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Investigando o “Estado de Necessidade” sobre o Rito Novo.

Atendendo a inúmeros e-mails dos leitores, segue mais uma análise sobre o fenômeno do Estado de Necessidade (Prestaram atenção lefebvristas? Sobre o fenômeno, nada contra vocês.)

Em primeiro lugar, devo lembrar que o Estado de Necessidade realmente existe, o Código de Direito Canônico de 1917 fala da necessidade no Cânon 2.205, n. 2 e 3. O Código de 1983, nos Cânones 1323 n. 4 e 1324 n. 1 e 5, trata da infração da lei por razão gravíssima e com isso o autor não recebe o delito canônico. Tal situação deve ser sempre analizada pela Santa Sé.

Sendo que o Estado de Necessidade perdeu seu contexto original e passou a ter uma nova semântica dentro do seio lefebvrista, dentro da nova ótica o Estado de Necessidade passa a ser uma condição de santificação que exige o afastamento da pessoa do Novus Ordo Missae e dos sacramentos no rito novo. A justificativa é que, sendo [para eles] a Missa e os sacramentos frutos da reforma litúrgica oriunda do Concílio, e o mesmo é herético (sic) fazendo assim com que o tradicionalista apoiasse a "heresia conciliar" mediante a participação dos mesmos ritos.

Alguém já refletiu sobre os argumentos ateístas? Imaginou que realmente não há uma existência metafísica e que toda a sua fé não passa de uma fantasia? É realmente desesperador e frustante, e há pessoas fracas na fé que se deixam levar e somente em contato com uma boa filosofia católica, pode recuperar a fé na existência de um Ser Supremo que rege céus e terra. Algo semelhante acontece na contextualização nova do Estado de Necessidade, o leigo lefebvrista coloca em seu psiquê que sua atitude em se afastar da Missa e dos sacramentos é uma virtude que agrada a Deus, e mediante a radicalidade por contatos com sedevacantistas seu psiquê é convencido da "invalidade" das fórmulas no rito novo e o medo e o desespero toma conta de seu intelecto, a existência do vazio predominante na Igreja o motiva na fidelidade ao grupo cismático do qual, segundo o pobre leigo atingido pelo Estado de Necessidade, possui o paraíso espiritual perdido em sua paróquia.

Por influência dos ativistas sede-vacantes, lefebvristas tem caído na falácia da invalidade da fórmula [pois a forma
sempre é a mesma que expressa a ordem metafísica de Cristo] nova no rito de ordenação e com isso, não temos padres, missas, sacramentos nem nada. Lembrando que qualquer sacramento para ser válido é preciso cumprir os quatros requisitos que são matéria, forma, intenção e ministro.

A imposição das mãos é a matéria do Sacramento da Ordem.

A oração consecratória é a
forma do Sacramento da Ordem.

O bispo é o
ministro que ministra com a intenção de fazer o que a Igreja quer.

Tal é expressado no momento da unção (rito novo) do bispo:
Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder, te guarde para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o Santo Sacrifício”.

Veja a fórmula consecratória [que constitui a forma] do rito tradicional:

"
Dai a estes vossos servos, nós Vo-lo pedimos, ó Pai omnipotente, a dignidade do Sacerdócio renovai nos seus corações, o espírito de santidade, para que exerçam dignamente o cargo que receberam de vós, ó Deus, e o exemplo da sua vida seja uma censura para os costumes depravados."

"Que eles sejam zelosos cooperadores do nosso ministério e que em todo brilhe justiça para que possam um dia dar a boa conta da sua administração e obter a recompensa da eterna felicidade."

"Pelo mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor que, sendo Deus, vive e reina conVosco, em unidade do Espirito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amem"

Veja agora a fórmula consacratória [que constitui a forma] do rito novo:

"Assisti-nos, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, autor da dignidade humana e distribuidor de todas as graças, que dais crescimento e vigor a todas as coisas, e, para formar um povo sacerdotal, estabeleceis, em diversas ordens, os ministros de Jesus Cristo, vosso Filho, pela força do Espírito Santo.

Já no Antigo Testamento, em sinais prefigurativos surgiram vários ofícios por vós instituídos, de modo que, tendo à frente Moisés e Aarão, para guiar e santificar o vosso povo, lhes destes colaboradores de menor ordem e dignidade.

Assim, no deserto, comunicastes a setenta homens prudentes o espírito dado a Moisés que, com o auxílio deles, pôde mais facilmente governar o vosso povo.

Do mesmo modo, derramastes copiosamente sobre os filhos de Aarão da plenitude concedida a seu pai, para que o serviço dos sacerdotes segundo a Lei fosse suficiente para os sacrifícios do tabernáculo, que eram sombra dos bens futuros.

Na plenitude dos tempos, Pai santo, enviastes ao mundo o vosso Filho, Jesus, Apóstolo e Pontífice da nossa fé.

Ele, pelo Espírito Santo, a vós se ofereceu na cruz, como hóstia pura, e fez os seus Apóstolos, santificados na verdade, participantes da sua missão; e lhes destes colaboradores para anunciar e consumar em todo o mundo a obra da salvação.

Concedei também, agora, à nossa fraqueza, Senhor, este colaborador, de que tanto necessitamos no exercício do sacerdócio apostólico.

Nós vos pedimos, Pai todo-poderoso, constituí este vosso servo na dignidade de Presbítero; renovai em seu coração o Espírito de santidade; obtenha, ó Deus, o segundo grau da Ordem sacerdotal, que de vós procede, e sua vida seja exemplo para todos.

Seja ele cooperador zeloso de nossa Ordem episcopal para que as palavras do Evangelho, caindo nos corações humanos através de sua pregação, possam dar muitos frutos e chegar até os confins da terra, com a graça do Espírito Santo.

Seja ele juntamente conosco fiel dispensador dos vossos mistérios, de modo que o vosso povo renasça pela água da regeneração, ganhe novas forças do vosso altar, os pecadores sejam reconciliados e os enfermos se reanimem.

Que ele esteja sempre unido a nós, Senhor, para implorar a vossa misericórdia em favor do povo a ele confiado e em favor de todo o mundo.

Assim, todas as nações, reunidas em Cristo Jesus, se convertam em um só povo, para a consumação do vosso Reino.

Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo


Observem que mesmo as palavras da fórmulas sejam diferentes, a
forma expressa nas duas são idênticas.

A Igreja sempre alterou as fórmulas dos ritos até a definição das fixas no Concílio de Trento, a penúltima alteração foi com a
Constituição Apostólica de Pio XII Sacramentum ordinis que estabelece que matéria e forma dos três graus do sacramento da ordem são a imposição das mãos e as palavras da oração consecratória que determinam a aplicação desta matéria, para pôr fim às dúvidas dos séculos passados com respeito à matéria do sacramento da ordem e particularmente ao caráter sacramental da ordenação de um bispo.

Para compreender com mais ênfase a unicidade das fórmulas no rito novo e no tradicional, é preciso ter um conhecimento histórico da manutenção dos ritos que veio da Era Apostólica até os dias de hoje.

O rito da ordenação do Bispo, tal como se encontrava no antigo Pontifical Romano, foi fruto de uma evolução que aconteceu entre o séc. V e o séc. XIII, na maior parte fora de Roma. O
Sacramentarium leonianum não tem a sua descrição, mas as orações que apresenta para este momento faz-nos pensar que seria um rito muito simples em que o mais importante e essencial era a imposição das mãos pelos bispos que estavam presentes, seguida de uma oração de ordenação. A este rito simples, foi acrescentada a imposição do livro dos Evangelhos sobre a cabeça do eleito até ao fim da Oração de Ordenação. Era um costume muito antigo do Patriarcado de Antioquia. Não é fácil dizer em que ano foi introduzido em Roma, mas o que sabemos é que foi introduzido para a “ordenação” do Papa (início do ministério petrino), tendo em conta os escritos do Liber Diurnus que é uma compilação de fórmulas, feita pela cúria romana, provavelmente no séc. VI: dois diáconos sustentavam o livro dos Evangelhos aberto sobre a cabeça do eleito.

Este rito entrou na Gália, através dos
Statuta ecclesiae antiqua (uma compilação apócrifa feita na Gália no fim do séc. V, provavelmente por Genadio de Marselha), mas tinha uma variante: o Evangelho não era sustentado por dois diáconos, mas por dois bispos. Com o passar do tempo, o rito romano chegou a todo o mundo latino, especialmente à Gália, e esta expansão trouxe novos elementos. Um dos acrescentos mais interessantes é a unção da cabeça. A oração de Ordenação fazia referência à consagração de Aarão que tinha dois momentos: a unção e a imposição das vestes. O Bispo, o sacerdote da Nova Aliança, recebia uma unção espiritual, ou seja, um dom do Espírito Santo e era revestido com as virtudes do mesmo Espírito. Era simplesmente um simbolismo, mas a imagem atrai um gesto. No momento em que na oração se dizia “unguenti caelestis floure sanctifica”, começou a fazer-se uma unção com o óleo do Crisma. Uma segunda unção, que era a unção das mãos, começou a ser feita devido a um erro de rubrica.

Foi na Gália que se começou a ungir as mãos dos sacerdotes e que seriam ungidas as mãos dos candidatos ao episcopado que na sua ordenação presbiteral não lhes tivessem feito tal unção. Apesar dessa má interpretação das rubricas, em todas as ordenações episcopais eram ungidas as mãos dos candidatos. Para tentar corrigir um pouco este erro, foi decidido o seguinte: as mãos dos sacerdotes eram ungidas com o óleo dos catecúmenos; as mãos dos bispos eram ungidas com o óleo do crisma. O rito da entrega das insígnias começou a ter um grande destaque. As insígnias eram benzidas durante a celebração e antes de serem entregues ao candidato. A entrega das insígnias era feita de forma solene e com uma oração que explicava o significado de cada uma.

Os ritos preparatórios iam sendo cada vez mais complicados: o bispo tinha que passar por um escrutínio que se encontrava nos Statuta ecclesiae antiqua. No séc. XII, foi feita outra mudança: as orações que eram proclamadas pelo Bispo ordenante principal passaram também a ser proclamadas pelos dois bispos ordenantes.

O rito da ordenação do bispo converteu-se em algo muito longo e complicado em que o principal estava disperso no todo. O mais importante e o que é mais antigo e comum a todas as Igrejas, ou seja, a imposição das mãos, ficou “abafada” por outros ritos exuberantes e complicados. Interrompia-se a Oração de Ordenação para se fazer a unção da cabeça. De seguida, entregavam-se as insígnias e as vestes episcopais que eram benzidas naquele momento. Especulava-se se o momento principal da ordenação não seria, quando o Bispo ordenante principal se levantava e dizia as três invocações das ladainhas: “
ut hunc electum benedicere, sanctificare et consecrare digneris”, fazendo, nesse momento, o sinal da cruz.

A reforma destes ritos originava um delicado dilema: regressar pura e simplesmente à tradição primitiva e eliminar todos os acrescentos; ou conservar estes acrescentos que tinham por detrás uma tradição milenar?

As soluções radicais, mesmo que sejam as mais lógicas, não são as melhores. O desenvolvimento dos ritos é um processo legítimo que responde a uma necessidade psicológica de exprimir por gestos e por símbolos aquilo que de uma maneira implícita contém o essencial. Eliminar tudo aquilo que fez parte de um processo evolutivo do rito através dos séculos, seria ir contra as leis da vida. Mas, também não se podia afirmar que o Pontifical Romano, elaborado por um mestre de cerimónias do século XIII, era algo intocável e totalmente perfeito. Em alguns aspectos, houve alguns desvios da verdadeira tradição. Então, era necessária uma reforma que não fosse somente uma revisão superficial do texto.

A Comissão que ficou responsável pela revisão seguiu uma estratégia: conservar da tradição romana tudo o
que se podia manter ou adaptar sem detrimento do essencial. Digo manter ou adaptar, porque certos ritos, que eram legítimos, eram “invalidados” pela fórmula que os acompanhava.

Agora, vamos percorrer todos os momentos do rito.

O eleito já não é apresentado pelos dois bispos ordenantes, mas por dois presbíteros que lhe assistem. Quando se trata de um bispo residencial, um desses presbíteros assistentes dirige-se ao Bispo ordenante principal e faz a petição em nome da Igreja local; se o bispo a ordenar não é residencial, a petição é feita em nome da Santa Mãe Igreja Católica (Igreja Universal). Esta apresentação é um regresso às origens; era assim que se fazia antigamente. É um regresso à verdade das coisas. Alguns peritos defendiam nesta apresentação uma intervenção do povo. É uma questão que não é litúrgica, mas canônica.

Nos primeiros séculos, o bispo era escolhido por toda a comunidade. Agora, é o Papa que escolhe livremente os bispos. Porém, sabemos que aqui o Núncio Apostólico tem um papel muito importante. Poder-se-ia pensar um outro modo de escolher o eleito, tendo em conta os desejos dos homens do nosso tempo. Mas, este problema não é um problema litúrgico e, por isso, não era da competência da Comissão formada para reformar o Pontifical Romano.

Contudo, é importante não confundir eleição com ordenação. Quando o bispo era escolhido por eleição popular, esta era distinta da ordenação. A eleição era algo próprio da igreja local. Feita a eleição, era comunicado o resultado ao Metropolita e aos bispos mais próximos e eram estes e somente estes que “faziam”
do candidato um bispo, quando o acolhiam e lhe comunicavam o dom do Espírito, recebido de Cristo, mediante a imposição das mãos, “pela qual é conferida a plenitude do sacramento da Ordem.

Assim, pela sucessão contínua dos bispos, foi conservada, através das gerações, a tradição que vem desde o princípio, e a obra do Salvador perdura e cresce até aos nossos dias”. Se tivesse sido recuperado o sistema da eleição, não era necessária neste momento qualquer intervenção do povo. Se não há eleição, e isto é o que
acontece actualmente, não é conveniente pedir à assembleia que se manifeste. E se ela não concorda?!

O Pontifical tinha homilia em todas as ordenações, excepto na Ordenação dos bispos. O Bispo ordenante principal lia somente uma curta frase de um pequeno tratado canônico:
De officio septem graduum.

Guilherme Durando, de Mende, não viu qualquer necessidade de uma homilia para a ordenação do bispo; contudo, foi ele que compôs as homilias para as restantes ordenações. É evidente que era importante haver uma homilia, pois há sempre a presença do povo e era necessário que se explicasse o que era um bispo. No primeiro projeto de reforma, havia a ideia de que ao Bispo ordenante principal pertencia fazer livremente a homilia.

Os próprios bispos que pertenciam ao Consilium pediram que fosse elaborado um texto como modelo.

O texto atual é um resumo da doutrina do Vaticano II sobre o episcopado. É um costume que não é contrário aos livros litúrgicos, mas sem qualquer referência aos documentos conciliares. Apesar de existir um texto que serve de base para a homilia, o princípio da liberdade do bispo subsiste. Convém é salvaguardar o espírito que inspirou a redacção deste texto. A homilia terá que ter um conteúdo doutrinal. Não é o momento de fazer um elogio do eleito, de percorrer o seu “curriculum vitae”. O mais importante é explicar aos fiéis a doutrina da Igreja sobre o episcopado.

O Pontifical Romano invoca “a regra dos Santos Padres” para pedir ao bispo que manifeste os seus compromissos na presença dos fiéis. Não é fácil afirmar a origem e a data deste costume. O interrogatório do século XIII, atualmente, só tem valor histórico. A promessa do eleito diante de todos os fiéis tem um valor pedagógico, porque o questionário se resume ao essencial do ministério episcopal. Todas as perguntas são novas, ou seja, redigidas pela Comissão reformadora, excepto a que se refere aos pobres e aos deslocados que pertencia ao antigo Pontifical.

Todo o questionário expressa o ministério pastoral do bispo.

A quarta pergunta foi motivo de alguns problemas (Vis corpus Christi, Ecclesiam eius, aedificare et in eius unitate cum ordine Episcoporum, sub auctoritate successoris beati Petri Apostoli, permanere?). O primeiro problema era o seguinte: a edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja, não é a obra do Espírito Santo?

Nunca se pôs em causa a ação do Espírito Santo; além disso, ao responder à primeira pergunta, o eleito compromete-se e consagra-se ao ministério episcopal “
cum gratia Spiritus Sancti”. São Paulo afirma na Carta aos Efésios que Cristo a uns constituiu apóstolos, a outros profetas, a outros pastores, a outros evangelistas “para a edificação do Corpo de Cristo”. O bispo, sucessor dos apóstolos, pastor e doutor, é ordenado para a edificação do Corpo de Cristo e este deve ser o objetivo do seu ministério pastoral.

Nesta quarta pergunta, há, também, a intenção de referir o papel do bispo na Igreja em relação com os outros bispos e com o Papa. Comprometer-se a trabalhar para o crescimento e para a unidade da Igreja sobre a autoridade do Papa, é submeter-se à autoridade papal. Parece que a pergunta está completa e bem elaborada no aspecto doutrinal, referindo-se à obediência ao Papa numa perspectiva teológica, mas a obediência ao Papa não está muito clara no texto. Por isso, se formulou outra pergunta (a quinta) que nada acrescenta à quarta:
Vis beati Petri Apostoli successori oboedientiam fideliter exhibere?”.

Por que não se escreveu “
Summo Pontifici” em vez de “beati Petri Apostoli sucessori”? Para não parecer uma promessa de submissão de um vassalo a um rei. A quinta pergunta clarifica um pouco a precedente.

“Queres ser, pelo nome do Senhor, bondoso e compassivo com os pobres, os deslocados, e todos os queprecisam?”

“Queres edificar o Corpo de Cristo, que é a Igreja, e permanecer na sua unidade com a Ordem dos Bispos, sob a autoridade do sucessor do Apóstolo São Pedro?” Cfr. Ef 4, 11 - 12

“ Queres prestar obediência fiel ao sucessor do Apóstolo São Pedro?”

No anterior Pontifical Romano, o Bispo ordenante principal e os outros bispos ordenantes imponham as mãos, dizendo: “
Accipe Spiritum Sanctum”. No actual Pontifical Romano, todos os bispos presentes impõem as mãos sem dizer nada. Esta é a forma mais antiga. Havia a ideia de que a pluralidade dos ordenantes respondia
a uma preocupação de validade do ato. Sobre esta questão, diremos algo a propósito da fórmula sacramental.

Todavia, é bom afirmar que é uma ideia falsa. A intervenção de muitos bispos explica-se pelo fato de que a ordenação de um bispo é um ato colegial da ordem dos bispos que acolhe um novo membro.

Terminada a imposição das mãos, segue-se a colocação do livro dos Evangelhos aberto sobre a cabeça do eleito. Este gesto tem a sua origem na Síria. Foi introduzido em Roma para a eleição do Papa, depois em toda a Gália. O evangeliário é sustentado por dois diáconos. Não há qualquer explicação deste gesto; somente no
rito bizantino se dá a seguinte explicação: o bispo deve submeter-se ao jugo do Evangelho.

A partir da Constituição Apostólica de Pio XII
Sacramentum ordinis, a grande oração apresentada no Pontifical e recitada em forma de prefácio é que constituía a fórmula sacramental. Mas, havia um problema.

Esta grande oração que tinha sido tirada do
Sacramentarium Leonianum, era um magnifico texto literário, mas pobre em conteúdo doutrinal; o que não acontecia nas orações de ordenação para os diáconos e para os presbíteros. A atual oração tem um único tema: o bispo é o grande sacerdote do Novo Testamento. Aarão, o grande sacerdote do Antigo Testamento, foi consagrado e ungido pela unção com óleo e pela imposição das vestes sagradas. Da mesma forma, o bispo é consagrado por uma unção espiritual e revestido pelas virtudes.

Toda a oração faz referência ao múnus litúrgico do bispo. As suas funções pastorais ficam um pouco na penumbra. A Oração é proclamada pelo Bispo ordenante principal, sendo a parte da invocação do Espírito Santo (parte essencial) dita por todos os bispos ordenantes.

Este rito procede da tradição romana e não tem uma importância de maior. O rito mais importante é a imposição das mãos. Mas, como já se fazia a unção há 10 séculos, não se suprimiu. No anterior Pontifical Romano, interrompia-se a oração de ordenação, cantava-se o Veni Creator e fazia-se solenemente a
unção. Depois, concluía-se a oração de ordenação. Desta maneira, ficava-se com a ideia que a unção era o rito essencial. Agora, a unção é um rito explicativo. Por isso, foi mudada a fórmula:
Deus qui summi Christi sacerdotii participem te effecit, ipse te mysticae delibutionis liquore perfundat, et spiritualis benedictionis ubertate fecundent. O texto destaca que o momento da ordenação já se realizou e que a unção é somente o símbolo das graças conferidas pela imposição das mãos.

A unção das mãos foi suprimida, porque as mãos dos sacerdotes foram ungidas com o óleo do Crisma na ordenação presbiteral. Não há necessidade de renovar esta unção na ordenação do bispo.

A entrega do Livro dos Evangelhos, do anel e do báculo pastoral já acontecia no anterior Pontifical Romano, mas foram eliminadas as respectivas bênçãos que eram feitas antes das mesmas serem entregues. A bênção das insígnias episcopais é feita fora da celebração da ordenação.

Havia um problema em relação à mitra. O anel e o báculo têm um simbolismo muito simples de entender. Mas, o que significa a mitra? Não é um chapéu nem é uma coroa. O simbolismo proposto pelo antigo Pontifical Romano era ridículo e anedótico, porque fazia referência aos cornos de Moisés quando ele descia o monte Sinai: “
ut duobus cornibus utriusque testamenti terribilis appareat”. A mitra não é uma insígnia propriamente episcopal. É um adorno honorífico para colocar na cabeça e que se dava aos abades, aos cónegos e aos bispos. Não encontrando um simbolismo claro para a mitra, foi decidido que o Bispo ordenante principal colocasse a mitra ao novo bispo sem dizer nada.

Se o bispo residencial é ordenado na sua própria igreja (não quer dizer que tenha de ser na catedral), o bispo
ordenante principal convida-o a sentar-se na cátedra. Mas se o bispo for ordenado fora da sua própria Igreja, o Bispo ordenante principal convida-o a sentar-se no primeiro lugar entre os Bispos concelebrantes. Por fim, o Ordenado depõe o báculo, levanta-se e recebe do Bispo ordenante principal e de todos os outros Bispos o
ósculo da paz.

É da maior conveniência que o bispo ordenado dentro dos limites da própria diocese presida à concelebração na liturgia eucarística. Se a Ordenação se fizer noutra diocese, é o Bispo ordenante principal que preside à concelebração. Neste caso, o Bispo acabado de ordenar ocupa o primeiro lugar entre os demais concelebrantes. A liturgia eucarística prossegue na forma habitual, dizendo o Símbolo e omitindo a Oração Universal. Na Oração Eucarística, há uma fórmula própria para a menção do Bispo ordenar.

Para o fim da missa, estão previstas duas bênçãos solenes, segundo o costume galicano; uma para o caso em que o novo bispo é o presidente da celebração (a partir da liturgia eucarística); outra para o caso da bênção ser dada pelo Bispo ordenante principal.

Antes desta bênção, canta-se o Te Deum ou outro hino que lhe corresponda e o novo bispo percorre a igreja, abençoando os fiéis.

Na 2ª edição típica latina do Ritual, de 1990, foi acrescentada uma fórmula para a imposição da
mitra: “
Accipe mitram, et clarescat in te splendor sanctitatis, ut, cum apparuerit princeps pastorum, immarcescibilem gloriae coronam percipere merearis”: Recebe a mitra, e brilhe em ti o esplendor da santidade, para que, ao aparecer o príncipe dos pastores, mereças receber a coroa imperecível da glória. Pontifical Romano, nº 55.

Sobre o Novus Ordo Missae:

Já argumentei com alguns ativistas da Sé Vacante sobre a validade da Missa de Paulo VI e os mesmos sempre diziam a mesma coisa: " Vários teólogos afirmam ser a Missa inválida" ou "A Missa Nova é inválida porque na introdução do Missal o mesmo vem se definindo como Relato do Evangelho e não explicitamente como o Sacrifício de Cristo como no Missal de 1962.

Brilhante argumento não? Pois de contra-resposta dizemos que a validade da Missa de qualquer rito são as palavras consacratórias
Hoc est enim Corpus meum e Hic est enim Calix Sanguinis mei.

Perfeitamente explícita no Missal novo.

Ainda que, se por acaso o sujeito não saiba o que está fazendo ao consagrar as espécies, os Concílios de Latrão, Florença e Trento definiram a validade do Sacramento pela virtude própria das palavras consecratórias.

Sobre o Crisma: conferir nesse artigo

A Confissão mantém a mesma fórmula, a rejeição do sacramento se dá por conta de padres hereges. Padres hereges sempre existiram na Igreja, procure um ortodoxo e livre-se da condenação do Inferno.

Estado de Necessidade Lefebvrista não concede Contrição Perfeita nem alivia culpa diante do Juíz, Nosso Senhor já dizia que há quem muito for dado muito será cobrado, e todos sabem que a justificativa desse Estado de Necessidade será nula até mesmo diante do conhecimento que terá, após ler esse artigo, portanto.

A reflexão do histórico das elaração das fórmulas foi basedada nesses seguintes textos: BERNARD BOTTE, L’ ordination de l’Évêque, in La Maison-Dieu 98 (1969/2), pp.113-126; JOSEPH LÉCUYER, Le sacrement de l´Épiscopat, in Divinitas (1957) 221 – 251; ANDRÉ ROSE, La prière de consécration pour l’ ordination Episcopal, in Maison – Dieu 98 (1969/2) 127 – 142; Pontifical Romano, Gráfica de Coimbra, 1992

 

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