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Céu, Purgatório e Inferno. Lugar ou estado de espírito?


Esse assunto está sendo muito discutido em consequência dos desenhos da jovem coreana sobre o Inferno.

Dom Marcel Lefebvre escreve no livro "A vida espiritual segundo são Tomás de Aquino, Cap. X, pág. 96: "O que se passa no exato momento em que a alma foi, de certo modo, expulsa por um corpo que não estava mais em condições de ser animado por ela? Santo Tomás, apoiado nas palavras de Nosso Senhor, estima que as almas, segundo o estado em que se encontram, procuram por elas mesmas os lugares que lhes são destinados, como os corpos procuram seus lugares, atraídos pela gravidade"

Na verdade, Deus criou o homem com corpo e alma, e isso não será mudado. Já era assim antes do pecado original, continuará assim na Glória ou na condenação.

Basta fazer uma pequena comparação entre nossos pais no paraíso (antes do pecado original) com os ressuscitados no Céu;

E entre nós, pecadores com a herança do pecado original com os condenados ao inferno, para vermos que a lógica é manter

A natureza humana em corpo e alma.

Além disso, temos outras evidências.

Deus proporcionará ao homem a melhor forma de contemplá-lo em Sua Glória após o Juízo Final. E, além da Suma Teológica, podemos concluir que a melhor forma é com o corpo humano (que completa a natureza humana) por meio da Assunção de Maria. Ora, se fosse melhor sem um corpo físico, então Deus não permitiria que a 1ª dentre todas tivesse um corpo lá no Céu.

A argumentação utilizada pela teologia moderna é um tanto ignorante, pois se baseia, dentre outras coisas, na ideia de que tendo o anjo incorpório uma natureza superior, então nós não teremos corpos.

Ora, isso é absurdo por dois motivos:

1) O fato de não termos corpos não nos torna anjos, caso contrário, o purgatório estaria cheio de anjos. É evidente que nossa natureza no purgatório continua sendo a humana, só que ele virá a ser completa (perfeita, nas palavras de Santo Tomás) após a união da alma com o corpo, pois não pode ser perfeito uma parte sem a outra que lhe complete;

2) Porque o fato da natureza angélica ser superior não nos impede de termos uma visão beatífica quantitativamente superior à dos anjos.

*tendo o anjo incorpório uma natureza superior, então nós não teremos corpos para nos aproximarmos à sua natureza.

Aliás é o contrário. Proporcionalmente, nas palavras de Santo Tomás, a visão beatífica que têm os anjos já está completa (pois perfeita está sua natureza), enquanto a das almas que já estão no Céu ainda não está completa, pois sua natureza não está perfeita, já que o corpo não está unido à alma.

Veja bem, eu não estou dizendo que a alma sem o corpo não pode ter a visão beatífica. Isso seria herético. Tanto podem como os Santos já têm.

O que estou dizendo que é, nas palavras de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino, o corpo humano contribui para a perfeição de sua natureza, pois "a beleza do corpo ou a presteza do engenho contribuem para a perfeição do homem".

Para a existência de um corpo, é necessário também a existência de um lugar.


O fogo material, por exemplo, que há no inferno, implica a existência de um lugar. No purgatório, parece que também há fogo material. O fato de o fogo simbolizar algo, não contraria a sua existência literal. E, se existe literalmente, isto demanda um lugar.

O Catecismo Romano diz que nosso corpo irá ressuscitar da mesma forma que nos encontramos, a diferenca é que entrará no céu perfeito, tal o corpo de Cristo - São Tomas de Aquino, diz que teremos todos 33 anos como Cristo. Apesar de ser um corpo transformado, luminoso, impassivel de sofrer dores, rapido, ele seria material - se material ocupa lugar, esta que é a questão.

Dom Manuel Falção diz assim: A reflexão cristã levou a considerar o Inferno como estado (não lugar) de auto-exclusão da comunhão amiga de Deus pelo pecador impenitente que a morte fixou na eter nidade de forma irreversível na aversão a Deus. A Escolástica e o ensino comum da Igreja acrescentam à “pena de dano” (desespero pela perda culpável da feliz comunhão com Deus e os eleitos no Céu), a “pena dos sentidos” (castigo, figu rado pelo fogo eterno, pelos danos que os pecados causaram). A Igreja, quando fala do Inferno, apela ao sentido de responsabili dade moral e à conversão sincera, ao mesmo tempo que lembra a misericórdia infinita de um Deus sempre pronto a perdoar, afastando a falsa ideia de que Ele predestina alguém à pena eterna. Cf. Cat. 1033-1037.

MML Pimenta diz o seguinte: "se a alma não é nada, ela é alguma coisa. Se é alguma coisa [criada] possui limite.

Se possui limite ela há que ocupar um lugar no espaço. Se ela ocupa um lugar no espaço, há os espaços convenientes para cada "tipo" de alma. Se há os lugares convenientes e adequados para cada alma, há locais onde elas se agregam para cumprir, cada uma e coletivamente, o seu destino post mortem. Se há os locais definidos e específicos onde há castigo, gozo, purga ou expectativa da justiça divina, há que haver Inferno, Céu, Purgatório"

"O fogo do purgatório, conforme os teólogos, há de ser concebido à semelhança do que existe no inferno, no tocante à sua natureza e ao seu modo de agir. É real e corporal. Elevado por Deus à qualidade de instrumento, pode produzir efeito no espírito humano" Dom Estêvão Bettencourt, A vida que começa com a morte, Cap. V, Pág. 94.

Se há, portanto, fogo material, há lugar real. São desse parecer Sta Catarina de Gênova - que tem um tratado sobre o Purgatório -, Sta Catarina de Sena, Sto Tomás, Sta Teresa D'Avila.. Além disto, sabemos que Jesus e a Virgem Maria estão corporalmente no céu. Novamente, depreende-se a existência de um lugar.

Veja que Jesus ao mostrar suas chagas a São Tiago, era bem material, apesar de ter atravessado as paredes.

Não é 'de fé' a materialidade do fogo do inferno e que 'livremente' se discute entre os teólogos se o inferno é lugar ou só estado. Isso é dito pelo “Cathecismus Catholicus” elaborado pelo Cardeal Gaspani.

O Cardeal diz: É disputado ainda livremente entre os teólogos de que maneira o fogo real pode atormentar os espíritos puros, como o dos demônios, e as almas dos condenados antes da ressurreição dos corpos; qual a natureza do fogo do inferno; onde se encontra o inferno, se acima, ou abaixo da terra, se é um lugar, se é um estado..."

A ação do fogo sobre as almas é, segundo a doutrina mais comum, com o fim de aprisionamento, e não de cremação. Isto porque as almas não são materiais e, portanto, não podem se queimar.

Lembremos, ademais, que, após a ressurreição da carne, os condenados terão, sim, corpos e, portanto, "matéria para queimar" no fogo do inferno. Santo Tomás mesmo que os corpos dos condenados terão duas propriedades: incorruptibilidade e passibilidade, pois para que o fogo do inferno os atormente sem consumi-los é necessário que sejam incorruptíveis, e para que sofram o dano eterno é necessário que sejam passíveis.

Vemos, portanto, que no inferno existe fogo real, não metafórico (embora não se saiba sua natureza), e que esse fogo tem ação de aprisionamento sobre as almas (até a ressurreição da carne), e de cremação (após a ressurreição), ainda que, nesta última, os corpos sofram, queimem, mas não se consumem.

Um documento do papa João Paulo, O Inferno como rejeição denifitiva de Deus diz: "O inferno está a indicar, mais do que um lugar, a situação em que se vai encontrar quem de maneira livre e definitiva se afasta de Deus, fonte de vida e de alegria. - logicamente, ele nao ia contradizer o catecismo. Ou seja, creio que não tenha a Igreja definido ou se um dia vai definir."

O inferno existe, é um local físico e está cheio”. Papa bento XVI em alocução de 08/02/2008, durante um encontro que marcava o início da Quaresma daquele ano.

Conclui-se então, que Céu, Purgatório e Inferno são lugares e não estado de espírito.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino