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Anglicanos


Foto do santuário da igreja ex-anglicana de Bladensburg, Maryland, agora católica!

O anglicanismo NÃO se pretende protestante, ou ao menos não exclusivamente protestante. Eles abraçam princípios da reforma, mas, no fundo, acham-se católicos, os católicos ingleses. Daí "anglicanos", da Ânglia, sinônimo de Inglaterra (Anglia Terra, Terra dos Anglos).

Eles simplesmente dizem que, com Henrique VIII, consumaram a separação do Papa, mas mantém toda a catolicidade "de sempre". Para eles, o Papa é uma figura simbólica, não um Bispo com jurisdição universal, e por isso é natural, para eles, serem católicos sem submissão ao Bispo DE ROMA.

Se eles se pretendem católicos, é natural que mantenham estruturas que existiam antes de sua separação. É como os ortodoxos, que também veneram santos ocidentais e orientais de antes do cisma.

A coisa não é tão simples, a ponto de colocarmos todos os protestantes no mesmo saco. Há matizes, nuances e particularidades teológicas que devem ser observadas. Aliás, um dos trunfos do ecumenismo, pedido pelo Vaticano II, é justamente a popularização desse modo de fazer diálogo e mesmo apologética: colocar-se no lugar do outro, em sua heresia ou cisma, e entender como pensa e por que motivos pensa.

Levando em consideração que há elementos da Tradição Católica que foi mantida pelos anglicanos após o Concílio de Trento, trataremos desse elementos no artigo e ser reaproveitado pelos conversos e também algumas estruturas internas do anglicanismo.

A Basílica de São Paulo fora dos Muros teria destaque com tal união por seus tradicionais e históricos laços com o anglicanismo. Antes da Reforma Anglicana ela era a igreja oficial da Ordem da Jarreteira. O primaz da CAT, arcebispo de Adelaide John Hepworth, disse ao The Record ter informado à Santa Sé querer levar todos os bispos da CAT a Roma, para que assistam à beatificação do cardela John Newman, também um anglicano convertido ao catolicismo - isto em comemoração à união da CAT com a Igreja Católica.

Mesmo que eles não tenham a sucessão apostólica, o Batismo e o Matrimônio são válidos.

A falta de sucessão, hoje em dia, é algo que só se pode afirmar aprioristicamente. Os anglicanos eram, de início, um mero cisma e nesse momento tinham a sucessão; mais tarde, ao aderirem princípios do protestantismo, perderam a intenção de fazer o que a Igreja faz e, além disso, usaram por certo período uma forma inválida; desse modo, perderam a sucessão por uma falha de forma e intenção. Todavia, isso é válido para o "tronco central do anglicanismo", porque após as declarações de Roma no século XIX verificando a invalidade das ordens anglicanas, certos grupos anglo-católicos conseguiram a sucessão por meio de "ortodoxos" (bizantinos ou orientais) ou vétero-católicos com sucessão.

Os reverendos anglicanos, que nasceram no anglicanismo, desde Pio XII, podem ser ordenados padres mesmo casados.

Havendo ministro, forma, matéria e intenção válidos, o sacramento é válido. Ora, os ministros são os próprios nubentes, a forma é a exteriorização da entrega livre dos corpos um ao outro, a matéria a própria entrega, e a intenção é a de casar-se, constituir família como que a Igreja quer.

Além desses quatro elementos intrínsecos, o matrimônio possui um quinto elemento, extrínseco, relativo ao fato de que não é só sacramento, mas contrato. A Igreja, portanto, pode regular matéria jurídica e lhe aplicar à validade mesmo, não só à licitude. Assim sendo, segundo a lei atual, é preciso que os batizados católicos e os que foram na Igreja recebidos (em qualquer dos casos, desde que não se afastem dela por ato formal, i.e., continuem católicos) observem a chamada "forma canônica", ou seja, casem segundo os costumes, ritos e legislação eclesiásticos, exceto se o Bispo dela dispensar.

Isto posto, analisemos. A forma canônica só obriga aos católicos. Os anglicanos não estão a ela obrigados. Por isso, para a validade de seus matrimônios, bastam os elementos intrínsecos. Em sendo válidos, o sacramento é válido. E isso para qualquer protestante. Por não precisar de forma canônica, dois protestantes que se casem mesmo só no civil, se observam os elementos intrínsecos, estão casados validamente perante a Igreja Católica, celebrando verdadeiro sacramento. O "casar-se no religioso, na Igreja Católica" (forma canônica) só obriga aos católicos.

Já o caso da ICAB é diverso. Ali, na maioria das vezes, há defeito de intenção (porque não querem apenas celebrar o casamento, mas concorrer com a Igreja Romana), de forma canônica (porque os que se "casam" ali são católicos romanos sem dispensa de forma), de matéria e forma (porque muitos dos que se "casam" são já casados pela Igreja Católica Romana).

No Brasil de hoje, o anglicanismo ligado a Cantuária só é representado com legitimidade doutrinária pela Diocese Anglicana do Recife comandada por D. Robinson Cavalcanti (http://www.dar.org.br/), de linha evangelical.

Um dos principais entraves a entrada dos anglos-católicos britânicos na Igreja vem do próprio clero do Reino Unido, que teme o contato com uma massa de fiéis conservadores.

Anglican Use

Existe uma forma litúrgica (oficalmente uma variação do rito romano) que Roma concedeu aos anglo-católicos que se convertem.

O rito próprio dos anglo-católicos:



sofreu algumas modificações para ficar limpo de qualquer "tempero calvinista" e se transformou nisto:



Os anglo-católicos americanos, por concessão de Sua Santidade o Papa João Paulo II (http://www.pastoralprovision.org/History.html ) ganharam a permissão de manter seu ethos próprio, na arte e na liturgia, o que acabou gerando o nascimento de uma variação do rito romano chamada anglican use (uso anglicano do rito romano - http://www.atonementonline.com/orderofmass/Rite1.html ).

Pelo que pude notar até hoje, o anglican use tem elementos tanto do rito paulino (+ internamente que externamente) quanto do rito gregoriano (+ externamente que internamente), emoldurados por aquilo que foi vivido pelos anglo-católicos desde Newman. O Book of Divine Worship (Livro da Divina Liturgia) possui todos os textos aprovados para essa variação do rito romano:

http://www.atonementonline.com/bodw.php

Neste site podemos encontrar o Ofício Divino segundo o anglican use:

http://www.bookofhours.org/

Aqui temos duas grandes paróquias que fazem uso dele:

http://www.walsingham-church.org/

http://www.atonementonline.com/index.php

É bom lembrar que os padres desse rito são, em geral, casados, pois são reverendos anglicanos convertidos, mas, no futuro, os novos padres terão de ser celibatários (os diáconos podem ser casados).

Tudo isso é o resultado de um movimento de busca pelas raízes católicas que chegou a gerar um Missal próprio:

http://home.comcast.net/~acbfp/knottmissal.html

e um Breviário:

http://www.anglicanbreviary.net/

http://anglicanhistory.org/misc/breviary.html

Infelizmente, vários fatores, em especial nossa crise de identidade no pós-concílio, fez com que essa riquesa não fossse aproveitada devidamente (apesar, por incrível que pareça, das portas que, em si mesmo, o Vaticano II abriu). Por exemplo, que padres tradicionalistas da Fraternidade de São Pedro, na falta de algo semelhante a Oração das Horas (a versão menor do Ofício do rito paulino) para o rito tradicional, chegaram a recomendar, como oração privada, o Breviário anglicano (que é em grande parte baseado no próprio Ofício tradicional, juntando elementos de suas variações, como a dos dominicanos).

Por isso que no nosso país, pessoas que querem viver como católicas, mas encontram entraves disciplinares e burocráticos que não fazem muito sentido, ficam tentando criar comunidades anglo-católicas. Contudo, a maioria não é bem sucedida, pois eles desconhecem o fato de que o anglo-catolicismo é um ethos e um ethos não pode ser adotado do dia para a noite. Talvez uma liturgia bem celebrada, no rito gregoriano, junto com boas iniciativas do pós-concílio, como a volta do diaconato permanente, possam, se bem aproveitadas, sustar esse tipo de empreendimento.

Já no mundo anglo-saxônico, a via anglo-católica apresenta-se como um caminho que pode levar à conversão de inúmeros protestantes, além de legar a reflexão sobre uma série de temas à Igreja universal (que vão desde a arquitetura até à disciplina do celibato).

Monasticismo

É bom mostrar que os anglo-católicos também deram origem a um série de comunidades monásticas, que só indicam que nosso esforço em integrá-los à Igreja pode ser a base de muitos frutos espirituais:

http://www.saintgregorysthreerivers.org/

http://www.holycrossmonastery.com/

http://www.mirfieldcommunity.org.uk/

http://www.starcourse.org/abbey/

http://www.stmaryseast.org/

http://www.ecst.ang-md.org/

http://www.holythoughts.org/

E o que vem de propriamente anglicano nesse uso é, na verdade, o chamado "Uso de Sarum", ele próprio uma variação do rito romano em uso entre os anglo-saxões convertidos por Santo Agostinho de Cantuária, e que perdurou séculos. Lembremos que o Missal de São Pio V não chegou a vingar na Inglaterra, de vez que o cisma de Henrique VIII ocorreu antes de sua promulgação. A Inglaterra católica pré-reforma utilizava o rito romano conforme o uso de Sarum (e assim continuou nas catacumbas após o Ato de Supremacia), e os anglicanos, antes de fabricarem, sob Crammer, sua própria liturgia, também. Aliás, até o rito de Crammer mescla elementos calvinistas com o uso de Sarum. Só séculos mais tarde, alguns católicos passaram a utilizar o rito de São Pio V.

Já os bretões utilizavam um rito próprio, bem diferente do romano: o chamado rito celta, que se extinguiu, mas que em muito lembrava o rito galicano e o bracarense (pois são povos celtas também), os quais, por sua vez, são descendentes de certas influências dos ritos orientais sobre as antigas e extintas liturgias ocidentais.

Esquema didático

Um pequeno esquema (adaptado de um trabalho do Ver. Jorge Aquino) sobre os diversos grupos dentro do anglicanismo (com ou sem comunhão com a Sé de Cantuária).

Antes, uma definição das siglas que serão usadas:

EH – ênfase histórica

AF – afinidades

FT – fontes teológicas

QLTH – quadrilátero de Lambeth

REV – Revelação

FC – ferramentas científicas

ST – soteriologia

É – ética

ISP – inserção sócio-política

LLT – lócus litúrgico

L – liturgia

D – divórcio

OF – ordenação feminina

OUG – ordenações/uniões gays

Dentre os grupos católicos no anglicanismo temos as seguintes divisões:

Anglo-católicos:

EH: pré-reforma

AF: ortodoxos e romanos

FT: patrística

QLTH: tradição, episcopado, credo, escrituras

REV: tradição

FC: não

ST: sacramentalista

É: moralista

ISP: alienação/direita

LLT: altar

L: ritualista

D: não

OF: não

OUG: não

Tradicionais:

EH: pré-reforma

AF: ortodoxos e romanos

FT: patrística

QLTH: tradição, episcopado, credo, escrituras

REV: tradição

FC: sim, com reservas

ST: sacramentalista

É: moralista moderada/social

ISP: formal/direita

LLT: altar

L: ritualista

D: sim

OF: divididos

OUG: não

Carismáticos:

EH: pré-reforma

AF: ortodoxos e romanos

FT: patrística/pentecostais

QLTH: tradição, episcopado, credo, escrituras

REV: tradição/experiência

FC: sim, com reservas

ST: sacramentalista/experiência

É: moralista

ISP: formal/direita

LLT: altar

L: ritualista/emoções

D: sim, com reservas

OF: divididos

OUG: não

Liberais:

EH: pré-reforma

AF: ortodoxos e romanos

FT: patrística/iluministas

QLTH: tradição, episcopado, credo, escrituras

REV: tradição/razão

FC: sim

ST: universalista

É: situacional/social

ISP: sim, tendência a esquerda

LLT: altar

L: ritualista

D: sim

OF: sim

OUG: sim

Dentre os grupos protestantes temos as seguintes divisões:

Liberais:

EH: reforma

AF: protestantes

FT: reformadores/iluministas

QLTH: escritura, tradição, episcopado, credo

REV: escrituras/razão

FC: sim

ST: universalista

É: situacional/social

ISP: sim, tendência a esquerda

LLT: púlpito

L: despojada/moderada

D: sim

OF: sim

OUG: sim

Carismáticos:

EH: reforma

AF: protestantes

FT: reformadores/pentecostais

QLTH: escrituras, credo, tradição, episcopado

REV: escrituras/experiência

FC: sim, com reservas

ST: conversão/experiência

É: moralista

ISP: formal/tendência à direita

LLT: púlpito

L: despojada/emoções

D: sim, com reservas

OF: divididos

OUG: não

Evangélicos (evangelicais):

EH: reforma

AF: protestantes

FT: reformadores/evangélicos

QLTH: escrituras, credo, tradição, episcopado

REV: escrituras

FC: sim, com reservas

ST: conversão (calv./arm.)

É: moralista moderada/social

ISP: sim, difusa

LLT: púlpito

L: despojada/moderada

D: sim

OF: divididos

OUG: não

Fundamentalistas:

EH: reforma

AF: protestantes

FT: reformadores/fundamentalistas

QLTH: escrituras, credos, tradição, episcopado

REV: escrituras

FC: não

ST: conversão (calv./arm.)

É: moralista

ISP: alienção/direita

LLT: púlpito

L: despojada/extremada

D: não

OF: não

OUG: não

Alta Igreja e a Baixa Igreja Anglicana outra maneira de se referir à ala católica (igreja alta) e à ala protestante (igreja baixa).

Na verdade, o "negócio" é um pouquinho mais complexo:

A "reforma" inglesa do século XVI originou três partidos ou tendências na Igreja da Inglaterra: o Broad Church Party (igreja ampla), o High Church Party (igreja alta) e o Low Church Party (igreja baixa).

A igreja alta tinha fortes tendências católicas. Foi revigorada em 1833 pelo Movimento de Oxford. Assim, os anglo-católicos ou ritualistas começaram a usar no culto público o rito romano, introduzindo o uso de imagens, velas, crucifixo, incenso, água benta, invocação a Maria e aos santos, confissão auricular, monasticismo e celibato.

A igreja baixa primava pela simplicidade do cerimonial litúrgico. Os anglo-evangélicos foram os grandes responsáveis pelo reavivamento protestante na Inglaterra e em outros países.

A igreja ampla era, de início, um grupo minoritário, mas muito influente devido às suas posições moderadas. Sempre foi o fiel da balança entre o ritualismo anglo-católico e o despojamento evangélico. Grande parte das paróquias anglicanas, hoje em dia, encontra-se nessa ala: preservando certos rituais e vestes litúrgicas, porém, sem chegar ao requinte anglo-católico.

Esses termos não são precisos como a classificação apresentada, mas seguem sendo populares.

Os anglicanos atuais e ligados a IEAB é que levaram em conta o rito paulino na elaboração do LOC de 1984. O primeiro LOC brasileiro ( http://justus.anglican.org/resources/bcp/Brazil/index.htm ), de 1930, era uma tradução do americano de 1928, e ainda é usado por alguns anglicanos brasileiros de ethos católico.

Até onde entendo, o anglican use, apesar de só ter aplicação concreta nos EUA, poderia ser pleiteado em qualquer lugar onde houvesse uma forte tradição anglo-católica (a depender da boa vontade das conferências episcopais de cada país e de consultas a Roma); tanto que se pensou em usá-lo na Inglaterra, mas a má vontade dos bispos de lá, temerosos de convertidos com índole conservadora e liturgicamente tradicionais, colocou tudo a perder. E ter tradição anglo-católica não é o mesmo que ser anglo-saxônico, pois existem dioceses e paróquias anglo-católicas na África, Caribe e Polinésia.

Só por curiosidade, vale informar que a Diocese Anglicana do Recife (a que é ligada à Província do Cone Sul) possui um novo LOC, verdadeiramente um herdeiro do original e completo (até o rito de exorcismo tem).

Anglo-ortodoxos / anglo-protestantes

E é interessante notar que entre os anglo-católicos que se converteram à igreja ortodoxa, também surgiu uma liturgia própria derivada do LOC (liturgia de São Tikhon), mentida, especialmente, num vicariado da Igreja Ortodoxa Antioquena:

http://www.westernorthodox.com/western-rite

Assim como existem anglicanos tradicionalistas dentro da ala católica dessa igreja, também existem tradicionalistas dentro da ala protestante. Um exemplo de igreja continuante anglo-protestante:

http://www.reformer.org/

   
Reflexões de quem conhece

Aqui temos uma reflexão de quem entende do assunto (foi sacerdote anglicano, leigo católico atuante e agora é padre católico):

http://gkupsidedown.blogspot.com/2009/10/watch-out.html

Fim da Parte I. Referência

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino