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14 de setembro, o “11/09/2001” da FSSPX


Foi com ânimos exaltados que a notícia da visita de Sua Excelência Dom Fellay à Santa Sé no próximo 14 de setembro foi recebida. Como de praxe, leigos lefebvristas auto-teólogos já entram em discussão entre si sobre o futuro parecer do seu superior e de como irão reagir mediante um acordo. Ou seja, essa independência de obediência à Hierarquia ainda que seja o próprio bispo lefebvrista é mais uma consequência do Estado de Necessidade oriunda pela falsa doutrina da FSSPX de que leigos tem carta branca para examinar o Magistério dos Papas e [com a sua concepção pessoal] averiguar se o mesmo está de acordo com a Tradição podendo acatá-lo ou rejeitá-lo. Tal doutrina escapou do limite do aceitável e é praticado até entre os próprios padres e os quatros bispos lefebvristas. O leigo lefebvrista não vê mais em seu clero uma âncora segura, tudo é motivo de análise e questionamento, não existe mais uma unidade lefebvrista no seio da Fraternidade.

Com essa sobrecarga mental no cérebro lefebvrista, alguns desistem de tudo e optam pela religião imaginária do sedevacantismo.

Vejamos como poderá seguir o processo da situação pós-14/09:

Mesmo com a elevação da SSPX a uma prelazia pessoal à la Opus Dei, ainda tem a questão da obediência ao bispo diocesano. Sabemos que existem ranços e feridas antigas nestas questões, bispos que fizeram questão de pisar no calo ou enfiar a faca mais a fundo, e do outro lado, fiéis e padres da fraternidade que também enfrentaram isso de maneira agressiva. E se não for elevada à prelazia e continuar como instituto, ainda tem a questão do celebret para os padres e da autorização do bispo diocesano para manutenção dos locais de culto (de ter sacrário nas capelas por exemplo), a sobreposição com paróquias diocesanas, etc;

Idem no que tange à relação com outros institutos tradicionais (Ecclesia Dei), alguns oriundos da SSPX: FSSP, ICRSP, IBP, só pra manter o mainstream. Os fiéis destes últimos provavelmente vão passar a frequentar as capelas da SSPX por serem mais perto geograficamente do que as dos institutos Ecclesia Dei. Mas o contrário, sabemos que nem tão cedo será verdade.

Permanecerão as questões doutrinais em aberto, e o choque entre elas pode minar a relação com os bispos (no item 1) e a compreensão do povo em geral.

Sabemos que a SSPX tem membros cujos posicionamentos variam do quase-sedevacantismo mais radical até o conservadorismo, passando pelo conspiracionismo e pelo tradicionalismo. Ou seja, em outras palavras, é um "saco de gatos". Logo, é até natural que, depois dessa regularização, aqueles que se encontram mais à porta do sedevacantismo-conspiracionismo resolvam se dividir novamente e entrar em cisma logo de vez. Pode ser, por exemplo, o caso do Williamson e séquito, e dos fiéis que entraram na SSPX por causa das idéias loucas megalomaníacas dele. Basta lembrar que todas as tentativas de retorno à comunhão com Roma ele sempre tentou minar com declarações absurdas.

A SSPX não é a única "defensora da fé, coluna e fundamento da verdade" e mantenedora da Tradição. Pelo contrário, ela mantém uma tradição (com T minúsculo) assim como entendida pelo seu fundador, que é aliás uma versão bem limitada da Tradição com T maiúsculo. Logo não se pode inferir que só a SSPX é tradicionalista.

Há posições e posições das mais diversas dentro da fraternidade, isso é notório e não se precisa de mais de meio neurônio para perceber isso. Uma boa parte dos hoje sedevacantistas surgiu de dentro da SSPX ou em algum tempo procuraram os sacramentos da SSPX para poderem se manter. Assim como uma boa parte dos "uniatas" também surgiu da SSPX (como a FSSP, ou o IBP). Fellay acredita em diálogo com Roma, Williamson acredita em jogar uma bomba atômica em Roma ou ao menos colocar toda a Cúria e o Papa no paredón.

Ele já queimou o filme antes com várias outras declarações polêmicas, em seus artigos semanais. A do holocausto nem é novidade (ele já falou e negou isso antes há muitos anos atrás).

O blog dele é meio parado, mas no site da SSPX do Canadá tem o arquivo de todos os artigos semanais dele. As pérolas são, principalmente, o artigo onde ele diz que mulheres não podem estudar e muito menos ser professoras; e o artigo onde ele diz que mulheres não podem usar calças. Dá pra cair da cadeira de rir (àqueles que tem o senso de humor; senão, dá pra ficar bastante escandalizado e horrorizado com o que ele fala).

Logo, há sim e sempre houveram posições divergentes entre os bispos lefebvristas. Não adianta tapar o sol com a peneira.

É preciso resolver como eles vão aceitar tudo o que sempre criticaram (legitimidade do novo rito, autoridade do CVII), e como aprenderão a discernir o CVII daquilo que alguns fizeram em nome dele, e a o rito novo da bagunça feita como se rito novo fosse.

Ver como a SSPX pedirá perdão por tantas ofensas ao Papa, por tantos atos de desrespeito, palavras duras, e espírito de criticismo.

Dar o enquadramento jurídico para a SSPX: continuará a ser uma sociedade de vida apostólica (como os palotinos, os vicentinos, a FSSP, o ICRSS, i.e., um instituto análogo aos de vida consagrada, só que sem votos), ou vai se transformar uma figura da estrutura hierárquica da Igreja (como uma Administração Apostólica Pessoal ou uma Prelazia Pessoal)?

Para que possamos saber o status da FSSPX a partir de agora, é necessário saber se o Papa realmente concederá o poder de jurisdição aos bispos da FSSPX; se estes deixarão de atuar na ilegalidade, como também vinha sendo noticiado por "fontes seguras".

A mera retirada da pena canônica não quer dizer muita coisa. Os bispos ortodoxos tiveram a pena canônica retirada, mas não se integraram na unidade visível da Igreja.

O Papa deve determinar uma diocese a cada um dos quatro bispos, nem que seja um diocese titular, lá na Mauritânia, como fez com Dom Rifan, bispo de Cedamusa.

Perguntas urgentes e imediatas que ficam em aberto:

1. Como vai ficar a situação jurídica da SSPX, uma vez que LEGALMENTE ela simplesmente não existe mais (pois foi suprimida canonicamente em 1976)? Será uma prelazia pessoal? Será um instituto pontifício?

2. Os bispos serão incardinados na prelazia, ou se não existir prelazia, estarão incardinados onde? Para ser titular de uma diocese in partibus, eles teriam cara um de ser auxiliar de alguma diocese ou prelazia existente; e se a SSPX for erigida apenas como instituto ou congregação, isso não seria possível.

(Por isso que creio que 2 depende de 1).

Se Sua Santidade definir (2) antes de (1), então ele já vai estar dando pistas do que pretende fazer a respeito da Fraternidade em si.

Fora a situação dos padres, que atualmente continuam a ver navios e estarem suspensos a divinis. Eles têm de ser de-suspendidos e incardinados em algum lugar: nas sedes titulares dos bispos (que no momento continuam sendo bispos de lugar-nenhum), numa prelazia, num instituto ou numa congregação religiosa.

Preocupa-me ver bispos e sacerdotes vagos, sem jurisdição e sem poder celebrar todos os sacramentos legalmente.

Esse é o tipo de solução que precisava de um "pacotão" de medidas mais ou menos imediatas e seguidas. Entendo que a jurisdição dos bispos deve seguir o protocolo. Só assim poderão regularizar os padres.

Na verdade, a Fraternidade teria sido suprimida em 1975, quando uma comissão de cardeais teria pedido ao bispo Mamie que retirasse a aprovação que havia dado seu antecessor (somente o Papa poderia fazê-lo, pelo cân. 493).

Dom Marcel foi suspenso "a divinis" em 1976.

Também irá cair a questão do "Concílio Pastoral"

Verdades de fé foram declaradas pelo Vaticano II, mas verdades que já eram ensinadas pelo magistério antes do Vaticano II. De si, o Vaticano II não proclamou nada infalível.

Certas verdades formuladas exclusivamente pelo Vaticano II podem se considerar – numa especulação minha – infalíveis, mas não são dogmas de fé. É o caso da colegialidade dos bispos e da dignidade da pessoa humana. Tal verdades seriam infalíveis – tal como especulo – mas não dogmas de fé, pois são verdades que servem de fundamento a outras verdades. Nesse caso, seriam verdades conexas com verdades de fé, que servem de fundamento para verdades de fé ou que servem para manter ou custodiar integralmente o depósito de fé. Vamos pensar, por exemplo, na colegialidade dos bispos. Se a ordem dos bispos mantém o poder supremo sobre a Igreja nas condições explicitadas pela "Lumen gentium", isto é, sempre unida ao Papa e nunca sem o Papa, isto é importante para a proclamação de eventuais verdades infalíveis. Logo, é verdade necessariamente conexa com a Revelação; logo infalível.

As verdades conexas com a Revelação, mas que não são dogmas, são verdades de fé eclesiástica. O exemplo mais conhecido são os fatos dogmáticos.

Nem tudo o que um concílio ecumênico proclama é infalível e isto vale para Nicéia, para Florença e para o Vaticano II.

Diz a notificação anexa à "Lumen gentium":

«Tendo em conta a praxe conciliar e o fim pastoral do presente Concilio, este sagrado Concilio só define aquelas coisas relativas à fé e aos costumes que abertamente declarar como de fé.

Tudo o mais que o sagrado Concílio propõe, como doutrina do supremo Magistério da Igreja, devem-no os fiéis receber e abraçar segundo a mente do mesmo sagrado Concílio, a qual se deduz quer do assunto em questão, quer do modo de dizer, segundo as normas da interpretação teológica».

Isso não significa que o que esteja lá não seja magistério autêntico. Os ensinamentos do magistério autêntico requerem "um grau de adesão diferenciado, conforme a mente e a vontade manifestada, que se depreende sobretudo ou da natureza dos documentos ou da proposição frequente da mesma doutrina ou do teor da expressão verbal" (Congregação para a Sagrada Doutrina da Fé, Documentos do Magistério sobre a Professio Fidei)

Ou seja, no CVII existem:

a) atos de Magistério Ordinário, infalível, a que devemos assentimento da fé;

b) atos de Magistério autêntico, portanto não-infalível, mas a que devemos religioso assentimento da inteligência e da vontade;

c) atos de governo, a que devemos obediência, ainda que possamos pensar alguns deles serem inoportunos (mas nunca os criticaremos com falta de caridade e reverência).

No Concílio existiu verdades infalíveis implicitamente definidas, mas não de fé divina e católica, verdades de fé eclesiástica. É uma conclusão a que cheguei.

Verdades de fé eclesiástica são aquelas que servem de fundamento a outras verdades. Nesse caso, seriam verdades conexas com a Revelação. Vamos pensar, por exemplo, na colegialidade dos bispos. Se a ordem dos bispos mantém o poder supremo sobre a Igreja nas condições explicitadas pela "Lumen gentium", isto é, sempre unida ao Papa e nunca sem o Papa, isto é importante para a proclamação de eventuais verdades de fé. Logo, é verdade necessariamente conexa com a Revelação.

Devemos levar em consideração a anuência do episcopado pleno. O Código de Direito Canônico diz:

"Também o Colégio dos Bispos goza de infalibilidade no magistério quando, reunidos os Bispos em Concílio Ecumênico, exercem o magistério como doutores e juízes da fé e dos costumes, declarando para toda a Igreja que se deve aceitar definitivamente uma doutrina sobre a fé ou sobre os costumes; ou então quando, espalhados pelo mundo, conservando o vínculo de comunhão entre si e com o sucessor de Pedro, e ensinando autenticamente questões de fé ou costumes juntamente com o mesmo Romano Pontífice, concordam numa única sentença, que se deve aceitar como definitiva." (cân. 749, § 2).

Depois de 43 anos de seu encerramento, os ensinos do Vaticano II estão sendo confirmados pelo ensino dos bispos do mundo inteiro, em especial, após a promulgação do Catecismo da Igreja Católica, de sorte que seus ensinos caminham para a infalibilidade, por meio do magistério ordinário universal.

Salaverri, no Tratado III, sobre a Igreja, da "Sacrae Theologiae Summa", dos "Patres Societatis Iesu Facultatum Theologicarum in Hispania Professores" (disponível em espanhol no Mercabá), da BAC, diz que, mesmo o magistério ordinário do Papa pode ser infalível. Ele defende que há certa similaridade entre a infalibilidade do Papa e dos bispos, por conta de o Papa sozinho possuir, segundo o Concílio Vaticano I, toda infalibilidade concedida a Igreja (acredita também que possui essa infalibilidade nas distinções modais). Assim, o Papa seria infalível também quando, não definindo solenemente, apenas obriga os cristãos a uma certa postura ou doutrina.

Outros veem na continuidade do ensinamento uma exigência de infalibilidade:

"Parece-nos um sinal da infalibilidade o seguinte: como corolário da primazia da sé de Pedro, se o papa repete durante um certo tempo a mesma doutrina, sem que haja protestos do episcopado, necessariamente se segue a aceitação pelo conjunto do episcopado, e nos encontramos no caso da infalibilidade do magistério ordinário e universal. A aceitação pelo conjunto do episcopado é um sinal da infalibilidade do magistério pontifical, e não sua causa; a causa é a assistência particular à Igreja de Roma.", diz a nota de um artigo de Pe. Pierre-Marie, OP, disponível no site da Permanência.

O mesmo artigo reconhece que, usando as mesmas condições, pode se falar da doutrina que se repita no magistério ordinário conciliar, quando recebe ela a anuência do episcopado pleno:

"Ora, o magistério ordinário do papa pode ser infalível. Sobre este ponto a posição de Dom Paul Nau parece-nos equilibrada: para que haja infalibilidade, é preciso continuidade e coerência do ensinamento pontifical. Em conseqüência, o magistério ordinário pontifical deve se repetir durante um certo tempo para ser infalível."

Assim, para que o magistério ordinário dum concílio seja infalível, forçoso é que haja continuidade e coerência do ensinamento conciliar"

A infalidade radica, portanto, na pessoa do Pontífice, quando fala "ex cathedra".

Também os bispos, quando estão unidos entre si, e com o Papa, são infalíveis ao propor uma doutrina baixo a autoridade de um concílio ecumênico (magistério extraordinário), ou fora de um concílio ecumênico (magistério ordinário).

Aí vem os corolários:

Quando o Papa repete uma doutrina sem protestos do episcopado, supõe-se a sua aceitação pelo magistério ordinário universal.

Quando o magistério ordinário conciliar se repete sem protestos do episcopado, supõe-se a sua aceitação pelo magistério ordinário universal.

Quando um concílio proclama verdades não-infalíveis, mas que, depois são aceitas por todo o episcopado, esses ensinos podem ser considerados infalíveis.

O que eu acho mais irônico é que o Papa acaba de ter para com a FSSPX um gesto ecumênico. Queiram eles ou não, é o espírito ecumênico desenvolvido a partir do CV II que facilita o diálogo.

Para complementar o foco do artigo, coloco em destaque as palavras do Professor Carlos Ramalhete:

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Na minha humilde opinião, o Santo Padre mandou muito bem o convite, e agora compete ao Fellay e seus colegas conseguir voltar à Igreja (sem o Dom por não ter ele jurisdição e por estar ele suspenso a divinis, pecando gravemente se celebrar ou ministrar os Sacramentos. Espero ansioso poder chamá-lo de Dom e poder pedir-lhe a bênção).

Quanto eu digo voltar à Igreja falo em um sentido muito lato. Não se trata de questões legais. Questões legais o Papa resolve com uma canetada, como retirou com uma canetada a excomunhão dos quatro. Quatro que, aliás, eram cinco: o que era um núcleo cismático em Campos hoje em dia, graças a Deus, está dentro da Igreja.

O que é estar dentro da Igreja?

Não é estar em uma situação jurídica certinha. D. Casaldáliga está em uma situação jurídica impecável. O Padre Fulano, que usa um cibório de capim prensado em volta de um vaso de barro, idem. Irmã Sicrana, que defende aberrações do arco da velha e acha que o aborto é uma opção da mãe até os dezoito anos de nascido, também está.

Mas tampouco é ter a Fé Católica. Menos ainda ter os acidentes da Fé e não ter a essência.

Ser católico na segunda metade do século XX - e, por extensão, no começo do XXI - é como ser filho de pai cachaceiro. O Quarto Mandamento dói, dói de verdade. É fácil cumprir o quarto mandamento quando não há sombra de dúvidas de que quando rezamos pelo nossa mãe e a chamamos de serva devota, é isso mesmo. Mas quando o pai é cachaceiro, quando a mãe é arreligiosa, quando o padre é discípulo de Marx ou de algum guru da auto-ajuda, o buraco é mais embaixo.

Já dizia Madre Teresa: Amor só é verdadeiro quando dói. Dói ir à Missa e ficar procurando a Missa, o Sacrifício Incruento, debaixo da mistura bizarra de auto-ajuda com culto protestante que o disfarça. Dói ver coisas tão medonhas acontecendo aqui e ali que Deus chega a mandar um terremoto.

Mas pai é pai, mãe é mãe, a Igreja é mãe, o Papa é pai, e o Quarto Mandamento sempre foi o mais difícil de cumprir.

É a hora em que Deus nos coloca como colocou aos filhos de Noé. Não quero ser Canaã.

É isso que o respeito ao Quarto Mandamento exige, e é isso que parece faltar, na sua soberba, lefebvristas.

A Igreja é nossa mãe, nossa mãe amantíssima. Se, como houve com Noé, algo há de errado na forma como ela se apresenta, o mínimo que se pode fazer é ter a decência de trabalhar em prol dela, dentro dela. Fugir para uma capelinha onde se finge estar em 1950 e onde o padre ou o leigo se coloca como juiz do Sumo Pontífice - coisa que nenhum padre ou leigo sonharia em fazer em 1950 - é uma tentação tão medonha, é um igualitarismo tão radicalmente modernista, como qualquer delírio de um "construtor de um mundo novo" nas CEBs.

Quis ut Deus? E quem em sã consciência pode se arvorar em juiz da Igreja, da catolicidade do Papa?

A misericórdia do Santo Padre - "Dominus conservet eum, et vivivicet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius", como rezamos todos os dias nas laudes e vésperas - deu aos quatro filhos de Canaã a chance de agir como seus irmãos abençoados e voltar para a Igreja. Ótimo. Serão bem vindos, como foram bem vindos os Padres de Campos ( e confesso que digo "Benedicto", mas do fundo do meu coração é "Ferdinando" que me vêm e por quem peço a Deus que "stet et pascat in fortitudine ea et in sublimitate nomini eius").

Temos quatro décadas de lixo a limpar. Quatro décadas de distorções e negações frontais do ensino perene da Igreja, feitas em nome de um "Espírito do concílio", aproveitando cada ambiguidade e cada má leitura possível plantada pelo Inimigo, agindo no desespero de quem vê chegar ao fim os cem anos que lhe foram dados, pela cronologia do sonho de Leão XIII. Quatro décadas de violões e baterias levando a feiura demoníaca a conspurcar os acidentes do mais belo acontecimento pra cá do Céu. Quatro décadas de catequese negada, em que o protestantismo mitigado dos carismáticos é o que há de mais "religioso" em um panorama de devastação. Quatro décadas de destruição. Quatro décadas de negação da Verdade, de desobediência frontal à lei da Igreja e à Lei de Deus, sob a ridícula justificativa de que "o Concílio" (que não seria o de Trento, nem o Vaticano I...) "mudou tudo".

Mudou coisa nenhuma. Está errado quem se apega a uma suposta refundação da Igreja para pregar barbaridades comunistas, e está errado quem se apega à mesmíssima e supositíssima refundação para se arvorar em juiz da catolicidade do Papa.

Espero em Deus e na Santíssima Virgem que os quatro bispos ora suspensos a divinis peguem suas vassouras e ajudem, deixando na porta seus egos, deixando na porta a maldita e nefanda tentação da soberba que os fez tantas vezes arvorar-se - tal como ocorre com seus seguidores - juízes do Sumo Pontífice.

Fala asneiras o Dr. Willianson? Certamente. Nem mais, nem menos que D. Casaldáliga, e ambos movidos pela mesma tentação demoníaca de usar um concílio como desculpa para a desobediência e o culto a si mesmo, a mais grave forma de idolatria.

Tanto um quanto o outro, contudo, são chamados, como eu, leigo, sou chamado, mas em grau infinitamente superior pela ordenação que receberam - aliás, cabe lembrar que a única definição doutrinal do CVII é esta: a ordenação episcopal é essencialmente diferente da presbiteral - a defender a Verdade e a estar na Igreja, atuantes, como missionários da Verdade. Missionários da Verdade, notem bem. Não juízes do Concílio - dado não haver nenhuma diferença entre o valor do juizo de um e de outro sobre ele - nem, muito menos, do Papa, e por aí vai.

O Santo Padre - Dominus conservet eum, et vivivicet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius - está encarando uma briga monstruosa. É ele, com a ajuda de Deus, contra a Revolução, contra o Inimigo, contra a imbecilidade que quer acreditar na armadilha demoníaca de duas Igrejas, uma pré-conciliar e outra pós-conciliar.

O que compete a cada membro da Igreja Militante, de um pobre leigo idiota como eu a um Bispo, um Cardeal, um sujeito ordenado padre ou bispo (repetindo: diferença dada pelo CVII) e suspenso a divinis, um padre, uma freira, quem mais for, é colocar-se de joelhos diante do Santo Padre e dizer "aqui estou. Que devo fazer?". Fazer diferentemente é fazer como os vetero-católicos, que se separaram da igreja por acharem os jesuítas moralmente laxos e que hoje tentam ordenar mulheres, quiçá sapos ou pedras.

Espero em Deus que a armadilha da soberba não apanhe em seus laços aos quatro bispos ora suspensos - que fariam enorme bem se viessem a público proclamar que, em virtude de sua suspensão, não ministrarão os Sacramentos até a regularização de sua situação - e que eles, ao invés de ficar atrás das linhas, atirando no comandante, coloquem-se na linha de frente do campo de batalha.

Serão bem vindos.

Que Deus os guarde, e que nós os tenhamos sempre em nossas orações, bem como aos cismáticos russos e anglicanos, também caminhando de volta à Casa do Pai.

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São necessários muitos outros passos para se regularizar a situação canônica dos bispos e da SSPX como um todo. O prof. Carlos Ramalhete trouxe à tona vários desses aspectos. Explicando um, que é a
admissão à função episcopal na Igreja, de que fala o documento:

Foram sagrados 4 bispos sem autorização do Papa. As sagrações foram válidas, mas não lícitas, o que redundou na excomunhão agora suspensa. Mas, como não havia autorização papal, esses bispos nunca tiveram sede. Não são bispos de lugar nenhum, nem têm uma função estabelecida. Então, para regularizar a sua situação, o Papa precisa definir uma sede para eles. Todos os padres que eles ordenaram também estão "vagos", não incardinados em lugar nenhum, situação não admitida pelo Código de Direito Canônico.

É exatamente essa regularização que está sendo estudada agora.

Alguns apostam na possibilidade de serem erigidos em sociedade de vida apostólica de direito pontifício, como os palotinos e a própria FSSP (que saiu de um racha da SSPX quando das sagrações de Econe, em 1988), e não em prelazia pessoal. Até porque, nos anos 70, eles eram uma sociedade de vida apostólica de direito diocesano.

Uma pergunta: a estrutura como sociedade de vida apostólica resolveria também a questão dos fiéis leigos hoje ligados à SSPX, ou apenas dos padres?

Poderia resolver, criando-se, como o Código mesmo prevê, uma associação de fiéis estritamente ligada à sociedade de vida apostólica ou instituto de vida consagrada, como as ordens terceiras (ou o próprio Regnum Christi). Os fiéis continuariam fiéis de suas dioceses, mas pertencendo a um "movimento" com a mesma espiritualidade da SSPX.

Eventuais dificuldades de relacionamento entre a diocese e a tal "ordem terceira da SSPX" se poderiam resolver por meio de acordos e convênios.

Enfim, a tal ordem terceira já existe no seio da SSPX.

Concluo, que como o episcopado lefebvrista está dividido em 2 x 2, Dom Tissier e negador do Holocausto podem arrastar pra si uma porcentagem radicalista que está infiltrada no seio lefebvrista.

Qual seria o nome dessa nova organização? Fraternidade Sacerdotal Monsenhor Lefebvre?

 

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