fica, portanto, bem clara a distinção entre a interpretação modernista da colegialidade e a interpretação correta dada pelo Magistério da Igreja docente.

A Declaração Conciliar Dignitatis Humanae sobre a Liberdade Religiosa, foi um dos textos mais utilizados pelos modernistas para propagar suas idéias. Muitos o entenderam como sendo a aprovação do indiferentismo religioso, do laicismo, do relativismo doutrinal e da liberdade moral de se fazer qualquer coisa, doutrinas já condenados pelo Magistério anterior.

A parte do texto mais polêmica é o número 2 da Declaração:

“Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar imunes de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em assuntos religiosos, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido, dentro dos devidos limites, de agir de acordo com a própria consciência, em privado e em público, só ou associado com outros. Declara, além disso, que o direito à liberdade religiosa se funda realmente na própria dignidade da pessoa humana, como a palavra revelada de Deus e a própria razão a dão a conhecer. Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa na ordem jurídica da sociedade deve ser de tal modo reconhecido que se torne um direito civil.”

“É postulado da própria dignidade, que os homens todos – por serem pessoas , isto é, dotadas de razão e de vontade livre e por isso mesmo com responsabilidade pessoal - são impelidos pela própria natureza e também obrigados moralmente a procurar a verdade, sobretudo no que concerne à religião. Têm também a obrigação de aderir à verdade conhecida e de ordenar toda a sua vida segundo as suas exigências. Ora, os homens não podem satisfazer a esta obrigação de modo conforme com a própria natureza, a não ser que gozem ao mesmo tempo de liberdade psicológica e imunidade de coação externa. O direito à liberdade religiosa não se funda, pois, na disposição subjetiva da pessoa, mas na sua própria natureza. Por esta razão, o direito a esta imunidade permanece ainda naqueles que não satisfazem à obrigação de buscar e aderir à verdade; e, desde que se guarde a justa ordem pública, o seu exercício não pode ser impedido.”

Teólogos tradicionalistas em várias ocasiões têm demonstrado a não contradição entre o texto conciliar da declaração Dignitatis Humanae em sua formulação objetiva e a doutrina tradicional sobre a matéria. O Pe. Júlio Meinvielle, falando da coerência interna entre uma e outra doutrina afirma que “uma mudança e modificação da mesma em ponto tão importante e vital, como o fato religioso, questionaria muito seriamente a assistência do Espírito Santo ao magistério da Igreja e questionaria assim também a santidade da própria Igreja...”.

Antes de mais nada, é preciso entender as razões e as circunstâncias desse documento, aliás explicada por ele mesmo:

“... Não faltam regimes nos quais, ... os poderes públicos esforçam-se por afastar os cidadãos de professarem a religião e por tornar muito difícil e perigosa a vida às comunidades religiosas. ... Denunciando com dor estes fatos deploráveis, o Sagrado Concílio exorta os católicos e pede a todos os homens que considerem com muita atenção quão necessária é a liberdade religiosa, sobretudo nas atuais circunstâncias da família humana.”

E o sentido autêntico do texto conciliar, que o Papa e os Padres Conciliares promulgaram, foi dado, desde o início, na Relação oficial sobre a Liberdade Religiosa, apresentada por Dom Emílio De Smeth, bispo de Brugge, na Bélgica, aos Padres Conciliares, com o “nihil obstat” da Comissão Teológica do Concílio, sobre o sentido exato do texto do documento:

“... A fórmula ‘liberdade religiosa’ tem no nosso texto um sentido bem determinado. Gerar-se-ia grande confusão nos nossos debates, se a esta fórmula fosse dado por alguns Padres um sentido diverso daquele que se pretende no texto.”

“Quando se defende a liberdade religiosa,

- não se diz que ao homem compete considerar o problema religioso a seu livre alvedrio e sem admitir nenhuma obrigação moral, nem se afirma que ele decida a seu bel-prazer se deve ou não deve abraçar uma religião (indiferentismo religioso);

- nem se afirma que a consciência humana é livre no sentido de que seria como que sem lei, isto é, desligada de toda a obrigação para com Deus (laicismo);

- nem se diz que o falso se deve ter em igual direito que o verdadeiro, como se não houvesse nenhuma norma objetiva de verdade (relativismo doutrinal);

- nem tampouco se admite que de certo modo o homem tem um quase direito de se comprazer tranqüilamente na incerteza (pessimismo diletantístico).

Se alguém obstinadamente quisesse atribuir à expressão ‘liberdade religiosa’ algum dos mencionados sentidos, daria ao nosso texto um sentido que nem as palavras nem a nossa intenção comportam...”
.

Para evitar quaisquer interpretações incorretas, a Declaração procurou ser bem clara no nº 1, que deve ser lido evidentemente antes do nº 2, pois o esclarece e lhe dá o verdadeiro alcance:

“... Professa, por isso em primeiro lugar o Sagrado Concílio que o próprio Deus deu a conhecer ao gênero humano o caminho pelo qual, servindo-O, os homens se podem salvar e alcançar a felicidade em Cristo. Acreditamos que esta única religião verdadeira se encontra na Igreja católica e apostólica, à qual o Senhor Jesus confiou o encargo de a levar a todos os homens, dizendo aos Apóstolos: «Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, batizando os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos prescrevi» (Mt. 28, 19-20). Por sua vez, todos os homens estão obrigados a procurar a verdade, sobretudo aquela que diz respeito a Deus e à sua Igreja e, uma vez conhecida, de a abraçar e praticar.”

“O Sagrado Concílio professa igualmente que tais deveres atingem e obrigam a consciência humana e que a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte. Ora, visto que a liberdade religiosa, que os homens exigem no exercício do seu dever de prestar culto a Deus, diz respeito à imunidade de coacção na sociedade civil, continua íntegra a tradição doutrinária católica sobre o dever moral que os homens e as sociedades têm para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo. Além disso, ao tratar desta liberdade religiosa, o sagrado Concílio tem a intenção de desenvolver a doutrina dos últimos Sumos Pontífices acerca dos direitos invioláveis da pessoa humana e da ordem jurídica da sociedade.”

O Concílio, portanto, ensina, sob o ponto de vista natural, um direito de não ser forçado pelo Estado de agir nem impedido de agir, dentro dos justos limites, em matéria religiosa. Ou seja, o Concílio afirma que neste domínio da consciência há uma ausência de jurisdição, uma relativa incompetência do poder civil. Esta incompetência é verdadeira mas não absoluta, porque a autoridade civil pode e deve reconhecer a verdadeira religião e a Igreja católica. Ela decorre da transcendência da esfera religiosa – relações das pessoas com Deus – sobre a ordem terrestre e temporal, fim próprio do Estado.

Mas o Concílio afirma somente um direito negativo, sem conceder nenhum direito afirmativo às pessoas com relação aos atos não conformes à verdade e ao bem no domínio religioso.

Afirmando, pois, que os indivíduos e as sociedades (Estados) têm a obrigação moral que ensina a doutrina tradicional católica com relação à verdadeira religião e à única Igreja de Cristo, o Concílio exclui assim o indiferentismo do Estado, que alguns supunham decorrer deste documento. O Concílio afirma que o Estado não pode interferir na área da consciência das pessoas, não as forçando a agir contra a sua consciência nem as impedindo de agir segundo a sua consciência, desde que dentro dos devidos limites, que devem ser determinados para cada situação social pela prudência política, se¬gundo as exigências do bem comum, e ratificados pela autoridade civil segundo “normas jurídicas, de acordo com a ordem moral objetiva. ”

Afirmar o limite da jurisdição do Estado não significa negar-lhe o dever de reconhecer a verdadeira religião e a Igreja Católica, de ajuda-la na sua missão, de protege-la e de render culto público a Deus e a Cristo Rei.

E quando o Concílio afirma que “continua íntegra a tradição doutrinária católica sobre o dever moral que os homens e as sociedades têm para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo”, está afirmando que continuam de pé os princípios ensinados pelas encíclicas Mirari Vos (Gregório XVI), Quanta Cura (Pio IX), Mortalium animos, Quas Primas (Pio XI) e todo o ensinamento tradicional sobre o reinado social de Cristo Rei.

O Concílio defende, pois, a laicidade do Estado, entendida no sentido da distinção entre a esfera política e a religiosa, que “é um valor adquirido e reconhecido pela Igreja, e faz parte do patrimônio de civilização já conseguido”; mas não a laicidade concebida como autonomia da lei moral nem o laicismo do Estado, que seria a sua indiferença com relação à verdadeira religião.

E o documento conciliar diz mais, excluindo qualquer indiferentismo: “... Os fiéis, por sua vez, para formarem a sua própria consciência, devem atender diligentemente à doutrina sagrada e certa da Igreja (Pio XII, radiomensagem de 23/3/1952). Pois, por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade, e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo, e ao mesmo tempo declara e confirma, com a sua autoridade, os princípios de ordem moral que dimanam da natureza humana. Além disso, os cristãos, procedendo cordatamente com aqueles que estão fora da Igreja, procurem ‘no Espírito Santo, com uma caridade não fingida e com a palavra da verdade’ (2 Cor. 6, 6-7), difundir com desassombro e fortaleza apostólica a luz da vida, até à efusão do sangue. ”

A Declaração Conciliar foi promulgada, e é isso que a torna um documento do Magistério, com as seguintes palavras oficiais:

“Todo o conjunto e cada um dos pontos que foram enunciados nesta Declaração agradaram aos Padres. E Nós, pela autoridade Apostólica por Cristo a Nós confiada, juntamente com os Veneráveis Padres, no Espírito Santo, os aprovamos, decretamos, e estatuímos. Ainda ordenamos que o que foi assim determinado em Concílio seja promulgado para a Glória de Deus. Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de dezembro de 1965. Ego Paulus Catholicae Ecclesiae Episcopus.”

Seguem-se as assinaturas dos Padres Conciliares (entre as quais se encontram as de Dom Antônio de Castro Mayer e de Dom Marcel Lefebvre).

O Catecismo da Igreja Católica, outro ato do Magistério, promulgado pelo Papa João Paulo II, “em virtude da autoridade apostólica” pela Constituição Apostólica “Fidei Depositum”, explica com clareza qual o sentido da Liberdade que a Igreja quer ensinar:

“O exercício da liberdade não implica o direito de dizer e fazer tudo. É falso pretender que ‘o homem, sujeito da liberdade, baste a si mesmo, tendo por fim a satisfação de seu próprio interesse no gozo dos bens terrenos.’ ... Fugindo da lei moral, o homem prejudica sua própria liberdade, acorrenta-se a si mesmo, rompe a fraternidade com seus semelhantes e rebela-se contra a verdade divina.”

“O direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade do homem, sobretudo em matéria religiosa e moral. Mas o exercício da liberdade não implica o suposto direito de tudo dizer e fazer
. ‘É para a liberdade que Cristo nos libertou’ (Gl 5,1). ”

“ ‘Todos os homens estão obrigados a procurar a verdade, sobretudo naquilo que diz respeito a Deus e à sua Igreja e, depois de conhecê-la, a abraçá-la e praticá-la’ (DH 1). Este dever decorre da ‘própria natureza dos homens’ (DH 2) e não contraria um ‘respeito sincero’ para com as diversas religiões que ‘re¬fletem lampejos daquela verdade que ilumina a todos os ho¬mens’ (NA 2), nem a exigência da caridade que insta os cristãos a ‘tratar com amor, prudência e paciência os homens que vivem no erro ou na ignorância acerca da fé’ (DH 14). O dever de prestar a Deus um culto autêntico diz respeito ao homem individual e socialmente. Esta é ‘a doutrina católica tra¬dicional sobre o dever moral dos homens e das sociedades em relação à verdadeira religião e à única Igreja de Cristo’ (DH 1). Evangelizando sem cessar os homens, a Igreja trabalha para que estes possam ‘penetrar de espírito cristão as mentalidades e os costumes, as leis e as estruturas da comunidade em que vivem’ (AA 13). O dever social dos cristãos é respeitar e despertar em cada homem o amor da verdade e do bem. Exige que levem a conhecer o culto da única religião verdadeira, que subsiste na Igreja católica e apostólica. Os cristãos são chamados a ser a luz do mundo. Assim, a Igreja manifesta a realeza de Cristo sobre toda a criação e particularmente sobre as sociedades humanas (Leão XIII, enc. Immortale Dei e Pio XI, Enc. Quas Primas, sobre Cristo Rei). ”

“O direito à liberdade religiosa não significa nem a permissão moral de aderir ao erro (Leão XIII, enc. Libertas praestantissimum) nem um suposto direito ao erro (cf.Pio XII, discurso de 6 de dezembro de 1953), mas um direito natural da pessoa humana à liberdade civil, quer dizer, à imunidade de coação externa nos justos limites, em matéria religiosa, da parte do poder político. Este direito natural deve ser reconhecido no ordenamento jurídico da sociedade, de tal maneira que constitua um direito civil.”

“O direito à liberdade religiosa não pode ser em si ilimitado (cf. Pio VI, breve Quod aliquantum), nem limitado apenas por uma ‘ordem pública’ entendida de maneira positivista ou naturalista (cf. Pio IX, enc. Quanta Cura). Os ‘justos limites’ que lhe são inerentes devem ser determinados para cada situação social pela prudência política, se¬gundo as exigências do bem comum, e ratificados pela autoridade civil segundo ‘normas jurídicas, de acordo com a ordem moral objetiva’ (DH 7) .

“Toda instituição se inspira, ainda que implicitamente, numa visão do homem e de seu destino, da qual deduz os critérios de seus juízos, sua hierarquia de valores, sua linha de conduta. A maior parte das sociedades tem referido suas instituições a um certa preeminência do homem sobre as coisas. Só a religião divinamente revelada reconheceu claramente em Deus, Criador e Redentor, a origem e o destino do homem. A Igreja convida os poderes políticos a referir seu julgamento e suas decisões a esta inspiração da verdade sobre Deus e sobre o homem:

“As sociedades que ignoram esta inspiração ou a recusam em nome de sua independência em relação a Deus são levadas a procurar em si mesmas ou a tomar de uma ideologia os seus referenciais e os seu objetivos e, não admitindo que se defenda um critério objetivo do bem e do mal, arrogam a si, sobre o homem e sobre seu destino, um poder totalitário, declarado ou dissimulado, como mostra a história” (João Paulo II Enc. Centesimus Annus).”

“A Igreja, que em razão de seu múnus e de sua competência, não se confunde de modo algum com a comunidade política, é ao mesmo tempo sinal e salvaguarda do caráter transcendente da pessoa humana (GS 76) ‘A Igreja respeita e promove a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos.’ (GS 76, 3)”

Faz parte da missão da Igreja ‘emitir juízo moral também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas, empregando todos os recursos - e somente estes - que estão de acordo com o Evangelho e com o bem de todos, conforme a diversidade dos tempos e das situações (GS 76,5).”

“A autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais da pessoa humana e as condições de exercício de sua liberdade.”

“É dever dos cidadãos trabalhar com os poderes civis para a edificação da sociedade num espírito de verdade, de justiça, de solidariedade e de liberdade. ”

“O cidadão está obrigado em consciência a não seguir as prescrições das autoridades civis, quando contrárias às exigências da ordem moral. ‘É preciso obedecer antes a Deus que aos homens’ (At 5,29).”

“Toda sociedade baseia seus juízos e sua conduta numa visão do homem e de seu destino. Sem as luzes do Evangelho a respeito de Deus e do homem, as sociedades facilmente se tornam totalitárias.”

É só nesse sentido católico, dado pelo Magistério, que aceitamos a Liberdade Religiosa.

Qualquer outro sentido modernista, irenista, indiferentista, laicista ou relativista, dado à Liberdade Religiosa, diferente do acima explicado pelo Magistério, pertence à “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, que caracteriza o mau “espírito do Concílio”, censurada pelo Papa Bento XVI no seu Discurso à Cúria Romana (22/12/2005).

Quisemos demonstrar a não contradição doutrinária entre este e os outros documentos do Magistério, a sua autoridade de documento do Magistério Supremo da Igreja, com todo o acatamento que como tal lhe é devido, a impossibilidade de ele conter erros doutrinários e salvar assim a indefectibilidade da Igreja e de sua doutrina, que decorre da assistência contínua do Divino Espírito Santo.

“Porque o ensinamento não infalível da Igreja, embora não de maneira absoluta, é também assistido pelo Espírito Santo. Muito se enganaria, pois, quem cuidasse que ele nos deixa inteiramente livres de assentir ou de discordar” (Pe. Dr. M. Teixeira-Leite Penido – O Mistério da Igreja, VII, O poder do Magistério p. 294).


É uma grave ofensa a Mãe de Deus em colocar palavras que ela não disse e sustentar uma teoria na base da mentira. Acredito que o Pe Kramer tenha como todos nós o zelo pela fé católica mas lutar com as armas erradas só fortalecerão o Inimigo nessa guerra.

 

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