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Assis III: o diálogo inter-religioso no anúncio de Cristo e alguns pontos teológicos


1) Qual seria a razão profunda que levou a Igreja a promover o diálogo inter-religioso?

2) Podemos ser a favor do mesmo? Mesmo nas alianças estratégicas no campo político?

3) Quais seriam as balizas, os limites a que o diálogo deveria chegar?

A princípio ecumenismo e diálogo inter-religioso são coisas diferentes. O ecumenismo se dá dentro do cristianismo, com os hereges e cismáticos, já o diálogo inter-religioso se dá com os infiéis.

O sentido tradicional do termo ecumenismo também é empregado dentro da Igreja, daí os concílios ecumênicos, como o de Trento ou o Vaticano II. Todavia, um outro uso para a palavra, goste-se ou não, já está consagrado e se não souber como lidar com ele vai perder comunicatividade.

Devemos distinguir o diálogo inter-religioso de fundo relativista que temos hoje em dia, do tipo de diálogo que sempre esteve presente na vida da Igreja, diálogo como o que Raimundo Lúlio apresenta na sua obra O livro do gentio e dos três sábios. Essa forma tradicional visa o esclarecimento das diferenças, a possibilidade de uma apologética do tipo intelectual ou a formação de alianças estratégicas no campo político (como na luta contra o aborto), e tem como campo comum a ordem moral natural e como limite a Revelação.

Esteve Jaulent, fundador e presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio (Ramon Llull) e cujo tema mais focado é, justamente, o diálogo inter-religioso defendido pelo beato Llull.

Eis o site: http://www.ramonllull.net/sw_principal/l_br/home.php

Inclusive ocorreu um congresso internacional sobre esse tema em SP (http://www.ramonllull.net/comum/arq/div

ulgacaovideoefotos112010.htm).

Esse Instituto publica e difunde numerosas obras de grande rigor intelectual e erudição nos campos de filosofia, história, etc, não só de Llull, mas de outros autores.

O Prof. Ricardo da Costa trabalha com História e Filosofia Medieval e leciona na UFES. Ele tem vários estudos sobre Ramón Lull e inclusive traduziu algumas obras do filósofo catalão. A tese de doutorado dele foi sobre um espelho de príncipes de Ramón Lull. O site dele: www.ricardocosta.com/

http://lh6.ggpht.com/_DwqYBQytzRc/TN6gyTN6q1I/AAAAAAAAAKU/4qRoXJ276Gs/s400/clergy%20debatebetweencatholicsandorientalchristiansinthe13thcenturyacre1290.jpg

Os escritos litúrgicos do teólogo bizantino do século XIV Nicolau Cabasilas foi utilizado e apreciado pelos Padres conciliares de Trento para tratarem de aspectos relacionados à Sagrada Eucaristia.

"QUE AS VOSSAS CONVERSAS SEJAM SEMPRE AGRADÁVEIS" (Col 4, 6)

Há um terceiro compromisso que está ligado à missão, e esse é o diálogo - sobretudo o inter-religioso. Desde o decreto Ad Gentes e desde a declaração conciliar Nostra Aetate, este tema tem sido muito aprofundado, de forma que ele constitui um dos mais delicados desafios à missão.

O Magistério pós-conciliar, especialmente o de Paulo VI e o de João Paulo II, tem intervindo várias vezes na temática do diálogo, na intenção de o promover, de lhe definir os termos e o espírito, e de esclarecer a sua relação com a missão,
muito especialmente com o dever do anúncio do mistério de Cristo Salvador. Os respectivos documentos que traduzem essas intervenções são do conhecimento de todos.

Vamos limitar-nos a sintetizar os seus conteúdos, para depois sugerirmos as principais atitudes que são exigidas dos missionários.

Eis, em resumo, alguns pontos que nos levam a compreender em que realmente consista o diálogo inter-religioso:

Comecemos por esclarecer que a missão ad gentes não se esgota no anúncio e no testemunho: ela inclui outras atividades, entre as quais o diálogo inter-religioso e afirma explicitamente que ele "faz parte da missão evangelizadora da Igreja"

O diálogo inter-religioso é um diálogo de salvação, como explica o documento Diálogo e Anúncio (DA), que veio à luz a 19 de Maio de 1991 por obra conjunta do Conselho Pontifício para o Diálogo inter-religioso e da Congregação para a Evangelização dos Povos. A razão fundamental que impele a Igreja para o diálogo é, de fato, e principalmente, de natureza teológica: "Deus, num diálogo que se estende através dos tempos, ofereceu e continua ainda a oferecer a salvação à humanidade. Por isso, para ser fiel à iniciativa divina, a Igreja tem de entrar num diálogo de salvação com todos" (38). Paulo VI, na encíclica Ecclesiam Suam, não hesitou em afirmar que "a Igreja deve ir a diálogo" e que "a Igreja se faz palavra" (192).

O diálogo não dispensa do dever do anúncio, porque está orientado para ele. De fato, o diálogo é tão só uma das ações da Igreja na sua missão ad gentes" (DA 22).

O diálogo de São Francisco converteu o Sultão da Babilônia

São Francisco, instigado pelo zelo da fé cristã e pelo desejo do martírio, atravessou uma vez o mar com doze de seus companheiros santíssimos, para ir diretamente ao sultão de Babilônia. E chegou a uma região de sarracenos, onde certos homens cruéis guardavam as passagens, que nenhum cristão que ali passasse podia escapar sem ser morto; como aprouve a Deus, não foram mortos, mas presos, batidos e amarrados foram levados diante do sultão.

E estando diante dele São Francisco, ensinado pelo Espírito Santo, pregou tão divinamente sobre a fé cristã, que mesmo por ela queria entrar no fogo. Pelo que o sultão começou a ter grandíssima devoção por ele, tanto pela constância de sua fé, como pelo desprezo do mundo que nele via; porque nenhum dom queria dele receber, sendo pobríssimo; e também pelo fervor do martírio que nele via. E deste ponto em diante o sultão o ouvia com boa vontade e pediu-lhe que freqüentemente voltasse à sua presença, concedendo livremente a ele e aos seus companheiros que podiam pregar onde quisessem. E deu-lhes um sinal com o qual não podiam ser ofendidos por ninguém.

Obtida esta licença tão generosa, São Francisco mandou aqueles seus eleitos companheiros, dois a dois, por diversas terras de sarracenos, a pregar a fé cristã; e ele com um deles escolheu um lugar... Vendo São Francisco que não podia obter mais fruto naquelas partes, por divina revelação se dispôs com todos os seus companheiros a retornar aos fiéis; e reunindo todos os seus voltou ao sultão e despediu-se. E então lhe disse o sultão: Frei Francisco, de boa vontade me converteria à fé cristã, mas temo fazê-lo agora, porque se esses homens o descobrissem matariam a mim e a ti com todos os teus companheiros: mas, porque tu podes fazer muito bem, e eu tenho de resolver certas coisas de muito peso, não quero agora causar a tua morte e a minha, mas ensina-me como me poderei salvar, e estou pronto a fazer o que me impuseres.

Disse então São Francisco: senhor, separar-me-ei de vós, mas depois de chegar ao meu país e ir ao céu pela graça de Deus, depois de minha morte, conforme a vontade de Deus, enviar-te-ei dois dos meus irmãos, dos quais receberás o santo batismo de Cristo e serás salvo, como me revelou meu Senhor Jesus Cristo. E tu, neste espaço, desliga-te de todo impedimento, a fim de que, quando chegar a ti a graça de Deus, te encontre preparado em fé e devoção. E assim prometeu fazer e fez. Isto feito, São Francisco retornou com aquele venerável colégio de seus santos companheiros: e depois de alguns anos São Francisco, pela morte corporal, restituiu a alma a Deus.

E o sultão adoecendo espera a promessa de São Francisco e faz postar guardas em certas passagens, ordenando que, se dois frades aparecessem com o hábito de São Francisco, imediatamente fossem conduzidos a ele. Naquele tempo apareceu São Francisco a dois frades e ordenou-lhes que sem demora fossem ao sultão e procurassem a salvação dele, segundo lhe havia prometido. Os quais frades imediatamente partiram e, atravessando o mar, pelos ditos guardas foram levados ao sultão. E vendo-os, o sultão teve grandíssima alegria e disse: Agora sei, na verdade, que Deus mandou os seus servos para a minha salvação, conforme a promessa que me fez São Francisco por divina revelação. Recebendo, pois, a informação de fé cristã, e o santo batismo dos ditos frades, assim regenerado em Cristo, morreu daquela enfermidade, e sua alma foi salva pelos méritos e operação de São Francisco.

Uma união doutrinal das religiões ?

É algo impossível de ocorrer, pois todas elas têm pontos de fé contraditórios umas com as outras, e como dois fatos contraditórios não podem ser verdade ao mesmo tempo.

A Verdade sendo uma só, não pode estar contida integralmente em mais de uma doutrina diferente, afinal, a Verdade não se contradiz.

A Igreja Católica foi fundada por Cristo sobre Pedro, é coluna e sustentáculo da Verdade, e todos os católicos devem crer nisso com fé divina e católica. Mas não basta crer que isso é uma verdade apenas para os católicos, essa é uma verdade universal, quer as outras pessoas acreditem ou não.

Os Católicos podem reconhecer valores religiosos fora da única Igreja Indivisa e Una fundada por nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo como: leitura da Bíblia, oração, prática da cridade. Isto, porém, não equivale dizer que todas as religiões são igualmente boas e verídicas; só pode haver uma verdade; o que lhe contradiz não é verdade. Descendo ao âmago da questão podemos distinguir o ponto de vista subjetivo e o objetivo.

No aspecto objetivo sem dúvida, o senso religioso inato é o mesmo em todos os homens. Ele tem as mesmas expressões religiosas, independentemente do credo que professam, por efeito de sua religiosidade natural, todos os homens rezam, dobram os joelhos, prostram-se por terra, levantam as mãos ao céu e praticam as virtudes ditadas pela Ética natural: o senso religioso ensina a não matar, não roubar, não caluniar, não adulterar.

Todavia, além dessa base natural comum a todas as religões, cada religião tem o seu credo, seu culto e sua Moral própria; neste plano é que se dão as divergências: há quem creia na reencarnação e quem não a aceite; há quem admita o divórcio, o aborto, o homossexualismo, a guerra santa, a poligamia e há quem não os admita. Em conclusão: objetivamente falando, as religiões não são equivalentes entre si; não são igualmente verídicas, nem são igualmente boas. Mais uma vez em nós católicos há bom título, cremos haver uma única religião revelada pelo Deus Todo-poderoso aquela que chegamos a Jesus Cristo e se prolonga através dos séculos no Corpo de Cristo que é a Igreja confiada a Pedro e seus sucessores.

Na Consituição Lumen Gentium nº lemos:

"Esta é a única Igreja de Cristo, que no símbolo professamos Una, Santa, Católica e Apostólica, e que o nosso Salvador, depois da sua Ressurreição, confiou a Pedro para que ele a apacentasse (Jo 21,17), encarregando-o, assim como aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cf Mt 28, 18s), levantando-a para sempre como coluna e esteio da verdade (1Tm3,15). Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada no mundo subsiste [ é ]na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele, ainda que fora do seu corpo se encontrem vários elementos de santificação e de verdade, elementos que, na sua qualidade e dons próprios da Igreja de Cristo, conduzem para a unidade católica".

No aspecto subjetivo é fato que nem todos os homens chegam ao conhecimento do Evangelho tal como o Senhor o pregou e continua a pregar na Sua Igreja; não tendo culpa disto. Todavia têm coração reto e sincero ao seguir uma filosofia religiosa diferente da Igreja Católica: não duvidam que estão professando a verdade e a ela devem obedecer, mesmo praticando a poligamia ou crendo que a reencaranação divide os homens em castas diferentes, que tem que sofrer (uns) ou ser inclementes (outros).

A tais pessoas o nosso Deus não pedirá contas do que tiver revelado ou do que liteverem ignorado sem culpa própria. Poderão salvar-se não pelo falso Credo que professam, mas pela boa fé ou sinceridade cândia de coração com que o professam. É o que declara a Constituição Lumen Gentium nº 16:

"Aqueles que ignoram sem culpa o Evangelho de Jesus Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus na sinceridade do coração, e se esforçam, sob a ação da graça, por cumprir na vida a sua vontade, conhecida através dos ditames da consciência, também esses podem alcançar a salvação eterna, Nem a Providência Divina nega os meios necessários para a salvação àqueles que, sem culpa, ainda não chegaram ao conhecimento explícito do Deus Todo-poderoso, mas procuram com a graça divina viver retamente. De fato, tudo o que neles há de bom e de verdadeiro, considero-o a Igreja como preparação evangélica e dom daquele que ilumina todo homem para que afinal venha a ter vida".

Ou ainda a Constituição Gaudium et Spes nº22

"Tendo Jesus Cristo, morrido por todos e sendo uma só a vocação última do homem, isto é, divina, devemos admitir que o Espírito Santo oferece a todos a possibilidade de se associarem, de modo conhecido por Deus, a este mistério pascal".

Assim, de um lado, fica excluído todo relativismo religioso, o que seria relativizar a verdade. De outro lado, fica excluído também todo fanatismo cego, que não leva em conta a inocência ou a candura de quem, sem culpa própria, não adere à verdade, mas es esforça por cumprir o que o único Deus lhe revela através dos ditames da consciência reta e sincera. Deve-se acrescentar que quem se salva fora da Santa Igreja Visível, salva-se por Jesus Cristo e pela Igreja Católica, mesmo que não conheça Jesus Cristo e sua única Igreja.
Não há outro caminho de salvação senão Jesus Cristo e seu Corpo Místico.

Houve um exemplo extremo que ocorreu durante o pontificado de Pio XII. Um padre chamado Leonard Feeney, interpretando uma fórmula do Magistério do Papa Eugênio IV no Concílio de Florença, que dizia que os pagãos, judeus, heréticos e cismáticos iriam para o inferno, ensinou que fora da Igreja não havia absolutamente salvação. Isso levou-o a negar, inclusive, o batismo de desejo por voto implícito e explícito. Os catecúmenos, hereges e pagãos de boa fé e em ignorância invencível não podiam se salvar, pois não eram membros da Igreja (de fato, não são membros da Igreja).

O Santo Ofício condenou os ensinos do Pe. Feeney e seus adeptos. Ele foi excomungado, mas depois foi reabilitado por Paulo VI. De qualquer forma, o exemplo do Pe. Feeney mostra o perigo de se interpretar uma fórmula do Magistério de maneira diversa do próprio Magistério.

Vide por exemplo São Cipriano:

"O inimigo, desmascarado e derrotado pela vinda de Cristo, ... trama nova emboscada para iludir os incautos, sob o rótulo do próprio nome de cristãos. Inventa heresias e cismas para subverter a fé, corromper a verdade e quebrar a unidade... Rouba homens da própria Igreja e os imerge, inconscientes, em outras trevas, deixando-os pensar que se aproximam da luz e escapam à noite do século. Continuam a se dizerem cristãos sem guardarem a boa nova de Cristo, os seus preceitos e as suas leis! Julgam ter luz e caminham nas trevas! O inimigo sedutor e mentiroso que, nas palavras do apóstolo, se transforma em anjo de luz, apresentando seus ministros como ministros da justiça, anunciando a noite como o dia, a perdição como salvação,... o AntiCristo sob o nome de Cristo, lhes escurece e frustra a verdade pela sutileza, propondo como verdadeiras coisas ilusórias.
"

São Cipriano errou tanto, que ameaçou romper a comunhão com o Bispo de Roma, o Vigário de Cristo, Santo Estevão I. Santo Estevão I admoestou São Cipriano de que o batismo dos hereges era válido (questão que estamos a discutir), e São Cipriano não aceitou. Graças a Deus, o martírio impediu que São Cipriano rompesse definitivamente com o Papa.

O perene anúncio missionário da Igreja é hoje posto em causa por teorias de índole relativista, que pretendem justificar o pluralismo religioso, não apenas de fato, mas também de iure (ou de principio). (Declaração Dominus Iesus, nº 04)

Diante desta realidade hoje existente, faz-se necessário um esforço ecumênico, conforme nos ensina o Concílio Vaticano II, para que se unam todos em uma só fé, um só batismo e um só Senhor (Ef 4,5). Pois Cristo fundou uma só Igreja, edificada sobre Pedro.

Há alguns que equivocadamente interpretam o CVII com um pensamento relativista, incompatível à fé Cristã que sempre pregou um só Salvador e uma só Igreja. Alegam esses, que o ecumenismo se apóia no irenismo (Cristo salva independente de religião, qualquer religião salva, o que importa é ser bom e cristão).

Tal pensamento não tem apoio bíblico, nem fundamento na tradição da Igreja, sendo assim, não passa de um equívoco modernista, que tanto mal faz aos que querem pregar o Verdadeiro Evangelho, que Cristo confiou à sua Igreja; além de ser uma heresia já condenada desde os primórdios do cristianismo.

O Concílio Vaticano II, deixa claro no Decreto Unitatis Redintegratio que a Única Igreja, Coluna e Sustentáculo da Verdade(1Tm 3,15), é a Igreja dos Apóstolos, aos quais Cristo confiou a autoridade de ensinar, governar e santificar (Mt 28, 18-20).

A necessidade da Igreja para a salvação é dogma de Fé. A Cabeça não se separa do Corpo e, como só se vai ao Pai por Cristo, no Espírito Santo, e tal como a unidade da Trindade e o vínculo matrimonial (uma só carne), a Igreja se encontra unida a Cristo. Ele é o Seu Corpo, ao qual todos devem estar incorporados. Ela é a "Arca de Noé", fora do que tudo perece no dilúvio.

A questão toda passa pela compreensão da Igreja como Corpo de Cristo.

O Papa é a cabeça visível desse Corpo, que tem Cristo como cabeça invisível. Por isso chamamos o Sucessor de Pedro de Vigário de Cristo. Vigário significado substituto.

Evidentemente, é possível a alguém que não esteja visivelmente no grêmio da Igreja alcançar a salvação. Mas tal se dá porque, apesar de não saber, esse não-católico é, sim, um membro da Igreja, por vários títulos. Na sua ignorância, se invencível - e isso só Deus pode julgar -, os pequenos e frágeis laços que o unem à Igreja Católica (batismo, traços de doutrina católica, sacramentos, Bíblia, cumprimento da lei natural etc) podem ser suficientes para torná-lo um membro invisível da Igreja visível, ou, como diriam o Cardeal Journet e o Cardeal Billot, participante da "alma da Igreja", ainda que não do corpo.

De qualquer modo, todos os que se salvam, se salvam por serem católicos. Mesmo que não saibam.

Ordinariamente, todavia, a submissão a Cristo implica na submissão ao seu Vigário, o Papa. A Unam Sanctam é clara nesse sentido, e a Dominus Iesus (como a Ut Unum Sint) desenvolvem essa doutrina mais explicitamente.

Se, por um lado, temos de cuidar para não cairmos no irenismo (Cristo salva independentemente da Igreja, todos são iguais, o que importa é ser bom e cristão), evitemos também o feeneyismo (confundir o "fora da Igreja não há salvação" como se fosse um "fora das estruturas visíveis da Igreja não há salvação").

Sendo a Igreja “projeto visível do amor de Deus pela humanidade” (Sua Santidade, o Papa Paulo VI. Discurso de 22 de junho de 1973), “coluna e sustentáculo da verdade?” (1 Tm 3,15), fundada por Jesus Cristo para, como instrumento do Espírito Santo, salvar e santificar os homens (cf. Concílio Ecumênico Vaticano II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, de 21 de novembro de 1964, nº 8), fora da qual não há remissão dos pecados (cf. Sua Santidade, o Papa Bonifácio VIII. Bula Unam Sanctam, de 18 de novembro de 1302; Concílio Ecumênico Vaticano II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, de 21 de novembro de 1964, nº 14; Catecismo da Igreja Católica, 846), há de se crer na absoluta necessidade de a ela pertencerem todos os seres humanos. Certo é, igualmente, que, em situações excepcionais, havendo ignorância invencível, pode o homem salvar-se fora da estrutura visível da Igreja, o que não significa possibilidade de salvação fora da Igreja mesma nem negação da visibilidade desta.

Dois erros devem aqui ser evitados.

Um, o de certa teologia irenista, presente, em maior ou menor grau, em alguns ambientes católicos, e que afirma indiscriminadamente que fora da Igreja há salvação, que o que interessa é ser cristão somente e não católico e, às vezes, nem cristão, bastando ter “caridade”, - como se a caridade não fosse ordinariamente fruto da fé –, que Cristo não teria fundado uma única Igreja, que o extra Ecclesia nulla salus teria sido revogado – como se fosse possível à doutrina católica mudar-se, evoluir –, que a unidade da Igreja teria sido perdida – se a unidade é essencial à Igreja, não pode tal nota ser perdida sob pena de deixar de subsistir a própria Igreja, o que, por sua vez, é igualmente impossível em face da promessa do Redentor –, que todos os caminhos levam a Deus etc. Certa falsa concepção do que seja ecumenismo, tal como entendido pelo Papa, adota esse irenismo, em si pernicioso, condenado pelo Vaticano II, por Paulo VI e por João Paulo II, e, antes, pela Encíclica Mortalium Ânimos, de Pio XI.

O outro erro é o do que interpreta restritivamente a expressão “fora da Igreja não há salvação”, entendendo-a como “fora das estruturas visíveis da Igreja não há salvação”. Essa falsificação do correto entendimento do brocardo foi igualmente rejeitada pela Igreja, sob o nome de feeneyismo, na Carta ao Arcebispo de Boston, de 8 de agosto de 1949. De fato, a Igreja rechaça tanto o irenismo – que crê na salvação fora da Igreja Católica – quanto o feeneyismo – que confunde a Igreja Católica, única e essencialmente visível (mas com possibilidade de membros invisíveis), fora da qual não há salvação, com sua estrutura de visibilidade. “Aqueles que crêem em Cristo e foram devidamente batizados estão constituídos em certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja Católica.” (Concílio Ecumênico Vaticano II. Decreto Unitatis Redintegratio, de 21 de novembro de 1964, nº 3)

A Igreja não só é capaz de fornecer as respostas à maioria das questões sobre as quais Ela possui um posicionamento específico, como a Teologia Moral, como as dá, de maneira muito eficiente, diga-se de passagem, em instrumentos como o Catecismo da Igreja Católica e seu compêndio, deixando as investigações mais profundas e complexas a cargo da Teologia e da Filosofia. Mesmo porque, o método tomista (relativo à São Tomás de Aquino), utilizado amplamente no âmbito teológico já é, por si mesmo, "silogístico", racional, lógico.

E nós como leigos, nos preocupemos em estar sempre no trilho da santidade para a defesa da fé e para a evangelização e conversão dos não-crentes, para a Glória de Deus.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino