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Quem é tomista e quem não é ?

Por Rafael Gonçalves Queiroz

Desde já deixo claro duas coisas : sou católico e sou professor de filosofia.

O Sr Silveira e o Sr Nougué se auto-apresentam como sumos representantes do pensamento tomista no Brasil atual. Em nome dele e escudado nisso se auto-proclamam os defensores máximos da ortodoxia em terras tupiniquins admitindo por tabela que fora do tomismo não pode haver estrita observância da fé.

 

Antes de investigar a legitimidade da pretensão dos dois examinemos o que é tomismo , quais suas fontes, etc.

Tomismo pode significar:

(1) todo o pensamento sistemático ou não de São Tomás de Aquino, sua filosofia e sua teologia;

(2) o pensamento que segue integral ou parcialmente os ensinamentos de São Tomás de Aquino, em filosofia e teologia e

(3) o pensamento dos que expõe, defendem e disputam as teses da filosofia e teologia de São Tomás de Aquino.

As fontes são qualquer obra que forneceu informação e que de algum modo inspirou, motivou ou fez com que Tomás de Aquino considerasse alguma questão. Ora, isso propriamente falando é fonte de consulta. E se estas fontes de consulta inspiravam-no acerca de algum tema, dizemos serem fontes de inspiração do seu pensamento.

A pluralidade de fontes vai deste as sagradas, como a Sagrada Escritura e autores cristãos, como também não-cristãos: Abelardo, Algazel, Santo Ambrósio, Anaxágoras, Ário, Santo Atanásio, São Basílio, São Bernardo, Cassiodoro, Cícero, São João Crisóstomo, Demócrito, Pseudo-Dionísio, Empédocles, Epicuro, Estóicos, Euclides, Fulgêncio de Rupe, Gilberto Porretano, Santo Hilário, Honório de Harles, Hugo de São Vitor, Santo Isidoro de Sevilha, São Jerônimo, Pedro Lombardo, Nestório, Orígenes, Pelágio, Pitágoras, Platão, Porfírio, Ricardo de São Vítor, Sabélio, Sêneca, Sócrates, Santo Agostinho, Boécio, São Leão Magno, São João Damasceno, Santo Anselmo, Santo Alberto e muitos outros, até às fontes pagãs, como Aristóteles, Avicena, Averróis, Avicebrão, Maimônides e tantos outros.

Importa notar que São Tomás fez uma síntese entre filosofia e teologia apelando tanto para autores cristãos quanto pagãos; já antes dele Santo Agostinho tinha operado uma sínstese dos conhecimentos até então desenvolvidos "O Bispo de Hipona conseguiu elaborar a primeira grande síntese do pensamento filosófico e teológico, nela confluindo correntes do pensamento grego e latino. Também nele a grande unidade do saber, que tinha o seu fundamento no pensamento bíblico, acabou por ser confirmada e sustentada pela profundidade do pensamento especulativo"- Fides Et Ratio, 40.

Ainda citando-a"escolástica, o papel da razão educada filosoficamente torna-se ainda mais notável sob o impulso da interpretação anselmiana do intelectus fidei. Segundo o santo Arcebispo de Cantuária, a prioridade da fé não faz concorrência à investigação própria da razão. De facto, esta não é chamada a exprimir um juízo sobre os conteúdos da fé; seria incapaz disso, porque não é idónea"- Idem,42

Mais uma vez a Fides esclarece que "Neste longo caminho, ocupa um lugar absolutamente especial S. Tomás, não só pelo conteúdo da sua doutrina, mas também pelo diálogo que soube instaurar com o pensamento árabe e hebreu do seu tempo. Numa época em que os pensadores cristãos voltavam a descobrir os tesouros da filosofia antiga, e mais directamente da filosofia aristotélica, ele teve o grande mérito de colocar em primeiro lugar a harmonia que existe entre a razão e a fé"

« Sem dúvida, S. Tomás possuiu, no máximo grau, a coragem da verdade, a liberdade de espírito quando enfrentava os novos problemas, a honestidade intelectual de quem não admite a contaminação do cristianismo pela filosofia profana, mas tão pouco defende a rejeição apriorística desta. Por isso, passou à história do pensamento cristão como um pioneiro no novo caminho da filosofia e da cultura universal. O ponto central e como que a essência da solução que ele deu ao problema novamente posto da contraposição entre razão e fé, com a genialidade do seu intuito profético, foi o da conciliação entre a secularidade do mundo e a radicalidade do Evangelho, evitando, por um lado, aquela tendência anti-natural que nega o mundo e seus valores, mas, por outro, sem faltar às exigências supremas e inabaláveis da ordem sobrenatural ». Paulo VI

Logo fica claro que nem o Sr Silveira nem o Sr Nougué estão a altura de serem chamados tomistas pois :

1- São incapazes de realizar sínteses aferrando-se a repetição esquemática dos textos da Suma.

2- Rejeitam categoricamente qualquer filosofia que não nasce de autores confessionais ( coisa que São Tomás nunca fez)

3- Não admitem um legitímo progresso do saber entendendo que a síntee tomista é definitiva e absoluta , deixando de fora portanto várias disciplinas novas e uma série de problemas surgidos nestes últimos sete séculos como se fossem irrelevantes em face do que já foi sintetizado.

4- Estão mais preocupados em usar "doutrina tomista" como bandeira nesta hora de crise da Igreja para exorcizar o fantasma do modernismo que usa-lá como ferramenta para resolver problemas intelectuais surgidos nestes últmos doisséculos em que o modernismo se ergueu contra a fé tradicional da Igreja- lembro aqui que o Papa Bento XVI assumiu a tarefa em seu livro "Jesus de Nazaré" de enfrentar face a face a razão histórica e dar-lhe uma resposta que não a desconsidere sem deixar de exprimir a coerência da fé teologal.

5- Em vez de procurarem estudar a filosofia do Olavo - como teria feito São Tomás que estudou a fundo até filósofos pagãos- preferem comentar frases soltas.São incapazes de reconhecer que ele se insere na tradição clássica e que assimilou a tradição filosófica medieval.

6- Em suma não são tomistas pois so entendem como tais aqueles filósofos que aderem integralmente a todas as conclusões do Aquinate , quando há na filosofia de São Tomás pontos discutíveis e em aberto; eles dogmatizam a Suma.

7- Como ambos assumem apenas o humilde papel de repetidores do magistério , nem mesmo no rol dos teólogos eles se encaixam pois o papel destes é estabelecer a racionalidade dos dados da fé. Nem mesmo para dar aulas de catequese eles estariam habilitados pois até o catequista precisa explicar os dogmas.Logo nem de professores eles podem ser chamados.

Quem representa o tomismo no Brasil ?

Evidente que não são os dois contendores; o Instituto Aquinate é o único lugar onde se fazem estudos tomistas e produção de filosofia tomista no Brasil.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino