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Liturgia Dominicana


Introdução

A ordem dominicana, dedicada à vida intelectual e organizada internacionalmente, precisava de um rito curto o bastante para permitir um amplo tempo para os estudos e uniforme em todos os países onde seus frades tinham conventos. O rito galo-romano, observado em quase toda a Igreja latina, não era nem breve nem uniforme (mesmo em Roma). Desse modo, se os dominicanos precisavam de uma liturgia curta e invariável, eles deveriam compilar seu próprio rito das fontes existentes. Isso foi feito, provavelmente, 1220.


Desenvolvimento

A compilação serviu aos frades por um quarto de século; então, uma reforma litúrgica, que ocorria em Roma, levou os pregadores a apontarem quatro membros de sua família espiritual para organizarem o rito numa forma melhorada. Esse trabalho durou 6 anos e ganhou a aprovação de cinco capítulos gerais. Em 1254 Humberto de Roma foi eleito mestre geral. Ele corrigiu a revisão citada e em 1256 estabeleceu sua observância na ordem. Clemente IV aprovou formalmente o rito dominicano pela bula Consurget in nobis, de 7 de julho de 1267.

A sobriedade, simplicidade e beleza do rito exerceram um grande apelo; muitas ordens religiosas e mesmo dioceses o adotaram. Quase todos os países bálticos (Noruega, Suécia, Finlândia e Estônia) aderiram, em parte ou totalmente, à liturgia dos frades pregadores. Mais ao sul, ele foi adotado pelas dioceses de Agram e Lucera na Itália. Na Armênia os monges basilianos usaram uma tradução dos livros litúrgicos dominicanos.

Fontes

O estudo das fontes do rito dominicano é algo muito complicado, de que só se pode conhecer os contornos. Se nós tivéssemos todos ou a maior parte dos livros da primeira compilação, ou soubéssemos quais foram exatamente as mudanças feitas pelos quatro frades, o problema estaria resolvido. Mas da compilação original temos apenas um martirilógio e um missal. O martirilógio é o Martirilógio de Usuard (uma versão usada por muitas abadias e igrejas). O missal não contém nenhum canto e poucas rubricas. O texto se aproxima do rito da diocese de Paris; de fato, várias adições feitas nas margens permitiram que esse missal fosse usado como um missal parisiense.

As revisões feitas até 1256 obscureceram todas as pistas sobre as fontes do rito do dominicano. O breviário no Codex Liturgicus de Humberto é muito semelhante aos dos nobertinos; os cantos gregorianos sugerem uma versão simplificada do canto cisterciense influenciada pela revisão que ocorria na época em Roma. As rubricas, embora não sejam claramente as da Cúria Romana, possuem elementos muito similares ao da reforma dessas últimas. O trabalho dos quatro frades e o Codex de Humberto mostram um esforço contínuo para se eliminarem as variações galicanas da liturgia dos pregadores em favor das formas romanas.

Características

A missa resada de Humberto tem algumas características distintivas. A água e o vinho são colocadas no cálice antes do Confiteor. O Confiteor é breve e não há o Salmo Judica me Deus. O Gloria e o Credo são lidos do missal – o que também era um antigo costume romano. A hóstia e o cálice são oferecidos numa oblação única e também com apenas uma oração. Os dominicanos não dizem as adições medievais: Deus qui humanae e Veni sanctificator.

Apenas o primeiro verso do Lavabo é recitado (hoje em dia os primeiros três versos são ditos). Na Consagração apenas a hóstia é elevada (hoje em dia o cálice também o é). Na oração Unde et memores, o celebrante estende seus braços in modum crucis. A Commixtio ocorre após o Agnus Dei. Terminando a prece Domine Iesu Christe Filli Dei, o sacerdote comunga a Hóstia Consagrada da sua mão esquerda, recitando “Corpus et Sanguis Domini nostri Iesu Christi custodiant me”, etc. Após uma pausa, ele consome o Preciosíssimo Sangue em silêncio.

Em seguida a oração Quod ore sumpsimus. Uma benção final é dada apenas se isso for o costume local (atualmente, é dada sempre, menos nas missas de requiem, com as palavras “Benedictio Dei Omnipotentis, Patris et Filii et Spiritus Sancti, descendat supr vos et maneat semper”). As cerimônias das missas cantadas diferem num número muito maior das do rito gregoriano.

Embora a “Missa dos Frades Pregadores” tenha sobrevivido ao longo de mais de 7 séculos quase sem mudanças, o mesmo não pode ser dito do Ofício Divino. Revisões importantes a partir de 1920 deixaram pouco do Breviário medieval. Entre os elementos que permaneceram estão antigos hinos da Igreja. O hinário do Ofício do rito gregoriano, que foi desfigurado pelas “correções” humanistas do Papa Urbano VIII, não foi aceito pelos dominicanos. Também foi mantido o pequeno Ofício Pascal, que vai da Páscoa até o domingo da Santíssima Trindade.





Antes de São Domingos nascer, sua mãe sonhou com um cão que levava na boca uma tocha iluminando o mundo. Assim os dominicanos ficaram conhecidos como os cães de guarda da fé.

Na iconografia os cães são representados nas cores da Ordem (branco – pureza – e preto – penitência). Nesta imagem especificamente eles defendem os cordeiros (a Verdade) dos lobos, cães selvagens (falsos pastores).

Enciclopédia de 1912.

A Enciclopédia Católica, na edição de 1912, diz o seguinte sobre a origem do rito dominicano:

A questão de se ter um rito especial e unificado não recebeu atenção durante a vida de São Domingos; a ordem, naquela época, partilhava da diversidade então existente na Igreja. Cada província e mesmo cada convento tinham certas peculiaridades nas cerimônias da Missa e do Ofício. Os sucessores de São Domingos, contudo, logo perceberam que as coisas assim eram impraticáveis e passaram a trabalhar na eliminação das distinções mais embaraçosas. Eles alegavam que o princípio da oração em comum, base da vida comunitária, era posto em perigo por essa diversidade. Isso ficava patente durante a os capítulos gerais da ordem, que reuniam irmãos de cada província, e que eram marcados pela confusão em matéria litúrgica.

O primeiro esforço de regulação da liturgia veio já do sucessor de São Domingos, Jordão da Saxônia. Nas constituições (1228) escritas por ele se encontram algumas rubricas sobre a recitação do Ofício. Elas insistem mais na importância de se recitar as Horas que na qualificação dos livros litúrgicos. Todavia, alguns dizem que ele tomou certas atitudes no sentido de se ter um Ofício único para os pregadores, mas, se isso foi verdade, o fato é que teve pouca repercussão. Tanto que os capítulos de Bolonha (1240) e Paris (1241) permitiram que cada convento seguisse o rito da diocese onde se localizava. Foi com João o Teuto, o quarto mestre geral, que se tentou fazer algo sistemático. Seguindo suas sugestões o capítulo de Bolonha (1244) perdiu aos delegados para levarem ao próximo capítulo (Colônia, 1245) suas rubricas especiais para a recitação do Ofício, seus missais, graduais e antifonários, “pro concordando officio”.

Para trazer alguma ordem ao caos uma comissão, composta por membros das províncias da França, Inglaterra, Lombardia e Alemanha, foi engarregada de fazer uma revisão (em Angers) do material trazido. Ela levou o resultado de seu trabalho ao capítulo de Paris (1246), que aprovou a compilação e ordenou seu uso na ordem. Esse mesmo capítulo aprovou um lecionário, que foi entregue a Humberto de Roma para uma revisão. O trabalho da comissão foi novamente chancelado pelos capítulos de Montepulciano (1247) e Paris (1248).

Mesmo com essas aprovações, houve uma insatisfação geral com o trabalho da comissão, em especial com a interpretação das rubricas dada por ela. Para os críticos, a comissão fez um trabalho apressado, deixando ainda muita coisa vinculada aos costumes locais. Sendo assim, a questão foi reaberta e o capítulo de Londres (1250) pediu à comissão para se reunir em Metz e revisar seu trabalho à luz das críticas; o resultado dessa revisão foi aprovado nos capítulos de Metz (1251) e Bolonha (1252) e tornada obrigatória para todos os membros da ordem dos pregadores. Também foi ordenado que uma cópia dos livros litúrgicos fosse arquivada em Paris e em Bolonha, de modo que os livros usados nos conventos tivessem uma fonte fiel para ser copiada. Ainda assim, mais uma vez, foi reconhecido que esses livros não tinham atingido os objetivos propostos e, portanto, demandavam uma nova modificação. Embora essa modificação estivesse sobre a direção de João o Teuto, o trabalho bruto ficou a cargo de Humberto de Roma, provincial de Paris. Humberto foi eleito mestre geral no capítulo de Buda (1254) e instigado, mais ainda, a voltar sua atenção ao problema dos livros litúrgicos usados na ordem.

Ele submeteu cada um deles a uma nova reforma rigorosa, e, após dois anos, mostrou o resultado no capítulo de Paris (1256). Este último e os capítulos subseqüentes endossaram o trabalho de Humberto, prolatando uma legislação que protegia a liturgia de qualquer modificação, e, de uma vez por todas, estabelecendo um rito comum à ordem dominicana.

Sobre a preservação do rito, a citada enciclopédia diz:

Clemente IV lançou uma bula, em 1267, na qual louvava a habilidade e o zelo de Humberto e proibia qualquer alteração, sem a devida autorização, no trabalho feito por ele. Os papas posteriores também olharam com cuidado para a preservação do rito dominicano. Inocêncio XI e Clemente XII proibiram a impressão dos livros litúrgicos sem a autorização do mestre geral e o cumprimento da obrigação da oração em comum com qualquer outra obra que não levasseo selo do mestre geral e uma cópia dos decretos pontifícios. Um outro meio que contribuiu para a preservação do rito da ordem dos pregadores foi a “Quo Primum Tempore” de São Pio V, que mesmo impondo um rito universal para a Igreja latina, excepcionou aqueles que tivessem uma aprovação superior a 200 anos. Tal privilégio foi plenamente aceito pelos dominicanos, de modo que ao longo dos séculos não houve modificação na sua liturgia.

O que se deu, algumas vezes, com a permissão de Roma, foi o acréscimo de festas ou correções nos livros sempre no sentido de deixá-los conforme os exemplares de Paris e Bolonha (assim as reformas dos capítulos de Salamanca – 1551 -, Roma – 1777 – e Ghent – 1871).


Os locais que celebram o rito:

Congregation of St. Dominic/Friary of La Haye aux Bonshommes Avrillé, França (em inglês):

http://www.sspxasia.com/Documents/Society_of_Saint_Pius_X/Vocations/Mens-Communities/Chap-3-Dominican-Brothers.htm

Fraternidade de São Vicente Férrer Chémeré-le-Roi, França (em francês):

http://www.chemere.org/

Das quatro províncias dos Estados Unidos, duas (Santíssimo Nome de Jesus e São José) usam o rito, mas não em todos os conventos.

The Province of the Most Holy Name of Jesus/Western Dominican Province Província ao oeste dos EEUU (em inglês):

http://opwest.org/

Tal província sobre o rito dominicano (em inglês):

http://opwest.org/Archive/2010/2010-09-13-dominicanrite.htm

Blog do Fr. Augustine Thompson, membro da Província (em inglês):

http://dominican-liturgy.blogspot.com/

The Dominican Province of Saint Joseph Província ao leste dos EEUU (em inglês):

http://www.op-stjoseph.org/



Dois pontos devem ser destacados:

1. O rito dominicano não é uma elaboração arbitrária em cima do rito romano contrária ao espírito da Igreja ou algo feito tendo em vista um exclusivismo sociológico. Ele não é mais galicano que o rito galo-romano da época de sua criação. É uma tentativa sincera e honesta de armonizar e simplificar vários usos.

2. O rito dominicano, formulado por Humberto, não passou por nenhuma mudança radical desde sua confirmação por Clemente IV. Quando São Pio V fez sua reforma, o rito dos pregadores estava fixo e estável a trezentos anos, enquanto o de outras comunidades era modificado constantemente. Além disso, a simplicidade do rito dominicano, como é manifestado nos seus diferentes livros litúrgicos, evidencia sua antigüidade.

Livros litúrgicos

O rito compilado por Humberto continha quatorze livros:

1. O Ordinário, que era uma espécie de índice do Ofício Divino (os Salmos, Lições, Antífonas e Capítulos eram indicados por suas primeiras palavras);

2. O Martirilógio, um calendário ampliado dos mártires e santos;

3. O Coletário, um livro para uso do hebdomadário, o qual contém os textos e as notações para as orações, capítulos e bênçãos;

4. O Processional, com hinos (texto e música) para procissões;

5. O Saltério, com os Salmos;

6. O Lecionário, que continha as homilias de domingo, as lições da Sagrada Escritura e a vida dos santos;

7. O Antifonário, com os textos e a música de parte do Ofício;

8. O Gradual, que continha as palavras e a música da pare da Missa cantada pelo coral;

9. O Missal Conventual, para a celebração de missas solenes;

10. O Epistolário, com as epístolas para a Missa e o Ofício;

11. O Evangeliário;

12. O Pupitário, que continha a notação musical para o Glória, o Invitatório, as Ladainhas, Tractos e o Aleluia;

13. O Missal, para a Missa privada;

14. O Breviário, uma compilação (bem reduzida para a conveniência das viagens) de todos os livros usados para a recitação conventual do Ofício.

Um blog dedicado somente ao rito dominicano na sua raiz original http://dominican-liturgy.blogspot.com/

 

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