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Conteúdo fraco de blog ateu


Gosto de filosofia. E vendo alguns blogs que linkam outra página para citação de um trecho visto para corroborar ou discordar de um aspecto abordado no texto, acabei vendo o blog com o nome "Deusilusão" e por curiosidade fui conhecer seu conteúdo para ver como a autoria trabalha pela defesa do ateísmo.

Sinceramente, esperava mais um tom de seriedade e racionalidade que teoricamente os ateus dizem outogar. Não sei o motivo do autor para optar pela ideologia atéia, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes descreve que a procura pelo ateísmo muitas vezes se fundamenta pela irreconciliação de uma tendência má com a virtude da religião, como por exemplo, um homossexual de vida sexual ativa que busca refúgio na descrença em Deus por ter consciência que tal prática exercida fere os princípios religiosos e naturais da verdadeira união afetiva e matrimonial existente somente entre o homem e a mulher.

O fato, é que seja qual for o motivo da adesão do criador da página, com certeza não um deles não foi o filosófico, uma vez que sondando uns 6 artigos que li presenciei uma carência da lógica e de conhecimento da metafísica. Também notei que a tônica satírica é o foco principal da apresentação dos questionamentos mais comuns feitos em toda área humana sobre a Criação e a existência de um plano extraterreno. Talvez isso dê força ao sustento das teses atéias escritas como se as mesmas fossem irrefutáveis.

Outro ponto que achei interessante, é que o fenômeno neo-pentecostal que invadiu o protestantismo no início do século XX gerando assim as "igrejas evangélicas", cuja base é a irracionalidade e o emocionalismo (vemos pelas sandices inumeráveis praticadas por adeptos dessa corrente) é abordada no blog como se fosse o princípio e raiz de todo o cristianismo. Mesmo que o autor não esteja ciente disso, ele muda sua postura ao tentar desconsertar os argumentos católicos sobre a existência de Deus, uma vez que o Magistério da Igreja tem pauta filosófica, científica, sociológica e teológica.

O objetivo desse artigo não é fazer um ad hominem para o autor que ainda estando no erro, procura nesse mesmo erro saciar sua busca pela Verdade, mas sim na fraca argumentação que o mesmo usa para sustentar a idéia que tudo surgiu do nada e na tentativa de desqualificar nada mais menos que Santo Tomás de Aquino.

No artigo A Insuportável Arrogância do Ser ele assim aborda a questão:

" Pela lógica simples e irrefutável da “4ª Via” de Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica I, q.2, a. 3.):

“Verificamos que alguns seres são mais ou menos verdadeiros, mais ou menos bons, etc. ora, diz-se o mais e o menos de coisas diversas segundo a sua aproximação diferente de um máximo. Existe, pois, alguma coisa que é o mais verdadeiro, o melhor, por conseguinte, o mais ser. Ora, o que é o máximo num gênero é a causa de tudo que pertence a este gênero. Existe, portanto, um ser que é para todos os outros causa de ser, de bondade, de perfeição total, e este ser é Deus”.

Misericórdia! Esse “argumento” bobo certamente encontrou algum respaldo no tempo em que viveu Tomás de Aquino. Mas, tudo bem, vamos lá (de novo!).

“Verificamos que alguns seres são mais ou menos verdadeiros”. Hein? Alguns seres?… O que diabos ele queria dizer com isso? Quem decide que algo é “um ser” e quem dá a gradação de que “esse ser” é verdadeiro ou não?

Pior. Em se tratando de “mais ou menos verdadeiros”, quem atribui as percentagens? Lobisomem? Ah, deve ser uns 10% verdadeiro só. A fada Sininho? Uns 2%. O Abominável Homem das Neves? Uns 66% verdadeiro.

E, para fechar à força o seu raciocínio sem pé nem cabeça, ele faz um link insustentável entre “ser” e atributos humanos, como bondade e perfeição. A bondade, que alguém poderia classificar como ocorrendo em maior ou menor grau em outros seres, só pode ser assim entendida se existir o máximo de bondade, que seria, então, Deus (“o mais ser”). E isso é uma “lógica simples e irrefutável”?

Não. Isso é apenas o desespero comovente do cristão, do crente em Deus, que não vendo o objeto de sua adoração em lugar nenhum, procura encontrá-lo num jogo de palavras. "

Observe que ainda que ele demonstra o não-convencimento pelo argumento , não aponta sequer nenhum contestação racional e filosófica que prove o contrário. O uso do criticismo apelas pelo criticismo.

Aqui é preciso considerar que, contra fatos, não há argumentos. E é fato que o autor não conhece nada sabe sobre filosofia tomista.

Uma breve consideração sobre o tema:

Tanto a religião como o ateísmo, segundo o pai da sociologia e da metodologia funcionalista das ciências sociais, Émile Durkheim (1895, 52), são fatos sociais, ou seja, aquilo que é “toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou então ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter.”

Basicamente uma concepção que se emprega nos fenômenos internos de toda sociedade, que apresentam além de uma certa generalidade algum interesse social que exerce uma coerção sobre os componentes daquele meio, que acontece independentemente de minha vontade, de uma forma geral e abrangente entre todas as classes, inerente às adversidades a qualquer meio social atribuídas.

Na verdade, há alguns sinais nos fenômenos que se constituem por caracteres nítidos que os distinguem de tantos outros que muito comumente fogem para o âmbito biológico e psicológico da sociedade. A sociologia, por exemplo, não tomaria como objeto próprio do seu estudo as necessidades naturais de manutenção do corpo (da biologia) e da consciência de cada cidadão sobre determinado assunto em particular do mundo (psicologia). Os fatos sociais estão definidos fora dos indivíduos, são inerentes a cada percepção particular e agem de maneira coercitiva contra ou a favor dos indivíduos que ameaçam ferir aqueles códigos, que nos incumbe desempenhar na prática, a ética e a tradição, passadas por nossos antepassados.

Veja como Durkheim (1895, 48-49) deixa explícito esse tema na seguinte passagem: “Toda a educação consiste num esforço contínuo para impor às crianças maneiras de ver, de sentir e de agir às quais elas não chegariam espontaneamente, - observação que salta aos olhos todas as vezes que os fatos são encarados tais quais são e tais quais sempre foram. Desde os primeiros anos de vida, são as crianças forçadas a comer, beber, dormir em horas regulares; são constrangidas a terem hábitos higiênicos, a serem calmas e obedientes; mais tarde, obrigamo-las a aprender a pensar nos demais, a respeitar usos e conveniências, forçamo-las ao trabalho, etc., etc.

Se, com o tempo, esta coerção deixa de ser sentida, é porque pouco a pouco dá lugar a hábitos, a tendências internas que a tornam inútil, mas que não substituem senão porque dela derivam. [...] A pressão de todos os instantes que sofre a criança é a própria pressão do meio social tentando moldá-la à sua imagem, pressão de que tanto os pais quanto os mestres não são senão representantes e intermediários.”

Pois como segue: “[...] Assim também o devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as práticas da vida religiosa; existindo antes dele, é porque existem fora dele”. (DURKHEIM, Émile. “O que é fato social?” In: As Regras do Método Sociológico. Trad. Por Maria Isaura Pereira de Queiroz. 6ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1972. p. 46-49, 52. ).

Existem três critérios que são usados para identificar um fato social conforme sua legitimidade pelo método funcionalista, que são os seguintes:

1º - Age de maneira coercitiva em algum meio;
2º - Acontece de forma geral na sociedade;
3º - É inerente a nossa vontade particular.

Essas definições são embasadas nos modos de agir, ou seja, de ordem fisiológica, mas existem também maneiras de ser coletivas, fatos sociais de ordem anatômica ou morfológica.

A estrutura política de cada sociedade, nessa visão, não é mais do que um modo de tomar o hábito de viver uns com os outros no meio, entrelaçados em seus diferentes segmentos e modos de vida, embora a coerção dos fatos esteja sempre atenta para arrastar e moldar esse tipo de diversidade para torná-la, digamos que mais aceitável diante de toda a unidade social.

Para Evans-Pritchard (1978,153) a religião não deve ser entendida com um conhecimento embasado em si mesma, mas em relação a outros fatores no processo interdisciplinar com um olhar sociológico entre os elementos componentes de um organismo vivo como é a sociedade, ou seja, “ [com] aqueles que com ela formam um sistema de idéias e práticas e outros fenômenos sociais que se associam”. Deixando assim evidente a ligação da religião à organização político-social de cada sociedade e a cada “visão do universo”.

Muitos escritores elaboraram estudos profundos sobre a relação da religião como fator e fato social nas sociedades, como Frazer, Durkheim, Marett, Mauss, Spencer, Lowie, Malinowski, Radcliffe-Brown, Lévi-Strauss, Van Gennep, Firth e o próprio Pritchard; É interessante conhecê-los, digo isso independentemente da direção do conteúdo da obra, pois permanece de qualquer forma como um estudo que pode contribuir muito para a formação de nosso conhecimento de um modo geral.

A religião, para Kessing (1961,494) tem duas funções básicas: a Explanatória e a Interpenetrativa; Já Raymond Firth (1974,258-266) contribuiu com seu estudo para a formulação teórica das funções sociais da religião. Mas me levaria muito tempo colocar tudo o que poderia ser colocado nesse espaço, para contribuir um pouco e conhecer mais com os amigos nesse tópico tão interessante da comunidade.

É inevitável, mesmo para os descrentes, o reconhecimento da contribuição da religião para o cultivo dos valores culturais, muitos deles ligados à ética e à moral de cada sociedade, e o suporte que dá para sustentar as normas de comportamento aceitáveis de maneira ate que certo ponto coercitiva.

Embora poucos reconheçam ou/e tenham se preocupado com a manutenção da ordem, nada reduz pelo menos para nós, a importância da religião tanto no âmbito sobrenatural quanto no sociológico, que é extraordinariamente grande mesmo.

O referido blog, juntos com seus leitores, apenas comemoram a irracionalidade encontrada na fantasiosa falácia atéia.

Gostaria de saber, como eles encontrariam uma resposta para que, sem a religião católica, estaríamos ainda hoje vivendo na lei da selva.

 

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