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São Francisco de Assis: dialogar para converter


Frei Tomás de Celano

Apenas algumas citações de suas obras sobre São Francisco de Assis
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Frei Tomás de Celano juntamente com São Boaventura, sobre São Francisco de Assis, é o escritor mais completo e seguro. Escreveu em latim. Era poeta e a ele devemos a célebre Sequência do "Dies irae". Nasceu pelo ano de 1200, e entrou na Ordem Franciscana entre 1213 e 1216. Ali foi admitido pelo próprio São Francisco, no momento que este cogitava de uma missão no Marrocos, à qual, em seguida, teve de renunciar.

Pela descrição que ele faz da canonização de São Francisco (em 1228) podemos concluir que ele próprio haja assistido a essa cerimônia. Por esse tempo o papa Gregório IX encarregou-o de escrever a biografia de São Francisco; e a 25 de fevereiro de 1229 pôde ele entregar ao Papa a obra realizada. Ele mesmo declara, no prefácio, ter bebido em duas fontes diversas: servindo-se daquilo que pôde ver e ouvir pessoalmente, e de tudo o que pôde saber de testemunhas dignas de fé; além disto declara que teve sempre cuidado de ater-se estritamente à verdade. Ainda hoje, - declara Götz, - a "Vita Prima" de Celano persiste sendo o ponto sólido e estável do qual deve partir todo exame das outras fontes". Celano era um afamado literato latino: em todas as literaturas do mundo custar-se-ia a achar descrições dos homens e dos acontecimentos mais atraentes do que as que nos são oferecidas pelos seus escritos sobre São Francisco de Assis.

Tem um latim bem castiço e ornado. Ter escrito em latim foi uma grande segurança em relatar História; isto porque o latim é uma língua exata e morta. Não sendo falado, não sofre nenhuma corruptela, nem mudança de sentido. Para quem sabe latim é mais seguro lê-lo no latim ou confrontar as traduções com o original latino. Suas obras sobre São Francisco são: Vita Prima; Vita Secunda; Legenda Prima; Legenda Secunda; Tractatus de miraculis.
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" Nas horas de mais profunda devoção e de mais alto entusiasmo, Francisco sentia nascer em si a vocação apostólica. Pedia ao Divino Mestre, com fervor, que o iluminasse. Foi neste estado de alma que passou um dia pela igrejinha de São Damião, meio arruinada. Obedecendo a um movimento interior, entrou, ajoelhou-se diante da imagem do Crucificado, e pediu a Deus, com todo o ardor da sua devoção, que lhe mostrasse o que devia fazer. Ouviu então uma voz, partindo da cruz, dizer-lhe com tanta doçura como simplicidade:

"Francisco, não estás vendo que a minha casa cai em ruínas? Vai, conserta-a". Surpreendido e trêmulo, balbuciou: "De boa vontade o farei, Senhor". E imediatamente pôs mãos à obra, para restaurar essa pequena igreja, cujas paredes ameaçavam desabar. Que, falando assim, tenha Cristo em vista o templo espiritual, pelo qual dera o seu sangue, não o compreedia ainda Francisco. Parecia-lhe inconcebível que fosse ele o escolhido para renovar a Igreja em toda a terra, com o seu apostolado.

Muito tempo se passou ainda, antes de a Providência romper o véu que o impedia de ver o vasto campo. Era na igrejinha da Porciúncula, em 24 de fevereiro de 1209. Francisco ouviu ler, durante a Missa, a passagem do Evangelho que diz como o Senhor mandou seus Apóstolos em pregação. Profundamente comovido com estas palavras, pediu uma explicação ao celebrante, logo depois do santo sacrifício. E, quando soube que um perfeito imitador dos Apóstolos não deve possuir ouro, nem prata, nem qualquer espécie de moeda; nem andar com sacola, bolsa ou bordão; nem ter sapatos, nem roupa forrada; mas que, despojado de todos os bens terrenos, deve pregar o reino de Deus e a penitência, estremeceu de divina alegria e exclamou: "Eis o que eu quero; eis o que eu procuro; eis o que, com todas as veras do meu coração, desejo realizar". Então com o espírito cheio de fervor e a alma em festa, põe-se a pregar a todos a penitência, edificando os ouvintes, com discursos sem aparato, mas jorrando de um coração sublime. As suas palavras eram fogo ardente que penetrava até ao mais fundo das almas e enchia de admiração os espíritos.

Era tão forte a impressão que o novo Apóstolo produziu, que não só o povo se convertia em massa, mas alguns homens magnânimos tomaram a resolução de acompanhar os passos deste pregador sem recursos; de compartilhar a sua vocação. Francisco conduziu-os à igreja mais próxima, mandou abrir o Evangelho diante deles, para saber se eram realmente chamados, como ele, à vida apostólica e à pregação. Por três vezes foi o Santo Livro aberto ao acaso e, de cada vez, surgiu aos seus olhos espantados a passagem da missão dos Apóstolos. Voltou-se então o guia para os seus companheiros, e disse-lhes: "Irmãos, eis qual será a nossa vida e a nossa Regra; será também a vida e a Regra daqueles que vierem para a nossa companhia. E agora, ide e fazei o que ouvistes". Foram então, venderam os bens e distribuíram o produto pelos pobres; depois, puseram-se a caminho com Francisco, para a sua primeira Missão.

Eis o inimitável quadro que Celano traça da atividade apostólica oficial de S. Francisco: "O valentíssimo cavaleiro de Cristo pôs-se a percorrer as cidades e os burgos. Não falava com palavras persuasivas de sabedoria humana; mas, instruído e fortificado pelo Espírito Santo, anunciava a reino de Deus, pregava a paz, ensinava o caminho da salvação e da penitência, que apaga os pecados. Fortalecido pela autoridade apostólica, agia agora com mais segurança, sem usar de lisonja nem de palavras sedutoras. (Antes Celano mostrara como S. Francisco foi primeiro a Roma para obter a aprovação de sua Companhia).

Não acariciava os vícios de certos ouvintes, mas atacava-os; não desculpava os pecadores em seu estado, mas açoitava-os com severas censuras. Como começara por pôr em prática os conselhos que aos outros dava, não temia contradição alguma, e dizia tão ousadamente a verdade que os homens mais instruídos, cobertos de glória e dignidades, admiravam os seus discursos e sentiam-se tomados, em sua presença, de um salutar temor. Os homens acorriam, as mulheres seguiam-no, os clérigos se apressavam, os religiosos se precipitavam para ver e ouvir o Santo de Deus, que lhes aparecia como um homem de outros tempos. Todos, sem distinção de idade ou de sexo, se acotovelavam a contemplar os prodígios que o Senhor operava de novo no mundo, por intermédio do seu servo. Parecia verdadeiramente, naquele tempo, que a presença de São Francisco ou mesmo a sua fama era uma nova luz, mandada do céu à terra para espancar as trevas.

Tinham estas de tal modo invadido o país que quase ninguém atinava mais com o caminho. O esquecimento de Deus era tão profundo e negligenciavam-se tanto as Suas leis, que mui grande dificuldade havia em sacudir o torpor causado por males antigos e inveterados. E agora Francisco brilhava como uma estrela na obscuridade da noite, como os fulgores da manhã que espancam as trevas. Assim, aconteceu que, em pouco tempo, foi a face da terra transformada e, desembaraçada das suas manchas, tomou um aspecto mais ridente. A antiga aridez desapareceu e a seara surgiu então nos campos, até aí incultos. A vinha, por si mesma, cobriu-se de brotos que, espalhando o perfume do Senhor, abriram em suave floração e produziram frutos de honra e de justiça. Por toda parte ecoavam os cânticos de ação de graças e de louvores. Muitas pessoas se libertaram das preocupações terrenas. À luz da vida e dos ensinamentos do bem-aventurado Pai Francisco, aprendiam a conhecer-se e sentiam-se levadas ao amor e à reverência devidos ao Criador.

Tocados pelo sopro divino, muitos homens, nobres e plebeus, clérigos ou leigos, vieram ter com S. Francisco, para se submeterem à sua disciplina e combaterem perpetuamente sob suas ordens. Como um rio de graça, entumecido pelas chuvas dos dons celestes, o Santo de Deus refrescava-os e fazia desabrochar, no campo do seu coração, as flores de todas as virtudes. Foi o operário sem par, que, pelo seu espírito, sua Regra e sua doutrina - devemos proclamá-lo - renovou a Igreja nos cristãos de ambos os sexos e fez triunfar uma tríplice milícia dos futuros eleitos. A todos dava uma regra de vida, e a cada um mostrava qual era, na sua condição, o verdadeiro caminho da salvação... No tempo em que a doutrina do Evangelho era estéril, não só no seu país, mas em todo o universo, foi enviado por Deus, para pregar a verdade pelo mundo inteiro, como os Apóstolos Provava à evidência, com os seus ensinamentos, que toda a sabedoria do mundo não passa de loucura e, em pouco tempo, guiado por Cristo, levou os homens à verdadeira sabedoria de Deus pela loucura da sua pregação.

Este novo evangelista dos nossos tempos espalhou por todo o universo, com um rio do paraíso, as águas vivas do Evangelho, e pregou com o seu exemplo o caminho do Filho de Deus e a doutrina da verdade. Nele e por ele conheceu o universo um inesperado ressurgimento, uma primavera de santidade, e a semente da antiga religião rejuvenesse de repente este mundo decrépito. Infundiu-se um novo espírito no coração dos eleitos e espalhou-se em sua alma a unção da salvação, quando,como um dos luminares do céu, o santo servo de Cristo brilhou no mundo. Todo tempo que ainda vivia entre os pecadores, percorria o mundo e pregava a todos".

"Francisco, com o olhar fixo no exemplo de Cristo e dos Apóstolos, apresentou-se aos Sarracenos (=muçulmanos) como pregador do Evangelho da paz, da penitência, da graça e da verdade. Abrasado de amor divino, e desejando ardentemente receber o santo martírio, o bem-aventurado Pai quis passar à Síria, para pregar a fé cristã e a penitência aos Sarracenos e aos outros infiéis. Uma violenta tempestade atirou-o, bem como aos seus companheiros, para as costas da Eslavônia, e teve ele assim de voltar à Itália por Ancona. Francisco, o servo do Altíssimo, afastando-se então do mar, pôs-se a percorrer a terra, revolveu-a com o arado da sua palavra e confiou-lhe a semente de vida que produziu frutos de bênção...

O martírio ficou sendo para ele o fim sublime que sempre tinha o mesmo ardente desejo de atingir. Eis porque partiu para Marrocos a fim de pregar ao Sultão Miramolim e aos seus satélites o Evangelho de Cristo. Ia de tal modo entusiasmado que, às vezes, deixava o companheiro, e corria, de espírito embriagado, à frente de seu sonho. Mas o Senhor, em sua bondade, lembrou-se de mim e de muitos outros, Já Francisco havia chegado à Espanha, quando Deus lhe deteve os passos e, para o impedir de ir mais longe, mandou-lhe uma doença, que interrompeu a sua viagem.

Nem por isso Francisco desanimou. Assim, no ardor da sua caridade por Cristo, um pouco mais tarde, expôs-se aos perigos de uma viagem por mar, e foi ter com os infiéis e visitou o Sultão. "Era, diz Boaventura, uma temerária empresa, pois que o príncipe dos Sarracenos pusera a prêmio, e alto prêmio, a cabeça dos cristãos". Mas Francisco apresentou-se a ele com tal mansidão e tal brandura, e, ao mesmo tempo, com uma fé tão intrépida e uma tão santa liberdade. que o tirano não ousou fazer-lhe mal, ouviu-o mesmo com benevolência e permitiu-lhe que pregasse a doutrina cristã".
Celano cita a este respeito, palavras do próprio São Francisco: "A obediência suprema, em que a carne e o sangue não tomam parte alguma, é atingida quando, levados por uma inspiração divina, vamos para junto dos infiéis, quer para salvar as almas, quer para colher a palma do martírio". Procurar atingir isso era, a seu ver, fazer uma obra muito agradável a Deus. Sim, continua Celano, pode-se dizer, sem exagero, que ele (Francisco) foi, desde os tempos apostólicos, o primeiro mensageiro da fé que inscreveu na sua bandeira a conversão do mundo inteiro, cumprindo assim à risca a ordem dada pelo divino Salvador, e evangelizar o universo: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a todas as criaturas".

"Nada, dizia Francisco, deve ser preferido ao trabalho da salvação das almas", e ele muitas vezes dava provas disso, lembrando que o Filho de Deus consentiu, pelas almas, em ser crucificado. Daí, o aplicar-se à oração, o seu grande interesse pela pregação, o seu extremo ardor em dar o bom exemplo. Não se considerava um amigo de Cristo se não amasse as almas que Cristo amou. O principal motivo da veneração que tinha pelos doutores, estava em que eles eram os auxiliares de Cristo e cooperavam com Cristo na sua obra. ... O novo cavaleiro de Cristo quis viver com seus Irmãos, não para si só, mas para aqueles pelos quais morrera Cristo.

Para os que entendem latim, eis as palavras de Frei Celano: "Conferebant pariter veri cultores iutitiae, utrum inter homines conversari deberent, an ad loca solitaria se conferre. Sed sanctus Franciscus, qui non de industria propria confidebat, sed sancta oratione omnia praeveniebat negotia, elegit non sibi vivere soli, sed ei, qui pro omnibus mortuus est, sciens se ad hoc missum, ut Deo animas lucraretur, quas diabolus conatur auferre". (Celano, I, n. 35).

"Francisco, diz (S.) Boaventura, andava com tanto ardor para cumprir a ordem divina e com tal rapidez, que parecia conduzido pela mão de Deus e ter recebido do Alto uma virtude inteiramente nova". Continua Celano:

"No decorrer dos dezoito anos, nunca ou quase nunca concedeu repouso ao seu corpo, percorrendo continuamente regiões diversas e longínquas, para permitir ao espírito, de prontidão, devoção e fervor que nele havia, espalhar por toda parte a semente da palavra divina. Enchia toda a terra com o Evangelho de Cristo, visitando num só dia cinco ou seis aldeias, e mesmo cinco ou seis cidades, anunciando em cada uma delas o reino de Deus, edificando os seus ouvintes com o exemplo como com a palavra, fazendo do seu corpo uma pregação viva".

 

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