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O que faz a falta da teologia. Sobre a sentença "Deus é pai de todos os homens"


No encontro ocorrido em Assis hoje, Sua Santidade o Papa Bento XVI mencionou em seu discurso que "Deus é Pai de todos os homens". Investigaremos a catolicidade do constituinte em questão.

Em primeiro lugar, ensina
D. Lefebvre (Carta aberta aos católicos perplexos):

“A doutrina da Igreja também reconhece implicitamente o batismo de desejo. Ele consiste em fazer a vontade de Deus.
Deus conhece todos os homens e conhece aqueles entre protestantes, muçulmanos e budistas que são de boa vontade. Eles recebem a graça do batismo, mesmo sem conhecê-lo, de uma maneira efetiva. Nesse sentido eles se tornam parte da Igreja”.

Garrigou Lagrange (O nosso salvador e seu amor):

“Não podemos deixa de enfatizar esse ponto: no momento que a vontade fundamental de um homem está eficazmente direcionada para o Deus verdadeiro, este homem está justificado, ele está no estado de graça, ele possui o germe da vida eterna”.

Diz o Espírito Santo (Lucas II, 13-14):

“E subitamente apareceu com o anjo uma multidão numerosa da milícia celestial, que louvavam a Deus e diziam: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade”.

No caso dos judeus, quando a Igreja ensina que a Antiga Aliança é ainda válida é no sentido de que a Revelação dada no Antigo Testamento tem uma valor perene, no que concerne à sua essência espiritual (não a ritos, cerimônias, disciplinas e "sacramentos"). De outra forma, teríamos, por exemplo, de dizer que os dez mandamentos não são válidos.

Aqui temos de fazer uma distinção entre fé e vontade. A virtude da fé pertence ao intelecto, o culto pertence à vontade. A Igreja sempre ensinou que um homem pode ser salvo ao cumprir a Lei Natural, quando sua vontade está voltada fundamentalmente para o Criador, mesmo quando sua fé não tem um caráter explícito. Se sua vontade está voltada ao Bem Supremo, sua fé pode ser implícita (embora real).

Isso quer dizer que um homem pode sofrer de um defeito do intelecto que faz com que seu culto seja direcionado para aquilo que ele conhece imperfeitamente e, ao mesmo tempo, ter sua vontade suficientemente dirigida ao Deus verdadeiro.

Façamos uma analogia. Tenho um amigo e acredito firmemente que ele tem um pai. Acredito que ele tem um pai porque esse meu amigo existe, o fato dele ser criado indica que há um criador. Entretanto, acredito que seu pai seja obeso, tem outros 7 filhos e afina pianos e se chama José.

Respondamos, então, a questão: acredito no pai de meu amigo ou não? Claro que sim. Conheço todas as especificidades dele? Provavelmente não. Mas a falta dessa percepção intelectual perfeita implica que eu não acredite do pai de meu amigo? Não.

Consigo o endereço de meu amigo e de sua família e passo a mandar cartas para seu pai, todas endereçadas a José, perguntando sobre pianos, regimes e sobre seus outros 7 filhos. Minhas catas foram mandadas para o homem certo? Evidente. Ele recebeu minhas cartas? Sim. Ele gostou de minha correspondência? Provavelmente não, ele deve achar que sou um doido e minhas cartas lhe causaram aborrecimento e desconforto.

Conhecimento exato e fé não são um pré-requisito para um culto verdadeiro, contanto que a vontade esteja direcionada ao Sumo Bem. Isso também não implica que Deus aceite tal culto. Só pela razão ninguém chega a Trindade, mas chega-se ao Deus único, remunerador e criador de todas as coisas. Pai de todos os homens.

 

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