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A arte musical na Missa


Conversando em privado com um amigo tradicionalista, o mesmo comentou que não gostou de um gênero musical do vídeo em questão e joguei a frase síntese dele no facebook, gerando um sadio debate sobre o tema. Aproveito para extrair do debate para cá os argumentos adicionando mais algum conteúdo sobre a música na Sagrada Liturgia.

Premissa: "Na Missa, violinos são abusos refinados. Para os de costumes elevados. A ralé é a guitarra a bateria o violão, quando não pandeiro..."

Desenvolvimento: Na Igreja, as almas realmente católicas querem ouvir e cantar músicas realmente católicas. No fundo, as almas católicas querem poder dizer que disse Santo Agostinho nas Confissões, IX, 6: "Quando não chorei com teus hinos e cânticos, emocionado com as vozes da tua Igreja, que canta tão suavemente!" É um direito seu. Deve haver ruptura entre o que nossos ouvidos ouvem no mundo e o que devem ouvir nas igrejas "Entre os judeus, pensava-se que o Cântico, no templo não devia ser diferente do que se cantava nas representações profanas." Bento XIV, Encíclica Annus qui, 19/02/1749. Não haver descontinuidade é fomentar o espírito profano de secularização nas missas e cerimônicas religiosas. O compositor sacro que não tiver vida interior, que não for antes cultor de outra arte, chamada prática das virtudes, jamais saberá transpor para a pauta a música sacra, de que os fiéis sentem saudade. Essa a miséria de hoje.

Sem espiritualidade é impossível compor música sacra e bela.

É por esta razão que permanecem sempre válidos os princípios gerais estebelecidos por São Pio X sobre a liturgia e a música sacra no seu Motu Proprio de 1903, Instrução denominada, pelo próprio Pontífice, código jurídico de Música Sacra. Estes princípios foram reassumidos por Pio XI , Pio XII e pelo próprio Concílio Vaticano II.

Ouçamos o grande Papa da Eucaristia e da Música sacra. Inicialmente, na Introdução, afirma Pio X:

Nada, pois, deve suceder no templo que perturbe ou, sequer, diminua a piedade e a devoção das fiéis, nada que dê justificado motivo de desgosto ou de escândalo, nada, sobretudo, que diretamente ofenda o decoro e a santidade das sacras funções e seja por isso indigno da Casa de Oração e da majestade de Deus.

Em seguida, dá os GRANDES PRINCÍPIOS, válidos até hoje:

[A música sacra, como parte integrante da Liturgia solene, participa do seu fim geral, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis. A música concorre para aumentar o decoro e esplendor das sagradas cerimônias; e, assim como o seu ofício principal é revestir de adequadas melodias o texto litúrgico proposto à consideração dos fiéis, assim o seu fim próprio é acrescentar mais eficácia ao mesmo texto, a fim de que por tal meio se excitem mais facilmente os fiéis à piedade e se preparem melhor para receber os frutos da graça, próprios da celebração dos sagrados mistérios.

Por isso a música sacra deve possuir, em grau eminente, as qualidades próprias da liturgia, e nomeadamente a santidade e a delicadeza das formas, donde resulta espontaneamente outra característica, a universalidade.Deve ser santa, e por isso excluir todo o profano não só em si mesma, mas também no modo como é desempenhada pelos executantes.

Deve ser arte verdadeira, não sendo possível que, doutra forma, exerça no ânimo dos ouvintes aquela eficácia que a Igreja se propõe obter ao admitir na sua liturgia a arte dos sons. Mas seja, ao mesmo tempo, universal no sentido de que, embora seja permitido a cada nação admitir nas composições religiosas aquelas formas particulares, que em certo modo constituem o caráter específico da sua música própria, estas devem ser de tal maneira subordinadas aos caracteres gerais da música sacra que ninguém doutra nação, ao ouvi-las, sinta uma impressão desagradável.]

Santidade, beleza das formas, universalidade - eis as três características da verdadeira Música Sacra, segundo a Igreja, de São Pio X ao Vaticano II; para que a música sacra seja universal tem que ser santa e bela nas formas. A indissociabilidade das três notas é característica da música sacra.

Na arte profana encontramos algo semelhante dentro desta perspectiva do princípio de conexão que chamamos princípio do convertuntur. Os verdadeiros gênios são universais e ao mesmo tempo característicamente, nacionais. Precisamos ser autênticos para sermos nacionais. O cheiro da terra, o sotaque da língua, o modo de ser nacional virão por acréscimo, por via de consequência. O que é verdadeiro é comum. Machado de Assis, o mais brasileiro dos autores nacionais, escreveu o que poderíamos também dizer dele mesmo:

" Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocábulo e nada mais. Aprecia-se a cor local, mas é preciso que a imaginação lhe dê os seus toques, e que estes sejam naturais, não de acarreto (...) Perguntarei mais se o Hamlet, o Oleto, O Júlio César, a Julieta e Romeu tem alguma coisa com a história inglesa ou com o território britânico, e se entretanto Shkespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês" Literatura Brazileira - Instinto de nacionalidade, in Crítica, Ganier, Rio pág 23 e 13.

Uma objeção de progressista: "Isto era no tempo de Pio X! Tivemos o Concílio Vaticano II!"
Respondamos: A Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium dedica todo o capítulo VI à Música Sacra (n 112 a 121). Ora, este capítulo é todo plasmado, fundamentalmente, no Motu Proprio Tra le Sollicitudine (1903) de São Pio X, "código jurídico da Música Sacra" a que também seguiram Pio XI e Pio XII. Senão vejamos a coincidência, ora na expressão e sentido, ora no sentido:

São Pio X:

A música sacra, como parte integrante da Liturgia solene, participa do seu fim geral, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis. (1)

Concílio Vaticano II:

A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene. (112)

São Pio X:

Por isso a música sacra deve possuir, em grau eminente, as qualidades próprias da liturgia, e nomeadamente a santidade e a delicadeza das formas, donde resulta espontaneamente outra característica, a universalidade.(2)

Concílio Vaticano II:

A música sacra será, por isso, tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à acção litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como factor de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas. (112)

São Pio X:

Mas seja, ao mesmo tempo, universal no sentido de que, embora seja permitido a cada nação admitir nas composições religiosas aquelas formas particulares, que em certo modo constituem o caráter específico da sua música própria, estas devem ser de tal maneira subordinadas aos caracteres gerais da música sacra que ninguém doutra nação, ao ouvi-las, sinta uma impressão desagradável. (2)

Concílio Vaticano II:

A Igreja aprova e aceita no culto divino todas as formas autênticas de arte, desde que dotadas das qualidades requeridas. (112)----Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social.

Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os art. 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas acções sagradas. (119)

Sagrada Congregação para os Ritos (1967):

A adaptação da música nas celebrações, naquelas regiões que possuam tradição musical própria, sobretudo nos países de missão, exigirá dos peritos uma preparação especial:[42] trata-se, com efeito, de associar o sentido das realidades sagradas com o espírito, as tradições e o carácter simbólico de cada um destes povos. Os que se consagram a este trabalho devem conhecer suficientemente, tanto a Liturgia e a tradição musical da Igreja, como a língua, o canto popular e o carácter simbólico do povo para o qual trabalham. (61)

São Pio X:

Estas qualidades se encontram em grau sumo no canto gregoriano, que é por conseqüência o canto próprio da Igreja Romana (...) Procure-se nomeadamente restabelecer o canto gregoriano no uso do povo, para que os fiéis tomem de novo parte mais ativa nos ofícios litúrgicos, como se fazia antigamente (3)

Concílio Vaticano II:

A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar. (116) Procure terminar-se a edição típica dos livros de canto gregoriano; prepare-se uma edição mais crítica dos livros já editados depois da reforma de S. Pio X. Convirá preparar uma edição com melodias mais simples para uso das igrejas menores. (117)

Sagrada Congregação dos Ritos (1967):

Com o nome de Música Sacra designam-se aqui: o canto gregoriano, a polifonia sagrada antiga e moderna nos seus vários géneros, a música sagrada para órgão e outros instrumentos admitidos e o canto popular, litúrgico e religioso.[3]
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Tendo em conta as condições locais, a utilidade pastoral dos fiéis e o carácter de cada língua, os pastores de almas julgarão se as peças do tesouro de Música Sacra compostas no passado para textos latinos, além da sua utilização nas acções litúrgicas celebradas em latim podem sem inconveniente ser utilizadas também naquelas que se realizam em vernáculo. Com efeito, nada impede que numa mesma celebração algumas peças se cantem em língua diferente.(51)

(52) Para conservar o tesouro da Música Sacra e promover devidamente novas criações, "dê-se grande importância nos Seminários, Noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas, à formação e prática musical", mas, sobretudo, nos Institutos Superiores especialmente destinados a isto.[37] Deve promover-se antes de mais o estudo e a prática do canto gregoriano, já que, pelas suas qualidades próprias, continua a ser uma base de grande valor para o cultivo da Música Sagrada.

São Pio X:

A língua própria da Igreja Romana é a latina.

Concílio Vaticano II:

Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.(7) Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem. (54)

Sobre instrumentos musicais

São Pio X:

Todavia, como a música moderna foi inventada principalmente para uso profano, deverá vigiar-se com maior cuidado por que as composições musicais de estilo moderno, que se admitem na Igreja, não tenham coisa alguma de profana, não tenham reminiscências de motivos teatrais, e não sejam compostas, mesmo nas suas formas externas, sobre o andamento das composições profanas. (5)

Pio IX:

A Igreja tem ademais o seu tradicional instrumento musical; referimo-nos ao órgão, que pela sua maravilhosa grandiosidade e majestade foi considerado digno de se enlaçar com os ritos litúrgicos, ora acompanhando ao canto, ora durante os silêncios dos coros e segundo as prescrições da Igreja, difundindo suavíssimas harmonias. Mas também nisto há que evitar essa mescla de sagrado e de profano, que devida por um lado a modificações introduzidas pelos constructores organeiros, e por outro a novidades musicais de alguns organistas, vai ameaçando a pureza da santa missão a que o órgão está destinado a realizar na Igreja. Também Nós desejamos que, salvas sempre as normas litúrgicas, se desenvolva cada dia mais, e receba novos aperfeiçoamentos o quão se refere ao órgão. Não podemos contudo deixar de lamentarmo-nos de que, assim como acontecia noutros tempos com géneros de música que a Igreja com razão reprovou, assim também hoje se tente com moderníssimas formas voltar a introduzir no templo o espírito de dissipação e de mundanidade. Se tais formas começassem novamente a infiltrar-se, a Igreja não tardaria um segundo a condená-las. Ressoem de novo nos templos só aqueles acentos do órgão que estão em harmonia com a majestade do lugar e com o santo perfume dos ritos. Somente assim a arte do órgão reencontrará o seu caminho e o seu novo esplendor, com vantagem verdadeira para a liturgia sagrada. ( Constituição Apostólica Divini Cultus 15)

Concílio Vaticano II:
Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido nos art. 22 § 2, 37 e 40, contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis. (120)

Conclusão: Vejam o que Dom Aníbal Bugnini falava sobre os instrumentos: "São excluídos, de modo absoluto, do uso sacro, os instrumentos fragorosos, (baterias), profanos (piano) ou ligeiros (acordeon, guitarra, bandolim). Semelhantemente, é também proibida a orquestra mista composta destes isntrumentos. (Resposta a consulta feita em 1970, publicada na Legislazione musicale-liturgica, p. 133) [PS: Aos nossos leitores lefebvristas & adjacentos, destaco que com esse trecho não estou exaltando A ou B ou feito C. Aqui se trabalha o CONTEÚDO]

O órgão é o instrumento mais apropriado, sem dúvida, mas o violino não é um abuso nem mais, nem menos refinado: simplesmente não é um abuso.

O que faz do órgão um bom instrumento para a liturgia é a capacidade de sustentar o som e isso pode ser também obtido com instrumentos de corda e arco, como o violino. No Motu Proprio de S. Pio X, Tra le Sollecitudini, permite-se outros instrumentos, desde que se aproximem desta qualidade do órgão - isso exclui piano e violão, que não sustentam o som.

Além disso, devo lembrar-lhes que o violino é expressamente permitido por Pio XII na sua Encíclica Musicae Sacrae Disciplina, e é colocado "em primeiro lugar" no rol dos outros instrumentos bons para a liturgia; Pio XII louvava o uso do violino e outros instrumentos de arco tanto sozinhos como unidos ou ainda acompanhando o órgão - o que abra espaço para orquestras, por exemplo: "Além do órgão, há outros instrumentos que podem eficazmente vir em auxílio para se atingir o alto fim da música sacra, desde que nada tenham de profano, de barulhento, de rumoroso, coisas essas destoantes do rito sagrado e da gravidade do lugar. Entre eles vêm, em primeiro lugar, o violino e outros instrumentos de arco, os quais, ou sozinhos ou juntamente com outros instrumentos e com o órgão, exprimem com indizível eficácia os sentimentos, de tristeza ou de alegria, da alma" (nº 29). Isso veio de um Papa violinista e alto conhecedor de liturgia, responsável por primores de Teologia litúrgica como a Encíclica Mediator Dei. Pio XII não era um promotor de "abusos refinados".

O piano e o violão não são adequados porque assim que o som começa, já está acabando; o som não se sustenta. Enquanto no violino pode sustentar uma nota só por um, dois, três... quantos tempos couberem no arco - e essa é a propriedade do órgão de tubos, sustentar o som -, no piano e no violão a nota só tem um tempo, começa e termina. O som do piano e do violão é preciso.

Os liturgistas e os Papas entendem que instrumentos de som preciso não contribuem para a meditação e a oração que a liturgia existe; seria como rezar com uma torneira pingando, entendem? Já os instrumentos que sustentam o som contribuem para o clima próprio da liturgia exatamente porque podem deixar o som em suspenso; eles podem imitar o canto gregoriano.

 

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