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Crítica de Umberto Eco à São Tomás de Aquino



No ensaio “Os embriões fora do paraíso”, que há dias foi reproduzido pelo suplemento “Q” do “Diário de Notícias”, Eco diz o seguinte, depois de expor as ideias de Tomás de Aquino sobre a vida embrionária: “É curioso que a Igreja, que sempre se reclama do magistério do doutor de Aquino, sobre este ponto tenha decidido afastar-se tacitamente das suas posições”.


Quais as posições do Doutor Angélico? Quanto à vida embrionária, Tomás pensava que primeiro surgia a alma vegetativa, depois a alma animal ou sensitiva e só por fim a alma racional, intelectiva, a realmente alma humana, pelo que “seria infantil pedir a São Tomás absolvições para quem pratique um aborto dentro de um dado período de tempo [antes da chegada da alma intelectiva, que incluía e superava as outras]”. Ainda acrescenta que segundo Tomás, a alma racional (ou intelectiva) habitava o corpo do embrião masculino mais cedo do que o embrião masculino, pelo que, pela mesma ordem de ideias ecotomistas, haveria mais tempo para abortar um embrião feminino.


Eco remata que, na questão do aborto, não seguindo Tomás, a posição da Igreja “parece sobretudo um alinhamento com as posições do protestantismo fundamentalista”. Se a Igreja seguisse Tomás, deveria fazê-lo só em relação aos embriões masculinos ou também femininos? E neste segundo caso, como não acusá-la de machista?

O que faltou no escritor foi um bom conhecimento da teologia católica sobre o tema.

Após a concepção Deus cria imediatamente a alma naquele novo ser humano.

Devido o embrião já ser dotado por uma alma racional, a Igreja tem o grave dever de salvagrardar os direitos do homem, como sendo dom de Deus Criador.

O anjo anunciou a Maria ela concebeu do Espírito Santo. Note que a Sagrada Escritura dá ênfase a questão da concepção de Cristo, dando prova que na concepção existe uma pessoa, embora em estado inicial.

Percebamos que a fé da Igreja nos ensina há séculos que Maria foi concebida sem pecado (Imaculada Conceição). Maria para ter sido totalmente isenta do pecado, teve de ser preservada desde a sua concepção (origem).

A definição da Imaculada Conceição não mexeu, de forma alguma, na questão da infusão da alma, pois ela fala da concepção de Nossa Senhora enquanto pertencente à espécie humana, isto é, concepção tem sentido idêntico ao de animação. Portanto, quando se diz que Nossa Senhora foi preservada imune desde o primeiro instante de sua concepção, está na verdade querendo dizer: desde o primeiro instante de sua animação.

A palavra "concepção" pode ter o sentido de concepção da carne ou da matéria do corpo humano ainda informe, ou pode ter o sentido de concepção da matéria informada pela alma, isto é, a concepção do homem. A definição da Imaculada Conceição refere-se ao segundo sentido, e não diz nada sobre a matéria que precedeu à animação de Nossa Senhora.

Cada indivíduo tem uma e somente uma alma indivisível. O mesmo não se pode dizer do zigoto, que pode dividir-se em dois ou mais mórulas que resultam em dois ou mais indivíduos.

Tendo em vista que a alma é infundida "espiritualmente" em um indivíduo e não biologicamente/quimicamente em um zigoto, podemos assumir que na eventualidade da célula ovo dividir-se em dois ou mais indivíduos, Deus infunde um espírito original e indivisível em cada indivíduo.

Em outras palavras: a alma não é uma substância material que é inserida com uma seringa no zigoto e vai metade pra cada lado no caso de gêmeos. A alma é algo imaterial e único presente em cada indivíduo. Se há um único indivíduo, há nele uma única alma. Se da matéria biológica deste zigoto - que compreende um indivíduo - origina-se um outro ser, este novo ser é também um indivíduo original, e único. Logo, há nele uma alma original e única e independente.

É preciso ter em mente que apesar de pertencer ao corpo, o espírito não ocupa espaço físico em nenhum local do indivíduo. Sim, corpo e alma estão juntos sim mas um é matéria, corruptível. Alma é espiritual e eterna.

Há sentido em condenar o aborto se a animação racional se desse depois da conceição fetal?

Se a Igreja condena o onanismo, é óbvio que há sentido, sim, em condenar o aborto, ainda que a infusão da alma intelectiva não se dê exatamente na concepção.

Além disso, a nota 19 da Declaração sobre o aborto provocado, de 1974, da Congregação para a Doutrina da Fé, dá a entender, que, ainda admitindo a possibilidade da animação tardia, a malícia do pecado de homicídio permanece no aborto provocado do feto supostamente informe:

"Esta Declaração deixa expressamente de parte o problema do momento de infusão da alma espiritual. Sobre este ponto não há tradição unânime e os autores acham-se ainda divididos. Para alguns, ela dá-se a partir do primeiro momento da concepção; para outros, ela não poderia preceder ao menos a nidificação. Não compete à ciência dirimir a favor de uns ou de outros, porque a existência de uma alma imortal não entra no seu domínio. Trata-se de uma discussão filosófica, da qual a nossa posição moral permanece independente, por dois motivos: 1° no caso de se supor uma animação tardia, estamos já perante uma vida humana, em qualquer hipótese, (biológicamente verificável); vida humana que prepara e requer esta alma, com a qual se completa a natureza recebida dos pais; 2° por outro lado, basta que esta presença da alma seja provável (e o contrário nunca se conseguirá demonstrá-lo) para que o tirar-lhe a vida equivalha a aceitar o risco de matar um homem, não apenas em expectativa, mas já provido da sua alma."

A distinção existe mesmo, está numa suma de teologia, que seja até mesmo algo intuitivo.

Afinal, de dois modos se pode "conceber" o ser humano: no momento em que este é criado (e só é criado após ter uma alma, antes disso, não houve concepção do homem) e a concepção, que é o nome dado à criação do germe, que, em nossos dias, é entendida como fecundação do óvulo pelo espermatozóide. Os textos da Igreja, portanto, prestam-se a essa ambiguidade, quando falam da concepção, pois, tanto de um, quando de outro modo, se pode interpretar.

Agora, ninguém está duvidando da imensa razoabilidade que tem a tese de uma animação imediata, quando há já o surgimento de um novo ser vivo.

Ainda que houvesse a questão de quando a alma racional passasse a animar o corpo, a Igreja sempre condenou o aborto.

Essa condenação já se encontrava na Didaché, do século II.

Capítulo II

1. O segundo mandamento da instrução é:

2. Não mate, não cometa adultério, não corrompa os jovens, não fornique, não roube, não pratique a magia nem a feitiçaria. Não mate a criança no seio de sua mãe e nem depois que ela tenha nascido.

Concluindo: a petulância de Eco ao questionar o Aquinate não faz eco nem sentido.


 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino