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A eficácia da argumentação sedevacantista

Os sedevacantistas são os únicos verdadeiros católicos, aqueles a quem o Filho do Homem encontrará a Fé quando retornar, os eleitos, o exército de Macabeus, o calcanhar da Virgem!

Os tradicionalistas perdem seu tempo em tentar refutar o sedevacantismo pois ele é irrefutável, eles possuem argumentos muito bem trabalhados.

Vejamos esses dois:

Para caluniar um Papa vale até acreditar em comunista.

Tem uma entrevista com o Arai Daniele, renomado teólogo de peso sedevacantista no youtube em que fala que sabia que o Papa João XXIII era maçon, porque um amigo de um amigo dele conhecia uma pessoa de respeito que disse isso.



O mesmo teológo de peso que afirma possuir uma carta da Irmã Lúcia relatando que a Rússia não foi consagrada e que Dom Castro Mayer o confidenciou ter abraçado a teoria da Sé vacante.

Recentemente, outro dossiê foi lançando para provar, cheios de teorias conspiratórias e argumentos subjetivos, que Bento XVI foi maçon.

Nem eles mesmo acreditam naquilo que pregam, pois são os primeiros a procurarem os sacramentos do rito novo em situações de emergência, mas jamais expõem isso para não terem sua imagem "da resistência" prejudicada.


Mas, para possibilitar uma reflexão, cito aqui o Concílio de Trento:


Declara também que na administração de seus Sacramentos, sempre teve a Igreja, poder para estabelecer ou mudar, salvada sempre a essência deles, quando tiver julgado ser o mais conveniente, de acordo com as circunstâncias das coisas, tempos e lugares, à utilidade dos que recebem os Sacramentos, ou à sua veneração. É exatamente isso que parece que insinuou o Apóstolo São Paulo, quando disse: "Devemos ser reputados como ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus". E consta que muitas vezes o mesmo Apóstolo fez uso desse poder, tanto a respeito de outros pontos como dos Sacramentos, pois disse, quando fez regras a respeito de seu uso: "quando cheguar a hora, darei ordens ao restante". (Sessão XXI, Cap. II)

A título de curiosidade, Tradicionalismo é o nome de heresia metafísica, se não me engano do séc. XIX, condenada pelo Concílio Vaticano I, e que tinha seu defensor na pessoa de Lamennais.

Hoje, o termo "tradicionalismo" ganhou uma outra conotação nos meios teológicos, mas antes do Concílio Vaticano II, esse era o sentido da palavra "tradicionalismo".

No contexto da história da filosofia, tradicionalismo é um sistema que tem por base gnosiológica duas su suposições: a de que tenha havido uma revelação primitiva, e que a tradição tenha conduzido através do tempo, possibilitando à razão resolver o problema da verdade, que ela por si só não atingiria. Na suposição, portanto, que a razão por si só não consegue resolver o problema da verdade, o tradicionalismo é um movimento teológico e filosófico, que coloca na base uma revelação primitiva. Tais idéias se apresentam primeiramente nos escritos doutrinários do prestigioso escritor católico francês Joseph de Maistre (1754-1821), conhecido também como contrário à revolução francesa e como monarquista. Defendeu em sua obras O papa (Le Pape, ), a autoridade pontifícia ao modo medieval.

Mas foi Felix de Lammenais (1782-1854) (vd) o principal teórico do tradicionalismo. Tradicionalistas moderados foram Louis Bautain (1796-1867), Augustin Bonnetty (1798-1879), J. Ventura (1792-1861), superior dos teatinos, Gerhardt Casimir Ubaghs (1800-1875). Este foi padre e professor em Lovaina, autor de Ensaio de ideologia ontológica (Essai d'idéologie ontologique, 1860), com tendências ontologistas.

Os conflitos ocorridos entre a Igreja Católica e os tradicionalistas não se deram por causa do tradicionalismo em si mesmo, porquanto este costuma admitir a revelação originária, e sim porque outros fatores se interpuseram, como por exemplo o fideismo; não é peculiar à Igreja a fé cega. Também se deram conflitos por causa do liberalismo, o qual a Igreja combateu sobretudo no passado.

Fonte

Só um antipapa "consegue" cair em heresia (ensinar um erro com pertinácia). Para um Papa legítimo isso é impossível (embora ele esteja sujeito a outros pecados, e até mesmo a pecados graves), da mesma forma como seria impossível Deus falhar, já que é Ele quem dá ao Papa o dom da infalibilidade em assuntos de doutrina de fé e moral.

Se um Papa estiver na iminência de errar, Deus o corrige antes que ele erre, e isso já aconteceu: São Pedro, antes de receber a visita dos homens enviados por Cornélio, recebeu de Deus a instrução "não chames de impuro o que Deus purificou". Provavelmente, não fora por essa instrução vinda do Céu, naquela ocasião ele teria tido dúvidas sobre como deveria receber o convite de Cornélio, se deveria ou não batizar incircuncisos, etc.

Até mesmo canonistas admitem que a velha questão "Estão os Papas acima do Direito Canônico?" não admite resposta fácil".

O Dr. Ludwig Ott diz, comentando sobre o Primado do Papa:

 "Como supremo legislador da Igreja, o Papa não está ligado juridicamente por costumes e decretos eclesiásticos, mas sim pelo direito divino"

Que o Papa não está limitado pelo Direito Canônico, é certo. Mas deve-se distinguir entre as ações que são "preter legem", isto é, acima da lei, das ações que são "contra legem". Das ações que são "preter legem" dispõe legitimamente o Papa.

Ainda que o Papa não esteja ligado pelo Direito Canônico, nas ações que são "contra legem", ele está ligado pelo Direito Divino. "Este exige que o Papa use de sua potestade eclesiástica para edificação do corpo místico e não para destruição do mesmo (2 Cor 10, 8)" (L. Ott)

Pode ser que, subjetivamente, não tenha cometido tal pecado. A Igreja não tem jurisdição sobre o que está oculto (Ecclesia de occultis non judicat).

Além disso, a excomunhão é ato de governo, podendo as autoridades da Igreja se enganar, ainda que nas coisas manifestas. Vide o caso de Santo Atanásio.

Sto. Atanásio foi o grande defensor da ortodoxia contra o arianismo, e foi excomungado injustamente pelo Papa Libério.

Honório foi condenado com os monotelistas no III Concílio de Constantinopla. Convencido por Sérgio, ele proibiu a São Sofrônio que se falasse em "uma ou duas operações". Caso Honório fosse mono-energista, como Sérgio, não haveria de ter proibido falar de "uma só operação". Por isso, o Papa S. Leão II condenou-o como fautor da heresia.

A expressão "uma vontade", que aparece em uma de suas cartas, se entende corretamente como uma só vontade moral. Em Cristo, há duas vontades físicas, mas uma uma só vontade moral. Que Honório não negava que em Cristo houvesse fisicamente duas operações distintas, divina e humana, deixa claro este trecho de uma de suas cartas:
(...) senão que devemos confessar que as duas naturezas unidas em um só Cristo por unidade natural operam e são eficazes em comunhão de uma com a outra, e que a natureza divina opera o que é de Deus, e a humana executa o que é da carne, não ensinando que dividida nem confusa nem conversivelmente a natureza de Deus se converteu no homem nem que a natureza humana se convertera em Deus, senão confessando íntegras as diferenças das duas naturezas... (Scripta dilectissimi filii)

Alguém acusava de Honório defender que, em Cristo, havia uma única operação, a divino-humana, e os modos de operar divino e humano eram, para Honório, distinções cabíveis dentro de uma mesma natureza. Para isso, citava trechos das cartas de Honório que mostravam ter a natureza humana origem divina. Ora, esse argumento, a meu ver, não procede, porque a polêmica estava em torno da natureza das operações, claramente distintas em Honório. A operação divino-humana só é errada, se não admitir tal distinção. Além disso, todos os atos da natureza humana estão verdadeiramente subordinados ao querer divino.

Apesar dessa defesa do Papa Honório, a sua condenação refletiu ao longo da História da Igreja. Outros concílios, o II Trulano, o II de Nicéia e o IV de Constantinopla, repetiram a condenação.
Portanto, ainda na hipótese mais desfavorável, podemos concluir:

Que o papa Libério cometeu apenas um ato de fraqueza condenando, num momento angustioso o grande Atanásio: fraqueza que Atanásio é o primeiro a desculpar: Libério, diz este grande doutor, vencido pelos sofrimentos de um exílio de três anos e pela ameaça do suplício, assinou por fim o que lhe pediam; mas tudo se deve à violência.

Além disso, o papa Libério nada definiu; se cometeu algum erro, quando muito podemos dizer que errou como doutor particular e não como doutor universal, quando fala ex-cathedra

Ninguém pode negar que Honório ladeia a dificuldade com o máximo cuidado e recusa pronunciar-se acerca das duas vontades. No entanto - note-se bem esta particularidade - começa por lembrar as decisões do concílio de Calcedônia e afirma claramente que em Jesus Cristo há duas naturezas distintas, operativas. Em seguida, aprovando a tática de reconciliação adotada por Sérgio, recomenda que não se avance mais no assunto e não se torne a falar de uma ou duas operações. Acrescenta, é verdade, que em Cristo há uma só vontade, mas pelo contexto se depreende que não quer com isso negar a existência da vontade divina em Jesus; o seu fim é simplesmente excluir as duas vontades a que insidiosamente Sérgio aludia: as duas vontades que lutam em nós, a do espírito e a da carne. Honório, portanto, não nega que haja em Cristo uma vontade divina e outra humana, mas somente afirma que a vontade humana de Jesus não é, como a nossa, arrastada por duas correntes que se contrariam.

Note que isso condiz plenamente com o Evangelho (Mateus 26,39-42), onde transparece claramente que Jesus tem duas vontades: a Divina que é exatamente igual à do Pai; e a Humana que, embora nem sempre fisicamente igual, como o Rui explicou acima, submete-se sempre perfeitamente à Divina. Sobre a diferença entre a vontade humana de Jesus e a nossa, sendo a nossa "arrastada por duas correntes que se contradizem", como diz o artigo, Romanos 7 (este capítulo fala de como ficou a nossa natureza humana por conseqüência do pecado original, coisa que evidentemente não se aplica a pessoas imaculadas, Jesus e Maria).
Todavia, objeta-se, Honório foi condenado pelo VI concílio ecumênico e pelo papa Leão II. Advirta-se, em primeiro lugar, que nem todas as palavras contidas nas Atas dos Concílios são infalíveis e que as decisões de um concílio só gozam do privilégio da infalibilidade, depois de serem examinadas pelo papa. Ora, as atas do VI Concílio, onde estava exarado o anátema contra Honório e contra os principais monotelistas como Sérgio, não foram confirmadas pelo papa. O Sumo Pontífice limitou-se censurar o modo de proceder de Honório, sem o anatematizar, como fez aos outros, e não lhe infringiu a nota de hereje.Conclusão. Podemos portanto concluir:

Que Honório não ensinou nem definiu o monotelismo. Quando muito pode dizer-se que não foi clarividente e que em certo modo favoreceu a heresia, abstendo-se de definir e recomendando o silêncio quando devia falar, proporcionando assim aos monotelistas um pretexto para sustentarem sua doutrina.

Ainda que houvesse erros nas suas cartas e, por esse motivo, fosse condenado pelo VI concílio, o erro e a condenação só o atingiriam como doutor particular, e não como doutor universal. Portanto, nem o caso de Honório nem o de Libério, são argumentos contra a infalibilidade pontifícia.


Sobre as operações teândricas

Distingue-se três tipos de operações teândricas (divino-humanas) em sentido amplo na Pessoa do Verbo (aqui chamadas de teândricas em consideração à Pessoa do Verbo ser divina e humana, não que todas sejam propriamente teândricas):

a) operações divinas: são aquelas que concernem exclusivamente à natureza divina, como criar e governar o mundo;

b) operações humanas: são aquelas que concernem exclusivamente à natureza humana, como ver, ouvir, comer, beber, etc.;

c) operações mistas ou divino-humanas em sentido estrito (teândricas em sentido estrito): são aquelas atuadas pela Divindade, mas utilizando-se da natureza humana como mero instrumento, tipo curar e ressuscitar os mortos.

Os monenergistas consideravam haver em Cristo um só tipo de operação teândrica: a operação teândrica em sentido estrito. Portanto, supunham que a natureza humana passiva e sem vontade.

Honório, por outro lado, a supõe ativa: executa o que lhe é próprio ("a natureza divina opera o que é de Deus, e a humana executa o que é da carne"). Todavia, parece que Honório nega que a operação humana seja eficaz sem comunicação com a divina ("as duas naturezas unidas em um só Cristo por unidade natural operam e são eficazes em comunhão de uma com a outra"). Estaria ele sendo herege pensando dessa maneira? Colocarei minha opinião abaixo.

De um ponto de vista que prega a espontaneidade da natureza humana, a perspectiva de Honório parece errônea; alguns julgam poder prová-lo apenas apontando para o livre arbítrio de Cristo, pois o livre arbítrio comporta uma espontaneidade em relação à natureza criada. Mas, por outro lado, é certo que a Igreja não definiu sobre a natureza da liberdade criada; e agir sem espontaneidade em relação à Causa Primária não é agir contra o impulso natural. Pelo contrário, a Causa Primária induz o agente livre a agir de acordo com o seu impulso natural.

Liberdade geralmente é entendida como despreendimento de todo vínculo, mas sabe-se que o homem não pode quebrar o vínculo com a Causa Primária, pelo menos, é assim que entendem os tomistas; a única liberdade desprendida de todo vínculo só pode ser a da vontade divina.

Assim sendo, de uma perspectiva tomista, não me parece errônea a posição de Honório, se ela comporta a vontade humana ativa de Cristo, isto é, de acordo com seu modo de operar natural.

Os molinistas já supõem que a vontade humana atua, não só de acordo com o seu agir natural, mas espontaneamente em relação à Causa primária, portanto, a perspectiva de Honório seria errônea, mas não herética.

Em consideração, as operações divinas ou simplesmente divinas da Pessoa do Verbo não são teândricas, nem em sentido amplo. As operações humanas são teândricas em sentido amplo, pois seguem a Pessoa enquanto princípio (principium quod) e a natureza enquanto "princípio pelo qual" (principium quo).

Nas operações mais propriamente teândricas, ou teândricas em sentido estrito, as naturezas divina e humana cooperam como princípio elicitivo quo (princípio pelo qual), para produzir o efeito total.

O Papa Honório I parece entender que todas as operações do Verbo encarnado recebem essa cooperação das duas naturezas. Assim, ao ouvir, beber, comer, cooperam a natureza humana e a divina. Ora, isso não pode ser dito do homem comum, pois apesar de, em suas ações, dar-se o concurso da Causa primária, procedem de princípios diferentes. Mas, em Cristo, o princípio das operações é o mesmo, a única Pessoa do Verbo. Logo, mesmo nas operações humanas coopera a natureza divina, na condição de causa, como decorrente do mesmo princípio, a única Pessoa da Verbo.

Mesmo os molinistas obrigam-se a admitir o concurso divino imediato para todas as ações humanas; somente não admitem um concurso prévio e determinante da vontade humana, mas condicionado à autodeterminação da vontade humana.

Algumas explicações complementares:

Dizer que um determinado Concílio não se preocupará em formular condenações não significa, de modo algum, que as condenações precedentes estariam canceladas ou anuladas. Muito pelo contrário! Como é do conhecimento de todos, um Concílio não diminui a verdade do que foi legitimamente ensinado anteriormente. É por isso que já é indicado que o modo correto de ler o Concílio Ecumênico do Vaticano II é, necessariamente, contextualizando-o no ensino tradicional. Jamais isoladamente!

A autêntica tradução do termo “aggiornamento”, no sentido que foi utilizado no CVII, é “atualização” e não “inovação”. Que o ensino tradicional comporte muito apropriadamente a idéia de atualização, não deveria espantar a nenhum bom católico. Primeiro porque a Tradição da Igreja é viva, sempre operante e sempre capaz de oferecer novas respostas para novas perguntas (não foi isso que indicou-nos Jesus quando falou que o homem sábio tira de seu tesouro coisa novas e velhas?). E, depois, o próprio conceito de ensino implica numa constante atualização e adequação de suas formas, para não deixar de cumprir proficuamente sua função de levar os corações dos homens a Deus.

Negar esta necessidade e movimento natural do ensino da Igreja é negar, definitivamente, a missão do Magistério da Igreja. Seriamos obrigados a abandonar tudo para assumirmos a postura agnóstica de negar qualquer possibilidade de se falar de Deus. Seria necessário, inclusive, negar as Escrituras, de modo especial os Evangelhos, pois as diferenças de enfoque que deram os autores dos evangelhos indica, de modo indiscutível, que cada um deles “atualizou” ao seu modo os acontecimentos e ensinamentos da vida de Jesus, sem com isto alterar a Verdade revelada.

Isto explica também a preocupação com o modo próprio de propor a Verdade imutável nos dias atuais. Em sua espetacular obra De catechizandis rudibus Santo Agostinho oferece muito valiosas indicações práticas, a um zeloso catequista de sua época, de como “atualizar” ou “adequar” o ensino da Verdade aos diferentes grupos de pessoas que se apresentavam para receber os rudimentos da Fé. É uma excelente leitura, que indico vivamente (A Editora Vozes lançou recentemente uma versão, sob o título A Instrução dos Catecúmenos).


Agradeço aos amigos Sara Rozante e Samuel Cardoso por terem compartilhados das pérolas que compôs o corpus do artigo.

 

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