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Demonização do Rock?

A Teologia enriquece a pessoa humana no amor a Deus e a Igreja e temos (Pela Tradição) um vasto conteúdo teológico e filosófico para divulgar e ensinar o correto. Embora não há problema alguns leigos elaborarem textos próprios com base doutrinária sobre alguns aspectos sociológicos temos uma fileira de teólogos virtuais que querem a todo custo colocar a sua concepção pessoal de vida para tratar questões de moral e fé.

Com isso, ao tratar a questão da música, carimbaram o
Rock como ritmo exclusivo do chifrudo. Será?

O rock, acho que como todos os estilos em geral, tem em si coisas boas, mas que se levadas ao excesso podem ser más.

Esse ritmo tem dois temas principais: o amor sensível ou algum tipo de revolta contra algo. Se cair nos extremos da impureza ou da ira desmedida vai longe demais.

Mas em si mesmas essas paixões não são más. O homem não é um anjo, e o amor sensível ajuda-o a atingir o bem e as paixões irascíveis a superar nossos obstáculos.

Também é verdade que essas paixões precisam ser estimuladas de alguma maneira. Por isso vejo sentido quando dizem que ouvir heavy metal ajuda a liberar agressividade.

A melodia e ritmo dão uma idéia geral, o espírito, da música. Mas é a letra que define especificamente do que ela trata e que dá seu objeto particular. Assim, devemos considerar ao menos nos abster de ouvir músicas com letras objetiva e inequivocamente perversas, por exemplo, com insultos a Deus ou à Igreja.

Isso varia de pessoa para pessoa: o que estimula de maneira extrema a sensibilidade de um pode não ter efeito tão forte sobre outro; cada um deve saber melhor que tipo de música lhe convém melhor e quais é melhor evitar.

Muitos fãs e bandas menores caem na mais profunda treva de ira e ódio com o heavy metal e estilos derivados.

É agradável ouvir rock clássico dos anos 50 e 60 (antes do Sgt. Peppers mudar tudo).

Mas mesmo o rock psicodélico, o progressivo, e mais tarde o punk rock têm coisas muito boas.

Desde o fim dos anos 60 o rock passou a estar associado a diversas correntes espirituais; mas essa ligação é

totalmente acidental e não tem nenhum efeito sobre alguém que tenha uma mínima maturidade espiritual.

São coisas totalmente diferentes ser capaz de apreciar Stairway to Heaven como boa música e aderir às crenças alquímicas e gnósticas que constituem seu pano de fundo.

Da mesma forma que é perfeitamente possível gostar do gospel tradicional americano
sem aderir de forma alguma ao protestantismo.

Além do que, mesmo a música européia tem suas raízes em culturas pagãs, e isso não a torna má.

Em suma, não há mal no rock apreciado com a devida proporção. Se restringir apenas ao rock é uma escolha muito empobrecedora do gosto, no entanto.
A diversão buscada moderadamente é boa. A alma precisa do repouso dado pela diversão para poder funcionar melhor quando se dedica a coisas sérias.

Querer viver para a diversão, que é um perigo muito próximo de nós hoje em dia, é um erro tremendo, é claro. Mas músicas que visam a diversão não são por isso condenáveis.

Afinal, toda música que não sacra visa, em todas as épocas, em primeiro lugar ou a apreciação estética elevada (música erudita) ou a diversão (música popular), ou ambas (afinal, a distinção erudita-popular não é tão simples como parece à primeira vista).

Ao longo de toda a história da humanidade, Antigüidade, Idade Média, Idade Moderna, os homens fizeram música para passar o tempo, para se divertir, dançar, se relacionar, etc.

A música foi criada por Deus para deleite dos seus filhos e anjos, que por sua vez, naturalmente a usaram para adorar a Deus, alem do seu uso ordinário que é o simples deleite da música. (Assim como os alimentos eram ofertados a Deus no AT por exemplo.)

O homem, com sua tendencia ao pecado, levou a música por muitos caminhos, (longe de Deus), mas nem por isso a música em si passou a ser má. Quem nos garante que todos os alimentos que comemos são cultivados por pessoas boas?

Existem músicas muito calmas, que podem levar ao adultério ou à fornicação. Outras eruditas que podem levar ao ateísmo e à depressão, e tambem existem rocks que podem levar à agressividade, ao uso de drogas, etc... mas somente de forma subjetiva, ou seja, para quem já está fortemente pendente a isso.

Desta forma, a alteração de ânimos do rock, enquanto ritmo apenas, que muitos querem apontar como negativo, pode ser positivo, pode afastar a melancolia, pode alegrar, da mesma forma que uma música calma, pode acalmar, ajudar à reflexão, mas quem disse que vivemos apenas de momentos de reflexão?

Quanto à diversão, é claro que pode ser exercida de forma moderada e saudável. Há, no entanto, certas distrações que, se puderem evitadas em favor de um maior proveito espiritual, será ainda melhor. Mas o mau mesmo, está no uso desordenado:

É por esta razão que te digo, Filotéia, que embora não seja pecado um jogo comedido, uma dança modesta, vestir-se rica e elegantemente, sem ares de sensualidade, um teatro honesto quanto à composição como quanto à representação, um bom jantar, sem intemperaça, contudo, a afeição que se poderia adquirir a estas coisas seria inteiramente contrária à devoção, muito nociva a alma e de grande perigo para a salvação - SALES, S. Francisco de. Filotéia. Petrópolis: Vozes, 1986.
Sobre "Rock Católico" (leia-se músicas rock contendo letras com um propósito evangelizador): as duas coisas são de fato conciliáveis. De modo bem geral experiências desse tipo deixam a desejar muito em qualidade estética.

Não podemos ser de todo contrário a estas adaptações. Qualquer História da Colônia mostra como os padres jesuítas vertiam letras de músicas piedosas para as línguas gerais dos indígenas, além de usar instrumentos e ritmos já conhecidos e apreciados pelos nativos. E é claro que foi de grande proveito para a catequização.

Agora, isso precisa ser feito com muito cuidado, creio, a fim de não trazer riscos para a Fé. O objetivo é catequizar, é ensinar a vida devota, e não fazer uma paródia de certos ritmos só pra agradar aos jovens.

Quanto a tocar estas músicas na Santa Missa, sou radicalmente contrário, porque destoam completamente da atmosfera condizente com a realização do Santo Sacrifício.

Não é adequar a religião aos nossos gostos pessoais, é colocar cada coisa no seu lugar. Evidente que música litúrgica é uma coisa e forró outra. E qual o problema? Suscitar as paixões é sempre ruim? Não, não é. De outra forma ninguém teria vida sexual no matrimônio, apreciaria diferentes sabores numa refeição ou lutaria numa guerra justa.

Portanto, o rock vai suscitar paixões sim, mas se puder fazer isso num âmbito que tenha limites (e limites católicos), qual o grande problema? Relembro, não se está advogando o uso dessas músicas na liturgia, momento em que nossa concentração deve se dirigir para Deus primordialmente.

Concordamos que essas formas musicais não devem ser usadas na liturgia. Não há o que discutir.

No resto, a divergência deriva das paixões que são suscitadas pelo ritmo (não das letras, pois essas podem ser adaptadas). Nesse sentido, o músico, querendo guiar sua arte para longe do que não seria adequado para um cristão (um de verdade, não uma caricatura fria), pode fazer isso sem grandes problemas.

Não é só um ritmo que faz nascer as paixões, todo um contexto trabalha em apoio ou limitação a ele. Sua hipótese só se efetivaria se estivéssemos falando de uma pessoa parada, de olhos fechados, num quarto escuro, ouvindo a música e só se concentrando nela. A vida real não é assim, nossa sensibilidade é atingida ao mesmo tempo de maneira múltipla. O ideal é que o católico faça essas múltiplas coisas se equilibrarem.

Esse tipo de postura irreal é que produz aqueles catecismos sobre namoro: beijo é pecado, só na frente dos pais, etc. Como se qualquer excitação sensível fosse de si errada (e é bom lembrar que a excitação também pode ser espiritual e inadequada).
Há tradicionalistas que são contra o Rock e outras músicas modernas que suscitam as paixões: Temos musicas e estilos hoje, não só o Rock, que incita à revolta, à revolução, à imoralidade, ao sensualismo e, explicitamente em alguns casos, ao satanismo.

Mas, pensemos bem, Rock é um gênero muito abrangente. Entram aí tanto artistas satânicos com suas letras blasfemas, que um católico, tendo consciência disso, não vai querer escutar, como outras que nada tem a ver com este contexto. Eu, quando escutava Rock, passava por músicos de todo tipo. No entanto, não podemos associar certas músicas (não falo de letras, para as quais eu nem dava muita bola) à revolução, à desobediência, etc. Muito pelo contrário, as vezes elas podem suscitar o inverso de tudo isso. É necessário todo um contexto, para que o apreciador da música desenvolva este ou aquele sentimento . Creio que é aqui que mora o problema e sobretudo os mais jovens devem ter muito cuidado.

O problema de muitos católicos tradicionais com o rock não é só com ele, mas com todo e qualquer ritmo de influências africanas.

Que seja algo bem diferente da música européia (muito mais enfoque no ritmo, toda uma ginga na dança, etc) não há dúvidas; e é claro que nem todo mundo vai se adequar muito aos ritmos africanos.

Mas tentar explicar com bases teóricas e apriorísticas porque a música rock (ou outro estilo de que não se goste) é má em si mesma (um sujeito uma vez me disse que a estrutura rítmica do rock produzia na mente o efeito de uma falácia argumentativa!) é um uso indevido da teoria estética. É tentar, de forma cartesiana, adequar toda a realidade e pressupostos teóricos e abstratos de como a música deve ser, e depois se basear em preconceitos para discartar a priori todo gênero de que não gostem.

"O rock provoca a raiva desmedida ou o sensualismo": pode provocar, se levado ao excesso (aliás, a música barroca também pode produzir vícios!). Mas não é algo necessário.

Não podemos dizer que o Rock causa vício, mas que pode causar. A bebida alcólica tambem pode ser viciante, mas nem por isso ela é má em si mesma.

Além disso, a argumentação contra ao Rock está inserida a noção de que o clímax emocional é necessariamente ruim, mas ele não é. De outro modo, Deus não teria usado algo semelhante, com descarga de várias substâncias pelo corpo, para promover as relações sexuais (me refiro ao orgasmo). Ele será contrário ao Plano de Deus dependendo do contexto em que ocorra.

Esse princípio é tão certo, que as mesmas pessoas que se colocam contra a emoção na música, não deixam de aprovar e admirar as composições militares que no passado eram executadas nos campos de batalha. No âmbito de uma guerra justa qual seria o mal de incentivar o combate? Nenhum.

Analogamente, portanto, podemos falar o mesmo de ritmos modernos. A moralidade deles estará relacionada com o fim que promoverem num determinado contexto.
O melhor modo de se proceder em estética é primeiro constatar que algo é belo ou atraente e depois examinar a coisa para descobrir quais os princípios existentes nela por meio dos quais ela é bela ou atraente.

E isso é o contrário de pensar em regras a priori do que é belo ou atraente, e passar a aplicá-las como se fossem critérios universais para todos os casos ("opa, saiu dos padrões definidos na Grécia: é um erro musical").

Sobre os efeitos fisiológicos da música: são descobertas muito interessantes essas (se é que confiáveis), mas não vejo como elas podem ser essenciais para uma discussão sobre a moralidade do rock.
Afinal de contas, uma avaliação do rock deve levar em conta, entre outras coisas, os efeitos que ele produz na conduta e disposição da pessoa. Esses efeitos devem ser perceptíveis. Se o único jeito de percebê-los for analisando as células, isso significa que eles são tão tênues que, para a conduta moral, são irrelevantes.

Essas pesquisas revelam os mecanismos (batimentos cardíacos, adrenalina, etc) pelos quais o rock produz seus efeitos na pessoa: deixa-a com mais energia, mais determinação, mais "vibrante" ou "elétrica"; ou seja, excita sua paixão irascível, que é aquela que nos ajuda a vencer obstáculos que se colocam entre nós e algum bem.

A irascibilidade não é um mal. Apenas um estóico, para quem todas as paixões são más, pensaria assim. Mas nós sabemos que as paixões têm sua razão de ser: são o auxílio animal à nossa vontade para que ela alcance o que a razão lhe mostra como bom. As paixões são más apenas se contrárias à razão.

Se alguém ouve rock e fica incontrolável e raivoso, então deveria repensar seus hábitos musicais. Mas a maioria das pessoas fica apenas mais ativa, mais sensivelmente determinada, agitada, corajosa, etc. Isso não é mau, desde que mantido num nível razoável.

O que é a arte, afinal? É uma imitação da natureza. Está aí um princípio que foi desenvolvido na Grécia que, até onde vejo, tem aplicabilidade universal.

Mas há muitas coisas diferentes que podem ser objeto de imitação pela arte; e o próprio modo como a arte é feita (o estilo) mostrará novas coisas e de novas maneiras, realçando aspectos que outros davam menos atenção.

Agora, se alguém fizer o absurdo de dizer que a beleza da música depende apenas de relações matemáticas, discordo completamente. A harmonia é muito importante para a música; mas essa posição levaria a pessoa que concorda com ela a ter que afirmar que é possível descobrir qual é a melhor música que o homem pode fazer por meio de equações matemáticas.

A boa música, além da harmonia e das razões, trabalha também com elementos inesperados e de quebra de expectativa. Até onde eu saiba, isso é verdade até mesmo na música barroca e na clássica, os estilos nos quais o refinamento estético ocidental e o domínio das técnicas e da teoria musical chegaram ao seu máximo.
Mas seria um erro meu dizer, por exemplo, que portanto toda boa música tem esses dois elementos. É perfeitamente possível que uma música previsível, sem nada de inesperado, seja belíssima.

A beleza de uma obra depende da nobreza da realidade que essa obra imita ("representa"), e da clareza com que consegue trazer essa realidade aos apreciadores. Aquela definição medieval da beleza como "esplendor da verdade" ressalta exatamente: o belo é tornar claro, e de modo criativo, a verdade das coisas.

E como saber se uma obra é realmente bela ou se apenas agrada a muitos mas é vulgar? É uma questão similar à se uma ação é boa ou não. Se for a apreciação de uma pessoa educada e sensível, e se produzir bons efeitos nela, então é verdadeiramente bela; se for a apreciação de um ignorante de gosto grosseiro.
Assim, se eu tivesse que resumir minha posição, diria que há sim um princípio universal de toda a beleza (ou ao menos de toda arte humana): imitar a natureza de forma a exprimir clara e criativamente a verdade.

Os princípios secundários (razão entre os sons, proporção entre as cores, tempo das batidas, fluência dos gestos e passos, etc) são múltiplos e admite-se até que alguns sejam contrários entre si, desde que contribuam para o fim da arte.

Assim, é claro que o rock é uma arte inferior, esteticamente, ao canto polifônico renascentista. Mas não é por isso que uma arte é boa e outra é má, ou que devamos ficar apenas com o canto polifônico e jogar fora todo o resto. Eles se prestam a momentos e fins próximos diferentes, e ambos têm sua razão de ser.

E como a natureza, na sua multiplicidade, reflete Deus, chegamos ao ponto que levantei, resolvendo o problema da multiplicidade numa perspectiva católica (e inovando, não por mudar o que sempre foi afirmado, mas desenvolvendo tal conhecimento a partir de certos marcos - estes sim, imutáveis).

Louvar a Deus com um instrumento (guitarra) que é usado para louvar o capeta?

A lira e a flauta também eram usadas em músicas pagãs...

fato de bandas X ou Y serem compatíveis com o cristianismo em nada desmerece um estilo musical, apenas desmerece o uso que X ou Y fazem dele.

E o Papa não condenou "com veemência" o rock, apenas deu sua opinião e a fez valer para os eventos no Vaticano.

A essência de um som não pode ter uma contraposição imanente à moral, pois, mesmo que ele alimente os desejos mais carnais, esses, de si, nada significam. Algo concreto (e aqui não cabe uma análise abstrata, pois nenhum som é de si imoral) só pode ser analisado moralmente tendo em vista o fim visado e os meios usados; desse modo, pode existir uma banda de rock que não vise nada pecaminoso com sua música e não use nenhum meio indevido.

O que é preocupante nesse tipo de rejeição da música moderna em todos os sentidos e o tipo de vida artificial, no gueto, em que alguns católicos estão se inserindo. Por ser artificial e desequilibrada tal atitude não pode durar e quando desmoronar, devido à associação errada que se fez entre ela e a fé, há o perigo do afastamento da prática religiosa (é o que ocorre com alguns em relação à sexualidade, onde uma postura artificialmente negativa, ligada erroneamente ao cristianismo, no momento da queda, pode levar à apostatação).

A música é algo que deve ser interpretado culturalmente e, portanto, tem efeitos variáveis; ou é algo que, independente do meio, terá sempre o mesmo efeito.

A criação de uma música já é indício de racionalidade; evidente que considero a música clássica um produto mais acabado de tal racionalidade, mas dizer que o rock é irracional é negar a condição humana a seus cultores, o que é um absurdo. O próprio fato de se dizer que algumas músicas foram feitas com uma má intenção é indício de racionalidade.

Quanto à moral, essa será dada pelo fim visado, pois o meio, o despertar das paixões, como já foi explicado, é de si indiferente.

Há uma música tipo (que segue uma norma ideal), tendo em vista o que deveria ser (sem o pecado original) na hierarquia de nossas características espirituais: inteligência, vontade e sensibilidade.

Volto, contudo, aos exemplos já dados: quando você mata numa guerra justa ou mantém uma relação sexual no âmbito do matrimônio, o ato, em si mesmo, no momento preciso, é plenamente sensível e, ao mesmo tempo, perfeitamente de acordo com a vontade de Deus. Por que o é? Porque está condicionado num contextom em que, aí sim, a hierarquia de nossas potências espirituais faz sentido.

Ninguém faz sexo pensando: "vou fazer filhinhos". Mas o ato sensível condicionado num contexto de acordo com o fim último, ou seja, no matrimônio, é moralmente bom.

O ideal seria juntar as duas coisas: "vou fazer filhinhos" + matrimônio. Mas isso, nós sabemos, é irreal.

No caso da música é possível! Como vemos nas composições clássicas ou na música litúrgica propriamente dita, em especial o canto gregoriano (para ficar no âmbito ocidental). Mas isso não implica que uma composição que não seja "melodia, armonia, ritmo" seja imoral, isso vai depender do fim visado e dos meios empregados.

Ouvir Rock ou não ouvir
não é um ponto doutrinário. Aqui já partimos para a prática, para a vivência dos princípios, e a pessoa deve analisar caso a caso, até porque o Rock é uma coisa muitíssimo abrangente.

Melhor seria perguntar: "como os católicos agem diante letras blasfêmas, ou que ferem a nossa sensibilidade cristã, etc?" Com isso poderíamos seguir os exemplos uns dos outros, aconselharmo-nos mutuamente, e por aí vai. Agora, querer uma resposta acabada, uma regra, não faz sentido.

Não existe, de fato, "o Rock". Este é um gênero muito abrangente, variado. Melhor seria perguntar: uma música blasfema, ou uma música que desperta determinadas paixões, ou uma música que provenha de uma cultura underground, etc, são compatíveis com a doutrina católica? Acho que essa questão foi respondida ao longo do artigo.

Algumas coisas podem ser culturalmente ressignificadas. Já observaram que o cenário rock hoje em dia perdeu bastante aquele apelo de
"sexo, drogas e rock and roll"? Veja estas bandinhas britânicas herdeiras do Radiohead, que estão na moda. Aí vão dizer, ah! mas ali há uma sonoridade que convida à depressão, ao suicídio não sei o que mais... Bem, eu aqui acolá ouço alguma música deste artista que mencionei. Como a idéia de suicídio é uma coisa que nem ma passa pela cabeça; como eu não tenho a menor tendência para a depressão, ela não me causa efeito algum desse tipo, a não ser uma pausa para a reflexão, e coisas deste tipo.

Quando se escuta uma música, vc não se transporta para o "meio social" em que ela está inserida, a não ser que tenha intenção de fazê-lo, mas aí já não depende da música. Depende de vc estar ou não radicado numa cultura fundamentada no Evangelho.

Tome o exemplo de um jovem católico, mas que não tenha uma boa formação. Dá a ele um cd do Radiohead, um tênis e uma jaqueta da Adidas, leva ele para um bar underground, etc ... Pode ser que de fato ele se idenfitique com aquele meio, e que isso se torne algo oposto ao seu catolicismo. Tome o exemplo de um jovem consciente, e com boa formação e isso tudo será apenas uma diversão sadia, uma forma "legal" de se vestir, etc. E ele poderá até influenciar seus amigos a verem o catolicismo com outros olhos.

Somente o Rock influencia?


Toda manifestação artística reflete uma determinada posição mais profunda. Em outras palavras, "a cada estética corresponde uma ética", da qual esta estética é a expressão concreta e perceptível.

E evidentemente as manifestações de uma determinada ética - ou seja, a estética que corresponde a ela - vão contribuir inevitavelmente para reforçar a dita cuja, para concretizar sua predominância.

Estou usando o termo "ética" em seu sentido mais específicamente lógico: o de uma série de comportamentos.

Que pode pu não corresponder linearmente à moral. Ou seja, a falta de moral representa uma específica "ética", um padrão ético, um padrão comportamental. É neste sentido que a ética, embora se refira à moral, pode se referir negativamente a ela. As duas coisas não são a mesma. A ética se altera, e a moral é absoluta.

Um "padrão ético" pode ou não violar a moral. Esta é uma percepção essencial, para se evitar a praga do "relativismo moral", que assola a modernidade...

Não é "a moral" que "muda": ela é sempre a mesma! O que pode variar é a relação que um determinado padrão comportamental tem com ela - esta relação é que é chamada de "ética".

E a cada ética corresponderá, sempre, uma estética que a representa! Nós somos simbológicos. Nós manifestamos, através de símbolos, nossa posição em relação a qualquer coisa.

A música, sendo uma linguagem simbológica, vai portanto ser usada nesta representação de nossa "visão intelectiva" naquele dado momento.

Cada ética terá, portanto, a estética que merece. E que a reforça, simbologicamente.

Então a resposta é sim, a música influencia e é influenciada pelo padrão ético dominante naquele específico momento e naquele específico lugar históricos. Da mesma forma que qualquer outra linguagem simbológica.

A humanidade que teve Bach tem hoje Lady Gaga. Muita água correu neste intervalo, amigo, até chegarmos ao pavor do DJ Perabah e do Vanilla Ninja...

A humanidade teve Rembrandt van Rijn e Diego Velasquez, e hoje tem "performances" que incluem um monte de cocô empilhado no meio de uma sala ser visto como "expressão artística conceitual" ou qualquer outra imbecilidade dessas. Como muito bem disse o Diogo Mainardi se referindo ao altamente prestigiado Vic Moniz, "Leonardo pintou a Mona Lisa e o camarada a lambuzou com manteiga de amendoim"...

Ou seja, o nosso padrão estético tombou exatamente junto com o nosso padrão ético. Se afastou da moral com a mesma velocidade - é claro, pois as duas coisas, ética e estética, são duas faces de uma mesma moeda. São inseparáveis, portanto.

A porcariada televisiva, pictórica, musical, cinematográfica, etc - se estende porque é a face visível de uma ética que se estende tendo cada vez menos ligação com a moral.

É isso aí, lamento dizer.

Quando se associa a idéia de ética e estética ao um determinado padrão material é errado. A associação feita acima fo a um determinado padrão moral.

Portanto, a ligação entre o conjunto ética-estética e a moral nada tem a ver com a situação material da referida sociedade, ou civilização, ou grupo. Uma sociedade rica pode ter um fraquíssima ligação com a moral, ou até mesmo nenhuma - e o contrário também é verdadeiro, é claro: uma sociedade pobre pode ter uma fortíssima ligação de seus padrões éticos-estéticos com a mencionada moral!

Não existe nenhuma ligação de causa-e-efeito entre a riqueza material e o status moral de um grupo, sociedade ou civilização. Nem para um lado, e nem para o outro. Houve sociedades que foram riquíssimas e imoralíssimas, como outras que foram ricas e profundamente morais, assim como a mesma coisa aconteceu em sociedades muito pobres, materialmente, que também foram morais ou imorais.

A simbologia expressa nas artes em geral, e que permanece como um testemunho mesmo depois que essas civilizações ou grupos já deixaram de existir, é um bom parâmetro para que se possa julgar qual era, na verdade, o status moral desta civilização: porque ela irá, fatalmente, expressá-lo de algum modo.

Eu lamento dizer que a nossa, anteriormente deixou magníficos testemunhos; e neste exato momento se caracteriza por uma profunda mediocridade.

Mas esta magnificência e esta mediocridade não estão exatamente ligadas aos nossos recursos, porque o mundo tem hoje muito mais recursos disponíveis do que tinha em 1300, ou em 1600. Sempre existiram ricos e pobres, amigos: mas a expressão de uma sociedade vai além disso. Muito além.

Trata-se do que ela pensa, do que ela sente, do que ela quer: é isto que a arte expressa, em todos os seus diversos aspectos, melhor que qualquer outra simbologia.

Conclusão: a música, seja ela qual ritmo for - qualquer manifestação artística - é nada mais e nada menos do que uma expressão, uma face perceptível de uma determinada civilização, ou sociedade, ou grupamento humano! Portanto, o Rock não é uma obra do chifrudo e tão pouco se encontra em pecado mortal (êta o Estado de Necessidade que fica inventando regrinhas idiotas) quem gosta de apreciar uma boa melodia ao som da guitarra seja ela nacional ou internacional.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição, Demonização do Rock?, Rio de Janeiro, setembro de 2011, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

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