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Desconfiança ao dar esmolas


Nos dias de hoje, as pessoas bolam um monte de truques para ganhar dinheiro as custas dos outros. Muita gente que pede esmola sem precisar. Até que ponto podemos confiar que a tal pessoa precisa do dinheiro?

A primeira resposta poderia ser que dinheiro vai para instituições ligadas à Igreja, que tem meios de cadastrar famílias e verificar as condições. Pedinte, só comida ou água.

Prudência é uma virtude cardeal.

Por outro lado Deus, que é Deus, nos deu tudo o que temos e ainda nos deu o livre arbítrio para usarmos de tudo o que Ele nos deu como quisermos.

Se Ele fez isso, por que fazermos diferente Dele? Por que achamos que podemos julgar quem pede? O que o pedinte vai fazer com a nossa contribuição é entre ele e Deus, apenas.

Assim como o que fazemos com tudo o que Deus nos dá é somente entre cada um de nós e Deus, apenas.

Não se deve dar JAMAIS dinheiro a crianças ou pessoas com crianças no colo, porque essas crianças são exploradas por seus responsáveis para isso e até apanham por isso. E tam mais, se elas estão na rua pedindo dinheiro é por que tem gente de que dá achando que está fazendo caridade ou simplesmente porque é mais fácil dar uns centavos do que negar. É só parar de dar que param de pedir, eu não só nao dou como chamo o Conselho Tutelar, quando se trata de criança.

Uma famosa socialite escreveu um artigo dizendo que os pedintes queriam mais atenção que dinheiro. Ela descobriu isso quando resolveu conversar com eles em vez de dar o dinheiro e ir embora.

Mas eles precisam de dinheiro também. Seja para comer, para comprar roupa, para pegar um ônibus e ser abrigado por parentes, ou mesmo pra tomar uma pinga pra aliviar a amargura de suas vidas. Não é só "água e comida" que eles precisam.

Aliás, antes de tudo, precisam de Cristo.


As sete obras de misericórdia corporal:

1. Dar de comer a quem tem fome

2. Dar de beber a quem tem sede

3. Vestir os nus

4. Dar pousada aos peregrinos

5. Visitar os enfermos

6. Visitar os presos

7. Enterrar os mortos.

Do Catecismo da Igreja Católica
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Às vezes, se lê em livros medievais ou da antiguidade, que tal pessoa ou tal santo dava muitas esmolas.

Acontece que o dinheiro, naquele tempo, era muito diferente do nosso sistema financeiro atual. Primeiro, que o dinheiro praticamente não existia. Uma moeda era algo algo de muitíssimo valor.

Geralmente feita artesanalmente, e cunhada com a figura do rei ou imperador.

Portanto, o que as escrituras e os textos antigos querem se referir quando falam em esmolas, geralmente são coisas que ajudavam a pessoa que pedia, como comida ou água ou roupas.

As sete obras citadas acima, são as "esmolas", as obras de misericórdia recomendadas pela Igreja.

Vê-se logo que todas as sete ações envolvem atos e sentimentos e contato, muito mais humanos, muito mais elevadores da auto-estima, do que simplesmente tacar uma moeda que não vai fazer falta na cara de alguém desgradável pra que ele ou ela saia logo da sua frente.


Além disso, Misericórdia não é só corporal, mas também espiritual. Por isso, a Santa Igreja recomenda:

As sete obras de misericórdia espiritual

1. Dar bons conselhos

2. Ensinar os ignorantes

3. Corrigir os que erram

4. Consolar os tristes

5. Perdoar as injúrias

6. Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo

7. Rezar a Deus por vivos e por defuntos.


Olavo de Carvalho fala sobre esmolas:
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Pobreza e grossura -Olavo de Carvalho Bravo!, julho de 2000

Neste país você não pode pedir emprego e muito menos dinheiro emprestado a um conhecido sem que ele instantaneamente assuma ares paternais e comece a lhe dar conselhos, a ralhar com você chamando-o de irresponsável, leviano e miolo-mole. E dê graças a Deus de que ele o faça em tom bonachão e não transforme a humilhação sutil em massacre ostensivo. Finda a cena, ele sai todo satisfeito com a consciência do dever cumprido e considera-se dispensado de lhe arranjar o emprego ou o dinheiro. E você? Bem, você sai duro, desempregado... e culpado.

(...)

Meu pai (...) chamava de "senhor" cada mendigo que o abordava na rua, e sem que ele me dissesse uma palavra aprendi que o homem em dificuldades necessitava de mais demonstrações de respeito do que as pessoas em situação normal.

(...)

Fico horrorizado quando vejo alguém enxotar um flanelinha como se fosse um cachorro, e nunca vi alguém fazê-lo com a desenvoltura, o aplomb, a consciência tranqüila de um intelectual de esquerda! Nos anos 60, corria o dito de que ajudar os pobres individualmente era "alienação burguesa", ópio sentimental, sucedâneo da revolução salvadora. Passaram-se quarenta anos, a revolução salvadora não veio (onde veio, os pobres ficaram mais pobres ainda)...

(...)

Sim, a caridade individual está em baixa. Os frutos da bondade humana não devem ir direto para o bolso do necessitado: devem ir para as ONGs, sustentando funcionários e diretores, financiando movimentos políticos, despesas de aluguel, administração, publicidade e transporte, para no fim, bem no fim, se sobrar alguma coisa, virar sopa dos pobres, diante das câmeras, para a glória de São Betinho.

(...)

Ainda há quem diga: "Mas se você dá dinheiro o sujeito vai beber na primeira esquina!" Pois que beba! Tão logo ele o embolsou, o dinheiro é dele.

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Na primeira vez que eu li, o primeiro impulso foi achar que o certo é dar o dinheiro mesmo, e pronto, pra todo mundo.

Mas, depois entendi que o que ele estava falando é muito mais amplo. Ele não está falando do dinheiro. Afinal, o dinheiro é seu, você trabalhou duro por ele, pelo que sobrou do que você teve que dar, quase a metade dele, pra sustentar um governo inútil.

Nada mais justo que você o resguarde um pouco, que tente proteger o resultado do seu esforço, que deveria servir para vc e sua família e para a sociedade e para a glória de Deus, que o proteja da ganância de malandros e metidos a espertos, ou simplesmte do seu uso para coisas ruins e criminosas.

Mas, não é disso que trata o trexto.

É de respeito ao ser humano.

O olhar no olho do outro. Faça essa experiência. Não só você vai se surpreender, mas a pessoa também. Muitos ficam desconcertadíssimos (e já teve gente que saiu correndo), de tão surpresos que ficam de simplesmente serem vistos.

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Teve um acadêmico da USP que escreveu uma tese, na qual ele ficou um mês vestido de gari, e trabalhando de gari, nos corredores da USP. Ele disse que seus colegas de trabalho, que o viam todo dia, simplesmente não o viam. Era como se ele tivesse deixado de existir, como se ele fosse transparente. Ele disse que foi uma sensação claustrofóbica, de filme de terror.

Vale ressaltar que deve-se ter o cuidado ao pensar em dar esmolas, pois mendicância virou fonte de renda em diversas cidades do país. Alguns mendigos praticamente "batem ponto" nos mesmos establelecimentos, sobretudo em determinadas épocas (como o fim de ano, por exemplo), usando-se de sua "falta de condição financeira" como forma de ganhar dinheiro através da bofé dos transeuntes.

Nos piores casos, chegam a se usar de nenês de colo (ou até recém nascidos) para comover quem passa por perto.

Na dúvida, há diversos organismos eclesiais, como a Cáritas Brasileira, e pastorais, como os vicentinos e outras pastorais de rua na paróquia mais próxima de sua residência que se encarregam desse trabalho.


O que podemos dizer...?

A respeito da Didaqué que diz assim:

5 Dê a quem pede a você e não peça para devolver, pois o Pai quer que os seus bens sejam dados a todos. Feliz aquele que dá conforme o mandamento, porque será considerado inocente. Aí de quem recebe: se recebe por estar necessitado, será considerado inocente; mas se recebe sem ter necessidade, deverá prestar contas do motivo e da finalidade pelos quais recebeu. Será posto na prisão e interrogado sobre o que fez; e dai não sairá até que tenha devolvido o último centavo.

6 A esse respeito, também foi dito: Que a sua esmola fique suando nas mãos, até que você saiba para quem a está dando.

Em algumas passagens do Evangelho lemos que Jesus solicitou que "vendesse tudo o que tinha e desse como esmola aos pobres". Isso ocorre ao jovem rico (Lc 18, 18-30), e também aos discípulos (Lc 12, 22-34, especialmente no versículo 33).

A primeira impressão que dá é que para entrar no Reino dos Ceús não devemos ter bens próprios, e tudo o que temos devemos vender e doar aos pobres. Também parece que não devemos ter nada além do necessário do que comer e do que vestir.

O acúmulo de bens é prejudicial, e que o apego demasiado é algo ruim. Mas pergunto se isso significa que um católico:

-Não poderia ter, além de sua casa, uma casa na praia ou no campo, sítio? Já que muitos nem tem onde morar?

-Não poderia ter nenhum bem de lazer: CDs, DVDs, Livros, videogame, etc?

Há a impressão se um católico possui algo que não é essencial para viver (como os exemplos citados acima), isto deve ser vendido e/ou dado para os necessitados. E se não o fizer, não seria digno de entrar no Reino dos Céus.

No que diz respeito ao amor desordenado dos bens da terra, é mister recordar que as riquezas não são fim, senão meio que nos dá a Providência para acudir às nossas necessidades; que Deus é sempre soberano Senhor das riquezas, que nós não somos afinal mais que administradores e que teremos de dar conta do seu uso.

É pois, consumada prudência consagrar uma larga parte do superfluo a esmolas e boas obras: é acomodar-se aos desígnios de Deus que quer que os ricos sejam, por asssim dizer, os ecônomos dos pobres; é colocar no banco do céu um depósito, que nos será restituído centuplicamente quando entrarmos na eternidade: «Entesourai antes para vós tesouros onde nem ferrugem nem a traça destroem, e onde os ladrões não desenterram nem furtam: thesaurizate autem vobis thesaurus in caelo, ubi neque aerugo neque tinea demolitur, et ubi fures non effodiunt nec furantur

E é este o meio de desapegar nossos corações dos bens terrestres para os elevar até Deus: «Porquanto, acrescenta Nosso Senhor, onde está o teu tesouro, aí está o teu coração: «Ubi enim est thesaurus tuus, ibi est et cot tuum.» . Busquemos, pois, antes de tudo o reino de Deus, a santidade e o demais nos virá por acréscimo.

Para o homem alcançar a perfeição, tem que fazer mais ainda; tem que praticar a pobreza evangélica: «Bem aventurados os pobres de espírito: Beati pauperes spiritu». O que de três maneiras se pode fazer, segundo as inclinações e possibilidades de cada um:

1 - Vender todos os seus bens e dá-los aos pobres: «Vendite quae possidetis et date eleemosynam»

2 - Colocar tudo em comum, como se pratica em certas Congregações;

3 - Conservar a propriedade e despojar-se do uso, não despendendo nada senão conforme o parecer de um prudente diretor.

Como quer que seja, o coração deve estar desprendido das riquezas, a fim de voar para Deus. É isto exatamente o que nos recomenda Bossuet:

" Felizes os que, retirados humildemente na casa do Senhor se deleitam na nudez das suas pequeninas celas, e em todas as pobres alfaias de que têm necessidade nesta vida, que não é mais que uma sombra de morte, para em tudo isso não verem mais que a sua fraqueza e o jugo pesado com que o pecado os esmagou. Ditosas as Virgens sagradas, que não querem ser mais espetáculo do mundo, e desejariam esconder-se a si mesmas sob o véu sagrado que as envolve. Bendito o doce constrangimento a que se sujeitam os olhos, para não verem as vaidades, e dizerem com Davi : Afastai os meus olhos, a fim de as não verem! Ditosos aqueles que ficando, conforme o seu estado, no meio do mundo ... , não são por ele tocados, que passam por ele, sem se lhe apegarem ... que dizem com Ester sob o diadema: «Vós sabeis, Senhor, quanto eu desprezo este sinal de orgulho e tudo quanto pode servir à glória dos ímpios; e que vossa serva jamais se regozijou senão em vós unicamente, Deus de Israel».

Segundo, TANQUEREY, Adolph: A Vida Espiritual Explicada e Comentada. Anápolis: Aliança Missionária Eucarística Mariana, 2007

 

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