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Episcopado como sacramento


Extraído da lista do Yahoo Tradição Católica, estudo sobre o Episcopado explicado na Lumen Gentium.

Primeiro que tudo, a melhor exposição encontrada da qualificação da doutrina católica tradicional que o Vaticano II confirma sobre a relação entre episcopado e jurisdição, de Mons. Fenton:

A Jurisdição Episcopal e a Sé Romana

Mons. Joseph Clifford FENTON (1906-1969)

Uma das contribuições mais importantes à sagrada teologia em anos recentes encontra-se no ensinamento do Santo Padre sobre a fonte imediata da jurisdição episcopal no interior da Igreja Católica. Na esplêndida carta encíclica Mystici corporis, publicada a 29 de junho de 1943, o Papa Pio XII falou do poder ordinário de jurisdição dos demais bispos católicos como algo “comunicado a eles imediatamente” pelo Soberano Pontífice. (1) Mais de um ano antes da publicação da Mystici corporis, o Santo Padre divulgara a mesma verdade na alocução pastoral aos párocos e pregadores quaresmais de Roma. Nesse discurso, ele ensinou que é do Vigário de Cristo na terra que todos os outros pastores na Igreja Católica “recebem imediatamente a jurisdição deles e a missão deles.” (2)
Na última edição de sua obra clássica, Institutiones juris publici ecclesiastici, Mons. Alfredo Ottaviani declara que esse ensinamento, que fora previamente considerado probabilior ou mesmo communis, deve agora ser sustentado como inteiramente certo em razão do que disse o Papa Pio XII. (3) A tese que deve ser aceita e ensinada como certa é um elemento extremamente valioso no ensinamento cristão sobre a natureza da verdadeira Igreja. Negar ou mesmo ignorar essa tese impedirá, inevitavelmente, até de chegar perto da compreensão teológica precisa e adequada da função de Nosso Senhor como o Cabeça da Igreja e da unidade visível do reino de Deus na terra. Assim, ao dar a esta doutrina o status de proposição definitivamente certa, o Santo Padre beneficiou enormemente o trabalho da sacra teologia.
A tese de que os bispos derivam seu poder de jurisdição imediatamente do Soberano Pontífice não é, de modo algum, ensinamento novo. No breve Super soliditate, publicado a 28 de novembro de 1786, e dirigido contra os ensinamentos do canonista José Valentino Eybel, o Papa Pio VI censurou acerbamente Eybel pelos ataques insolentes desse escritor aos homens que ensinavam que o Romano Pontífice é aquele “de quem os bispos mesmos recebem a autoridade deles”. (4) O Papa Leão XIII, na encíclica Satis cognitum, datada de 29 de junho de 1896, expôs um ponto fundamental desse ensinamento ao reiterar, acerca dos poderes que os demais dirigentes da Igreja têm em comum com São Pedro, o ensinamento do Papa São Leão I de que tudo o que Deus deu a esses outros, Ele o deu através do Príncipe dos Apóstolos. (5)
Esse ensinamento fora enunciado explicitamente num comunicado da Igreja Romana pelo Papa Santo Inocêncio I, na carta dele aos bispos africanos, emitida em 27 de janeiro de 417. Esse grande Pontífice declarou que “o episcopado mesmo e todo o poder que recebe esse nome” vêm de São Pedro. (6) A doutrina apresentada pelo Papa Santo Inocêncio I era bastante familiar à hierarquia africana. Havia sido desenvolvida e ensinada pelos predecessores dos homens a quem ele escrevia, na primeira explicação sistemática e ampla do episcopado no interior da Igreja Católica. Perto da metade do século III, São Cipriano, o Bispo Mártir de Cartago, elaborara o ensinamento dele sobre a função de São Pedro e da Cátedra deste como base da unidade da Igreja. (7) Santo Optato, Bispo de Mileve e excepcional defensor da Igreja contra os ataques dos donatistas, escrevera, em torno do ano 370, que a Cátedra de Pedro era aquela Sé com que “a unidade deve ser mantida por todos”, (8) e que, depois de cair, Pedro havia “recebido sozinho as chaves do reino do céu, que deveriam ser transmitidas também (communicandas) aos demais”. (9)
Durante os últimos anos do século IV, o Papa São Sirício afirmara a origem petrina do episcopado na carta Cum in unum, na qual referiu-se ele ao Príncipe dos Apóstolos como aquele “Do qual tanto o apostolado quanto o episcopado em Cristo derivavam sua origem”. (10) Ele introduziu esse conceito em seu escrito como algo com que os destinatários de sua epístola já estavam perfeitamente familiarizados. Era e continuou sendo o ensinamento tradicional e comum da Igreja Católica.
A tese de que os bispos derivam seu poder de jurisdição imediatamente do Romano Pontífice, em vez de imediatamente de Nosso Senhor Mesmo, tivera longa história, e tremendamente interessante, no campo da teologia escolástica. Santo Tomás de Aquino apresentou-a em seus escritos, sem contudo alongar-se no tratamento dela. (11) Dois outros escolásticos medievais de grande destaque, Ricardo de Mediavila (12) e Durando, (13) seguiram o exemplo dele. O estupendo tratado teológico pré-tridentino sobre a Igreja de Cristo, a Summa de ecclesia do Cardeal João de Turrecremata, aprofundou-se na questão com riqueza de minúcias. (14) Turrecremata elaborou a maioria dos argumentos que teólogos posteriores empregaram para demonstrar a tese. Tomás de Vio, Cardeal Caetano, contribuiu muito para o desenvolvimento do ensinamento no período imediatamente anterior ao Concílio de Trento. (15)
Durante o Concílio de Trento, a tese foi debatida pelos próprios Padres. (16) De longe a mais incisiva apresentação da doutrina que mais tarde seria proposta pelo Papa Pio XII foi feita no Concílio de Trento pelo grande teólogo jesuíta Diego Laynez. (17) Sob muitos aspectos, as quaestiones de Laynez De origine jurisdictionis episcoporum e De modo quo jurisdictio a summo pontifice in episcopos derivatur continuam sendo até hoje as melhores fontes de informação teológica sobre as relações dos outros bispos na Igreja Católica com o Romano Pontífice.
Durante o século posterior ao Concílio de Trento, três dos teólogos escolásticos clássicos escreveram magníficas explicações e provas da tese de que a autoridade episcopal na Igreja de Deus é derivada imediatamente do Vigário de Cristo na terra. São Roberto Belarmino tratou da questão com a costumeira clareza e segurança, (18) usando abordagem um tanto diferente daquela empregada por Turrecremata e Laynez e mais próxima da de Caetano. Francisco Suarez tratou da tese in extenso em seu Tractatus de legibus, e apresentou certas explicações que completaram o ensinamento do próprio Laynez. (19) Francisco Sylvius, em suas Controvérsias, resumiu as descobertas de seus grandes predecessores neste campo e nos deu a que provavelmente continua sendo até hoje a mais eficaz apresentação breve do ensinamento em toda a literatura escolástica. (20) Durante o mesmo período, a matéria recebeu tratamento brevíssimo, mas teologicamente acertado, pelo franciscano português Francisco Macedo em De clavibus Petri. (21) Dois dos principais teólogos tomistas do século XVI, Domingos Soto e Domingo Bañez, (23) igualmente, incluíram este ensinamento em seus Comentários.
O Papa Bento XIV incluiu tratamento excelente dessa tese em sua magnífica obra De synodo diocesana. (24) Dentre as autoridades mais recentes que se ocuparam da questão de modo mais meritório estão os dois teólogos jesuítas Domingos Palmieri (25) e o Cardeal Ludovico Billot. (26) O Cardeal Joseph Hergenroether tratou do tópico com eficácia e exatidão em sua grande obra Catholic Church and Christian State [A Igreja Católica e o Estado Cristão]. (27)
A oposição mais importante à tese, como já se podia esperar, veio dos teólogos galicanos. Bossuet (28) e Regnier (29) defenderam a causa galicana nessa questão. Outros, embora, não infectados pelo vírus galicano, opuseram-se a esse ensinamento no passado. Dignos de nota entre esses oponentes foram Francisco de Vitória e Gabriel Vasquez. Vitória, embora exímio teólogo, parece ter interpretado mal a questão em pauta, e ter imaginado que de algum modo o ensinamento tradicional envolvia a implicação de que todos os bispos houvessem sido postos em suas sés por nomeação de Roma. (30) Vasquez, por outro lado, sentiu-se atraído pela teoria hoje caduca de que a jurisdição episcopal seria absolutamente inseparável do caráter episcopal, e de que a autoridade do Santo Padre sobre seus irmãos bispos na Igreja de Cristo deveria explicar-se pelo poder dele de remover ou alterar a matéria ou os súditos sobre os quais essa jurisdição há de ser exercida. (31)
O ensinamento do Papa Pio XII sobre a origem da jurisdição episcopal não é alegação de que São Pedro e seus sucessores na Sé Romana sempre nomearam diretamente cada um dos bispos no interior da Igreja de Jesus Cristo. Mas significa, sim, que cada um dos bispos que seja o ordinário de uma diocese detém sua posição pelo consentimento e ao menos a aprovação tácita da Santa Sé. Ademais, significa que o Bispo de Roma pode, conforme a constituição divina da Igreja mesma, remover casos particulares da jurisdição dos bispos e transferi-los para a jurisdição dele. Finalmente, significa que todo e qualquer bispo que não esteja em união com o Santo Padre não tem autoridade alguma sobre os fiéis.
Este ensinamento não envolve, de maneira alguma, negação do fato de que a Igreja Católica é essencialmente hierárquica assim como monárquica em sua estrutura. Não entra em conflito com a verdade de que os bispos residenciais têm jurisdição ordinária, e não jurisdição meramente delegada, em suas próprias igrejas. Na realidade, trata-se de explicação certamente verdadeira da origem dessa jurisdição ordinária nos homens consagrados que governam cada uma das comunidades individuais de fiéis como sucessores dos apóstolos e como súditos do cabeça do colégio apostólico. Significa que o poder de jurisdição desses homens vem a eles de Nosso Senhor, mas através de Seu Vigário na terra, unicamente no qual a Igreja encontra seu centro visível de unidade neste mundo.
Joseph Clifford Fenton
Universidade Católica dos E.U.A.
Washington, Capital
1. Cf. a edição da N.C.W.C. [National Catholic Welfare Council, embrião da C.N.B. dos E.U.A. (ndt)], n. 42.
2. Cf. Osservatore Romano, 18 de fevereiro de 1942.
3. Cf. Institutiones iuris publici ecclesiastici, 3.ª edição (Typis Polyglottis Vaticanis, 1948), I, 413.
4. Cf. DB, 1500.
5. Cf. Codicis iuris canonici fontes, editadas pelo Cardeal Pietro Gasparri (Typis Polyglottis Vaticanis, 1933), III, 489 ss. A declaração do Papa São Leão I encontra-se em seu quarto sermão, o do segundo aniversário de sua elevação ao pontificado.
6. DB, 100.
7. Cf. Adhemar D’Ales, La theologie de Saint Cyprien [A teologia de São Cipriano] (Paris: Beauchesne, 1922), pp. 130 ss.
8. Cf. Libri sex contra Parmenianum Donatistam, II, 2.
9. Cf. ibid., VII, 3.
10. Cf. Ep.V.
11. Santo Tomás ensinou na Summa contra gentiles, Lib. IV, cap. 76, que, para conservar a unidade da Igreja, o poder das chaves deve ser transmitido, por intermédio de Pedro, aos outros pastores da Igreja. Escritores subsequentes também recorreram ao ensinamento dele na Summa theologica, IIa-IIae, q. 39, art. 3, em seu Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, IV, dist. 20, art. 4, e em seu Comentário ao Evangelho segundo São Mateus, no cap. 16, n. 2, em apoio da tese de que os bispos derivam seu poder de jurisdição imediatamente do Soberano Pontífice.
12. Cf. o Comentário às Sentenças, por Ricardo, Lib. IV, dist. 24.
13. Cf. D. Durandi a Sancto Porciano Ord. Praed. et Meldensis Episcopi in Petri Lombardi sententias theologicas libri IIII (Veneza, 1586), Lib. IV, dist. 20, q. 5, n. 5, p. 354.
14. Cf. Summa de ecclesia (Veneza, 1561), Lib. II, capítulos 54-64, pp. 169-188. A tese de Turrecremata é idêntica àquela ensinada pelo Papa Pio XII, embora a terminologia dele seja diferente. O Santo Padre fala dos bispos recebendo o poder de jurisdição deles imediatamente da Santa Sé, i.e., de Nosso Senhor através do Soberano Pontífice, já Turrecremata fala dos bispos recebendo o poder deles de jurisdição mediatamente ou imediatamente do Santo Padre, i.e., dele diretamente ou de algum outro autorizado a agir em nome dele.
15. Cf. De comparatione auctoritatis Papae et concilii, de Caetano, cap. 3, na edição de Frei Vincent Pollet dos Scripta theologica (Roma: Angelicum, 1935), I, 26 s.
16. Cf. Sforza Pallavicini, Histoire du concile de Trente [História do Concílio de Trento] (Montrouge: Migne, 1844), Lib. XVIII, capítulos 14 ss.; Lib. XXI, capítulos 11 e 13, II, 1347 ss.; III, 363ss.; Hefele-Leclercq, Histoire des conciles [História dos Concílios] (Paris: Letouzey et Ane, 1907 ss.), IX, 747 ss.; 776 ss.
17. Na edição de Hartmann Grisar das Disputationes Tridentinae de Laynez (Innsbruck, 1886), I, 97-318.
18. Cf. De Romano Pontifice, Lib. IV, capítulos 24 e 25.
19. Cf. Lib. IV, cap. 4, in: Migne, Theologicae cursus completus (MTCC) XII, 596 ss. Suarez toca nessa questão em seu tratado De Romano Pontifice na Opus de triplici virtute theologica, De fide, tract. X, seção 1.
20. Cf. Lib. IV, q. 2, art. 5, na Opera omnia (Antuérpia, 1698), V, 302 ss.
21. Cf. De clavibus Petri (Rome, 1560), Lib. I, cap. 3, pp. 36 ss.
22. Cf. In quartam sententiarum (Veneza, 1569), dist. 20, q. 1, art. 2, conclusão 4, I, 991.
23. Cf. Scholastica commentaria in secundam secundae Angelici Doctoris D. Thomae (Veneza, 1587), in q. 1, art. 10, dub. 5, concl. 5, colunas 497 ss.
24. Cf. In Lib. I, cap. 4, n. 2 ss., in MTCC, XXV, 816 ss.
25. Cf. Tractatus de Romano Pontifice (Roma, 1878), 373 ss.
26. Cf. Tractatus de ecclesia Christi, 5.ª edição (Roma: Universidade Gregoriana, 1927) I, 563 ss.
27. Cf. Catholic Church and Christian State (Londres, 1876), I, 168 ss.
28. Cf. Defensio declarationis cleri Gallicani, Lib. VIII, capítulos 11-15, nas Oeuvres complètes (Paris, 1828), XLII, 182-202.
29. Cf. Tractatus de ecclesia Christi, pars. II, sect. 1, in MTCC, IV, 1043 ss.
30. Cf. Relectiones undecim, in Rel. II, De potestate ecclesiae, (Salamanca, 1565), pp. 63 ss.
31. Cf. In primam secundae Sancti Thomae (Lião, 1631), II, 31.

Assim, para começar, a luz desse texto de Mons. Fenton, o Vaticano II, na
Lumen Gentium confirma a doutrina católica tradicional e o ensinamento de Pio XII na Mystici Corporis.

O exposto na LG é um aprofundamento do que é tratado na MC, eliminando uma possibilidade de erro grave de que não foi necessário tratar na MC.

Isto é feito pela definição conciliar de que a consagração episcopal confere caráter e é sacramento, reafirmando contudo que a autoridade episcopal é absolutamente dependente do Romano Pontífice. Ou seja: foi definida a questão que estava em aberto (de se a consagração é sacramento), sem negar que a missão episcopal e o que mais vem com ela (jurisdição, poder de ensino e governo, etc.) dependem do Papa, tal como definido na MC.

A necessidade de tal definição decorre justamente do perigo de, tomando-se a MC e uma leitura excessivamente ultramontana do CVI, haver uma negação de facto do episcopado, correndo-se o risco de com isso diminuir um Sacramento.

Mutatis mutandis, seria incorrer novamente no erro de Coré (Jd11 - Nm 16) e abrir as portas para uma possibilidade de "reprodução" de presbíteros cismáticos.

Ora, no Medievo houve muitos e muitos casos de presbíteros vagos. Estes, contudo, nunca pensariam em tentar ordenar outros presbíteros, fundando assim linhagens presbiterais (que só hoje, depois do CVII, podemos *garantir* que seriam nulas). No momento em que crescia um ataque infernal como nunca houve na história da Igreja, contudo, era previsível que haveria, como força reacionária, uma tendência a superestimar o poder do Papa, um ultramontanismo exacerbado que faria do Papa - contrariamente ao definido no
CVI - um super-homem. Havia o sério risco de haver em alguns meios não só uma negação do poder *pessoal* (ainda que recebido do Papa) dos Bispos, como de que surgisse uma contra-corrente que, percebendo o exagero da reação ultramontana e vendo no Sacramento da Ordem recebido pelos presbíteros o mínimo sacramental para exercício de facto da plenitude deste poder, passasse a contrapor diretamente padres e Papa, relegando os Bispos a um segundo plano. Em meios propensos ao cisma, isso significaria a ordenação de
presbíteros por presbíteros. Em meios ultramontanos, isso significaria uma negação da autoridade episcopal.

O campo estava fértil para ambos os erros contrários, ambos decorrentes de leituras errôneas, mas historicamente compreensíveis após o apogeu e a crise da autoridade secular no Século XX, do CVI e da MC.

Ao separar os dois aspectos do episcopado - sacramento, finalmente definido como tal, e jurisdição, no que se repete o ensinado na MC -, a LG cortou pela raiz a possibilidade de crescimento dos dois erros contrários,
enfatizando e mostrando claramente a origem divina (sacramental) do poder episcopal. É até curioso que, no meio do CVII, tenhamos uma definição (a única!) tão clara, nítida e ortodoxa. É esta a garantia divina: que a definição não seja errada. Não há garantia de que os textos serão de fácil leitura, que não serão dúbios (taí Nicéia 1, que não me deixa mentir!), que serão aplicados por homens santos (os Bórgia vêm logo à memória), nada disso. Só que a definição não tem erro. E esta é tão clara!

O resultado prático disto é que foi possível manter a estrutura hierárquica da Igreja intacta no meio da pior tempestade de sua história; o novo fenômeno de Bispos vagos surgiu como sucedâneo relativamente inofensivo do que seria uma temível maré de presbíteros vagos dando (ou, como sabemos pela LG, tentando dar) origem a miríades de linhagens presbiterais. Ao mesmo tempo, o próprio poder *pessoal* dos Bispos conseguiu sobreviver à maré crescente de usurpação por parte das Conferências Episcopais. E, ainda,
tendo sido cortada a possibilidade de um hiper-ultramontanismo, a Igreja pôde sobreviver até mesmo à fraqueza de um Paulo VI, comparável à dos primeiros Papas de Avignon.

Diante daquela avalanche de modismos dos anos 60, ele (Paulo VI) contrariou expectativas concretas já formadas por uma chusma de teólogos, peritos e tutti quanti - mesmo bispos -, ao publicar a Humanae Vitae.

Esse fato, por si só, naquele momento singular, já não se oporia à sua tese de suposta fraqueza de Sua Santidade.

Fato único, aliás. Foi o único cartucho dele, que ele usou neste excelente alvo, com uma presciência admirável. A Humanae Vitae é uma obra profética, em todos os sentidos. Mas logo em seguida o que ele acabara de ensinar foi contestado pelo seu próprio clero, e ele cedeu em tudo o mais, nomeando os Bispos que as conferências episcopais indicavam (geramente hereges de quatro costados), dando poderes absurdos às mesmas conferências, etc. Na hora em que seria necessário deixar claro que o CVII *não* significava o que o
famoso "Espírito do Concílio" roncava e grunhia, ele não teve força para agir. O resultado foi a zorra e a perda de poder de fato do papado que JPII começou a começar a querer mudar e que ainda hoje dificulta tremendamente a ação de Bento XVI.

Basta ver própria posição dos sedevacantistas, ela se baseia num ultramontanismo exacerbado. E este ultramontanismo só subsiste na negação do episcopado como sacramento, na negação do salutar remédio que foi a definição conciliar do episcopado como sacramento. A briga dos sedevacantistas é sim com a LG, mais do que com o "Espírito do Concílio", mais do que com os muitos e esperáveis pecados e fraquezas das pessoas alçadas ao trono de Pedro, que sempre precisaram, precisam e precisarão de nossas orações, por ser tão
limitada a garantia divina. A definição conciliar veio justamente para impedir tanto o erro deles quanto o erro oposto, garantindo assim a persistência da hierarquia da Igreja.

Agora que o pior já passou, graças a uma compreensão mais perfeita do que é o episcopado, é possível haver uma restauração da Igreja. Sem esta definição, a crise poderia ter sido muito pior. Com ela, provavelmente em
menos de cem anos os horrores que vivemos vão ser notas de pé de página, interessantes apenas para os estudiosos de História da Igreja. Deo gratias.

Mas esta definição, tão necessária, abre-nos agora um campo de estudo de teologia especulativa bem mais sadio que o das possibilidades e consequências de um Papa herege: o que é do sacramento e o que é da
jurisdição? Até onde é válido, porém ilícito, o feito pelos Bispos-de-nenhures? Até onde vai o poder dos presbíteros com jurisdição (como o Ordinário dos anglicanos)? E por aí vai.

Antes de avançar mais, contudo, cabe lembrar que a Igreja sempre ensinou que não há contradição no Magistério. Consequentemente, só é possível entender corretamente o que é ensinado se partirmos do pressuposto de que aquilo está em perfeita harmonia com os ensinamentos anteriores. Quando se o faz, é
muito mais fácil (mesmo que "fácil" não seja exatamente a palavra ao tratar do CVII!). Se, ao contrário, a pessoa sai procurando supostas discrepâncias, encontrará farta galhada na cabeça do cavalo, toda ela de sua própria autoria. É exatamente o mesmo princípio, aliás, que sempre se usou no estudo da Sagrada Escritura; quem a lê procurando "erros" (que sabemos ser inexistentes), acaba apontando um dedo gordo para um monte de coisas que de errado não tem nada, iluminando assim a si mesmo e a seus problemas, ao invés de ao sentido do texto sagrado.

Foi dito que o sedevacantismo é um erro de eruditos, ao que é um erro de soberbos, não necessariamente eruditos. Isso porque a única maneira de se chegar ao sedevacantismo é pela presença do termo menor "ora, o Papa é herege", o que implia não apenas um juízo da Santa Sé, mas também uma incompreensão do texto magisterial, sendo este lido sem ter como quadro de referência hermenêutica mais básico a íntegra do
Magistério anterior.

Se tomarmos o texto da MC (complementado, a pedidos, pelo da AAP, que por se dirigir a uma Igreja Particular - a Igreja na China, então às voltas com o início da "igreja patriótica" cismática - é parte do Magistério ordinário, não do extraordinário) e o da LG a partir do pressuposto hermenêutico mais básico e elementar, ou seja, que não há contradição, o que temos é o seguinte:

A MC nos ensina que o poder de jurisdição dos Bispos vem diretamente do Romano Pontífice.

A AAP ensina que podem ser *válidos*, porém ilícitos, "os atos do poder de ordem, postos por tais eclesiásticos" [consagrados Bispos ilicitamente], "supondo tenha sido válida a consagração a eles conferida".

Contudo, esses Bispos cismáticos "não podem gozar de nenhum poder de magistério nem de jurisdição; pois a jurisdição vem aos bispos unicamente através do Romano Pontífice".

A LG nos ensina que "pela consagração episcopal, se confere a plenitude do sacramento da Ordem" e que a "consagração episcopal, juntamente com o poder de santificar, confere também os poderes de ensinar e governar, os quais, no entanto, por sua própria natureza, só podem ser exercidos em comunhão hierárquica com a cabeça e os membros do colégio episcopal."

Ora, o que isto significa? Significa que - exatamente como o presbítero recebe o poder de perdoar os pecados ao ser ordenado, mas só tem jurisdição para fazê-lo por intermédio de seu Bispo - o Bispo recebe o poder de
santificar ("poder de ordem", na AAP), ensinar ("poder de magistério", na AAP) e governar ("poder de jurisdição", na AAP) ao ser consagrado (ordenado Bispo), mas todo e qualquer exercício *válido* dos poderes de ensinar/magistério e governar/jurisdição só existe quando está "em comunhão hierárquica com a cabeça", ou seja, quando recebe do Romano Pontífice a jurisdição que lhe faculta exercer estes poderes. É exatamente o caso do presbítero com a absolvição: o sacramento dá a capacidade, mas esta capacidade só é atualizada ("realizada") pela jurisdição.

Q.E.D.

O Demônio, infelizmente, é mais esperto do que gostaríamos. Os textos do Concílio são (têm de ser!) **passíveis** de leitura ortodoxa. Plenamente ortodoxa, e plenamente em acordo com todo o Magistério anterior. Até mesmo os Bispos que depois acabaram agindo contra as ordens expressas da Santa Sé assinaram os textos conciliares, exatamente por isso: imagino que a quem estivesse lá a leitura ortodoxa parecesse perfeitamente óbvia, inclusive. A ação do Demônio, contudo, se deu na sociedade como um todo, mesmo dentro da Igreja, afetando a recepção e os princípios hermenêuticos da "leitura" (se é que se pode usar o termo) do Concílio. O resultado é que se criou um "ethos" anti-católico, que em muitos e muitos casos guiou até mesmo a ação de quem se via como perfeitamente ortodoxo. O W.O. do "time da Tradição", fugindo
para suas capelinhas, tornou a situação ainda pior dentro da Igreja.

Mas isso é o ataque do Demônio à Igreja, não é a Igreja nem é - e este é o ponto - a leitura *correta* do CVII.

Esta só nos pode ser dada com certeza pelo próprio Magistério. Agora, que a poeira do CVII está começando a
baixar, depois deste curto piscar de olhos, em termos eclesiais, de confusão absoluta, ela vai sendo dada, gota a gota. Citando mais uma vez a MC (64), o que vemos é devido "àquela lamentável inclinação do homem para o mal, que seu divino Fundador às vezes permite até nos membros mais altos do seu corpo místico para provar a virtude das ovelhas e dos pastores e para que em todos cresçam os méritos da fé cristã". E só.

A virtude da ovelha não é fugir quando a voz do Pastor está rouca por causa da gripe, mas sim de aquecê-lo para que a gripe passe logo!

É, porém, verdadeiro que há a "garantia divina: que a definição [de um Concílio Ecumênico] não seja errada"

Logo, antes de ler deve-se deixar de lado (preferencialmente na lareira acesa!) a toga e o martelinho de juiz auto-nomeado da Sé Primeira, que não pode ser julgada por ninguém, abaixar as orelhas, e partir do pressuposto básico e essencial de que, se não se está percebendo a leitura ortodoxa, **o erro é de quem não a percebe**, não dos Padres Conciliares.

Não deu pra entender como algo do CVII é ortodoxo? Deixa quieto e vai ler outra coisa. Graças a Deus não é o
nosso múnus definir a leitura ortodoxa daquele emaranhado. Há coisa de uns vinte anos, católicos cansavam de repetir o que depois acabou sendo esclarecido acerca do famoso "subsistit in"; o próprio fato de católicos teren que explicar já mostrava que não era evidente para quem via problema nele. Mais teria valido
a eles deixar o texto de lado que ficar batendo de cabeça, com uma hermenêutica errônea a atrapalhar o já difícil entendimento.

Mas isso é a beleza, isso é a riqueza da Fé católica: a compreensão da Revelação ocorre ao longo do tempo, em níveis de profundidade gigantescos.

De pegássemos qualquer definição mais tardia e a déssemos para S. Pedro ler, ele ficaria com uma senhora dor de cabeça, passaria três meses queimando mufla, e depois diria "é, é isso mesmo, mas que complicado!". E se
tomamos um texto em que, pela ação do Demônio (quem mandou João XXIII convocar um Concilio quase no final dos prazos do sonho de Leão XIII e de Fátima?!), esticou-se até o limite a garantia divina de ausência de erro (pela presença de zilhões de possibilidades de leitura errônea), é muito mais prudente, muito mais humilde e muito mais honesto deixar a quem tem este múnus a explicação ortodoxa e simplesmente viver como sempre se viveu, obedecendo às leis da Igreja, recorrendo ainda mais assiduamente aos Sacramentos e apoiando-se ainda mais na Santíssima Virgem Maria.

O ultramontanismo "verdadeiro" (no sentido de ortodoxo) não exige do Papa mais do que o próprio Senhor.

Ele rezou para que São Pedro não desfaleça; se alguém se crê no direito de negar que São Pedro seja São Pedro por ter desfalecido, não é ultramontano, é papólatra. E, pior, papólatra frustrado por ser o ocupante do trono de São Pedro um homem que precisa de orações, não um deus...

Avisão da jurisdição como fonte de todo poder episcopal traz para o campo administrativo o que compõe o cerne hierárquico da constituição mística da Igreja, tornando mais facilmente cogitável a (absurda) possibilidade de a Igreja governada por Bento XVI, visível como uma cidade construída sobre a montanha, ser apenas uma "casca" sem vida sobrenatural, uma organização meramente humana, sendo a "verdadeira Igreja" composta por meia-dúzia de sujeitos de pijama de flanela conectados pela Internet.

Se se tem a percepção da consagração episcopal como ordenação, numa situação emergencial de Sé supostamente vacante os poderes episcopais de ensino e governo seriam, ao menos supletiva e temporariamente, assumidos pelos que foram consagrados Bispos e governam materialmente as dioceses, como ocorreu, por exemplo, com os maronitas durante a sua separação involuntária da Santa Sé. O resultado é que se teria uma hierarquia operante, e um Papa eleito por aclamação de facto, dando assim jurisdição formal aos Bispos e acabando com a crise.

 

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