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Formação do Clero nos anos 40 e pós-Vaticano II


Sobre a formação dos seminaristas nos anos 40 e seu reflexo no que ocorreu nos anos 70.

O que ocorreu nos anos 40?

É fácil entender o pensamento dos atuais bispos levando em consideração que eles foram formados nos anos 70 e 80, uma vez que teoricamente é que os bispos dos anos 60 e 70 teriam sido formados de maneira ortodoxa, o que não explicaria boa parte do comportamento do episcopado durante essas décadas.

Outro questionamento: Apesar de todos os problemas internos que a Igreja enfrentou nos primeiros 60 anos do século passado a impressão geral que os tradicionalistas passam é que antes do Vaticano II a Igreja era quase um monolito tomista, o que mudou completamente depois do concílio. Mas será que essa imagem é correta? Será que na verdade a Igreja não era na época uma panela de pressão, ainda que um pouco oculta, que explodiu depois do concílio?

Ainda mais uma questão: De maneira geral tradicionalistas e sedevacantistas louvam os papas do século XX até Pio XII. Entretanto, o conclave que elegeu João XXIII era formado exclusivamente por cardeais indicados pelos seus antecessores, especialmente o próprio Pio XII.

Mesmo o conclave que elegeu Paulo VI era formado por uma maioria de cardeais indicada antes de João XXIII. Embora os papas indiquem cardeais que não sejam necessariamente de sua linha teológica, supõe-se que cada papa imprime, de uma maneira ou outra, sua influência no colégio de cardeais. Não seria portanto contraditório louvar os papas até Pio XII e denegrir os papas eleitos pelos cardeais por eles indicados? Como, do ponto de vista tradicionalista ou sedevacantista, papas tão bons como Pio XI e Pio XII podem ter criado cardeais homens que futuramente elegeriam João XXIII?


Resposta do Profº Carlos Ramalhete:

O que ocorreu foi fora da Igreja: o auge da modernidade, com uma aparência de que o futuro havia chegado, a natureza humana estava sendo modificada, etc. Este era o ambiente que se respirava *fora* dos seminários. Dentro deles, contudo, o que se tinha era o oposto: um estudo em que não se preparava adequadamente os alunos para o ambiente que encontrariam lá fora, do qual eles eram cuidadosamente preservados (podiam sair do seminário um ou dois dias por ano, de batina, etc.).

Recomendável ler o "informação ao crucificado", do Cony, em que ele conta a sua perda de fé e saída do Seminário. Este livro - publicado em 1961 e passado em 1944 - mostra bem o ambiente daquele tempo. O começo do livro pode ser baixado em
http://www.olivreiro.com.br/livros/?acao=ler_livro&uid=1810709

Quando eles saíram, acharam do lado de fora um mundo em efervescência, sem que tivessem o treinamento que lhes permitiria perceber que esta efervescência era mentirosa e superficial.

Coisas que hoje são evidentemente erradas eram pregadas no mundo de forma que pareciam novas e frescas: a promiscuidade sexual que gerou os bailes funk com orgias era chamada "amor livre", e tida como uma forma de expressar carinho por todos, etc. Hoje é evidente que os efeitos destas coisas foram deletérios, mas na época era fácil não perceber para onde aquilo se encaminharia, quando só o que se tinha como medida de comparação era uma vida extremamente regrada dentro do seminário.

Em termos de formação teológica, ela foi, sim, ótima. O que faltou foi uma formação pastoral, mesmo porque ninguém previa que a modernidade - que parecera pujante e conduzindo a um futuro à la "Os Jetsons" nos anos 40 e 50 - iria explodir em 68, com as revoltas estudantis, o movimento hippie, etc. Tudo isso parecia na época algo fresco, novo, belo, o amor vencendo os obstáculos, etc. Ninguém previa a Tati Quebra-Barraco, o Death Metal, o Hip-Hop, etc. O futuro eram colares de flores, "faça amor não faça a guerra", etc.


Será que na verdade a Igreja não era na época uma panela de pressão, ainda que um pouco oculta, que explodiu depois do concílio?

Não a Igreja, mas a sociedade. O problema é que a Igreja, devido à aparente vitória da modernidade, estava pastoralmente encastelada, percebendo-se (com razão) como sitiada.

Quando a modernidade explodiu, a imensa maioria não percebeu que a hiper-modernidade (ou pós-modernidade) que se lhe seguia era a mesma coisa piorada, não outra coisa. O tomismo, que é excelente para perceber tanto os erros do nazismo, comunismo e capitalismo quanto os dos hippies, punks e funkeiros que sucederam aqueles qdo a modernidade se tornou hiper-modernidade, estava sendo aplicado apenas àquilo que existia dentro da Igreja; quando era aplicado fora, frequentemente o era de forma a quase justificar a modernidade, como fez Maritain, o que abriu as portas para leituras que hoje é fácil perceber como absurdas, mas que na época soavam verossímeis. Foram poucos os que, como o Corção, perceberam o tamanho do buraco. Há um livro do Jorge Amado (Tieta, talvez?) em que ele conta do encanto de um padre de uma cidadezinha de pescadores com um grupo de hippies, que a seu ver pareciam os
primeiros cristãos. O personagem é fictício, mas a reação foi comum.

Eram estes os homens de seu tempo. Chesterton diz que ser católico é escapar de ser um filho de seu tempo, mas a formação *pastoral*, devido às circunstâncias temporais, fez com que muitos percebessem aquele "otimismo" com a condição humana, típico da modernidade tardia, como sendo algo que fazia sentido, o que se manifestou no CVII em grande estilo (na Gaudium et Spes, por exemplo).

Hoje este otimismo (fundado sobre bases falsas) já se dissipou, graças a Deus, e é possível uma visão mais realista. O problema é que o estrago que foi feito na formação do clero ainda vai precisar de mais algumas gerações para ser consertado.

Extraído da lista do Yahoo Tradição Católica

 

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