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Jó. Personagem bíblico ficctício ou real?


Parece que alguns elementos da história de Jó são um tanto fantasiosos, como a disputa entre Deus e Satã a respeito da fidelidade de Jó. Satã não saberia que Deus tinha meios de vencê-lo?
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Todavia, do ponto de vista da história da teologia, esse trecho é ótimo, pois nos mostra uma concepção de Satã que nos é estranha, e, segundo me parece, pelo que eu tenho visto em fóruns judaicos, ainda é assumida por eles hoje: Ha-Satan, no judaísmo, não é meramente o senhor das trevas, mas é um ministro do Altíssimo, alguém enviado por Ele para combater os homens. Isto é, executor dos juízos divinos. De acordo com os historiadores, somente com a influência da religião persa, é que ha-Satan tornou-se no senhor das trevas.

Com respeito à historicidade de Jó, há alguns elementos que eu destacaria, embora eu pense que eles não nos dão resposta definitiva:

- Não se menciona, pelo menos no texto hebraico, genealogia de Jó. Tudo o que se diz é que ele era da terra de Hus (ou da terra de Auranítide na LXX). A LXX ainda o identifica com Jobab, do livro de Gênesis (Gn 10,29)

- Há precedentes babilônicos da história de Job, assim como de outros relatos da Bíblia (o dilúvio, por exemplo, é narrado na Epopéia de Gilgamesh).

Colocar em dúvida a historicidade de Jó não afeta aquela tradicional leitura literal do texto sagrado?

Afeta se o sentido literal for o da historicidade. Mas talvez o sentido literal não seja o da historicidade, como é o caso das parábolas.

A LXX atribui ao personagem Jó uma existência histórica:

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"This man is described in the Syriac book as living in the land of Ausis, on the borders of Idumea and Arabia: and his name before was Jobab; and having taken an Arabian wife, he begot a son whose name was Ennon. And he himself was the son of his father Zare, one of the sons of Esau, and of his mother Bosorrha, so that he was the fifth from Abraam. And these were the kings who reigned in Edom, which country he also ruled over: first, Balac, the son of Beor, and the name of his city was Dennaba: but after Balac, Jobab, who is called Job, and after him Asom, who was governor out of the country of Thaeman: and after him Adad, the son of Barad, who destroyed Madiam in the plain of Moab; and the name of his city was Gethaim. And his friends who came to him were Eliphaz, of the children of Esau, king of the Thaemanites, Baldad sovereign the Sauchaeans, Sophar king of the Minaeans.

Epílogo do livro de Jó segundo a Septuaginta, na tradução inglesa de Brenton.

Para mim é um dos livros mais sensacionais da Bíblia.

Vejo uma bela consonância entre Jó e a magnífica obra Consolationes Philosophiae de Boécio, no que tange a sua angústia quanto ao problema do Mal no mundo.

São Jó é mencionado no calendário litúrgico. A Igreja não se engana em canonizações, mesmo equipolentes.

O livro de Jó é consolador e sábio. Todos nós passamos por uma série de situações parecidas. Mas uma coisa que incomoda é que muitas seitas satânicas se inspiram nesse livro para enxergar uma certa amizade entre Deus e o Diabo.

Outra coisa que incomoda, e que nesse caso é difícil refutar, é que o livro de Jó termina com a vitória da tese satânica de que não existe fé humana desinteressada. Mas por outro lado Satã perdeu a *aposta*. Jó não blasfemou. Jó 1,11.

Se de um lado as queixas de Jó confirmam a tese satânica, do outro me parece óbvio que muitas questões só podem ser respondidas se o Livro de Jó for colocado numa perspectiva cristã... e isso implica em complementar a alegoria com uma chave hermenêutica e simbólica cuja *gramática gerativa* seria a própria revelação da encarnação do Verbo de Deus. Mas não é pecado queixar-se. Satã disse que se lhe fosse tirado tudo, ele blasfemaria contra Deus.

Desse modo, haveria apenas uma suposta vitória da tese satânica.

Jó não é um místico cristão, Jó não é um São João da Cruz... é um personagem tão trágico que chega até a ser cômico... fica claro que a maior tentação que o diabo arrumou para Jó foi a mulher dele que era a maior peste de todas.

Acho também que Jó teria um lugar na peça Tito Andronicus de Shakespeare, assim como a abertura do livro muito se assemelha ao expressionismo de Murnau.

A tese satânica refirida é a se é possível existir fé humana desinteressada, o que seria uma tese vitoriosa se for feita a abstração da perspectiva cristã que leva a alegoria à perfeição.

As queixas de Jó ilustram bem a tese satânica, como quando Jó amaldiçoa o dia do seu nascimento, pois isso pode ser considerado um pecado desde o ponto de vista cristão, já que implica em questionar ou desafiar a misericórdia divina e a providência.




Tenho impressão de que amaldiçoar o dia do nascimento é um hebraísmo, e significa desejar a morte. Devemos lembrar que muitas coisas têm pano de fundo semítico, e não podemos analisar o livro de Jó como se estivéssemos analisando o jornal do dia anterior. É necessário uma verdadeira imersão na cultura ancestral semítica, coisa que talvez só com muitos estudos, e de especialistas, historiadores, linguistas, é que pode ser começado.

Desejar a morte, a causa de tantos sofrimentos, não é pecado. Del Greco, um moralista católico, deixa isso claro em sua obra.

O cristianismo complementa e dar sentido ao sofrimento de Jó, mas se Jó não foi um místico e sim um homem extremamente devoto e fiel a Deus é que o próprio advento do cristianismo irá trazer a ideia de salvação individual e redenção. A mística cristã vai radicalizar ainda mais o sentido do sofrimento humano com o sangue dos mártires e santos.

Portanto, a tese é a de que existe um problema central na alma de Jó que só será solucionado com o advento do cristianismo, que irá redimir a ação humana por meio da confissão ante O Observador Onisciente, somando-se a prática dos demais sacramentos como a Eucaristia que vai divinizar o sacrifício e conceder um significado definitivo ao sofrimento humano, ou seja: a salvação.

A saída para o problema de Jó está no futuro cristianismo.

Eu não vejo por que um mártir não pode lamentar sobre sua situação. Não é pecado. Pecado é a covardia de abdicar de Deus para fugir do sofrimento, mas não se revoltar contra os males desta vida não é algo que se exija dos mártires, contanto que eles não reneguem ou culpem a Deus. O que se pede deles é a fortaleza de, no momento adequado, suportarem tudo por amor ao Eterno.

O próprio Cristo, que aceitou voluntariamente o martírio de morrer pelos pecados dos homens, disse na sua agonia, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

O livro de Jó faz parte do grupo conhecido como livros poéticos ou sapienciais. Tais livros não estão incluídos entre os históricos, embora o personagem Jó possa ter uma base histórica.

Abaixo, estão algumas características da poesia hebraica:

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Na poesia hebraica não existe rima, e é exato falar em ritmo do que em métrica na poesia hebraica. Sua característica mais importante é a repetição de ideias, denominada de Paralelismo. Uma ideia é afirmada e, logo em seguida, é novamente expressa com palavras diferentes, sendo que os conceitos das duas linhas se equivalem de forma aproximada. 



É o que vemos no livro de Jó, por exemplo:
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Pereça o dia em que nasci e a noite em que foi dito: uma criança masculina foi concebida!

Que esse dia se mude em trevas! Que Deus, lá do alto, não se incomode com ele; que a luz não brilhe sobre ele!

Que trevas e obscuridade se apoderem dele, que nuvens o envolvam, que eclipses o apavorem, que a sombra o domine; esse dia, que não seja contado entre os dias do ano, nem seja computado entre os meses!
Que seja estéril essa noite, que nenhum grito de alegria se faça ouvir nela.


Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoaram os dias, aqueles que são hábeis para evocar Leviatã!


Que as estrelas de sua madrugada se obscureçam, e em vão espere a luz, e não veja abrirem-se as pálpebras da aurora (...) (Jó 3,3ss)

Esse é um trecho rico em paralelismos.

Robert Lowth, professor de poesia em Oxford, foi quem chamou a atenção para o princípio fundamental da poesia hebraica, em seu tratado De Sacra Poesi Hebraeorum: Praelectiones Academicae de 1753.

Os tipos de paralelismos foram classificados por Lowth em três categorias:

(1) Sinomínico: consiste em expressar duas vezes a mesma ideia com palavras diferentes, como em Sl 113,7 (hebraico):

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Ele levanta do o pó o necessitado
E ergue do lixo o pobre


(2) Antitético: é formado pela oposição ou pelo contraste entre duas ideias ou imagens poéticas, como em Sl 37,21:

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Os ímpios tomam emprestado e não devolvem,
Mas os justos dão com generosidade.


(3) Sintético: as duas linhas do verso não dizem a mesma coisa, mas antes a declaração da primeira linha serve como base sobre a qual a segunda declaração se fundamenta. A relação é de causa e efeito, como em Sl 19,7-8:

A lei do Senhor é perfeita, e revigora a alma.
Os testemunhos do Senhor são dignos de confiança,
E tornam sábios os inexperientes.
Os preceitos do Senhor são justos,
e dão alegria ao coração.
Os mandamentos do Senhor são límpidos
e trazem luz aos olhos.

Todos esses elementos da paixão da Igreja estão presentes no livro de Jó, com especial destaque para a redenção, pois, como disse, não se trata aqui do sentido literal do texto, mas do sentido espiritual, mas precisamente o sentido alegórico, no qual se concebe a sua análise. É esse sentido alegórico que nos permite dizer que o Antigo Testamento é o Novo Testamento velado, e que o Novo é o Antigo revelado. Portanto, a redenção, o purgatório, a encarnação estão vivamente presentes, não só no livro de Jó, mas em todo o Antigo Testamento. Parece-me, inclusive, que se fazem presentes na história e na poesia de Jó de um modo bem especial.

O sofrimento de Jó nos lembra um pouco o sofrimento dos penitentes, a via purgativa, mas uma concepção exagerada disso é justamente o que o autor sacro deseja combater. Jó não estava sofrendo por seus pecados, por suas faltas. Os amigos de Jó – Elifaz, Baldad e Sofar – queriam a todo custo convencê-lo disso, mas o próprio Iahweh dá testemunho contrário, no fim do livro: 
Estou indignado contra ti e os teus dois amigos, porque não falastes corretamente de mim, como o fez meu servo Jó (Jó 42,7).

A comparação de Cristo com Jó onde Jesus diz 
Meu Deus, por quê me abandonaste me parece mais do que suficiente para explicar o fato de Jó ter amaldiçoado o dia do seu nascimento.

Ou seja, ambos no auge do sofrimento humano, sentiram 
na própria pele as consequências desastrosas do pecado, origem de todo sofrimento.

A expressão que Jesus usou também soa estranhamente aos nossos ouvidos. Como o próprio Jesus, poderia sequer cogitar a hipótese de Que Deus Pai o tinha abandonado? A única resposta é que sendo Jesus verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sentiu toda a angústia humana, a ponto de dizer o que disse.

E quem de nós em meio às grandes tribulações já não pensou, ou mesmo não disse, coisa semelhante. De fato, o homem, com toda a sua natureza, foi criado para o bem, para a felicidade, para o gozo... e o fato de precisar passar por tanto sofrimento, como passaram Jesus, e Jó, (guardadas as devidas proporções) é algo estranho à natureza humana, e é normal que esta mesma natureza grite para mostrar que algo está errado, ou melhor, tudo está errado, e é por isso que temos momentos de crise de fé, porém a nossa fidelidade a Deus se mostra ao superar estes momentos de crise, e não em não tê-los.

Então numa ótica bem popular e católica, Jó representa o sofrimento de todo ser humano, simples assim.

Referências:

1. http://www.monergismo.com/textos/comentarios/exegese_%20da_poesia_hebraica.pdf


2. http://www.institutolohan.com.br/textos_biblioteca/04mesopotamia/mesopotamia.doc


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PARA CITAR ESTE ARTIGO:
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Falha na estrutura do argumento de Santo Anselmo

David A Conceição, 09/2011 Tradição em Foco com Roma RJ.


Domine Iesu, quem velatum nunc aspicio, Oro, fiat illud, quod tam sitio, Ut te revelata cernes facie, Visu sim beatus tuae gloriae. Amem.
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CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

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