.

Filoque



Filioque significa, em latim, "do filho". Em grande parte das igrejas católicas romanas, no Credo se fala "Credo et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem: qui ex Patre Filioque procedit.", ou, em português "Creio no Espírito Santo, Senhor que dá Vida, e que procede do Pai e do Filho".

Um adendo lingüístico: "filioque" significa "e do filho". O "que" junto com "filio" equivale a dizer "et filio".

O Filioque foi confirmado por um concílio ecumênico, portanto, é dogma da Igreja:

"Confessamos com fiel e devota profissão que o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho, não como dois princípios, senão como de um só princípio; não por duas aspirações, mas por única aspiração; isto até agora tem sido professado, pregado e ensinado, isto firmemente mantém, prega, professa e ensina a sacrossanta Igreja Romana, mãe e mestra de todos os fiéis; isto mantém a sentença verdadeira dos Padres e doutores ortodoxos, tanto latinos quanto gregos. Mas, como alguns, por ignorância da anterior irrefragável verdade, hão caído em erros vários, nós, querendo fechar esse caminho a tais erros, com aprovação do sagrado Concílio, condenamos e reprovamos aos que ousarem negar que o Espírito Santo procede do Padre e do Filho, ou também, com temerário atrevimento, afirmar que o Espírito Santo procede do Padre e do Filho como de dois princípios e não como de um." (2º Concílio de Lyon, Dz 460)

Quanto às modificações no Credo niceno, veja o "Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs", verbete Filioque:

"Quanto ao motivo da legitimidade de semelhante mudança no Credo, deve-se recordar que o próprio Concílio de Constantinopla (381) modificou o símbolo niceno, sem se preocupar com o consenso dos latinos. Doutra parte, o concílio efesino (431), que proibia admitir uma fé diversa da fé de Nicéia (COeD 54), ignorava sua versão constantinopolitana."

Devemos lembrar que o Concílio de Constantinopla, em 381, foi um concílio geral do Oriente. Foi feito sem a participação de bispos ocidentais, e, portanto, só se tornou ecumênico pela aprovação dos ocidentais. Poderia dizer que esse concílio, como todos os concílios do Império, não foi materialmente ecumênico, mas formalmente ecumênico, por força de seu recebimento pelo Ocidente e pelo Papa.

Ainda preferimos o argumento escolástico: que, se o Espírito Santo procedesse do Pai e não do Filho, não se distinguiria do Filho.

De qualquer forma, há diferença quanto ao significado que se dá às palavras "proceder" e "processão". Muitas vezes se toma o debate do "filioque" como se essas palavras significassem a mesma coisa para católicos e ortodoxos, mas não significam, como, de fato, não podemos entender essa "processão" em termos de uma relação de origem.

Não se deve entender que os latinos vêem o Pai e o Filho como dois princípios diferentes. O texto que passei, do II Concílio de Lyon, condena explicitamente que se vejam dois princípios. Logo, o ensinamento sobre a "Monarquia" é resguardado e é dogma no Ocidente.

Qual a argumentação dos ortodoxos para negarem que o Espírito procede do Pai e do Filho?

Eles acham que, se o Espírito Santo procedesse do Pai e do Filho, teríamos dois princípios, isto é, como duas causas na Trindade, pois a argumentação deles é que só o Pai é a “Primeira Causa”.

Na verdade, eles se enganam quanto ao significado da palavra “processão”. Proceder, em Deus, não significa “vir de algum lugar” ou “ser causado por”, mas “comportar-se, atuar”. Logo, o Filho não pode ser causado pelo Pai. Isso destruiria a sua natureza divina, pois o Filho é Deus como o Pai, e como Deus, não pode ser causado, como se fosse um ser contingente.

Quando dizemos que o Espírito procede do Pai e do Filho, estamos falando das relações que, por analogia, existem na Trindade.

O Espírito Santo não procede do Pai e do Filho como de 2 princípios, mas como de um só (cf. Denz, 850, 1300); assim, está salvaguardada a monarquia. O Filho é causa (cf. Denz, 1301) somente enquanto é consubstancial ao Pai. Do mesmo modo como o Filho participa na expiração do Espírito Santo, o Espírito Santo participa na geração do Filho - o Espírito Santo também se manifesta no Batismo de Cristo quando se ouve a voz: "eu hoje te gerei". A explicação de que as Pessoas (Hipóstases) se diferenciam pela oposição de relações não contraria a de que se diferenciam pelas funções hipostáticas (cf. Evdokimov).

A própria condição do Filho como causa, Ele a recebe do Pai (cf. Cat., 246), preservando-se a monarquia. O Filho não pode ser causa por si só e por isso os Padres se manifestaram com palavras claríssimas. Mas, ser causa por recebimento da tal condição pelo Filho do Pai, na própria geração eterna, não é erro, e sim desenvolvimento dogmático a partir do ensino niceno-constantinopolitano da consubstancialidade do Pai e do Filho.

Nesse sentido, temos a fórmula da processão do Espírito Santo do Pai pelo Filho: o Filho é tb causa (daí ser legítimo afirmar que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho), mas somente é causa por ter recebido tal condição do Pai (que é a causa primeira, principal - cf. Cantalamessa, p. 381), e unido-se ao Pai como uma única causa. O Filho não é uma outra causa. Tampouco é causa por condição própria. O Pai, portanto, continua a causa, no dizer dos Padre Orientais (causa por antonomásia), ou causa principal, conforme os Padres Ocidentais. O Concílio de Florença é claríssimo, como vemos nas indicações do Denzinger, acima.

Não tem sentido, pois, a acusação dos ortodoxos, de vez que acusam os católicos de crermos em algo que, na verdade, não cremos, de ensinarmos uma doutrina que, pelo exposto, vimos que não professamos.

Não há, de um lado, os Padres do Oriente a sustentar a tese ortodoxa, e, de outro, os Padres do Ocidente a sustentar a tese católica. Padres Orientais e Ocidentais são a base na qual a Igreja Católica deitou sua doutrina sobre a processão do Espírito Santo. A origem do erro de Fócio é, portanto, considerar apenas os Padres Orientais, desprezando os do Ocidente: um corpo com uma só perna é aleijado, defeituoso. Combinando as duas veneráveis tradições, temos a síntese católica, acima exposta; olhando apenas a tradição dos Padres do Oriente, isolada dos Padres do Ocidente, perde-se o equilíbrio e encontra-se o erro, manifestado ainda hoje pelas Igrejas Ortodoxas, infelizmente em cisma.

"O Espírito está no Filho, como o Filho está no Pai." (Santo Atanásio de Alexandria; Ad Serap., III, 4, PG 26,632ª)"Assim, o Espírito é a alegria eterna do Pai e do Filho, na qual todos os Três se comprazem conjuntamente. Essa alegria é enviada pelos Dois aos que dela são dignos (...), mas procede apenas do Pai na existência." (São Gregório Palamas; Cap. Phys., 37, PG 150,1144-1145)"O Espírito é o Espírito de Deus Pai e, ao mesmo tempo, Espírito do Filho, saindo substancialmente de ambos simultaneamente, isto é, derramado pelo Pai a partir do Filho." (São Cirilo de Alexandria; De adoratione, livro I, PG 68,148)"O Espírito Santo provém das duas Pessoas simultaneamente." (São João Damasceno; De recta fide 21, PG 76,1408)

"O Espírito Santo procede primariamente do Pai e, pelo dom que o Pai faz dele ao Filho, sem intervalo algum de tempo, de ambos simultaneamente." (Santo Agostinho; De Trinit., XV, 47)

O Espírito Santo procede "do Pai e do Filho." (Santo Ambrósio; De Spir. Sanct., I, 120)

Também São Fulgêncio de Ruspe ensina o mesmo (cf. Liber de Trinit., passim - CC 91 A, p. 633s -; Ep., 14, 21 - CC 91, p. 411 -; De fide, 6.54 - CC 91 A, p. 716.747)

"Existe um só princípio, e não dois, da divindade: existe, pois, em Deus, para falar claro, uma monarquia. Desse princípio vem o Verbo." (Santo Atanásio de Alexandria; Contra ar., IV, I, PG 26, BC)"O Filho possui o Espírito tanto quanto o Pai. O Filho comunica-nos o Espírito da sua própria plenitude divina." (São Cirilo de Alexandria; PG 76,173,176)"O Filho possui tudo o que possui o Pai, exceto a faculdade de ser causa; e tudo o que possui o Filho, o Espírito também o possui, salvo a faculdade de ser Filho." (São Gregório Nazianzeno; Or., 34, 10, PG 36,252A)"Nós não dizemos que o Filho é causa, nós também não dizemos que Ele é Pai (...). Nós não dizemos que o Espírito procede do Filho, mas nós dizemos que Ele é o Espírito do Filho." (São João Damasceno; PG 94,832-833)

O Espírito é também do Filho, "não porque Ele procede do Filho, mas porque procede por Ele do Pai, pois há apenas uma causa única, o Pai." (São João Damasceno; De fide orth., I, 12, PG 94,849A)

Para Fócio, se considerarmos que o Espírito procede também do Filho, este "seria promotor e promovido, em parte causa e em parte proveniente de uma causa." (Mystag., 6, PG 102,288B) A crítica do Patriarca estaria correta se o Filho fosse causa por si só, ou fosse uma segunda causa, além do Pai, na expiração do Espírito Santo. Ora, vimos que não é assim que cremos os católicos. O Filho só é causa por ter recebido o ser causa do Pai, conservando este o ser causa principal, da qual o ser causa do Filho deriva. Mais ainda: o Filho só é causa com o Pai, formando uma única fonte da processão, e não duas.

"É preciso crer, a respeito de Cristo, que Ele vem do Pai, é Deus proveniente de Deus, e, a respeito do Espírito, que Ele provém do Cristo, ou, melhor; de ambos, pois Cristo disse: '...Ele procede do Pai' e 'receberá do meu'" (S. Epifânio de Salamina; Ancoratus 67).

Só devemos deixar claro que, quando falamos em primeira causa, estamos falando de Deus, e de maneira alguma, o Espírito Santo, como Deus e consubstancial ao Pai, pode ser causado (como um ser contingente).

A argumentação dos ortodoxos despreza a metafísica, porque os ortodoxos não têm uma teologia racional.

O Pai não é a causa do Filho, e ambos não são a causa do Espírito Santo. O que há é o acidente relação, que nós atribuímos a Deus, por analogia, e é o único acidente que podemos atribuir a Deus, pois não põe perfeição ou imperfeição alguma.

E o termo "causa", tradicional na Patrística, não é a mesma coisa que a "causa" em sentido filosófico.

O Pai é causa, mas não autor, causa sem ser anterior, é causa por relação de oposição naquilo que é próprio de cada Hipóstase.

O Filioque no Catecismo

246 A tradição latina do Credo confessa que o Espírito "procede do Pai e do Filho (Filioque)". O Concílio de Florença, em 1438, explicita: "O Espírito Santo tem sua essência e seu ser subsistente ao mesmo tempo do Pai e do Filho e procede eternamente de Ambos como de um só Pincípio e por uma única expiração...E uma vez que tudo o que é do Pai, o Pai mesmo o deu ao seu Filho Único ao gerá-lo, excetuando o seu ser de Pai, esta própria processão do Espírito Santo a partir do Filho, ele a tem eternamente de Seu Pai que o gerou eternamente" (DS 1300-1301).

247 A afirmação do filioque não figurava no símbolo professado em 381 em Constantinopla. Mas com base em uma antiga tradição latina e alexandrina, o Papa S. Leão o havia já confessado dogmaticamente em 447 (cf. DS 284) antes que Roma conhecesse e recebesse, em 451, no concílio de Calcedônia, o símbolo de 381. O uso desta fórmula no Credo foi admitido pouco a pouco na liturgia latina (entre os séculos VIII e XI). Todavia, a introdução do Filioque no Símbolo de niceno-constantinopolitano pela liturgia latina constitui, ainda hoje, um ponto de discórdia em relação às igrejas ortodoxas.

248 A tradição oriental põe primeiramente em relevo o caráter de origem primeira do Pai em relação ao Espírito. Ao confessar o Espírito como "procedente do Pai" (Jo 15,26), ela afirma que o Espírito procede do Pai pelo Filho (cf. AG 2). A tradição ocidental põe primeiramente em relevo a comunhão consubstancial entre o Pai e o Filho afirmando que o Espírito Procede do Pai e do Filho (Filioque). Ela o afirma "de forma legítima e racional" (Cc. de Florença, 1439: DS 1302), pois a a ordem eterna das pessoas divinas na sua comunhão consubstancial implica não só que o Pai seja a origem primeira do Espírito enquanto "princípio sem princípio" (DS 1331), mas também, enquanto Pai do Filho Único, que seja com ele "o único princípio do qual procede o Espírito Santo" (Cc. de Lyon II, 1274: DS 850). Esta legítima complementaridade, se não fo radicalizada, não afeta a identidade da fé na realidade do mesmo mistério confessado.

Compêndio do Catecismo:

47. Quem é o Espírito Santo que Jesus Cristo nos revelou?

243-248

É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ele é Deus, uno e igual ao Pai e ao Filho. Ele «procede do Pai» (Jo 15, 26), o qual, princípio sem princípio, é a origem de toda a vida trinitária. E procede também do Filho (Filioque), pelo dom eterno que o Pai faz de Si ao Filho. Enviado pelo Pai e pelo Filho encarnado, o Espírito Santo conduz a Igreja «ao conhecimento da Verdade total» (Jo 16, 13).

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino