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Por que Judas foi escolhido como apóstolo?

Judas traiu mesmo Jesus?

A passagem em que Pedro tenta “impedir” que Jesus siga o seu caminho de morte na cruz e Jesus o repreende dizendo “retira-te daqui Satanás”.


Uma passagem dizia que conforme havia nas Escrituras, nenhum dos ossos do Filho do Homem seria quebrado.


Outra em que Jesus entra no templo lê a escritura que no livro do profeta Isaías e faz o desfecho dizendo: Hoje está se realizando esta palavra da Escritura que vocês acabam de ouvir”..


Em todas essas passagens, se confirmava algo que todos já sabem: a palavra de Deus se cumpre. Com o homem, sem o homem e muitas vezes, apesar do homem.


Então, questiona-se se não teria sido Judas uma das pessoas que fez a vontade de Deus pois, se não fosse Judas, a profecia não teria se concretizado.


 Algumas pré-conclusões:

1)O evangelho apócrifo de Judas queria passar a situação de colocar Judas como uma pessoa que fez o seu papel e talvez tenha sido o mais obediente ao aceitar a missão que nenhum outro apóstolo gostaria de ter.


2)O evangelho apócrifo de Judas não tem o mesmo valor que o canônico em termos espirituais e, portanto não deve ser o guia da nossa vida.


3)Até mesmo o valor histórico do evangelho apócrifo deve ser questionada por ter sido transmitida através do movimento gnóstico que não era cristã propriamente, mas por ser sincretista, agregava alguns valores cristãos. E, principalmente pela época em que foram escritos: cerca de 180 anos d.C.


4)Que, embora o mal que Judas fez tenha contribuído para a paixão de Cristo, Deus não desejou que ele entregasse seu filho à morte, entretanto, Deus em seu plano de amor, se utilizou do gesto ERRADO de Judas para extrair um elemento que contribuição para a paixão de Cristo.


Deus nos deixa livres, mas por que Deus escolheu Judas como apóstolo se ele sabia do coração daquele homem?


Se Deus já sabia que Judas gostava tanto de dinheiro e que Judas imaginava um Messias revolucionário por que permitiu que ele fosse escolhido?


Alguns podem dizer: da mesma forma que escolhe a nós, miseráveis que somos: para que sua glória seja manifesta em nós que somos vasos de argila.


Entretanto, alguns não entendem a pedagogia de Deus nessa situação: por que expor Judas a tamanha tentação?


Talvez seja errado dizer que Deus já sabia que Judas faria isso, pois pelo livre arbítrio, nós sempre podemos escolher. Mesmo assim, escolher Judas foi como colocar uma pessoa com grandes inclinações ao pecado de se ambicionar pelas moedas de ouro e entregar Jesus.


Isso soa como se o tom da dúvida fosse da tônica Deus “armou tudo” pra que Jesus fosse crucificado, mas alguns não conseguem ver de outro jeito.


Qual outro meio de ver que Deus contribuiu para a salvação de Judas assim como ele contribui para a nossa? Se possível.


Há um grande mistério em torno da compatibilidade entre a liberdade humana e o conhecimento que Deus tem de nossos atos, também do que para nós é futuro [pois para Ele não existe tempo]. Mas fica claro que a escolha de Judas foi para que fosse apóstolo, e não para que traísse.


Ou seja, não está de acordo com a doutrina da Igreja pensar que Judas foi escolhido para ser o traidor, ou que tivesse de algum modo essa missão.


Que Deus tenha se aproveitado dessa traição para cumprir os seus planos de salvação, é diferente.


É caso de predestinação/livre arbítrio?


Não existe predestinação de todos. A doutrina católica ensina que Deus predestinou certos homens à bem-aventurança e predestinou certos homens (estes em conta de seus deméritos previstos) à rejeição eterna. Trata-se, portanto, de uma dupla predestinação, como ensinou o sínodo de Valence (D-322), mas não no sentido de Calvino.


O tomismo, contudo, não defende uma reprovação positiva, nem mesmo no sentido condicional. Ele defende sim, uma reprovação negativa incondicional, isto é, Deus, não tendo em conta os deméritos previstos, resolveu não-eleger certos homens à bem-aventurança, permitindo que esses se perdessem em suas próprias culpas. É assunto espinhoso? Sem dúvida. Mas vale a pena saber o que de fato dizem as escolas católicas. Calvino já dizia diferente: que Deus, por um decreto horrível, havia escolhido certos homens para a danação eterna. Em Calvino, a reprovação é, portanto, incondicional e positiva.


Sobre a questão da graça atual para o ato salutar, há distinção entre a graça eficaz e a graça suficiente. Os tomistas e os molinistas, com efeito, entendem diferente a graça eficaz e a graça suficiente. Para os tomistas, não há diferença entitativa entre uma e outra: a graça eficaz sempre chegará ao seu propósito, ao passo que a graça suficiente não passa da potência ao ato. Já, para os molinistas, a graça suficiente pode vir a se tornar eficaz, dependendo, para isso, da liberdade humana.


Distinguindo analogicamente, há diferença entre a predestinação, como um ato da vontade de Deus, e a ciência, pois, em Deus há tanto a ciência dos atos futuros, como também daqueles que são apenas possíveis. Logo, na primeira intervém a sua vontade e na outra não.


A predestinação, como um ato da vontade, pode ser entendida também como um ato da ciência, no sentido em que não há distinção real em Deus, entre essência e atributos. Assim, podemos dizer que a ciência de Deus dos atos futuros é a causa desses mesmos atos futuros. No entanto, isso não significa ciência no sentido passivo. Antes, é ciência no sentido ativo, que é causa de tudo o que conhece.


No molinismo especificamente, a predestinação também não se confunde com a "ciência média".


O Concílio de Trento e a predestinação


805. Ninguém, enquanto peregrina por esta vida mortal, deve querer penetrar tanto no mistério oculto da predestinação divina, que possa afirmar com segurança ser ele, sem dúvida alguma, do número de predestinados [cân. 15], como se o justo não pudesse mais pecar [cân. 23] ou, que se tiver pecado, poderá com certeza prometer-se a si mesmo uma nova conversão. Pois, sem uma revelação toda especial de Deus, não se pode saber quais os que Deus escolheu para si [cân. 16].


No tomismo (ou banezianismo, porque os molinistas também se fazem remontar a Santo Tomás, erroneamente, mas fazem), Deus cria essa vontade livre. À primeira vista, parece contraditório: como algo pode ser livre, e, ao mesmo tempo, ser criado por Deus?


Ora, Deus é a fonte, a causa da nossa liberdade. Deus a sustenta, a atualiza, pela soberana eficácia de sua vontade, portanto, não a destrói. Deus e o homem não são duas causas da mesma ordem para que tenham que dividir o seu campo de atuação.

Por isso, Deus é a causa, e o homem é causa livre de seus próprios atos.


No molinismo e no congruísmo, a ciência de Deus não se contrapõe à autodeterminação do homem, pois o conhecimento antecipado que Deus possui dos futuríveis não impõe necessidade ao fato. Além disso, vale lembrar que o conhecimento de Deus é anterior na ordem lógica, posto que, para Deus, não há passado, nem futuro. Para Deus, só há presente.


O fato de se conhecer o resultado de um jogo de futebol destrói o caráter livre das ações dos jogadores?


Pode-se argumentar dizendo que o jogo é passado, e o conhecimento de Deus é das ações futuras. Nós já dissemos que a anterioridade do conhecimento de Deus é na ordem lógica, pois, para Deus, não há tempo. Deus conhece o "futuro" nas suas causas exaustivamente. Veja bem que você mesmo pode prever qual será o resultado de um jogo. Ora, Deus, cujo conhecimento das causas é exaustivo, pois conhece-as no próprio ser, pode conhecer infalivelmente qual será o seu efeito.


Deus é a Causa final de todas as coisas. Desta forma, o fim para o qual todas as coisas tendem é o Bem Supremo. Nós, enquanto estamos nesta Terra e com nossa inteligência limitada, não podemos compreender ainda certas coisas, mas Deus, cuja sabedoria é infinita, age de acordo com essa mesma sabedoria, e nela está a razão de seus propósitos.


Ao dizermos que existem atos que são apenas possíveis, e não certos, não estamos negando o dogma da onisciência divina? Deus já não sabe o que Ele vai escolher?


Na verdade, os escolásticos distinguiam a ciência de Deus em:


Ciência de visão (scientia visionis) - é a ciência livre, pela qual Deus conhece infalivelmente os futuros contingentes, isto é, tudo o que efetivamente se realizará no tempo.


Ciência de simples inteligência (scientia simplicis intelligentiae) - é a ciência necessária, pois Deus, conhecendo perfeitamente a Si mesmo, conhece a sua virtude, e, por meio dela, conhece todo o possível, isto é, todas aquelas perfeições que estão virtualmente contidas em sua perfeição infinita.


A essas duas, os molinistas acrescentam:


Ciência média (scientia media) - é a ciência dos futuríveis livres, condicionada à livre determinação das criaturas racionais.


A ciência média é característica do molinismo e do congruísmo. Os futuríveis livres ocupam uma posição intermédia entre a determinação e a indeterminação. Logo, a ciência de Deus, pela qual Deus supostamente conheceria os futuríveis livres, deve ocupar um lugar intermediário entre o conhecimento necessário e o livre: assim chamou-se a essa ciência, ciência média ou mediana.


Alguns não entendem como Deus pode criar pessoas e conhecer infinitamente suas fraquezas e suas resistencias interiores e ainda assim criá-los.


Deus, mesmo sendo infinitamente bom, pode criar pessoas sabendo que as mesmas irão para o inferno.


Para Karl Hanner, um dos maiores teólogos do sec XX, deixar o homem na "não-existencia" seria uma pena tão ruim ou pior quanto o inferno, além de injusta.


Nos primeiros séculos da Igreja, a tese de que o inferno deixaria de existir após o juizo final era defendida por alguns cristãos. Orígenes, por exemplo. Mas, na época, tal tese foi condenada. Eles também acreditavam que Deus permitir que as almas voltassem a "não-existencia" era a pena eterna e definitiva do inferno.


É dogma de fé que a pena do inferno é eterna. Sabemos que a pior pena do inferno consiste na separação eterna de Deus. Também sabemos que a alma humana não é eterna, pois foi criada em determinado periodo do tempo e poderia voltar ao nada se Deus quisesse. Assim como o inferno não é eterno, pois teve seu inicio em determinado momento da história, podendo voltar a não existencia.


De qualquer maneira, essa tese sendo verdade ou não, a explicação para a questão continua:


Deus, caso resolvesse não criar um ser humano por saber que ele iria para o inferno, estaria condenando-o a "não-existência eterna" antes mesmo dele ter feito qualquer coisa para merecer isso.


Podemos até imaginar que não existir, para nós, não faria diferença, pois não iriamos sofrer nem saber de nada que é real. Mas isso é uma ilusão, pois não faria diferença apenas porque não saberiamos, seriamos ignorantes dessa pena que nos foi dada, o que é ainda pior.


Ou seja, Deus criar serer humanos mesmo sabendo que eles vão para o inferno, dar a eles, mesmo assim, toda a graça necessária para que consigam a salvação como os outros etc. É uma prova não só do amor, mas da justiça de Deus que "faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos."


A pena de dano é negativa: é a exclusão da visão beatífica. Quem morre só com o pecado original sofre a pena de dano.


A pena de sentido é positiva: é a pena do fogo eterno. Quem morre com pecados atuais mortais sofre a pena de sentido.


No Inferno dos danados, sofre-se a pena de dano e a de sentido.


O fato de Deus saber que as almas o negariam não as deixaram menos livres de não precisarem ser condenadas.


Quanto a condenação: Sabemos que Deus tem uma vontade perfeita. Duas importantes perfeições saem desta vontade perfeita, a misericórdia e a justiça. A justiça consiste em dar cada um o que merece, particularmente em premiar o bem e punir o mal. E a misericórdia consiste em ter compaixão da miséria alheia, em Deus esta misericórdia esta voltada para os pecadores, para conduzí-los ao reto caminho.


Em Deus existe uma relação entre a misericórdia e a justiça, que faz com que todo ato de justiça pressuponha um ato de misericórdia, como na parábola dos talentos dados aos servos.


Deus não é capaz de mal. O mal é como o frio, que não é "existe" na física, é apenas ausência do calor. O mal é ausência do bem, se o bem é Deus, logo, o mal é a ausência de Deus.


Quem "cria" o mal é o livre arbítrio das criaturas que Deus criou, é uma opção delas.

Deus criou-as gratuitamente, porque é infintamente bom. Deus permite que elas usem sua liberdade para afasterem-se dele, por que é infinitamente justo.


Ainda é muito complicado entender tudo isto, porque para intendermos a Deus nos amparamos em materialismos, porém Deus é um espírito puríssimo e pleno de todas as as perfeições, e nós quando muito possuimos são pefeições parciais e limitadas.


O mal ontológico, aquele que deriva da ação de furações, maremotos, epidemias, males congênitos, etc., é causado por Deus indiretamente, ou per accidens, uma vez que esse mal consiste numa limitação do bem.


Já o mal moral é de responsabilidade do agente, pois está relacionado com a intenção. Para que haja o mal moral, não é necessário que o ato em si seja mau, mas basta que a intenção seja má.


A questão é complexa e não deixa de estar envolvida em mistério. E fica mais difícil ainda se, em lugar de tentar compreender [dentro das nossas limitações], a gente tenta imaginar.


Mesmo nos conhecimentos humanos, há coisas que fogem da nossa capacidade imaginativa. Por exemplo, a geometria não-euclidiana. Matematicamente, é possível trabalhar com 4, 5, inúmeras dimensões. Mas a nossa realidade é em 3 dimensões, e não somos capazes de imaginar outras.


O grande problema, aqui, está com o nosso conceito de tempo. Vivemos presos à noção de passado, presente e futuro, porque é a única realidade da que temos experiência. Mas temos que ter em conta que a eternidade de Deus é diferente disso.


Não temos dificuldade nenhuma em perceber que conhecemos eventos passados, sem que com isso tenhamos interferido neles. Com todas as limitações que as analogias trazem, vou fazer uma que talvez ajude a entender a questão.


Quando lemos um livro pela primeira vez, vivenciamos os "suspenses" junto com os personagens. O que vai acontecer é futuro para eles, e também para nós. Quando lemos pela segunda vez, nós já sabemos como os personagens agirão, e o que vai acontecer. Mas nem por isso interferimos.


Quando vemos o vídeo de um jogo de futebol que já aconteceu, mas cujo resultado ignoramos, tratamos como futuro aquilo que já é passado. Torcemos como se um jogador ainda pudesse fazer um gol que na verdade não fez. Esses exemplos de "descontinuidade no tempo" dão-nos uma fraca idéia de que o tempo pode ser visto de um modo diferente de como normalmente vemos.


O fato de Deus conhecer o futuro [o que para nós é futuro] não quer dizer que não possamos agir livremente.


Não se trata de que Deus crie homens propensos a amá-lo e outros que não o sejam.


Ilustremos com o caso de Judas, que é o que dá título ao tópico. Nada indica que Judas fosse intrinsecamente pior do que os demais apóstolos. Não! Tanto que, quando Cristo disse que haveria um traidor, ninguém conseguia saber quem era. Judas, até então, tinha-se comportado como os demais. Ele não seguiu Cristo para traí-lo. Seguiu-O atendendo ao chamado, como os outros. Deve ter convertido pessoas. Possivelmente fez milagres e expulsou demônios.


E uma coisa sabemos com certeza, porque é de fé: recebeu a graça suficiente para a sua salvação.


Mas, em algum momento, por sua livre escolha, começou a deixar de corresponder à graça.


Como já dissemos, certamente existe aí um mistério. S. Pedro fala, nos Atos dos Apóstolos, 1:


16. Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus.


17. Ele era um dos nossos e teve parte no nosso ministério.


Aliás, toda essa passagem é muito interessante, porque mostra que Deus tinha um "plano B", e Matias substitui Judas em sua missão de apóstolo.


Há um pequeno texto sobre o inferno onde o autor pega elementos de Rahner e Urs von Balthasar. Não sei se dá para concordar com tudo o que ele diz, mas talvez ajude:

http://www.ciberteologia.org.br/05200606/Teologiaaberta/tabid/870/Default.aspx

Reflexiones sobre un tema polémico: el infierno

http://www.mercaba.org/FICHAS/Humanitas.cl/reflexiones_sobre_un_tema_polemi.htm



PARA CITAR ESTE ARTIGO:


 Por que Judas foi escolhido como  apóstolo?  11/2011 David A. Conceição site Tradição em Foco com Roma.




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tradicaoemfococomroma@hotmail.com

 

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