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O Canto Gregoriano no Magistério pós-Conciliar


Comumente atribuído a São Gregório Magno, na realidade o canto gregoriano foi sendo desenvolvido no decorrer dos primeiros séculos da nossa civilização, derivado dos antigos cantos rituais da Terra Santa, Ásia Menor e Grécia. É, portanto, uma expressão artística genuinamente cristã, nos unindo ao povo do Antigo Testamento e da Igreja Primitiva. São Gregório Magno foi o suposto responsável pela codificação dos cantos desse estilo a serem utilizados na Liturgia Romana. Devido à sua beleza e simplicidade(atestada, por exemplo, por S. Agostinho, ainda antes de sua conversão) o canto gregoriano rapidamente espalhou-se por toda a Europa e imperou na Cristandade Latina durante toda a Idade Média.
Com o advento da Modernidade músicas eruditas, com orquestra e vários coros, começaram a infiltrar-se na Liturgia, inicialmente com a polifonia sacra e mais tarde com obras requintadas que inspiravam-se e muitas vezes copiavam óperas e grandes sinfonias. O Magistério da Igreja sabiamente manifestou-se contra os excessos de tais composições, louvando porém a beleza da polifonia sacra.
Ao fim do século XIX a Igreja vem fazendo um esforço contínuo pela restauração do canto cristão tradicional e desde então grandes mestres das artes sacras fizeram grandes esforços para recuperar as tradições. De especial destaque nessa restauração foram o Papa S. Pio X e a Abadia de Solesmes na França.
O Concílio Vaticano II, que tinha por uma de suas linhas mestras, o retorno à Patrística e a redescoberta de elemento litúrgicos tradicionais não se calou sobre o Gregoriano, como veremos abaixo.No seu primeiro documento, de 1963, a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, que versava sobre a reforma do Rito Romano podemos encontrar um capítulo inteiro dedicado à Música Sacra(capítulo VI) do qual destacamos:

112. A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene.

Não cessam de a enaltecer, quer a Sagrada Escritura, quer os Santos Padres e os Romanos Pontífices, que ainda recentemente, a começar em S. Pio X, vincaram com mais insistência a função ministerial da música sacra no culto divino.(...)

114. Guarde-se e desenvolva-se com diligência o património da música sacra. Promovam-se com empenho, sobretudo nas igrejas catedrais, as «Scholae cantorum». Procurem os Bispos e demais pastores de almas que os fiéis participem activamente nas funções sagradas que se celebram com canto, na medida que lhes compete e segundo os art. 28 e 30.

116. A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar.

Não se excluem todos os outros géneros de música sacra, mormente a polifonia, na celebração dos Ofícios divinos, desde que estejam em harmonia com o espírito da acção litúrgica, segundo o estatuído no art. 30.
Quanto ao repertório dos cantos sacros foi dito:

117. Procure terminar-se a edição típica dos livros de canto gregoriano; prepare-se uma edição mais crítica dos livros já editados depois da reforma de S. Pio X.

Convirá preparar uma edição com melodias mais simples para uso das igrejas menores.
Tanto as edições típicas reformadas quando as edições com melodias mais acessíveis aos fiéis iniciantes no canto sacro católico(Kyriale Simplex, Graduale Simplex), graças à demanda do Concílio, já estão prontas há décadas e à disposição dos fiéis.
Quanto aos instrumentos adequados à sacra liturgia:

120. Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus.

Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido nos art. 22 § 2, 37 e 40
1, contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis.
Porém, mesmo com determinações claras do Concílio, a Santa Sé, alguns anos após a publicação da Sacrosanctum Concilium percebeu a necessidade de esclarecer alguns pontos e guiar os membros da Igreja na implantação da Reforma Litúrgica. Nesse intuito vários documentos foram publicados, um deles, tratando especificamente da música adequada aos ritos da Igreja Latina. É a Instrução sobre Música na Liturgia Musicam Sacram, de 1967; um documento riquíssimo em conselhos, normas e medidas que devem ser adotados para a correta participação e educação tanto dos fiéis quanto dos clérigos envolvidos na Liturgia para que dela participem mais plenamente e atinjam a participação ativa tão pedida pelo Concílio Vaticano II e pelos Papas anteriores a ele. No que tange o assunto aqui abordado podemos encontrar2:

4. Espera-se que pastores de almas, músicos e os fiéis alegremente aceitarão essas normas e as porão em prática, unindo seus esforços para obter o verdadeiro propósito da música sacra, “que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis.”

(a) Por música sacra é entendida aquele que, sendo criada para a celebração do culto divino, é dotada de uma certa sacra sinceridade de forma.

(b) As seguintes encontram-se sob o título de música sacra: Canto gregoriano, polifonia sacra em suas várias formas tanto antigas quanto modernas, música sacra para o órgão ou outros instrumentos aprovados e música sacra popular, seja litúrgica ou simplesmente religiosa.
O ponto (a) faz referência ao Motu Proprio Tra le sollecitudini de S. Pio X e o ponto (b) à Instrução da Sagrada Congregação para os Ritos de 1958, aos quais voltaremos para posteriores esclarecimentos.

18. Entre os fiéis, atenção especial deve ser dada à instrução dos membros de sociedades religiosas leigas em canto sacro, para que eles possam apoiar e promover a participação do povo de modo mais eficiente. A formação de todas as pessoas no canto, deve ser séria e pacientemente levada a cabo conjuntamente com a instrução litúrgica, de acordo com idade, estado e modo de vida do fiel e o grau de sua religiosidade; isso deve ser feito desde os primeiros anos de educação escolar.

19. Devido ao ministério litúrgico que ele desempenha, o coro – ou a Capella musica, ou schola cantorum – merece menção particular. Seu papel tornou-se de ainda maior importância e peso em razão das normas do Concílio relativas à renovação litúrgica. Seu dever é, de fato, garantir a execução apropriada das partes que lhe competem, de acordo com os diferentes tipos de música cantados, e encorajar a participação ativa dos fiéis no canto. Portanto:

(a) Devem haver coros, ou Capellae, ou scholae cantorum, especialmente em catedrais ou outras igrejas maiores, em seminários e casas de estudo religiosas, e eles devem ser encorajados cuidadosamente.

(b) Seria desejável que coros similares também fossem instituídos em igrejas menores.

32. O costume legitimamente em uso em certos lugares e largamente confirmado por indultos, de substituir outras canções pelas dadas no Graduale para Intróito, Ofertório e Comunhão, pode ser mantido de acordo com o julgamento da autoridade territorial competente, desde que tais músicas estejam de acordo com as partes da Missa, com a festa ou com o tempo litúrgico. Cabe à mesma autoridade territorial aprovar os textos dessas músicas.

52. Visando preservar a herança da música sacra e genuinamente promover novas formas de canto sacro, “grande importância deve ser atribuída ao ensino e prática de música nos seminários, nos noviciados e nas casas de estudo religioso de ambos os sexos, e também em outras instituições e escolas Católicas,” especialmente nos institutos superiores dirigidos especialmente a isso. Sobretudo, o estudo e prática do canto Gregoriano devem ser promovidos, porque, com suas características especiais, é uma base de grande importância para o desenvolvimento da música sacra.

53. Novas obras de música sacra devem conformar-se fielmente aos princípios e normas enunciados acima. Dessa maneira eles terão “as qualidades próprias à genuína música sacra, estando dentro das capacidades não meramente dos grandes coros mas dos pequenos coros, facilitando a participação dos fiéis”.

Em relação à herança que nos foi legada aquelas partes que correspondem às necessidades da liturgia renovada devem recuperadas primeiro. Especialistas nesse campo devem então cuidadosamente considerar se outras partes podem ser adaptadas às mesmas necessidades. Quanto às obras que não correspondem à natureza da liturgia ou não podem ser harmonizadas com a celebração pastoral da liturgia – elas podem ser proveitosamente transferidas a devoções populares, especialmente a celebrações da palavra de Deus.

59. Músicos entrarão nesse novo trabalho com o desejo de continuar aquela tradição que foi fornecida pela Igreja, no seu culto divino, com uma herança verdadeiramente abundante. Que eles examinem os trabalhos do passado, seus estilos e suas características, mas que eles também prestem cuidadosa atenção às novas leis e requerimentos da liturgia, para que “novas formas possam de algum modo crescer organicamente das formas que já existem” e o novo trabalho forme uma nova parte na herança musical da Igreja, não indigna do seu passado.

60. As novas melodias para os textos vernáculos certamente precisam passar por um período de experimentação para que elas possam atingir uma suficiente maturidade e perfeição. Entretanto, qualquer coisa feita em igrejas, mesmo que apenas para propósitos experimentais, que sejam indignas da sacralidade do local, da dignidade da liturgia e da devoção dos fiéis, deve ser evitada.
Poucos anos depois, em 1970, a Sagrada Congregação para o Culto Divino publicou o documento Liturgicae Instaurationes sobre a aplicação correta da Constituição sobre Liturgia(Sacrosanctum Concilium). Em 1969 o Missal de Paulo VI havia sido publicado e, para que não houvessem erros em seu uso, foi-nos dado um documento ressaltando o que era mantido do Missal antigo e o que seria alterado. Nele podemos encontrar3:

3. Os textos litúrgicos, compostos pela Igreja, serão tratados com o máximo respeito. Ninguém, pois, pode por si só fazer mudanças, substituições, subtrações ou adições.

a. Há especial razão para manter o Ordinário da Missa intacto. Sob nenhuma consideração, nem mesmo sob pretexto de cantar a Missa, a tradução oficial de suas formulas ser alterada. Há, claro, formulas opcionais, notadas no contexto de vários ritos, para certas partes da Missa: o ato penitencial, as orações eucarísticas, aclamações, bênção final.

b. Fontes para as antífonas de comunhão e entrada são: o Graduale Romanum, o Graduale Simplex, o Missal Romano, e as compilações aprovadas pelas conferências episcopais. Na escolha dos cantos para a Missa, as conferências devem considerar não apenas a adequação aos diferentes tempos e circunstâncias dos serviços litúrgicos, mas também as necessidades dos fiéis usufruindo deles.
Tal artigo não cita nominalmente o canto gregoriano, mas cita como possíveis cantos litúrgicos, os cantos gregorianos contidos nos livros encomendados pelo Concílio. Como exceção, caso aprovados pela Conferência Episcopal, outros cantos poderiam ser utilizados. Algo que transparece na mesma passagem, apesar de não estar diretamente ligado ao tema desse estudo, é a firme resolução de que os textos da Missa não podem ser alterados, nem mesmo para facilitar o canto; a mesma instrução pode ser encontrada na Instrução Geral do Missal Romano(mais explicitamente quando fala do Gloria)4.
Após tantas e tão claras instruções da Santa Sé sobre a Missa de Paulo VI, infelizmente, muitos abusos ocorreram e ocorrem nos dias de hoje. Diversos Papas se pronunciaram sobre os variados abusos, Paulo VI sobre o abandono do latim, João Paulo II sobre a irreverência com o Santíssimo Sacramento e Bento XVI sobre o abandono do Mistério na Liturgia. Todos esses comentários trazem em si a idéia de que o Concílio deve ser obedecido à risca e que a Missa é de suma importância, não admitindo improvisos ou instrumentalizações, mas de especial importância são algumas intervenções do Beato João Paulo II, cuja fidelidade ao Concílio ninguém ousa duvidar. Primeiramente a Vicesimus Quintus Annos, publicada, como o nome sugere, 25 anos após a Sacrosanctum Concilium, e em que o Sumo Pontífice faz uma análise do quanto a vontade do Concílio e as instruções sobre o Novus Ordo foram ignoradas. Numa parte dela pode ser lido5:

20. As Conferências Episcopais teve a pesada responsabilidade de preparar as traduções dos livros litúrgicos. Necessidade imediata ocasionalmente levou ao uso de traduções provisórias, aprovadas
ad interim.Mas agora o tempo chegou para refletir sobre certas dificuldades que subseqüentemente emergiram, para sanar certos defeitos ou imprecisões, para completar traduções parciais, para compor ou aprovar cantos a serem usados na Liturgia, para garantir respeito pelos textos aprovados e finalmente para publicar livros litúrgicos numa forma que tanto testifique a estabilidade alcançada quanto seja digna dos mistérios sendo celebrados(...).
O destaque do artigo deve-se não apenas a urgir o clero à obediência na aplicação da reforma litúrgica, mas por relembrar que o Concílio não deu carta branca para que qualquer música fosse utilizada na Liturgia, mas ordenou às Conferências Episcopais que avaliassem, aprovassem e compilassem os cantos sacros que poderiam ser utilizados como exceção aos cantos tradicionais da Igreja6.
Em 2001, em duas ocasiões o Beato Papa falou novamente sobre Música Sacra. Primeiramente num discurso por ocasião do 90º aniversário do Pontifício Instituto de Música Sacra:

4(...) Vocês, professores e estudantes, são chamados a fazer o melhor dos seus dons artísticos, mantendo e aprofundando o estudo e prática da música e do canto nas formas e com os instrumentos privilegiados pelo Segundo Concílio Vaticano: o canto Gregoriano, a polifonia sacra e o órgão. Apenas nesse caminho a música litúrgica irá dignamente realizar sua função durante a celebração dos sacramentos e, especialmente, da Santa Missa.
Depois num pronunciamento por ocasião do congresso internacional de Música Sacra, o Beato Papa disse:

3. Música Sacra é uma parte integral da liturgia. O canto Gregoriano, reconhecido pela Igreja como sendo “especialmente adequado à liturgia Romana”, é uma herança espiritual única e universal que foi legada a nós como a mais clara expressão de música sacra a serviço da palavra de Deus. Ele teve uma considerável influência no desenvolvimento da música na Europa. O conhecido trabalho paleográfico do Abade de Saint-Pierre de Solesmes e a publicação de coleções de canto Gregoriano encorajadas pelo Papa Paulo VI, juntamente com a proliferação dos corais Gregorianos, contribuiu para uma renovação da liturgia e da música sacra em particular.

Embora a Igreja reconheça o preeminente lugar do canto Gregoriano, ela acolheu outras formas musicais, especialmente a polifonia. De qualquer forma, essas várias formas musicais devem estar de acordo “com o espírito da ação litúrgica”. Desse ponto de vista, o trabalho de Pierluigi da Palestrina, o mestre da polifonia clássica, é particularmente evocativo. Sua inspiração faz dele um modelo para os compositores de música sacra, que ele pôs a serviço da liturgia.
Obviamente tal pronunciamento não se trata de um documento magisterial, mas ainda assim, vindo de um Papa, e vindo especialmente desse, tão comprometido com o diálogo com o mundo moderno proposto pelo Concílio Vaticano II, é muito significativo. Nele vemos, novamente, o lugar de primazia do Canto Gregoriano e Palestrina figurando como o modelo dos demais cantos sacros.
Por fim, em 2003, no aniversário de 100 anos do Motu Proprio Tra le sollecitudini do Santo Papa Pio X(supracitado, não por acaso), o Beato João Paulo II publicou um documento muito esclarecedor, onde consta:

2(...) Portanto, foi constante a atenção dos meus Predecessores a este delicado sector, a propósito do qual foram evocados os princípios fundamentais que devem animar a produção da música sacra, especialmente destinada à Liturgia. Além do Papa São Pio X, devem ser recordados, entre outros, os Papas Bento XIV, com a Encíclica Annus qui (19 de Fevereiro de 1749); Pio XII, com as Encíclicas Mediator Dei (20 de Dezembro de 1947) e Musicae sacrae disciplina (25 de Dezembro de 1955); e, finalmente, Paulo VI, com os luminosos pronunciamentos que disseminou em múltiplas oportunidades.

Os Padres do Concílio Vaticano II não deixaram de reforçar tais princípios, em vista da sua aplicação às condições transitórias dos tempos. Fizeram-no num capítulo especial, o sexto, da Constituição Sacrosanctum concilium. O Papa Paulo VI procedeu, pois, à tradução daqueles princípios em normas concretas, sobretudo por meio da Instrução Musicam sacram, emanada com a sua aprovação em 5 de Março de 1967, pela então Sagrada Congregação para os Ritos. É preciso voltar constantemente àqueles princípios de inspiração conciliar, para promover, em conformidade com as exigências da reforma litúrgica, um desenvolvimento que esteja, também neste campo, à altura da tradição litúrgico musical da Igreja. O texto da Constituição Sacrosanctum concilium onde se afirma que a Igreja "aprova e admite no culto todas as formas de verdadeira arte, dotadas das devidas qualidades"(7), encontra os critérios adequados de aplicação nos nn. 50-53 da Instrução Musicam sacram, agora mencionada(8).

4. Em conformidade com os ensinamentos de São Pio X e do Concílio Vaticano II, é preciso sublinhar acima de tudo que a música destinada aos sagrados ritos deve ter como ponto de referência a santidade: ela, de facto, "será tanto mais santa quanto mais estreitamente for unida à acção litúrgica". Por este exacto motivo, "não é indistintamente tudo aquilo que está fora do templo (profanum) que é apto a ultrapassar-lhe os umbrais", afirmava sabiamente o meu venerável Predecessor Paulo VI, comentando um decreto do Concílio de Trento e destacava que "se não se possui ao mesmo tempo o sentido da oração, da dignidade e da beleza, a música instrumental e vocal impede por si o ingresso na esfera do sagrado e do religioso". Por outro lado, a mesma categoria de "música sacra" recebeu hoje um alargamento de significado, a ponto de incluir repertórios que não podem entrar na celebração sem violar o espírito e as normas da mesma Liturgia.

A reforma realizada por São Pio X visava especificamente purificar a música de igreja da contaminação da música profana teatral, que em muitos países tinha poluído o repertório e a prática musical litúrgica. Também nos nossos tempos é preciso considerar atentamente, como evidenciei na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, que nem todas as expressões de artes figurativas e de música são capazes de "expressar adequadamente o Mistério acolhido na plenitude da fé da Igrejas". Consequentemente, nem todas as formas musicais podem ser consideradas aptas para as celebrações litúrgicas.

6(...)Neste sentido, São Pio X indicava usando o termo universalidade um ulterior requisito da música destinada ao culto: "...mesmo concedendo a cada nação ele considerava de admitir nas composições religiosas formas particulares que constituem de certo modo o carácter específico da música que lhes é própria, elas não devem estar de tal modo subordinadas ao carácter geral da música sacra, que ninguém de outra nação, ao ouvi-la, tenha uma impressão negativa". Por outras palavras, o espaço sagrado da celebração litúrgica jamais deve tornar-se um laboratório de experiências ou de práticas de composição e de execução, introduzidas sem uma verificação atenta.

7. Entre as expressões musicais que mais correspondem à qualidade requerida pela noção de música sacra, particularmente a litúrgica, o canto gregoriano ocupa um lugar particular. O Concílio Vaticano II reconhece-o como "canto próprio da liturgia romana" à qual é preciso reservar, na igualdade das condições, o primeiro lugar nas acções litúrgicas celebradas com canto em língua latina. São Pio X ressaltava que a Igreja "o herdou dos antigos Padres", "guardando-o ciosamente durante os séculos nos seus códigos litúrgicos" e ainda hoje o "propõe aos fiéis" como seu, considerando-o "como supremo modelo de música sacra". O canto gregoriano, portanto, continua a ser também hoje, um elemento de unidade na liturgia romana.

9. Também neste campo, portanto, se evidencia a urgência de promover uma formação sólida, quer dos pastores quer dos fiéis leigos. São Pio X insistia particularmente sobre a formação musical do clero.

Nesta obra formativa, um papel especial é desempenhado pelas escolas de música sacra, que São Pio X exortava a apoiar e promover, e que o Concílio Vaticano II recomenda a instituir onde for possível.(...)

10. Dado que a Igreja sempre reconheceu e favoreceu o progresso das artes, não é de se admirar que, além do canto gregoriano e da polifonia, admita nas celebrações também a música moderna, desde que seja respeitosa do espírito litúrgico e dos verdadeiros valores da arte. Portanto, permite-se que as Igrejas nas diversas Nações valorizem, nas composições destinadas ao culto, "aquelas formas particulares que constituem de certo modo o carácter específico da música que lhes é própria".(...)

12. No que diz respeito às composições musicais litúrgicas, faço minha a "regra geral" que são Pio X formulava com estes termos: "Uma composição para a Igreja é tanto sacra e litúrgica quanto mais se aproximar, no andamento, na inspiração e no sabor, da melodia gregoriana, e tanto menos é digna do templo, quanto mais se reconhece disforme daquele modelo supremo". (...)

Portanto, é necessária uma renovada e mais profunda consideração dos princípios que devem estar na base da formação e da difusão de um repertório de qualidade. Somente assim se poderá permitir que a expressão musical sirva de modo apropriado a sua finalidade última, que "é a glória de Deus e a santificação dos fiéis".(...)

13. Por fim, gostaria ainda de recordar aquilo que São Pio X dispunha no plano prático, com a finalidade de favorecer a aplicação efectiva das indicações apresentadas no Motu proprio. Dirigindo-se aos Bispos, ele prescrevia que instituíssem nas suas dioceses "uma comissão especial de pessoas verdadeiramente competentes em matéria de música sacra". Onde a disposição pontifícia foi posta em prática, não faltaram os frutos.(...)

É importante, de facto, que as composições musicais utilizadas nas celebrações litúrgicas correspondam aos critérios enunciados por São Pio X e sabiamente desenvolvidos, quer pelo Concílio Vaticano II quer pelo sucessivo Magistério da Igreja. Nesta perspectiva, estou persuadido de que também as Conferências episcopais hão-de realizar cuidadosamente o exame dos textos destinados ao canto litúrgico, e prestar uma atenção especial à avaliação e promoção de melodias que sejam verdadeiramente aptas para o uso sacro.

14. Ainda no plano prático, o Motu proprio do qual se celebra o centenário, aborda também a questão dos instrumentos musicais a serem utilizados na Liturgia latina. Dentre eles, reconhece sem hesitação a prevalência do órgão de tubos, sobre cujo uso estabelece normas oportunas. O Concílio Vaticano II acolheu plenamente a orientação do meu Predecessor, estabelecendo: "Tenha-se grande apreço, na Igreja latina, pelo órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de trazer às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito a Deus e às coisas celestes".

Deve-se, porém, reconhecer que as composições actuais utilizam frequentemente modos musicais diversificados não desprovidos da sua dignidade. Na medida em que servem de ajuda para a oração da Igreja, podem revelar-se como um enriquecimento precioso. É preciso, porém, vigiar a fim de que os instrumentos sejam aptos para o uso sacro, correspondam à dignidade do templo, possam sustentar o canto dos fiéis e favoreçam a sua edificação.
Tais palavras do Bem Aventurado Papa são fascinantes e elucidam muitos pontos relativos à Arte Sacra. Em especial reforço para o fato(hoje defendido com unhas e dentes pelo Papa Bento XVI) de que, apesar de ter trazidos várias inovações, o Concílio Vaticano II não rompeu com a Tradição e o Magistério anterior, muito pelo contrário, dele depende e o reforça. Também é muito importante que sejam citados dois dos grandes responsáveis pela linha de pensamento que culminou no Concílio Vaticano II e, em especial, nas direções da Sacrosanctum Concilium: S. Pio X e o Pio XII. As palavras de S. Pio X já foram citadas pelo Beato João Paulo II, com o desejo de que ainda hoje continuássemos seguindo-as, vejamos o que nos diz o Papa Pio XII.
Na Encíclica Mediator Dei:

176. Quanto à música, observem-se escrupulosamente as determinadas e claras normas emanadas desta Sé Apostólica. O canto gregoriano que a Igreja romana considera coisa sua, porque recebido da antiga tradição e guardado no correr dos séculos sob a sua cuidadosa tutela e que propõe aos fiéis como coisa também deles, prescrito como é de modo absoluto em algumas partes da liturgia, não só acrescenta decoro e solenidade à celebração dos divinos mistérios, antes contribui extremamente até para aumentar a fé e a piedade dos assistentes. A esse propósito nossos predecessores de imortal memória, Pio X e Pio XI, estabeleceram - e nós de bom grado confirmamos com a nossa autoridade as disposições por eles dadas - que nos seminários e nos Institutos religiosos seja cultivado com estudo e diligência o canto gregoriano, e que, ao menos nas Igrejas mais importantes, sejam restauradas as antigas "Scholae cantorum"; como já foi feito com feliz resultado em não poucos lugares.

177. Além disso, "para que os féis participem mais ativamente do culto divino, seja restaurado o canto gregoriano até no uso popular na parte que respeita ao povo. E urge verdadeiramente que os fiéis assistam às sagradas cerimônias não como espectadores mudos e estranhos, mas penetrados, intimamente, da beleza da liturgia... que alternem, segundo as normas prescritas, sua voz com a voz do sacerdote e dos cantores; se isso graças a Deus se verificar, então não acontecerá mais que o povo responda apenas com um leve e submisso murmúrio às orações comuns ditas em latim e em língua vulgar".

Na Musicae Sacrae:

20.[A música sacra d]eve ser "santa"; não admita ela em si o que soa de profano, nem permita se insinue nas melodias com que é apresentada. A essa santidade se presta sobretudo o canto gregoriano, que desde tantos séculos se usa na Igreja, a ponto de se poder dizê-lo patrimônio seu. Pela íntima aderência das melodias às palavras do texto sagrado, esse canto não só quadra a este plenamente, mas parece quase interpretar-lhe a força e a eficácia, instilando doçura na alma de quem o escuta; e isso por meios musicais simples e fáceis, mas permeados de tão sublime e santa arte, que em todos suscitam sentimentos de sincera admiração, e se tornam para os próprios entendedores e mestres de música sacra uma fonte inexaurível de novas melodias. Conservar cuidadosamente esse precioso tesouro do canto gregoriano e fazer o povo amplamente participante dele, compete a todos aqueles a quem Jesus Cristo confiou a guarda e a dispensação das riquezas da Igreja. Por isso, aquilo que os nossos predecessores são Pio X, com toda a razão chamado restaurador do canto gregoriano, e Pio XI , sabiamente ordenaram e inculcaram, também nós queremos e prescrevemos que se faça, prestando-se atenção às características que são próprias do genuíno canto gregoriano; isto é, que na celebração dos ritos litúrgicos se faça largo uso desse canto, e se providencie com todo cuidado para que ele seja executado com exatidão, dignidade e piedade. E, se para as festas recém-introduzidas se deverem compor novas melodias, seja isso feito por mestres verdadeiramente competentes, de modo que se observem fielmente as leis próprias do verdadeiro canto gregoriano, e as novas composições porfiem, em valor e pureza, com as antigas.

26. Com o que havemos dito para louvar e recomendar o canto gregoriano, não é intenção nossa remover dos ritos da Igreja à polifonia sacra, a qual, desde que exornada das devidas qualidades, pode contribuir bastante para a magnificência do culto divino e para suscitar piedosos afetos na alma dos fiéis. Afinal, bem sabido é que muitos cantos polifônicos, compostos sobretudo no século XVI, brilham por tal pureza de arte e tal riqueza de melodias, que são inteiramente dignos de acompanhar e como que de tornar mais perspícuos os ritos da Igreja.

37. Com grande solicitude é de providenciar-se, para que todos os que nos seminários e nos institutos missionários religiosos se preparam para as sagradas ordens sejam retamente instruídos, segundo as diretrizes da Igreja, na música sacra e no conhecimento teórico e prático do canto gregoriano, por mestres experimentados em tais disciplinas, que estimem tradições, usos e obedeçam em tudo às normas preceptivas da Santa Sé.
E, apesar de ter sido suplantada pela Instrução Geral do Missal Romano, como mais uma referência pré-Conciliar, vejamos Instrução da Sagrada Congregação para os Ritos, usada como fonte da Sacrosanctum Concilium:

4. “Música sacra” inclui o seguinte: a) Canto Gregoriano; b) polifonia sacra; c) música sacra modernsa; d) música sacra para órgão; e f) música religiosa.

5. O canto gregoriano, que é usado nas cerimônias liturgias, é a música sacra própria da Igreja Romana; ele é encontrado nos livros litúrgicos aprovados pela Santa Sé. Essa música foi reverentemente, e fielmente promovida, e desenvolvida desde as mais ancestrais e veneráveis tradições; e mesmo em tempos recentes novos cantos foram compostos no estilo dessa tradição. Esse estilo de música não precisa de órgão ou outro acompanhamento instrumental.

16. O canto gregoriano é a música característica da Igreja Romana. Portanto, seu uso não é apenas permitido, mas encorajado em todas as cerimônias litúrgicas sobre todos os outros estilos de música, a não ser que as circunstâncias exijam o contrário. Disso segue:

a) A linguagem do canto Gregoriano, devido ao seu caráter como música litúrgica, deve ser exclusivamente o Latim.

b) O sacerdote e seus ministro devem usar apenas as melodias Gregorianos fornecidas nas edições padrões quando cantam suas partes de acordo com as rubricas das cerimônias litúrgicas. Qualquer forma de acompanhamento instrumental está proibido.(...)
Tendo em vista todo o acima exposto, e o grande esforço do Sumo Pontífice atualmente reinante em resgatar as tradições da Igreja, é fácil perceber que:

O Canto Gregoriano tem primazia como canto oficial das celebrações litúrgicas.

As edições Simplex foram desenvolvidas para que mesmo as comunidades onde houvesse menos contato com a música sacra católica pudesse utilizar o Gregoriano.

As Conferências Episcopais devem publicar listas de cantos sacros populares, aprovados caso estejam no mesmo espírito da música católica ancestral, para serem usados como exceção ao Gregoriano.

O texto contido no Missal não pode ser alterado para facilitar o canto.

Devem ser criados nas várias dioceses institutos de ensino, guarda e aprimoramento das artes sacras tradicionais da Igreja.

Vários Papas, percebendo que o acima não estava sendo observado, vêm nos chamando a atenção para o correto seguimento das instruções do Concílio quanto à Reforma Litúrgica.

Em questões litúrgicas o Concílio Vaticano II não está em oposição ao Magistério anterior, mas nele confia e dele depende.

Guilherme Augusto Casarotto

Bibliografia

Consituição Conciliar Sobre Liturgia Sacrosanctum Concilium - 4 de Dezembro de 1963

Instrução Geral do Missal Romano

Instruction on Sacred Music and Sacred Liturgy De musica sacra et sacra liturgia - 3 de Setembro de 1958

Instruction on music in the Liturgy Musicam Sacram - 5 de Março de 1967

Apostolic Letter Vicesimus Quintus Annus – 4 de Dezembro de 1988

Quirógrafo no Centenário do Motu Proprio Tra le sollicituini - 22 de Novembro de 2003

Encíclica Mediator Dei - 20 de Novembro de 1947

Musicae Sacrae- 25 de Dezembro de 1955

Discurso ao Pontifício Instituto de Música Sacra - 19 de Janeiro de 2001

Discurso aos Participantes do Congresso Internacional de Música Sacra - 27 de Janeiro de 2001

1 Tais artigos determinam que a autoridade episcopal local tem autoridade para aprovar tais elementos, desde que estejam de acordo com o espírito e tradição católica da Liturgia. Cita também a tolerância e benevolência da Igreja em relação aos costumes locais, caso estejam livres de superstições e erros. Além disso determina que, em caso de inovações ou alterações do rito, elas devem ser feitas apenas com o aval da Santa Sé.

2 Sob tradução livre. Este documento não encontra-se traduzido oficialmente para o português no site do Vaticano.

3 Sob tradução livre. Este documento não encontra-se traduzido oficialmente para o português no site do Vaticano

4 Isso, como o leitor pode facilmente comprovar, usualmente é ignorado na maioria das paróquias, e versões alternativas do Gloria e do Agnus Dei são utilizadas.

5 Sob tradução livre. Este documento não encontra-se traduzido oficialmente para o português no site do Vaticano

6 O Capítulo VII da Sacrosanctum Concilium fala claramente de centros de promoção e ensino de artes sacras e de comissões de artes sacras formadas por especialistas nas várias Dioceses para cuidar do patrimônio artístico da Igreja e para julgar a adequação das novas formas artísticas. Isso permanece ignorado até hoje.

 

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