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Todos os caminhos vão dar a Roma


Como diz Peter Kreeft, um dos astros mais belos e luminosos no firmamento da esperança, nestes dias atribulados, é este casal, Scott e Kimberly Hahn, e o relato da sua vida e conversão.

É exatamente esta conversão maravilhosa que esta postagem vai contar.

Este livro é cativante, pois narra um drama inerente a esta temática - o homem que busca o seu Criador e Este que procura aquele - com uma inteligência, clareza e raciocínio irrefutável.

Creio que este blog é propício, para postá-lo, pois temos muitos católicos que precisam conhecer mais a nossa Igreja maravilhosa e o que ela proclama e também muitos protestantes que podem se beneficiar com ele, se tiverem de fato, um espírito aberto e compassivo, sem medo de rever seus conceitos e sua idéias .

Peço a Deus, que muitos possam ser tocados com tão lindo testemunho e a partir de então se tornarem melhores cristãos!

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Introdução.

O falecido arcebispo Fulton Sheen escreveu um dia: "Talvez não haja nos Estados Unidos uma centena de pessoas que odeiam a Igreja Católica; mas há milhões de pessoas que odeiam o que erroneamente supõem que é a Igreja Católica".

Scott diz que pensava que estaria no primeiro grupo, mas acabou por descobrir que afinal se encontrava no segundo. Mas, quando percebeu a diferença, e onde se encontrava realmente, foi se tornando cada vez mais evidente que não pertencia a nenhum dos dois.

Este livro relata como Scott e Kimberly descobriram que a

Igreja Católica é a família da Aliança de Deus. Diz Scott: "Damos graças a Deus pela graça da nossa conversão a Jesus Cristo e à Igreja Católica por Ele fundada; porque só pela assombrosa graça de Deus pudemos encontrar o caminho de regresso a casa."

O Senhor serviu-se de todas as graças para ajudar este inépto detetive bíblico (o "tenente Colombo" da Teologia) a solucionar "o caso do catolicismo", e a voltar para casa.

O percurso começou de fato como uma história de detetives, mas converteu-se rapidamente numa espécie de história de terror, para terminar finalmente num grande romance: quando Cristo retirou o véu da Sua Esposa, a Igreja.

Kimberly diz que tal como a peregrinação do Scott, também a dela mudou de cor e de tom à medida que avançava, como mudam as estações.

Que longe estava ela de imaginar como ia ser longa a passagem do verão à primavera.

1 - Do Berço a Cristo

Scott:


Scott diz que é o mais novo de três filhos, batizado como presbiteriano, mas a religião tinha pouco significado tanto pra ele como pra sua família.

Recorda que a última vez que foi à igreja que sua familia frequentava, o ministro pregava unicamente sobre suas dúvidas acerca do nascimento virginal de Jesus e da sua ressurreição corporal.

Levantou-se no meio do sermão , saiu e pensou: "Não sei com certeza em que é que acredito, mas pelo menos sou suficiente honesto para não levantar e atacar as coisas que se supõem que tenho que ensinar".

Também se interrogou: "Porque é que este homem não deixa pura e simplismente o ministério na Igreja Presbiteriana e se junta aos que partilham as suas crenças?"

Mal sabia Scott que acabava de assistir a um presságio do seu próprio futuro.

Tudo que fazia , correto ou não, fazia com paixão. Como adolescente típico, perdeu todo o interesse pela igreja e começou a se interessar pelo mundo... Se viu em apuros e logo foi catalogado como delinquente, tendo até que comparecer no Tribunal de Menores.

Com a perspectiva de uma sentença que o condenava a passar um ano de detenção que se alterou para seis meses em liberdade condicional... Teve que rever sua vida pois sabia que algo tinha que mudar... Ao contrário de Dave, seu melhor amigo, que era indiferente e católico.

Quando Dave se gabou de mentir ao sacerdote na confissão, pensou Scott que já tinha ouvido demais. E falam de hipocrisia! Tudo que ele conseguiu dizer foi: "Dave, como me alegra saber que nunca terei que confessar os meus pecados a um sacerdote".

Que pouco sabia Scott!

No seu primeiro ano do Liceu, conheceu Jack, um estudante universitário, responsável da Young Life, um movimento fundado para partilhar o Evangelho com rapazes difíceis e sem fé.

Depois de várias tentativas , Scott se rende ao convite, visto que Jack se "utilizou" de uma meio bem estimulante... disse que Kathy iria estar lá e era justamente ela que Scott andava a tentar conquistar no momento e também o convidou para assistir as reuniões pois um certo guitarrista, Walt, estava sempre presente, e Scott tinha a guitarra praticamente como uma religião.

E foi.

Ouvia as pregações a respeito da salvação, da pessoa de Jesus, mas nada que o impressionasse o suficiente.

Meses mais tarde ao participar de um retiro (só foi porque lá estaria Kathy... Homem astuto este Jack!) o pregador apresentou o Evangelho de um modo simples e motivador.

Começou por apresentar a Cruz e interpelou a todos a imaginar o amor de Deus que colocou Cristo na cruz... Pediu que todos se comprometessem, mas ao contrário da maioria Scott se deteve.

Pensou: "Não quero deixar levar pela emoção. Prefiro esperar. Se isto é certo hoje, também o será amanhã ou daqui a um mês".

Desde modo Scott volta a casa, adiando qualquer decisão de entregar sua vida a Cristo.

Neste retiro Scott comprou dois livros: Saiba Porque crê de Paul Little e Mero Cristianismo de C.S. Lewis. Ambos deram resposta a muitas de suas perguntas .

Scott então naquela noite, apagou a luz e rezou: "Senhor Jesus. Sou um pecador. Creio que morreste para me salvar. Quero entregar-te a minha vida agora mesmo. Amém."

Adormeceu. Não houve coros angélicos, nem trombetas, nem sequer uma torrente de emoções. Mas de manhã ao ver os dois livros, recordou a decisão e a oração da véspera, e soube que algo tinha mudado.

Logo seus amigos notaram a diferença. E seu melhor amigo Dave, um dos rapazes mais populares do Liceu, apercebeu-se de que Scott não mais queria continuar a usar drogas.

Chamou-o à parte e disse: "Scott, não se ofenda, mas não queremos que continues a andar conosco. Os outros e eu pensamos que és um informante da "poli", mudaste e já não queremos ter nada a ver contigo."

E afastaram deixando Scott atordoado. Apenas um mês depois de ter se comprometido a seguir Cristo, ficava sozinho, sem nenhum amigo; sentiu-se então, atraiçoado.

Voltou-se para Deus e disse: "Senhor, dei-te minha vida e Tu tiras-me os meus amigos. Que tipo de tratamento é este?"

Embora Scott não o pudesse saber no momento, Deus pedia-lhe que sacrificasse algo que se interpunha em sua relação com Ele. Foi um processo duro e lento, mas ao longo de dois anos. Scott desenvolveu amizades sólidas, autênticas e sinceras.

Antes de acabar o segundo ano, experimentou o poder da graça de Deus na conversão. Ao longo do ano sentiu a ação de Deus de uma forma pessoal e vivificante. Como consequência, chegou a sentir uma fome insaciável da Sagrada Escritura.

Apaixonou-se totalmente pela Palavra de Deus - guia infalível para a nossa vida do cristãos - e pelo estudo da teologia.

Dedicou os dois últimos anos a tocar guitarra e estudar as Escrituras.


As personagens da história cristã que mais atraiam Scott - e que seus amigos, principalmente Jack e Art estavam sempre a falar - eram os grandes reformadores protestantes, Martinho Lutero e João Calvino.

Scott começou então a estudar o modo como Lutero "redescobriu o Evangelho", separando-se completamente da Igreja Católica.

Começou a devorar suas obras.

Em consequência, tornou-se muito enérgico nas suas convicções anticatólicas. Estava de tal modo convencido, que na sua aula de Inglês decidiu fazer o trabalho final sobre as idéias de Lutero.

Isso levou-o a assumir a missão de corrigir e libertar os católicos, acorrentados pelo antibíblico legalismo da justificação pelas obras.

Lutero convencera Scott de que os católicos pensavam que se salvavam pelas obras, embora a Bíblia ensinasse a justificação exclusivamente pela fé, ou sola fide.

Em certa ocasião, Lutero declarara do púlpito que podia cometer adultério cem vezes ao dia e que isso não afetaria a sua justificação diante de Deus. Obviamente era uma figura de retórica, mas impressionou Scott que passou a comentar o fato com muitos amigos católicos.

Não vale a pena negá-lo, o anticatolicismo pode apresentar-se como algo muito razoável.

Se a hóstia que os católicos adoram não é Deus (e Scott estava convencido que não era), então é idolatria e blasfêmia o que fazem os católicos ao ajoelharem-se e adorarem a Eucaristia.

Scott estava convencido disso e fazia tudo o que podia para o difundir.

Mas entenda-se: este anticatolicismo ardente brotava do zelo por Deus e de um desejo caritativo de ajudar os católicos a serem cristãos.

E a verdade é que era os católicos os que levavam Scott a beber e a dizer palavrões antes deste se tornar cristão, por isso Scott sabia bem de quanta ajuda precisavam...

Naquela altura Scott saia com uma moça católica, e partilhou com ela o que era considerado como a bíblia do anticatolicismo, um livro - que hoje Scott crê que está cheio de descrições enganadoras e de mentiras sobre a Igreja - Roman Catholicism de Lorraine Boettner.

Ela leu e escreveu depois uma nota a agradecer e a dizer que nunca mais voltaria à Missa.

Passou a também distribuir exemplares a diversos amigos. Com total boa fé, e idêntica cegueira, dava graças a Deus porque o permitia servi-lo deste modo.

A única católica da família de Scott era sua avó, discreta, humilde e santa.

Quando ela morreu Scott recebeu seus objetos religiosos, na qual olhou com repugnância e horror. Pegou o terço e partiu-o dizendo: "Meu Deus, livra-a das cadeias do catolicismo que a fizeram prisioneira".

Destruiu também os livros de orações esperando que essa superstição sem sentido não tivesse condenado sua alma.

Scott havia aprendido a ver essas coisas como um excesso de bagagem inventado pelos homens para complicarem um Evangelho muito simples e salvador. (Diz Scott, que não sente qualquer orgulho por ter feito estas coisas, mas conta-as para mostrar como são profundas e sinceras as convicções anticatólicas de muitos cristãos bíblicos).

Scott não era anti-católico por uma espécie de fanatismo mal humorado, era anti-católico por convicção.

 
Um episódio reforçou tudo isto.

No final do último ano, ao ir do Liceu para um ensaio, ao passar em frente da casa do que tinha sido seu melhor amigo, o Dave, viu a luz acesa e pensou "pelo menos tenho que lhe dizer adeus, antes de acabar o liceu e de me ir embora para universidade".

Praticamente não o tinha visto nos dois últimos anos.

Tocou a campainha; a mãe de Davi ao ver Scott se alegrou e o convidou a entrar. Dave neste instante estava descendo a escada e vestia um casaco. Ao ver Scott parou de repente.

-Scott?!
 

-Dave?
 

-Anda, sobe.

De início a situação foi muito tensa. Depois começaram a falar sem parar, riam e contavam anedotas como nos velhos tempos. Ficou por mais de duas horas com Dave e logicamente perdeu o ensaio.

De repente Scott se lembra: "mas espera... tu estavas a vestir o casaco. Desculpa, devo ter estragado algum plano."

A expressão de Dave muda e perguntou: "porque é que vieste aqui hoje?"


- Foi só para me despedir e desejar felicidade.

- Mas porque esta noite?


- Não sei... Fiz-te perder alguma coisa importante?


Scott olhou para aquele tipo, que tinha sido tão atlético e gracioso e popular e a sua voz tremia.

- Quando chegaste - meteu a mão no bolso e tirou uma corda de dois metros com um nó corrediço num dos extremos - ia enforcar-se.

Começou a chorar e pediu que Scott rezasse por ele. Abraçaram-se e oraram.

Ao sair de sua casa, viu Scott um crucifíxo perto da porta e pensou: "Que pena que Dave nunca tenha feito caso do Evangelho". No caminho de casa, ao olhar para as estrelas disse a Deus:

"Senhor, eu não sabia o que Dave ia fazer, mas Tú sabias, não é verdade? Se Te podes servir de gente como eu para ajudar um rapaz como Dave...

Aqui me tens.

Usa-me mais, especialmente para ajudar os católicos".


Kimberly, que viria a ser a futura esposa de Scott, inicia seu relato falando da alegria dos pais quando do seu nascimento.

Ela nasceu no natal de 1957.

Foi alimentada desde que nasceu com a Palavra de Deus: “Batizaram-me ainda bebê e transmitiram-me a fé desde o primeiro momento. Deram-me um bom exemplo, sempre aprendendo do Senhor e crescendo em vida de fé. Porque amava meus pais, amava o Deus que eles amavam, porque acreditava nos meu pais, acreditava no Deus que eles acreditavam."

Kimberly tomou consciência de que como pecadora carecia da Graça e do perdão de Deus, a partir de sete anos de idade: “Ouvi o evangelho de uma forma que me comoveu o coração: Deus amava-me e queria que eu vivesse com Ele e para Ele, mas os meu pecados separavam-me d’Ele.

Pedi perdão pelos meus pecados dizendo: Jesus, sê meu salvador. E acrescentei: Quero que estejas no trono da minha vida Jesus, sê o meu Senhor’’

O Salmo 51,3 Tende piedade de mim, Senhor, segundo a Vossa misericórdia passou a ser a sua oração.

Após essa ‘tomada de consciência”, Kimberly passou a ter uma nova vida com o Senhor: passou a ter desejo de jejuar, de ler a Escritura, partilhá-la com os anciãos da sua Igreja e receber a primeira comunhão.

Quando pensava em aproximar-me da mesa do Senhor, comparava-a com a experiência do jantar em família, que dia após dia nos oferecia a minha mãe: era o regresso a casa depois das batalhas de cada dia, uma celebração de todos, um festim de amor, servido com graça e beleza.

Mal sabia eu então, que esse jantar preparava mais o meu coração para a futura recepção da Eucaristia do que para a comunhão presbiteriana.

Kimberly era uma autêntica missionária.

Levava a Bíblia para a escola, para que outros comentassem sobre isso e ela pudesse assim, ter a oportunidade de partilhar sua experiência com Deus, junto aos colegas.

E sua conduta dava frutos, ajudando-a a começar grupos de oração pela manha, antes das aulas.
Fazia tudo isso incentivada pelos pais.

Seu nome significa ‘donzela guerreira’’ e ela fez jus ao nome!

Do Apostolado ao Casamento

Scott


No verão anterior à entrada na Universidade, Scott fez uma digressão por vários países com um grupo musical cristão para depois se concentrar no estudo da Escritura e da teologia na Universidade.

Os quatro anos no Grove City College passaram muito depressa. Scott se licenciou em Teologia, Filosofia e Economia - esta última para satisfazer seu pai, que era quem pagava o estudo.

Ingressou-se na seção local do Yong Life. Queria retribuir à Deus o favor de se ter servido deste movimento para o aproximar do Evangelho. Ali trabalhou durante 4 anos, evangelizando e formando na fé jovens do Liceu, como tinham feito com ele.

Ali o zelo em partilhar o Evangelho era imenso, e Scott não conseguia entender por que razão tantas igrejas nem sequer pareciam interessados nisso.

Visava especialmente os católicos, sem compaixão nem interesse pelos seus erros e superstições. Quando começou a dirigir estudos sobre a Bíblia para alunos do Liceu, preparava estrategicamente a palestra de modo a chegar aos rapazes católicos, que pareciam a Scott perdidos e confusos.

O que mais o alarmava era a sua ignorância, não só da Bíblia mas também dos ensinamentos da sua própria Igreja. Por alguma razão , não conheciam sequer os aspectos mais básicos do catecismo.

Tinha a impressão de que os tratavam como cobaias nos seus próprios programas de catequese.

Por isso mostrar-lhes os erros da sua Igreja era tão fácil como acertar em patos de plástico metidos num barril.

Na residência, alguns de seus amigos começaram a falar em serem "rebatizados". Todos cresceram rapidamente na fé e assistiam juntos a uma congregação local.

O ministro - um orador fantástico - dedicou-se a ensinar que os que tinham sido batizados em crianças nunca tinham sido verdadeiramente batizados.

Os amigos de Scott estavam de acordo com tudo o que dizia e trataram logo de marcar a data em que "submergiriam a sério".

Scott então expôs sua opinião de que deviam estudar a Bíblia , eles mesmos, para ter certeza se o ministro tinha razão.

Bom, pareciam que nem o ouviam e perguntaram: - Que problema é que há no que diz ele, Scott? Afinal de contas, lembras-te de ter sido batizado? Para que é que serve o Batismo dos bebês, se eles ainda não podem crer?

Scott realmente não tinha certeza. Mas sabia que a resposta não era brincar "de seguir o líder" e basear as suas crenças exclusivamente nos sentimentos, como eles pareciam estar fazendo.

Por isso lhes disse que não sabia o que eles fariam, mas ele, Scott preferia estudar a Bíblia antes de se resolver. Na semana seguinte seus amigos se rebatizaram.

Scott entretanto, foi visitar um de seus professores de Bíblia e explicou o que se passava.

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Não quis dar sua opinião. Em contrapartida, pediu a Scott que estudasse o tema "batismo das crianças" mais a fundo, no seu trabalho de investigação para sua cadeira.

Scott viu-se num aperto. Para ser honesto, não queria estudar o tema tão a fundo. Mas, Scott supôs que o Senhor precisava de um pequeno empurrão suplementar e assim durante os meses seguintes, leu tudo que veio parar em suas mãos sobre o tema.

Nessa fase de sua vida, Scott já tinha lido a Bíblia três ou quatro vezes. Dessa leitura tirara o convencimento de que a chave para compreender a Bíblia era o conceito de Aliança.

Está em todas as páginas e Deus estabelece uma em cada época.

Ao estudar a Aliança uma coisa ficou clara. Durante dois mil anos, desde o tempo de Abraão até à vinda de Cristo, Deus mostrou ao seu povo que queria que as crianças estivessem em aliança com Ele.

O modo de a estabelecer era simples: bastava dar-lhes o sinal da aliança

Obviamente recuando ao AT, o sinal de entrada na Aliança com Deus era a circuncisão, ao passo que no NT Cristo substituiu-a pelo Batismo. Scott não encontrou nenhuma passagem que Cristo tenha anunciado que , a partir de agora, as crianças deveriam ser excluídas da Aliança.

Muito pelo contrário, Scott o encontrou dizendo: "Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque delas é o reino dos céus"(Mt 19,14).

Encontrou também os Apóstolos a imitá-lo.

Por exemplo, em Pentecostes, quando Pedro acabou o seu primeiro sermão convidou todos a aderirem a Cristo, entrando na Nova Aliança: "Arrependei-vos e batizai-vos em nome de Jesus cristo, para remissão de vossos pecados e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque para vós é esta promessa e para os vossos filhos" (At 2, 38-39).

Por outras palavras, Deus queria que as crianças estivessem em aliança com Ele. E posto que no NT só aparece o Batismo como sinal de entrada na Nova Aliança, porque não haviam de ser batizados os filhos dos crentes?

Não era pois de admirar, como Scott descobriu em seus estudos, que a Igreja praticasse o batismo das crianças desde o princípio.

Scott mostrou aos seus amigos os resultados de sua investigação bíblica. Não quiseram ouvir, e menos ainda discutir o assunto.

Aliás, o simples fato de Scott ter estudado o tema os tinha deixado incomodados.

Nesse dia Scott descobriu duas coisas:

Por um lado, aprendeu que muitos dos chamados cristãos da Bíblia preferem basear suas crenças em sentimentos, sem rezarem nem lerem atentamente a Escritura. Por outro lado, descobriu que a Aliança era realmente a chave para compreender toda a Bíblia.

Scott então decidiu que a Aliança seria o centro de seu estudo. E assim fez.

De fato, após quatro anos a estudar a Aliança, Scott se convenceu de que era verdadeiramente o tema central de toda a Bíblia.

No último ano de Universidade, sua meta era de ir para o Seminário para estudos de Escritura e Teologia, além de se casar com Kimberly Kirk.

Scott a tinha recrutado há um tempo como responsável da Young Life e durante dois anos ambos exerceram seus apostolados lado a lado.

Propos-lhe casamento e ela aceitou.

Scott então se licenciou em Filosofia e Teologia, mudou-se para Cincinnati para se preparar para o casamento.

Com a Kimberly Hahn a seu lado, Scott sentia-se preparado para encarar o futuro a todo vapor.


Kimberly

No verão entre o segundo e o terceiro ano, sentia-me culpada pelo meu decaimento espiritual na Universidade.

Desfrutava imenso participando nas obras de teatro, numa irmandade e em diversas associações, mas na realidade não tinha crescido espiritualmente.

Jesus não me pedia para ser o centro da minha vida, exigia-no.

Eu sabia isso, mas comportava-me com se tivesse sido eu a convidá-lo a entrar, pondo as minhas condições, e quando a mim me conviesse.

Contudo, era Ele que me convidava a entrar na Sua vida.

Tinha que encontrar um modo de O servir que verdadeiramente me fizesse pôr-me de joelhos e reconhecê-Lo como Senhor, algo simplesmente que fosse grande de mais para eu o conseguir sozinha, encontrava-me neste estado de submissão recente ao Senhor quando voltei ao Grove College para começar o terceiro ano.

Quando voltei no outono, fazia parte do Conselho de Orientação, e o Scott era assistente duma residência universitária.

Por esse motivo ambos estávamos envolvidos na organização do baile dos calouros. Reparei nele no baile, mas pensei: “É giro demais para eu me aproximar e começar a falar com ele”. depois pensei: “Não, não é. Vou aproximar-me e falar com ele.”

Foi assim que me aproximei e começamos a conversar. Quase imediatamente perguntou-me:

- Acreditas que Deus existe?

- Pensei: “Oh, Senhor, esse rapaz deve ter perdido a fé no verão. Inspira-me palavras que o ajudem”.

Durante uns dez minutos e de maneira um pouco torpe e confusa, esforcei-me por lhe demonstrar que de fato Deus existe. Por fim disse-lhe:

- E tu, acreditas em Deus?

- Claro! Respondeu.

Surpreendida, perguntei-lhe:

- Então por que é que estiveste dez minutos a pôr-me a prova?

- Para ver de que pasta estás feita - foi a resposta dele – Queres dar uma volta?

E lá fomos dar um passeio.

Comentei-lhe minha resolução de verão, de que os dois últimos anos do curso fossem diferentes dos dois primeiros, empenhando-me nalgum tipo de apostolado que me desafiasse a crescer espiritualmente.

-”Eu tenho o apostolado ideal para ti” – anunciou o Scott – Já alguma vez ouviste falar da Young Life?

Tinha ouvido falar da Young Life porque o meu pai tinha chegado à fé em Cristo graças à Young Life no Colorado.

Quando freqüentou o seminário de Pittsburgh, ele próprio introduziu a Young Life na região de Pittsburgh.

O que não sabia é que fora precisamente a seção do da Young Life de Pittsburgh que tinha levado o Scott a Cristo.

Depois dessa experiência, chegara á Universidade para se integrar no grupo local da Young Life para alunos do liceu e estava realmente interessado em recrutar responsáveis de confiança para o ajudarem.

O Scott explicou-me o que faziam:

- Vamos aos liceus e andamos por lá. Começamos a conhecer os rapazes. Entramos nos jogos deles e depois acompanhamo-los a casa; queremo-los tal como são. Vamos ganhando o direito a ser ouvidos, e no momento oportuno partilhamos com eles Cristo. Entre aqueles que se comprometem a segui-Lo vão aparecendo novos discípulos. Ajudamo-los a compreender o que é que significa viver para Cristo. Preciso de responsáveis femininas. Queres alinhar?

Percebi que era alguma coisa que me exigiria realmente pôr-me de joelhos. Tive um medo de morte! Mesmo assim disse:

- Está bem. O que é que tenho que fazer?

Durante os dois anos seguintes trabalhamos na Young Life lado a lado, juntamente com mais alguns colegas. De inicio custava-me ir aos liceus só para passar um bocado, mas queríamos tornar-mos amigos dos alunos, para partilhar com eles o Senhor. Deus estava realmente conosco, fortalecendo-nos; o fruto era abundante.

O Scott ensinava aos responsáveis modos eficazes de comunicar o Evangelho e fazer proselitismo. Tocava guitarra e dava muitas das palestras nas nossas reuniões semanais. Dirigia também estudos sobe a Bíblia, e fazia-o de um modo tão motivador para os rapazes que todos os responsáveis queriam assistir.

Na prática tinha que convencer alguns a não irem, porque a sala ficava a abarrotar de estudantes.

Desde que o Scott me recrutou ambos passávamos algum tempo juntos. Podíamos começar a conversar ao almoço e terminar depois do jantar. Passadas umas três semanas, em que convivemos de uma maneira mais intensa, o Scott disse-me:
 

- Kimberly, gosto imenso do tempo que passamos juntos. Mas se continuarmos assim vou acabar por me apaixonar por ti. E este ano não tenho tempo para me apaixonar. Talvez para o ano. Acho que devemos deixar de sair juntos.

Fiquei boquiaberta.

Era indiscutivelmente uma forma muito criativa de interromper uma relação. Senti-me desiludia, obviamente. Mas, por outro lado, pensei que o Scott era o homem mais religioso com quem alguma vez tinha saído, e por isso acreditei nele quando me disse que não havia nenhuma outra razão oculta para acabar com tudo.

Deixamos de sair um com o outro mas continuamos a trabalhar juntos.

A Young Life parecia encaixar muito bem nos meus planos de estudar para ser ministro, sonho que acalentava desde que andava no liceu.

O meu pai convencera-me, com o exemplo da sua vida, de que ser pastor era a tarefa mais apaixonante do mundo. Chegava a casa, dia após dia, emocionado por poder difundir o Evangelho e ajudar outras pessoas a chegarem à fé em Cristo: aconselhando casais com problemas conjugais e vendo como os seus casamentos se recuperavam, ensinando e pregando a Palavra de Deus, levando consolo aos que se enfrentavam com a doença ou com a morte.

Nada me parecia mais maravilhoso do que imitá-lo na sua vocação de pastor. Eu achava que possuía muitos dos seus dons e talentos, capacidades e percursos similares, e idênticos desejos de partilhar o Evangelho e fazer de outros discípulos de Cristo.

Contudo, durante o terceiro ano, alguns bons amigos, incluindo o Scott, começaram, com base na Escritura, a fazer-me sentir dúvidas sobre se Deus estava realmente a chamar-me para ser ministro. Concordei com eles em que se não encontrasse um fundamento bíblico para o sacerdócio feminino, era porque Deus tinha outro projeto de vida para mim.

Foi difícil por em causa o que tinha sido o meu sonho durante tanto tempo e alterá-lo. Mas foi o que tive que fazer quando me convenci de que a Escritura não apoiava a ordenação das mulheres como pastores.

Contudo, quando percebi isso claramente, o desejo profundo de ser ordenada diminuiu e decidi procurar outro caminho no qual o Senhor pudesse usar os meus talentos e o meu desejo de servi-Lo.

Além de trabalhar intensamente na Young Life, o Scott e eu também desfrutávamos muito debatendo temas teológicos, às vezes com intensas discussões. No Natal do terceiro ano, quando estava em casa a contar uma dessas conversas a minha mãe, ela disse-me:

- Kimberly, pergunto-me se não te casarás com esse rapaz. Apostaria que sim.
 

- Casar-me com ele! Se mal consigo manter uma conversa de teologia sem me sentir frustrada!
 

- Está bem, mas acho que vais acabar por casar com ele.

Nunca dissera nada parecido acerca de nenhum outro rapaz com quem eu tivesse saído. Retive aquelas palavras.

Embora já não andássemos juntos, o Scott e eu tínhamos estabelecido uma sólida base para um futuro noivado. Sem eu o saber, ele já tinha dito a algumas pessoas, no verão anterior ao nosso ultimo ano que tinha decidido voltar à Universidade para se comprometer e casar com a Kimberly Kirk.

Lá para finais do verão eu também tinha um profundo pressentimento de que ele era a pessoa para mim.

A 30 de Setembro durante um fim de semana de formação para os responsáveis da Young Life, recomeçamos a andar juntos.

Graças ao nosso apostolado comum na Young Life vimos como a vida familiar podia prosperar se partilhávamos o mesmo empenho, se os dois “arávamos com uma única junta”.

Eu apreciava muito a paixão do Scott pela verdade e o seu amor à Palavra. Era um comunicador poderoso. Muitas vidas mudavam à medida que o Senhor atuava através dele.

O Scott também gostava muito de mim, e apreciava o modo como Deus se servia igualmente de mim.

Voltamos a ter longas conversas sobre o que tínhamos estudado e pensado, tínhamos sonhos que se complementavam muito. O Scott aspirava a ser ministro e professor; eu queria ser esposa de um ministro.

Ele queria ser escritor; eu gostava de escrever à máquina e de corrigir as provas da tipografia. Ambos gostávamos de conversar. Apesar de discutirmos apaixonadamente sobre Teologia, tínhamos uma profunda unidade em matéria teológica, e isso fazia-nos compreender que juntos, tendo convicções tão similares podíamos progredir mais lado a lado do que seguindo cada um o seu próprio caminho.

A 23 de Janeiro comprometemo-nos a casar-nos no mês de Agosto. (Descobrimos recentemente que a data do nosso compromisso coincide com a festa dos esponsais de Maria e José, segundo os Padres Estigmatinos.).

Pouco antes da Licenciatura dei-me conta de que não sabia se o Scott desejava ou não ter uma família numerosa. Eu sempre desejara ter pelo menos quatro ou cinco filhos.

Por isso, como por acaso, puxei o tema:
 

- Queres ter filhos, não queres?
 

- Bom, não demasiados.

Oh, não! – pensei eu – agora acontece que é um partidário do “crescimento zero” da população! Procurando manter o tom intranscedente, perguntei-lhe.
 

- Quantos não são demasiados?
 

- Não sei - disse ele – acho que nos devemos limitar a uns cinco ou seis.

Mal podia acreditar no que ouvia.

- Pois é, temos que ser moderados – disse eu com um sorriso.

Era outra questão importante em que os nosso corações e as nossas mentes estavam unidos. Cada um estava deslumbrado com os dons que Deus tinha dado ao outro. E pensar que as diferenças teológicas entro nos estavam basicamente resolvidas!

Tudo o que nos faltava era casarmos, ir para o Seminário e explorar a verdade que aí encontrássemos. Depois lançar-nos-íamos à conquista do mundo para Cristo. Pelo menos isso era o que pensávamos nessa altura.

A 18 de Agosto de 1979, em Cincinnati, perante as nossas famílias e mais de quinhentos amigos, unimo-nos pelo casamento, dispostos a que Jesus fosse o centro da nossa vida em comum.

Tínhamos sonhos que chegavam para toda uma vida.


Novas Concepções da Aliança

Scott:

Kimberly e Scott chegaram ao Seminário Teológico Gordon-Conwell duas semanas depois do casamento. Ambos estavam firmemente convencidos de que a teologia reformada evangélica, era a melhor expressão do cristianismo bíblico.

Neste ponto Scott descreve seu estudo como um romance policial. Investigava a Escritura para encontrar as chaves do autêntico cristianismo.

Onde é que se ensinava e vivia mais fielmente a Bíblia? Fosse onde fosse, sabia que era ai que Deus o queria, para uma vida dedicada ao ensino. Era um detetive enérgico, disposto a seguir a Escritura aonde quer que ela o levasse.

No seminário Scott encontrou um colega chamado Gerry Matatics, que se tornou rapidamente num grande amigo .

Entre os alunos presbiterianos, os dois eram os únicos suficientemente inflexíveis no anticatolicismo para defender que a Confissão de Westminster devia conservar uma tese que a maioria dos reformados estava disposta a abandonar: o Papa era o Anticristo.

Embora os protestantes - Lutero, calvino, Zwingli, Knox e outros - tivessem muitas diferenças entre si, todos eram unanimes na convicção de que o Papa era o Anticristo e que a Igreja de Roma era a rameira da babilonia.

Quando o Papa foi a Boston em 1979, muitos dos seus colegas de seminário afirmaram: "É um homem maravilhoso!" Maravilhoso?! Aquele homem pretendia ter o poder de submeter centenas de milhões de mentes e de corações, apresentando-se como o professor supostamente infalível do universo.

Isso era maravilhoso? Era abominável! Gerry e Scott esforçavam-se por mostrar aos seus colegas como era errada essa posição.

Seu segundo ano no seminário, coincidiu com o primeiro de Kimberly.

Quando ela se matriculou num seminário de ética cristã, aconteceu algo muito curioso.

Scott já tinha frequentado este seminário, e por isso sabia que a aula se dividia em pequenos grupos para trabalharem sobre um tema de moral.

Scott perguntou a Kimberly que assunto tinha escolhido.

- A contracepção - responde

Que estranho, também era uma opção no ano passado, mas ninguém a escolheu. Realmente é um problema exclusivamente católico.
 

Por que é que quiseste estudar contacepção? Perguntou Scott.

- Quando dou palestras sobre o aborto, acabo sempre por ir parar às questões sobre controle da natalidade. Não sei porque, mas é o que acontece. Por isso pensei que era uma boa ocasião para saber se a Bíblia tem ou não alguma coisa a dizer sobre isso. Respondeu Kimberly.

Bom, se queres perder tempo a estudar uma tema sem interesse, é lá contigo...

Scott estava admirado, mas não preocupado. Bem vistas as coisas não havia uma forma correta ou incorreta de ver a contracepção.

Mal podia Scott imaginar nesse momento quanto aquele estudo iria afetar suas vidas.

Um par de semanas mais tarde, um amigo deteve-o no corredor:

- Já falaste com a tua mulher acerca do trabalho dela sobre a concepção?

 
- Não.
 

- Mas se calhar interessa-te. Está a chegar a idéias bastante interessantes.

Dada a natureza do tema, Scott pensou que seria melhor falar com ela. Perguntou-lhe que coisa mais interessante que tinha descoberto sobre a contracepção.

Kymberly lhe disse que até 1930 a posição de todas as Igrejas Cristãs em relação a este tema tinha sido unânime: A contracepção estava mal em qualquer circunstância.

O argumento de Scott foi : - Se calhar demoraram todo esse tempo a libertarem-se dos últimos vestígios do catolicismo.

Ela avançou um pouco mais:


- Mas sabes que razões eles dão para se oporem ao controle da natalidade? Tem argumentos mais sérios do que possas imaginar.

Scott teve que admitir que não conhecia as suas razões. Ela então perguntou se ele estava disposto a ler um livro sobre o tema e deu a ele O Controle da natalidade e a aliança matrimonial de John Kippley ( obra que posteriormente se intitulou o sexo e a aliança matrimonial).

Como Scott era uma especialista em teologia da Aliança e pensava que tinha todos os livros em que a palavra aliança figurava no título; por isso, descobrir um que não conhecia espicaçou sua curiosidade.

Scott o viu e pensou: "Editorial Litúrgica? Este tipo é católico! Um papista! O que é que anda a plagiar a noção protestante da aliança?" Sentiu ainda maior curiosidade por ver o que dizia. Sentou-se a ler o livro.

Pensou: "Isto não está certo. Não pode ser... O que este tipo está diz faz sentido". Demonstrava que o casamento não é um mero contrato, envolvendo apenas um intercambio de bens e serviços. O casamento é sobretudo uma aliança que implica um intercambio de pessoas.

O argumento de Kippley era que qualquer aliança tem um ato pelo qual se consuma e se renova e que o ato sexual dos conjuges é um ato de aliança.

Quando a aliança matrimonial se renova, Deus utiliza-a para dar nova vida.

Renovar a aliança matrimonial e usar contraceptivos para evitar uma potencial nova vida seria tanto como receber a Eucaristia para a seguir a cuspir no chão.

Kippley prosseguia dizendo que o ato conjugal demonstra de modo único o poder doador de vida do amor na aliança matrimonial. Todas as outras alianças mostram e transmitem o amor de Deus, mas só na aliança conjugal o amor é tão real e poderoso que comunica a vida.

Quando Deus fez o ser humano, homem e mulher, o primeiro mandamento que lhes deu foi o de serem fecundos e se multiplicarem. Era assim uma imagem de Deus: Pai, Filho e Espírito santo, três em um , a família divina.

De maneira que quando "os dois se fazem um" na aliança matrimonial, o "um" torna-se tão real que nove meses depois podem ter que lhe dar um nome! O filho encarna a unidade da sua aliança.

Scott então começou a compreender que sempre que a Kimberly e ele realizavam o ato conjugal, realizavam algo sagrado; e que cada vez que frustravam o poder de dar vida do amor com a contracepção, faziam algo profano (tratar algo sagrado de forma comum profana-o, por definição).

Ficou impressionado, mas não o quiz reconhecer. A Kimberly perguntou o que pensava do livro; Scott disse-lhe simplismente que era interessante.

Pouco depois começou a ver como ela convencia seus amigos, um a um. Alguns dos mais inteligentes e formados mudaram de opinião!

Foi então que Scott descobriu que todos os reformadores - Lutero, Calvino, Zwinglio, Knox e todos os outros - tinham mantido sobre esta questão a mesma posição que a Igreja Católica.

Isso perturbou-lhe ainda mais. A Igreja Católica era a única Igreja Cristã em todo o mundo que tinha a valentia e a integridade de ensinar esta verdade tão impopular.

Não sabia o que pensar, e por isso apelou a um velho ditado de família: "Até um porco cego pode encontrar uma bolota". Ou seja, ao fim de dois mil anos, até a Igreja Católica finalmente acertava nalguma coisa.

Católica ou não, era verdade; por isso Kimberly e Scott abandonaram os contraceptivos que usavam e começaram a confiar ao Senhor de um modo novo os seus projetos de família.

Ao princípio usavam métodos naturais durante uns meses. Depois decidiram estar abertos a uma nova vida sempre que Deus quizesse conceder-lhes esta benção.

Com uma dúzia dos melhores seminaristas calvinistas de Gordon-Conwell Scott organizou um pequeno almoço semanal no qual se reuniam para falar de diversos temas, convidando professores para partilharem sua opiniões e discuti-las.

Foram encontros de grande companheirismo e que proporcionaram estimulantes conversas. Chamavam a Academis de genebra, na sequencia da escola de Calvino em Genebra.

Este grupo, por muito tempo se reunia para aprofundar na Palavra de Deus, debatendo doutrinas difíceis: a segunda vinda de Cristo, os argumentos acerca da existência de Deus, a predestinação e o livre arbítrio e outros grandes mistérios que os teólogos gostam de explorar, especialmente o da Aliança.

Aprofundar na Escritura significava que cada um debatesse cada vez mais com o sentido dos textos chave.

Começavam a adquirir uma certa prática no grego e no hebreu. Para eles, a Bíblia era a única autoridade; assim, ter esta prática significava que podiam ir diretamente à Escritura.

Para eles, nenhuma tradição era infalível ou dotada de autoridade. Podia ser útil e até merecer confiança, mas não era infalível; podia cambalear ou cair em qualquer momento.

Na prática isso exigia que cada um repensasse a doutrina desde as suas bases. Que imensa tarefa! Mas, eram jovens e por isso achavam que, com o Espírito Santo e a Sagrada Escritura, podiam reinventar a roda se fosse preciso.

No último ano no seminário Scott começou a notar uma crise interior. A sua investigação o forçou a repensar o significado da Aliança.

Na tradição protestante, alianças e contratos entendiam-se como duas palavras que descreviam a mesma coisa. Mas estudar o AT levou Scott a ver que, para os antigos hebreus, a aliança e o contrato eram coisas muito distintas.

Na Escritura, os contratos implicavam simplismente o intercambio de propriedade, enquanto as alianças implicavam o intercambio de pessoas, ao ponto de formarem laços sagrados de família.

O parentesco portanto, estabelecia-se mediante uma aliança (visto a luz do AT, o conceito de aliança não era teórico nem abstrato).

De fato, o parentesco por aliança era mais forte do que o parentesco bilógico;o significado mais profundo das alianças divinas no AT era a adoção por parte de Deus de Israel como sua própria família.

A Nova Aliança que Cristo estabeleceu conosco foi, portanto, muito mais que um contrato ou ato legal pelo qual assumiu os nossos pecados e nos deu a Sua inocencia, como explicaram Lutero e Calvino.

Embora certa, essa explicação não reflete a verdade plena do Evangelho.

O que Scott descobriu foi que a Nova Aliança estabeleceu uma nova família que abarca toda a humanidade, com o qual Cristo partilhou a Sua própria filiação divina, fazendo-nos filhos de Deus.

Como ato de Aliança, ser justificado significa partilhar a graça de Cristo como filhos e filhas de Deus; ser santificado significa partilhar a vida e o poder do Espírito Santo.

A esta luz, a graça de Deus convertia-se em algo muito maior do que um simples favor divino:era o dom atual da vida de Deus na filiação divina.

Lutero e Calvino explicaram isto em termos exclusivamente jurídicos. Mas Scott tinha começado a ver que, muito mais do que um simples juiz, Deus era nosso Pai. Que muito mais do que um simples criminosos, nós eramos fugitivos. Que muito mais do que num tribunal, Deus tinha celebrado a Nova Aliança numa casa de família.

São Paulo (que Scott considerava o primeiro Lutero) ensinou nas Epístolas aos Romanos e aos Gálatas, e noutros lugares, que a justificação era algo mais do que um decreto jurídico: estabelecia-nos em Cristo como filhos de Deus exclusivamente pela graça.

De fato, Scott descobriu que São Paulo não ensinou em sítio nenhum que nos salvamos exclusivamente pela fé.

A Sole Fide não estava na Escritura!

Scott se entusiasmou-se muito com esta descoberta e a partilhou com vários amigos, que ficaram assombrados ao comprovar que fazia todo sentido. Um deles veio lhe perguntar se sabia quem mais ensinava a justificação desse modo.

Quando Scott lhe respondeu que não, comentou que o Dr. Norman Shepherd, professor do Seminário Teológico de Westminster (o seminário presbiteriano calvinista mais rigoroso dos Estados Unidos), estava prestes a enfrentar um processo por heresia, por ensinar a mesma interpretação da doutrina da justificação que Scott expunha.

Scott então telefonou ao professor Shepherd e falou com ele. Disse que era acusado de ensinar uma tese contrária ao ensinamento da Bíblia, de Lutero e de Calvino.

Enquanto o ouvia descrever o que ensinava, pensou: "Espera, isso é o mesmo que eu ando a dizer".

Para muitos, este fato não parecia capaz de provocar uma grande crise, mas para alguém empapado de protestantismo e convencido de que o cristianismo girava sobre o gonzo da sola fide, isso significava que o mundo desabava.

Scott se lembrou de que um de seus teólogos favoritos, o Dr Gerstner, tinha dito uma vez na aula que se os protestantes estivessem errados acerca da sola fide - e a Igreja Católica tivesse razão ao manter que nos salvamos pela fé e pelas obras - "eu estaria já amanhã de joelhos à porta do Vaticano a fazer penitencia".

Obviamente, todos sabiam que era uma frase puramente retórica, um golpe de efeito, mas impressionou-os muito. Com efeito, toda a Reforma protestante nascia dessa diferença.

Lutero e Calvino afirmaram frequentemente que este era o artigo sobre o qual a Igreja de Roma se erguia ou se derrubava; para eles, esse foi o motivo pelo qual a Igreja Católica caiu e o protestantismo se ergueu sobre as cinzas.

A Sola fide era o princípio material da Reforma e Scott estava a chegar agora ao convencimento de que São Paulo nunca o ensinara.

Na Epístola de São Tiago 2,24, a Bíblia ensina que "o homem se justifica pelas obras e não pela fé. Além disso, S.Paulo diz em I Co 13,2: "Ainda que tenha fé capaz de mover montanhas, se não tiver caridade, nada sou".

Para Scott representou uma transformação traumática ter que reconhecer que neste ponto Lutero estava fundamentalmente enganado. Durante sete anos, Lutero tinha sido sua principal fonte de inspiração e de proclamação poderosa da palavra de Deus.

E esta doutrina era considerada o suporte racional de toda a reforma protestante.

Naquela altura Scott teve que suspender temporariamente a investigação.

Kimberly e ele tinham planejado que Scott prosseguiria os estudos do doutoramento, centrado no tema da Aliança, na Universidade de Aberdeen, na Escócia, onde já tinha sido aceito como candidato.

Isso foi até que descobriram, com grande alegria que o Senhor tinha abençoado a nossa atitude aberta à vida dando-nos o primeiro filho.

A mudança teológica de ambos produziu também uma mudança na anatomia de Kimberly.

Mas naquele momento, Margaret Thatcher tornara praticamente impossível que os norte-americanos tivessem bebes à custa dos contribuintes britânicos; consideraram que isto era um sinal para procurar trabalho noutro sítio, adiando para já os estudos de doutoramento.

Scott recebeu uma chamada de uma pequena igreja de Fairfax, na Virgínia, que procurava um pastor. Quando se apresentou como candidato ao lugar na Igreja Presbiteriana de Trinity, deixou-lhes conhecer seu ponto de vista sobre a justificação, que partilhava a teoria do Dr Sheperd.

Compreenderam e disseram que também a partilhavam. Deste modo, pouco tempo antes de sua graduação, Scott aceitou o lugar de pastor em Trinity, bem como o de professor no respectivo liceu, a Escola Cristã de Fairfax.

Graças a Deus, Scott se graduou como o melhor aluno da sua turma. Tinha chegado o momento de dizer adeus a alguns dos melhores amigos que teve na vida, alunos e professores.

Deus o tinha abençoado com amizades muito profundas, homens e mulheres verdadeiramente dispostos a abrirem a sua mente e seu coração a Palavra de Deus.

A Kimberly e Scott graduaram-se ao mesmo tempo; ela obteve o grau de Master of Arts em Teologia e Scott o de Master of Divinity.

Kimberly.

No primeiro ano do seminário, O Scott começou o Máster estudando questões teológicas fundamentais com professores que levavam entre dez e quarenta anos ensinar Teleologia.

Entretanto, eu era secretária de um programa criado por um subsidio para investigação de Harvard, e trabalhava com pessoas de todo o tipo de religiões, a exceção da cristã, muitas das quais nunca tinha ouvido falar do Evangelho, nem lido a Bíblia.

Discutiam comigo quase todos os dias, chegando a por em causa a existência de Deus.

O contraste era fortíssimo.

Uma vez concluído o primeiro, ano o Scott e eu decidimos seguir o mesmo rumo e crescer juntos. De modo que com o apoio do Scott e a ajuda da minha família, comecei os estudos do Máster quando o Scott freqüentava o segundo ano.

Estudar Teologia juntos foi uma experiência magnífica.

Um dos primeiros temas que tratei num seminário de ética crista foi o da contracepção. Nunca tinha considerado que fosse um tema digno de estudo ate começar a estar envolvida no movimento pró-vida. Por alguma razão, o controle da natalidade ficava sempre a insinuar-se como um problema.

Como protestante, não conhecia ninguém que não praticasse o controle da natalidade. Tinha sido orientada e induzida a praticá-lo como parte de um comportamento cristão razoável e responsável.

Nos Cursos de Preparação para Matrimônio ninguém nos perguntava se íamos usá-lo ou não, mas que método pensávamos utilizar...

O pequeno grupo que teve que se debruçar sobre a contracepção reuniu-se brevemente no primeiro dia ao fundo da sala.

Um autonomeado líder observou:

- Não temos que considerar a posição católica, porque só há duas razões pelas quais os católicos se opõem à contracepção: a primeira e que o Papa não se casa e por isso não tem que viver com as conseqüências; e a segunda é que querem encher o mundo de católicos.

- São essas as razões que apresenta a Igreja Católica? – interrompi – Não acredito.

- Então porque é que não estudas o assunto?

- De acordo.

E assim fiz.

Em primeiro lugar, considerei a natureza de Deus e de que forma nós, como membros do casal, estávamos chamados a ser a sua imagem. Deus - Pai, Filho e Espírito Santo – criou o homem e a mulher à Sua imagem, e abençoou na aliança matrimonial com o mandamento de crescerem e se multiplicarem, enchendo a terra e dominando toda a criação, para a gloria de Deus (cf. Gen. 1, 26-28).

A imagem à imitação da qual o homem e a mulher foram criados é a unidade das três Pessoas da Trindade que se entregam totalmente uma às outras numa plena autodoaçao de amor.

Deus reafirmou este mandato da criação na Aliança com Noé e a sua família, dando-lhes o mesmo mandamento de serem fecundo e se multiplicarem (cf. Gen. 9,1ss).

Deste modo a existência do pecado não alterou o apelo dirigido aos casais para serem imagem de Deus através da procriação.

São Paulo esclareceu que, no Novo Testamento, o casamento foi elevado à categoria de imagem da relação entre Cristo e a Igreja (nesse momento não fazia a menor idéia que o casamento fosse atualmente um sacramento).

E pelo poder de dar vida, próprio do amor, Deus capacitava os esposos para refletirem a imagem de Deus na medida em que a unidade dos dois se convertia em três.

A minha questão era a seguinte: O nosso uso do controle da natalidade – que intencionalmente restringe o poder doador de vida do amor, ao mesmo tempo que goza a unidade e o prazer que da o ato conjugal – permite que o meu marido e eu reflitamos a imagem de Deus numa total autodoaçao do amor?

Em segundo lugar, examinei o que a Escritura diz sobre as crianças.

O testemunho da Bíblia era arrasador! Todos os versículos que se referiam ás crianças, consideravam-nas sempre e só como uma benção ( Sal. 127,128).

Não havia um só provérbio, que advertisse que não valia a pena afrontar as despesas que um filho significa. Não havia qualquer benção para os esposos que adiassem o mais possível a chegada dos filhos, nem para o casal que estivesse o número correto de anos em filhos antes de assumir o encargo que as crianças apresentam, nem para o casal que planeasse cada concepção.

Tudo isso eram idéias que eu tinha aprendido nos meios de comunicação social, na escola pública ou com a vizinhança, mas que não tinham nenhum fundamento na Palavra de Deus.

Na Escritura, a fertilidade é apresentada como algo que se deve apreciar e celebrar, não como uma doença que se deve evitar a todo custo.

E embora não tivesse encontrado nenhum versículo que falasse negativamente das pessoas com famílias pequenas, à luz de numerosas passagens bíblicas, não havia dúvida de que as famílias grandes pareciam ter recebido de Deus uma graça maior.

Era Deus que abria e fechava o ventre, e quando Ele dava a vida isso era sempre considerado como uma benção.

Em ultima instância, o que Deus desejava dos casais fieis era “uma prole piedosa” (Mal.2,15). As crianças eram descritas como flechas nas mãos de um guerreiro, bendito o homem cuja aljava está cheia, quem iria à batalha apenas com duas ou três flechas se pudesse ir com a aljava cheia?

A minha questão era a seguinte: o nosso uso do controle da natalidade refletia o modo como Deus via as crianças ou o modo como as via o mundo?

Em terceiro lugar punha-se a questão do domínio de Jesus Cristo. Como protestantes evangélicos, o Scott e eu tomávamos muito a serio o domínio de Cristo sobre as nossas vidas.

No aspecto monetário pagávamos o dizimo regularmente, sem nos importarmos que os nossos fundos fossem escassos, porque queríamos ser bons administradores do dinheiro que Deus nos tinha confiado. Uma e outra vez, vimos como o Senhor supria às nossas necessidades com mais do que nós Lhe tínhamos dado.

Em termos de tempo, observávamos o Dia do Senhor, pondo de parte o estudo, que era o nosso trabalho, mesmo que tivéssemos exames à segunda-feira. Muitas vezes o Senhor nos premiou por esse dia de descanso, e sempre tivemos excelentes resultados nos exames que fizemos à segunda-feira.

Em termos de talentos aceitávamos que devíamos estar sempre disponíveis para servir Deus com o nosso apostolado e acrescentávamos com gosto obras de serviço ao trabalho abundante do estudo.

Ver vidas abençoadas como resultado desse apostolado fortaleceu enormemente a nossa fé e o nosso casamento.

Mas, e os nossos corpos? A nossa fertilidade? O domínio do Senhor estendia-se até aí? Li então em I Cor 6,19-20: “... não vos pertenceis. Fostes comprados a grande preço. Glorificai, pois a Deus no vosso corpo”. Talvez fosse uma atitude mais americana do que religiosa pensar na fertilidade como algo que podemos controlar como muito bem nos parecer.

E eu perguntava-me: o uso que fazemos do controle da natalidade, demonstra uma fiel vivência do domínio de Jesus Cristo?

Em quarto lugar, qual era a vontade de Deus para o Scott e para mim? Queríamos conhecer e seguir a vontade de Deus acerca das nossas vidas.

Uma passagem da Escritura que me proporcionou matéria útil para a reflexão foi Romanos 12,1-2:

"Rogo-vos, pois irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus; este é o culto racional que Lhe deveis prestar. Não vos acomodeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito”.

Paulo indicava que uma vida de sacrifício requeria a misericórdia de Deus: não se pedia que vivêssemos esse tipo de vida pelas nossas próprias forças.

Podíamos oferecer os nossos próprios corpos como um sacrifício de adoração: havia uma dimensão corporal na nossa espiritualidade. Uma das chaves para saber como sacrificar-se de forma conseqüente com a vontade de Deus era diferenciar corretamente as mensagens do mundo e as verdades de Deus.

Isso significava que tínhamos que renovar ativamente as nossas mentes através da Palavra de Deus.

E uma boa parte do meu estudo sobre a contracepção tinha-me levado precisamente a isso: a meditar nas passagens da Escritura que apresentavam uma imagem diferente da que o mundo parecia proclamar.

O Scott e eu estávamos comprometidos um como outro, e com o Senhor. A questão era: podíamos confiar em Deus e deixar que fosse Ele a planear a dimensão da nossa família?

O distanciamento entre os filhos? Saberia Ele o que nos podíamos suportar econômica, emocional e espiritualmente?

Teria Ele recursos para nos permitir ter mais crianças do que nos pensávamos que podíamos ter?

No fundo, sabia bem com que é que estava a lutar: com a autêntica soberania de Deus.

Só Deus conhecia o futuro e qual era o melhor modo de formarmos a nossa família com a prole piedosa que Ele desejava que tivéssemos. Certamente, Ele já tinha dado provas de ser digno de confiança de muitos outros modos.

Sabia que podíamos confiar em que nos daria a fé que necessitávamos para Lhe confiar este aspecto da nossa vida, e para nos dar a confiança de que esta visão fazia parte do seu plano para nós, e que verteria o seu amor em nós, e através de nós, em todas as preciosas almas que nos quisesse confiar.

Alias, conhecia muitos casais nos seminários que “planeavam” a chegada das crianças, para descobrirem depois que afinal o calendário de Deus era diferente do deles.

Tínhamos que confiar n’Ele na questão da nossa fertilidade de um modo radical, sem fazer qualquer uso do controle da natalidade.

Escusado será dizer que eu já estava convencida; mas no nosso casamento éramos duas pessoas, e por isso tive que comentar estes temas e questões com o Scott.

Quando o Scott me perguntou numa noite, ao jantar, como ia o meu estudo sobre a contracepção, contei-lhe o que pude. Pedi-lhe então que lesse o livro de John Kippley “O Controle da Natalidade e A Aliança Matrimonial”.

O Scott encontrou neste livro o fundamento dos meus argumentos, mas, mais ainda, viu como Kippley aplicava a idéia da aliança ao casamento para explicar porque é que a contracepção é imoral.

Kippley fazia a seguinte comparação: tal como acontecia na Roma antiga, em as pessoas participavam num banquete e depois iam vomitar o alimento que acabavam de ingerir (para evitar as conseqüências de seus atos), o mesmo se passa com os esposos que celebram um banquete no ato conjugal, mas se opõem ao poder de dar vida que tem o ato de renovação da sua aliança.

Estas ações são contrárias à lei natural e à aliança entre os esposos.

Da perspectiva de Kippley, que era a perspectiva da Igreja Católica, o fim primordial do ato matrimonial era a procriação dos filhos.

Quando um casal impede esse fim intencionalmente, atua contra a lei natural.

Subverte a renovação da sua própria aliança matrimonial, convertendo numa mentira o compromisso dos esposos de se entregarem totalmente um ao outro.

Agora compreendia por que razão a Igreja Católica se opunha à contracepção. Mas o que dizer dos métodos de planeamento familiar natural? Não eram simplesmente a versão católica de controle da natalidade?

A Primeira Epístola aos Coríntios (7, 4-5) fala de períodos de tempo nos quais os esposos poderiam abster-se de manter relações sexuais para se dedicarem à oração, reatando depois as suas relações, não deixando a Satanás nenhum resquício por onde entrar no seu casamento.

Lendo a Encíclica ‘Humanae Vitae’ cheguei a apreciar o equilíbrio da Igreja relativamente à contracepção. Havia uma forma religiosa de levar a cabo o ato conjugal e de ser prudente em circunstâncias graves, praticando a abstinência durante períodos de mútua fertilidade.

Tal como com a comida – em que podia haver temporadas nas quais o jejum fosse útil – de modo similar podia haver períodos nos quais o ‘’jejum’’ do ato conjugal, por razões meditadas na oração, pudesse ser útil.

Contudo, a não ser por milagre, ninguém poderia sobreviver se jejuasse a maior parte do tempo. Igualmente, os métodos naturais de planeamento familiar eram uma receita para momentos difíceis, não uma vitamina quotidiana para a saúde geral.

Um dia, na biblioteca, depois de expor tudo isto a um companheiro seminarista que ainda era solteiro, ele disse-me:

- Isso quer dizer que o Scott e tu deixaram de utilizar contraceptivos?
 

- Não, ainda não.
 

- Parece que estás convencida que está mal usá-los.

Respondi com essa história:

- Ouviste falar daquela vez em que a galinha e o porco do granjeiro, Brown estavam a comentar como eram afortunados por terem um amo tão maravilhoso?

- Acho que devíamos fazer algo especial ao sr. Farmeer – disse a galinha.


- Tens alguma idéia? – perguntou o porco.

- Podíamos dar-lhe um pequeno almoço de ovos com presunto – disse alegremente a galinha.

- Bom, explicou o porco – isso é ótimo para ti. Para ti é uma doação. Para mim é um compromisso total.

E concluí:
 

- Terry, vou tomar muito a serio o teu desafio; mas obedecer a Deus nesta questão é muito mais difícil para mim do que para ti, que és solteiro.

O Terry garantiu-me que rezaria pelo Scott e por mim, e cada um foi para sua casa.

Quando o Scott e eu discutimos o assunto, também ele se mostrou contrario à contracepção; sugeriu, contudo, que talvez devêssemos guardar os contraceptivos no armário, para o caso de mudarmos de idéia.

Mas eu percebi que isso seria uma tentação muito grande para voltarmos atrás nas nossas convicções.

E assim, juntos, deitamos fora os contraceptivos, e começamos a confiar em Deus de um modo novo em relação às nossas vidas e à nossa fertilidade.

Durante os anos no seminário, o Scott e eu tivemos muitas ocasiões de estudar teologia um com o outro, animando-nos, exortando-nos e desafiando-nos um ao outro, bem como aos nossos amigos.

O estudo da Bíblia em pequenos grupos com outros casais foi uma grande fonte de bênçãos.

O nosso envolvimento no apostolado da Igreja ofereceu-nos a possibilidade de aplicar o que estávamos a aprender. E as numerosas discussões teológicas com colegas durante os almoços em nossa casa revitalizavam a nossa vida.

Quando me encontrava com outras seminaristas, a conversa levava-nos a falar sobre o tipo de trabalho que cada uma esperava encontrar depois de graduada.

Poucas me apoiavam quando lhes explicava o que queria fazer com o diploma: se não ficava grávida, queria ensinar teologia, desempenhando um ministério ao lado do Scott.

Se ficava grávida – o que desejava que acontecesse depressa - usaria os conhecimentos adquiridos sendo uma ajuda para o Scott ensinando os nossos filhos e dirigindo estudos bíblicos para mulheres.

Os meus pais (que pagavam os meus estudos) entendiam os meus projetos e apoiavam-me muito. Não se importavam que nunca obtivesse um ordenado com o Máster. Viam os meus estudos como uma forma de fazer frutificar os meus talentos para o Senhor, e confiavam em que Ele nos mostraria como usá-los.

Na maior parte dos casos, o estudo da teologia não constituiu propriamente um desafiou àquilo em que acreditávamos (como sucedeu com o tema da contracepção), constituiu sobretudo uma ocasião para aprofundar na compreensão e valorização dos fundamentos que já sustentavam a nossa vida, com uma notável exceção: se era correto ou não afirmar que nos salvamos exclusivamente pela fé.

Pouco a pouco chegamos a ter o convencimento de que Martinho Lutero deixou que as suas convicções teológicas pessoais contradissessem a própria Bíblia, à qual supostamente tinha decidido desobedecer em vez de obedecer à Igreja Católica.

Tinha declarado que a pessoa não se justifica pela fé atuando no amor, mas que se justifica apenas pela fé.

Chegou mesmo a acrescentar a palavra “somente” depois da palavra "justificado" na sua tradução alemã de Romanos 3,28, e chamou à Epístola de São Tiago “Epístola falsificada” porque São Tiago diz explicitamente: Vedes que pelas obras se justifica o homem e não apenas pela fé!.

Uma vez mais e por muito estranho que nos parecesse, a Igreja Católica tinha razão num ponto fundamental da doutrina: ser justificado significa ser feito filho de Deus e ser chamado a viver a vida como filho de Deus mediante a fé com obras no amor.

Efésios 2,8 esclarecia que a fé – que temos que ter – é um dom de Deus, não por causa das nossas obras, pelo que ninguém se pode vangloriar, e que a fé nos torna capazes de realizar as boas obras que Deus quer que realizemos.

A fé é ao mesmo tempo um dom de Deus e a nossa resposta obediente à misericórdia de Deus. Ambos, protestantes e católicos, podiam estar de acordo em que só nos salvamos pela Graça.

Neste ponto não estava muito imbuída da teologia da Reforma, e por isso esta nova perspectiva no modo de entender a justificação não me pareceu particularmente significativa.

Era importante compreendê-la, mas pareceu-me que todos podiam estar de acordo em que apenas nos salvamos pela Graça, através da fé e atuando no amor.

E se tivesse tido tempo suficiente para explicar porque acreditava nisto, nenhum dos meus amigos me teria apelidado de católica nessa altura.

Contudo, para o Scott, esta mudança de direção teológica foi realmente uma espécie de movimento sísmico que mais tarde teria as maiores conseqüências na nossa vida.

Agora sabia que o que tinha meditado na mente e no coração durante os anos de seminário, poderia aplicá-lo e ensina-lo a este pequeno que levava no seio.

Tive um profundo sentido de realização e plenitude ao ver que a minha vocação matrimonial avançava para a maternidade.

A seguir à graduação, o Scott e eu sentimo-nos enviados a fazer a vontade de Deus com as pessoas a que Ele nos chamava a servir na Virgínia.

Ensinar a Viver Aliança em famíla

Scott


Scott começou sua atividade como pastor na Virgínia, pregando um sermão dominical de cerca de quarenta e cinco minutos e dirigindo dois estudos bíblicos semanais. Foi isto que os anciãos da Igreja pediram que Scott fizesse.

Scott começou por falar sobre a Epístola aos Hebreus, porque nenhum outro livro do NT dá tanto realce à Aliança. A congregação ficou entusiasmada com a idéia da Aliança como família de Deus.

Quanto mais Scott estudava, mais entusiasmado ficava com o que ia encontrando, porque esta epístola era considerada pelos protestantes que conhecia - e com os quais estava de acordo - com a mais anticatólica do NT; expressões como "um sacrifício feito de uma vez para sempre" e outras parecidas, que aparecem na Epístola aos Hebreus, os levavam a esta conclusão.

Tinha sido educado na idéia de que "se algo é Romano (no sentido de católico romano) deve ser errôneo". Mas realmente começava a ver a importância da liturgia para a Aliança, especialmente na Epístola aos Hebreus.

A liturgia representava o modo como Deus engendrava a Sua família da Aliança e como renovava essa Aliança periodicamente. Estava desejoso de partilhar estas descobertas que considerava inovadoras.

Queria ver as pessoas entusiasmadas com o AT e com a sua correlação com o Novo: o Antigo desembocando no Novo, e a Igreja do NT como o cumprimento, mais do que como o abandono, do Antigo.

Contudo, à medida que aprofundava no estudo, começou a insinuar-se na mente de Scott um pensamento inquietante: as idéias inovadoras, que pensava ter descoberto, na realidade já tinham sido antecipadas pelos primeiros Padres da Igreja.

Scott sentiu-se abalado por essa experiência uma e outra vez. Não andaria simplismente a "reinventar a roda?" Scott começou, então a sentir-se muito curioso...

Quando expunha estas "descobertas inéditas" acerca da família da Aliança de Deus e do culto dos Seus filhos, seus paroquianos enchiam-se de fervor. Os anciãos pediram inclusive que revisse a liturgia.

A nossa liturgia?

Scott ficou admirado.

Os episcopalianos é que falam de "liturgia". Os presbiterianos tem a "Ordem do Culto"!

Mas os anciãos tinham pedido que Scott revisse a liturgia, para acomodar mais ao modelo bíblico, e por isso começou a estudar o assunto.

Apresentou algumas sugestões: por que é que a nossa Igreja está tão centrada no pastor? Por que é que os nossos serviços de culto estão tão centrados no sermão? E, por que é que os seus sermões não se orientam mais no sentido de preparar o povo de Deus para receber a comunhão?

Scott já tinha feito ver seus paroquianos que o único momento em que Cristo utilizou a palavra "aliança" foi quando instituiu a Eucaristia, ou comunhão como chamavam.

Contudo, eles só recebiam a comunhão quatro vezes por ano. Embora no princípio parecesse estranho a todos, Scott propôs ao conselho de anciãos a idéia da comunhão semanal.

Um deles replicou-lhe:
 

-Scott, não achas que celebrar a comunhão todas as semanas pode convertê-la numa rotina? Ao fim e ao cabo a familiaridade pode levar à indiferença.
 

-Dick, chegamos à conclusão que a comunhão significa a renovação da aliança com Cristo, não foi?
 

- Exatamente.
 

- Pois então, deixa-me perguntarte o seguinte: preferirias renovar a tua aliança matrimonial com tua mulher, só quatro vezes por ano? Ao fim e ao cabo poderia converter-se em pura rotina, e rotina levar à indiferença.

Dick desatou a rir às gargalhadas.
 

- Entendo o queres dizer.

A comunhão semanal foi aprovada por unanimidade. Começaram inclusive a referir-se a ela como a "Eucaristia"(eucharistia), retomando o uso do vocábulo grego no Novo Testamento e na Igreja primitiva.

Celebrar a comunhão todas as semanas converteu-se no ponto culminante do serviço de culto da nossa Igreja. Isto alterou inclusivamente a nossa vida na congregação.

Começaram a organizar um almoço informal depois do serviço, para fomentar a amizade, comentar o sermão e partilhar intenções de oração. Começaram ao mesmo tempo a celebrar e a viver a comunhão.

Era entusiasmante. Isto deu a eles um verdadeiro sentido de culto e de comunidade.

A seguir, Scott guiou seus paroquianos através de Evangelho de São João e, para sua grande surpresa, descobriu que estava repleto de imagens sacramentais.

Enquanto investigava, veio-lhe à cabeça uma conversa que tinha tido uns par de anos no seminário com um bom amigo.

Uma manhã aproximou-se de Scott e sua esposa no corredor e disse -lhes: "Tenho andado a estudar liturgia. É apaixonante!"

Scott se recorda que lhe respondeu: "A única coisa que me parece mais aborrecida que a liturgia são os sacramentos". Essa era a sua atitude no seminário, porque a liturgia e os sacramentos não eram coisas que estudavam.

Não faziam parte da bagagem cultural; não eram coisas que liam nos textos, ou para qual estavam despertos. Mas aprofundar na Epístola aos Hebreus e no Evangelho de São João fez Scott ver que a liturgia e os sacramentos eram parte essencial da vida da família de Deus.

A partir deste momento, o romance de espionagem foi-se convertendo gradualmente numa história de terror.

Repentinamente, e para seu desconforto e frustração, a Igreja Católica, que ele combatia, começava a apresentar as respostas corretas, uma após outra.

Mais alguns casos, e a coisa começou a tornar-se aterradora.

Durante a semana, Scott ensinava Sagrada Escritura num liceu cristão privado. Falava aos seus alunos de tudo o que se refere à Aliança como família de Deus e os alunos captavam tudo. Explicava-lhes as Alianças que Deus tinha estabelecido com o Seu povo.

Scott traçou uma cronologia para lhes mostrar como cada Aliança instituída por Deus representava o modo com Ele foi engendrando a Sua família ao longo dos tempos.

A Aliança com Adão assumiu a forma de um matrimônio; com Noé tomou a forma de uma lar; com Abraão tomou a forma de uma tribo; a Aliança com Moisés transformou as doze tribos numa família nacional, a Aliança com David estabeleceu Israel como um reino familiar nacional; em contrapartida Cristo instituíra a Nova Aliança como a família mundial, ou "católica" (do grego Katholikos, de Deus, de modo a compreender todas as nações e todos os homens, tanto judeus como gentios.)

Os estudantes ficaram entusiamados.

Isto dava um novo sentido à Bíblia como um todo.

Um aluno perguntou:
 

- Que forma tem essa família mundial?

Scott desenhou uma grande piramide no quadro e explicou:
 

- Seria como uma grande família espalhada por todo o mundo, com diferentes figuras paternas em cada nível, encarregadas por Deus de administrar o Seu amor e a Sua lei aos Seus filhos.

Um dos estudantes católicos comentou em voz alta:
 

- Essa piramide parece-se muito com a Igreja Católica, com o Papa no vértice.
 

- Oh, não! - Scott replicou rapidamente - o que eu aqui vos estou a apresentar é um antídoto contra o catolicismo.

Isso era o que ele pensava, ou pelo menos tentava pensar.
 

- Além disso, o Papa é um ditador, não um pai.
 

- Mas Papa significa "pai".
 

- Não é verdade - apressou-se a corrigir.
 

- Significa sim - respondeu em coro um grupo de estudantes.

Muito bem; os católicos tinham razão em mais um ponto. Podia admiti-lo, mas sentia-se muito assustado. Mal sabia o que estava para chegar!

Durante o almoço uma das alunas mais adiantadas aproximou-se de Scott. Em nome de um pequeno grupo que estava no canto atrás, anunciou:
 

- Fizemos uma votação e o resultado é unanime: pensamos que o Professor se vai tornar católico.

Scott desatou a rir, bastante nervoso.
 

- Que absurdo - exclamou, enquanto um arrepio lhe passava pelas costas.

Esboçou um sorriso pícaro de cumplicidade, encolheu os ombros e voltou para o seu lugar.

Ao voltar a casa à tarde, ainda se sentia atordoado.

Disse á Kimberly:
 

- Nem imaginas o que me disse hoje a Rebeca. Veio dizendo-me que um grupo de estudantes apostou que me vou converter em católico romano. És capaz de imaginar alguma coisa mais absurda?

Esperava que Kimberly se risse comigo, mas ela limitou-se a olhar-me de forma inexpressiva e a dizer:
 

- E vais?

Não podia acreditar! Como é que ela era capaz de pensar que eu atraiçoaria a verdade da Escritura e da Reforma tão facilmente? Scott se sentiu como se estivesse espetado uma faca nas costas.
 

Como é que tu podes dizer isso? - balbuciou - Isso é renegar a tua confiança em mim como pastor e como professor! Católico, eu?! Amamentaram-me com as obras de Martinho Lutero! O que é que querias dizer?
 

- Estava habituada a considerar-te como um homem profundamente anti-católico e comprometido com os princípios da Reforma. Mas ultimamente ouço-te falar demasiado de sacramentos, liturgia, tipologia e Eucaristia.

Então a Kimberly acrescentou algo que nunca Scott esquecerá:
 

- As vezes penso que poderias ser o Lutero ao contrário.

Lutero ao contrário? Scott não foi capaz de dizer mais nada. Foi ao escritório, fechou a porta e deixou-se cair sobre a cadeira da secretária, a tremer. Lutero ao contrário!

Sentiu-se atordoado, desconcertado, confuso. Talvez estivesse a perder a sua alma! Talvez estivesse a atraiçoar o Evangelho? Lutero ao contrário! Essas palavras ficaram a ecoar em seu cérebro.

Já não era só questão de mera especulação teológica. Precisamente umas semanas antes a Kimberly tinha dado à luz o nosso filho, Michael. Scott nunca esquecerá o sentimento de ser pai pela primeira vez. Contemplou o seu filho e deu-se conta de que o poder de dar vida que tem a aliança era muito mais do que uma teoria.

Enquanto o tinha nos braços perguntei a mim próprio a que Igreja pertenceria ele, ou os seus filhos e netos.

Afinal de contas, era pastor de uma igreja presbiteriana ( a Igreja Presbiteriana de Trinity) que se tinha separado de um grupo separado ( a Igreja Presbiteriana Ortodoxa), que por sua vez se tinha separado de outra igreja ( a igreja Presbiteriana dos Estados Unidos) e tudo no mesmo século!(Não era por acaso que chamavamos a nós próprios "a divisão dos P"!).

Formar a sua própria família fez crescer em Scott um anelo de unidade da família de Deus mais profundo do que nunca.

Pelo bem da sua família e da de Deus, rezava para que o Senhor o ajudasse a crer, viver e a ensinar a Sua Palavra, fosse qual fosse o preço. Queria manter a mente e o coração completamente abertos à Sagrada Escritura e ao Espírito Santo, e a todas as fontes que me levassem a um conhecimento mais profundo da Palavra de Deus.

Entretanto, Scott fora também contratado como formador a tempo parcial num seminário presbiteriano local. O tema de sua primeira aula foi o Evangelho de S. João, sobre o qual estava a pregar também uma série de sermões na igreja.

No estudo levava uma margem de uma par de capítulos de avanço relativo as aulas. Quando chegou ao capítulo sexto na preparação, Scott teve que se dedicar semanas de cuidadosa investigação aos seguintes versículos (Jo 6, 52-68):

Discutiam então os judeus uns com os outros, dizendo: 


"Como pode Ele dar-nos a comer sua carne? Disse-lhes Jesus:"Em verdade, em verdade vos digo:Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia. Porque a Minha carne é verdadeira comida e o Meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim também o que Me come viverá por Mim...

Este é o pão que desce do Céu, não é como o que comeram os vossos pais e morreram, o que come deste pão viverá eternamente(...) A partir de então muitos dos Seus discípulos retiraram-se e já não andavam com Ele. Por isso, Jesus disse aos doze: "Também vós quereis ir embora?" Mas Simão Pedro respondeu: "Senhor, a quem iríamos? Tu tens palavras de vida eterna".

Scott começou imediatamente a por em causa o que os seus prefessores o tinham ensinado - e o que ele próprio andava a pregar a sua congregação - acerca da Eucaristia como um mero símbolo, um símbolo profundo, certamente, mas apenas um símbolo.

Depois de muita oração e de muito estudo, Scoot acabou por reconhecer que Jesus não podia estar falando simbolicamente quando nos convidou a comer a Sua carne e a beber o Seu sangue.

Os judeus que O ouviam não teriam ficado ofendidos nem escandalizados com um mero símbolo.

Aliás, se tivessem interpretado mal Jesus, tomando as Suas palavras à letra - quando Ele queria que as palavras fossem tomadas em sentido figurado - teria sido fácil ao Senhor esclarecer esse ponto.

Na verdade, já que muitos dos discípulos deixaram de O seguir por causa deste ensinamento (vers. 60), teria estado moralmente obrigado a explicar que falava apenas em termos simbólicos.

Mas nunca o fez. Nem nenhum cristão, ao longo de mais de mil anos, negou a Presença Real de Cristo na Eucaristia.

Isso estava claríssimo.

Scott fez então o que qualquer pastor ou professor de seminário teria feito se queria conservar seu trabalho: terminou o mais rapidamente que pode a série de sermões sobre o Evangelho de S. João no fim do capítulo cinco, e nas aulas saltou praticamente o capítulo seis.

Embora os seus paroquianos e alunos se fossem entusiasmando com o resto de seus ensinamentos, foram também percebendo que não correspondiam ao presbisterianismo tradicional e histórico.

Mas não lhes podia dizer que o que estavam a ouvir - e que acolhiam com tanto entusiasmo - refletia aspectos da Eucaristia que, de algum modo, a Igreja Católica tinha descoberto e exposto há muito tempo.

Um noite, depois de várias horas de estudo, Scott voltou à sala de estar e disse à Kimberly que lhe parecia que não continuariam a ser presbiterianos.

Estava tão convencido da necessidade de dar mais importância aos sacramentos e à liturgia do que lhes dá a tradição presbiteriana que sugeriu que se unissem à tradição episcopoliana.

Ela deixou-se cair no sofá e começou a chorar.
 

- Scott, o meu pai é ministro presbiteriano, o meu tio é ministro presbiteriano, o meu irmão prepara-se para ser ministro presbiteriano. E tu és ministro presbiteriano. Eu não quero deixar de ser presbiteriana!

Expôs claramente o seu ponto de vista. Mas o que ela não sabia é que Scott não estava muito seguro, por mais que o desejasse, que o seu itinerário espiritual acabasse na Igreja Episcopaliana.

As aulas que tinha dado sobre o Evangelho de S. João tinham-lhes parecido tão interessantes que pediram a Scott que desse mais algumas ao longo do semestre seguinte. Na realidade pediram-lhe que trabalhasse o tempo completo e aquelas aulas correram ainda melhor.

Nas aulas de História da Igreja, um dos melhores alunos (um ex-católico) expôs um trabalho sobre o Concílio de Trento, e quando acabou fez a Scott uma pergunta embaraçosa, que nunca tinha ouvido.

Disse:
 

- Professor Hanh, ensinou-nos que a doutrina da sola fide não é bíblica e que esse grito de guerra da Reforma não tem qualquer fundamento qdo se confronta com a Carta de Paulo.
 

Como bem sabe, o outro grito de guerra da Reforma foi a sola Scriptura: que a Bíblia é a nossa única autoridade, em lugar do Papa, os Concílios ou a Tradição.
 

Professor, onde é que a Bíblia ensina que "a Escritura é nossa única autoridade?"

Scott ficou a contemplá-lo e começou a sentir um suor frio.

Nunca tinha ouvido antes esta questão. No seminário tinha a fama de ser uma vespa socrática, sempre a fazer perguntas incomodas, mas esta nunca o tinha ocorrido.

Scott respondeu o que qualquer professor apanhado desprevenido responderia: "Que pergunta tão tonta!" Mas, assim que essas palavras sairam de sua boca sentiu-se derrotado, pois tinha prometido a si próprio que, como professor, nunca usaria esta expressão.

O aluno não se acovardou. Sabia que não era uma pergunta tonta, assim que, olhando Scott de frente, o desafiou:
 

- De acordo, mas então dê-me pelo menos uma resposta tonta.

Disse-lhe:
 

- Vejamos primeiro Mateus 5,17 e depois 2 Timóteo 3, 16-17: "Toda a Escritura inspirada por Deus é útil para ensinar, para rebater, para corrigir e para formar na justiça, de modo que o homem de Deus seja perfeito, e preparado para toda a obra boa".

E depois podemos ver tbém o que diz Jesus acerca da tradição em Mateus 15.

A sua resposta foi cortante:
 

- Mas, professor, Jesus não estava a condenar toda a tradição em Mateus 15, mas só a tradição corrupta. Quando 2 Timóteo 3,16 menciona "toda a Escritura" não diz "só a Escritura" é útil.
 

Também a oração, a evangelização e muitas outras coisas são essenciais. E o que dizer de 2 tessalonicenses 2,15?
 

- Ah, sim... tessalonicenses ... - balbuciou debilmente - o que é que se diz ai?
 

- Paulo diz: "Portanto, irmãos, mantende-vos firmes e guardai as tradições que haveis aprendido de nós, de palavra ou por carta".

Scott saiu pela tangente:
 

- Ouve, John, estamos a afastar-nos do tema. Avancemos um pouco mais e já voltaremos a falar sobre isto na próxima semana.

Scott pode assegurar que nenhum dos dois ficaram satisfeitos.

Quando voltou a casa naquela noite, contemplou as estrelas e murmurou: "Senhor, o que é que está a acontecer? Onde é que a Escritura ensina a doutrina da sola Scriptura?"

Foram duas as colunas sobre as quais os protestantes basearam a sua revolta contra a Roma. Uma já tinha caído, e a outra estava a cambalear. Scott sentiu medo.

Estudou toda a semana. Não chegou a nenhuma conclusão. Telefonou então a vários amigos. Sem êxito. Finalmente, telefonou a dois dos melhores teólogos da América, e também a alguns dos seus ex-professores.

Todos aqueles que consultava se surpreendiam de que lhes fizesse essa pergunta. E sentiam-se ainda mais perturbados ao verem que não ficava satisfeito com as respostas que lhe davam.

A um professor disse:
 

- Talvez esteja a sofrer de aminésia, mas esqueci-me das simples razões pelas quais os protestantes cremos que a Bíblia é a nossa única autoridade.
 

- Scott , que pergunta tão tonta.
 

- Dê-me então uma resposta tonta.
 

- Scott - replicou ele - na realidade não podes demonstrar a doutrina da sola Scriptura com a Escritura. A Bíblia não ensina explicitamente que seja a única autoridade para os cristãos. Por outras palavras, Scott, a sola Scriptura é na essencia a crença histórica dos reformadores, frente à pretensão católica de que a autoridade está na Escritura e também na Igreja e na Tradição. Para nós, portanto, trata-se apenas de uma presunção teológica, do nosso ponto de partida, mais do que de uma conclusão demonstrada.

Depois referiu os mesmos textos da Escritura que Scott tinha indicado ao seu aluno, e Scott lhe deu as mesmas respostas pertinentes.
 

- Que mais poderíamos acrescentar?
 

- Scott, repara no que ensina a Igreja Católica. É óbvio que a Tradição está errada.
 

- Claro que está errada, Scott concordou - Mas onde é que se condena o conceito de Tradição? E por outro lado, o que é que quiz dizer Paulo quando pedia aos Tessalonicenses que se ajustassem à Tradição tanto escrita como oral? - Scott continuou a pressionar - Não é ironico? Nós insistimos em que os cristãos só podem acreditar no que a Bíblia ensina, mas a própria Bíblia não ensina que ela seja a única autoridade.

Scott perguntou a outro teólogo:
 

- Qual é para ti o pilar e o fundamento da verdade?
 

- A Bíblia, evidentemente.
 

- Então porque é que a Bíblia diz em I Timóteo 3,15 que a Igreja é o pilar e o fundamento da verdade?
 

- Tu baralhas-me, Scott.
 

- Eu é que me sinto baralhado!
 

- Mas, Scott, que Igreja...?
 

- Quantos candidatos há a esse lugar? Quero dizer: quantas Igrejas dizem que são a coluna e o fundamento da verdade?
 

- Quer isto dizer que te estás a converter num católico romano?

Scott sentiu que o chão tremia, como se alguém estivesse a puxar o tapete mesmo debaixo dos seus pés.

Era a pergunta mais importante e ninguem tinha uma resposta.

Pouco depois, o presidente do Conselho Diretivo do seminário convidou Scott, em nome dos outros membros, a aceitar um lugar a tempo completo como Decano de Seminário. A oferta devia-se ao fato de os seus cursos terem tido muito boa aceitação e os estudantes estarem entusiasmados.

Era o trabalho que sonhava ter quando tivesse cinquenta anos! E estavam a oferecer de mão beijada com a madura idade de vinte e seis anos!

Embora não pudesse explicar porquê, teve que recusar. Quando chegou em casa, falou dessa oferta a sua mulher:
 

- Kimberly, não há nada no mundo que eu gostasse tanto de fazer como ensinar no seminário. Mas estar seguro de que ensino a verdade. Porque um dia hei-de comparecer diante de Cristo para lhe dar contas do que ensinei ao Seu povo. E não me servirá de nada escudar-me atrás da minha igreja e dos meus professores. Terei que ser capaz de O olhar nos olhos e de Lhe dizer: "Senhor, ensinei tudo o que Tu me ensinaste através da Tua Palavra", Mas agora Kimberly, já não estou seguro de qual é esse ensinamento, e não posso continuar a transmiti-lo enquanto não estiver seguro.

Cruzou os braços e se preparou para a sua resposta.

Ela respondeu cortesmente:
- Isto é o que admiro e respeito em ti, Scott. Mas isso significa que temos que pedir ao Senhor que nos ajude a encontrar um emprego.

Deus a abençõe.

Esta conversa os conduziu a outra penosa decisão: comunicar a sua renúncia como pastor aos anciãos da Igreja presbiteriana de Trinity.

Naquele momento Scott não sabia o que iria fazer, mas sabia que tinha que manter a integridade. Não podia exercer como pastor nem pregar enquanto não tivesse as coisas mais claras.

A Kimberly e ele recorreram ao Senhor através da oração para saber que passo dar.

Tudo o que sabia era que queria acreditar, entender, ensinar e amar tudo o que Deus revelou na Sua Palavra.
 

Kimberly

A nossa chegada à Virginia foi o começo do que poderia chamar “o Conto das Quatro Estações”.

Entramos num “período de verão” dos nossos sonhos, que se iam convertendo em realidade.

O Scott era ministro da Igreja Presbiteriana de Trinity, professor na Escola Cristã de Fairfax e, mais tarde, nesse mesmo ano, Instrutor no Instituto Teológico Dominion.

Eu era a esposa do Pastor, algo que sempre desejara, e alem disso ia ser mãe pela primeira vez.

O Scott pregava e ensinava, após muitas horas de estudo e de preparação, e eu sentava-me encantada a ouví-lo.

Fizemos também muitos novos amigos, ao mesmo tempo que continuávamos a manter contato com antigos colegas do seminário que acabava de ser colocados nos arredores, o que nos ajudou muito a adaptar-nos à mudança.

A 4 de Dezembro de 1982 nasceu o Michael Scott.

E como mudou o nosso casamento! Tudo na nossa vida começou a adquirir um novo sentido porque queríamos partilhá-lo com ele. Era tão impressionante ter um pequenino a quem cantar, com quem rezar e a quem dizer tudo o que me vinha à cabeça acerca de Deus!

O Scott e eu tínhamos que lutar dia a dia (e noite a noite) contra uns restos de egoísmo que ainda não tínhamos detectado em nós, e isso por sua vez serviu-nos para conhecer o Senhor de um modo mais profundo do que antes.

O Scott começou a estudar mais a fundo a liturgia e a fazer alterações interessantes no nosso serviço de culto. Passamos a ter a comunhão semanal, o que era algo insólito numa Igreja Presbiteriana.

Mas, embora recebêssemos a comunhão com mais freqüência, continuávamos a acreditar que era apenas uma representação simbólica do sacrifício de Cristo, e nada mais.

Contudo, o estudo que o Scott fazia do Evangelho de São João e da Epístola aos Hebreus para preparar as suas aulas e sermões, sugeria-lhe novos temas de meditação, o que, por vezes, era muito inquietante para ele.

O Scott ia buscar muitas idéias aos primeiros Padres da Igreja, e começou a expô-las nos sermões.

Foi algo inesperado para ambos, porque não tínhamos lido praticamente nada dos Padres da Igreja durante os anos do seminário.

Na verdade, no ultimo ano tinhamo-nos queixado, entre amigos, de um certo “romanismo” latente, quando um sacerdote anglicano propôs um seminário sobre os primeiros Padres da Igreja. E agora, aí estava o Scott a citá-los nos sermões!

Uma noite saiu do escritório e disse-me:
 

- Kimberly, tenho que ser sincero contigo. Tu conheces algumas das dúvidas com que me tenho debatido e as perguntas para que não consigo encontrar resposta. Não sei quanto tempo mais continuaremos a ser presbiterianos.

Talvez tenhamos que nos tornar episcopalianos.

Afundei-me na cadeira e comecei a chorar. Pensei: “se quisesse ser episcopaliana teria casado com um episcopaliano”. Não quero ser episcopaliana.

Onde iria parar o Scott nesta “peregrinação”? Só estava segura de uma coisa: ele nunca pensara seriamente que os católicos pudessem ser cristãos, pelo que não havia a menor possibilidade de que isso viesse a acontecer.

Chegou então essa noite decisiva em que um estudante (para mais, um ex-católico) lhe perguntou onde é que a Bíblia ensina a doutrina da ‘sola scriptura’.

Enquanto o Scott procurava uma resposta para dar ao jovem, partilhou comigo a sua preocupação primordial.

A separação entre protestantes e católicos no tempo da Reforma, assentava em dois princípios fundamentais: que somos justificados unicamente pela fé, e que a nossa única autoridade é a Escritura. O Scott e eu tínhamos estudado juntos o problema da justificação e já não aceitávamos a concepção protestante.

Mas, o que é que acontecia se a afirmação da exclusiva autoridade da Bíblia não se encontrava na Bíblia? O que é que isso poderia significar?

No fim do ano letivo, o Conselho Diretivo do Seminário pediu ao Scott que aceitasse o cargo de Decano. Decano! Aos vinte e seis anos!

Contudo, o Scott rejeitou essa maravilhosa oferta. Disse que não estava seguro de poder continuar a ser pastor nesse momento porque tinha muitas dúvidas e perguntas importantes sem respostas.

Precisava de um lugar onde pudesse estudar essas questões que tanto o atormentavam, para poder depois ensinar com honestidade, convencido pela Palavra de Deus de que estava a ensinar a verdade.

Embora fosse difícil de aceitar, apreciei muito a sua integridade. Sem dúvida, teria de poder comparecer diante de Cristo no Dia do Juízo e explicar por que razão tinha ensinado o que tinha ensinado. Esta decisão levou-nos a rezar intensamente.

Depois de muito rezar, decidimos regressar a Grove City, a cidade da nossa Universidade. Depois de ter tomado a decisão – e até de ter alugado um apartamento – o reitor da Universidade telefonou ao Scott e ofereceu-lhe um emprego, tomando-lo como um sinal de que Deus aprovava a decisão de voltar a Grove City, e com isto fizemos as malas e deixamos os nossos queridos amigos, dispostos a iniciar uma nova etapa da nossa vida familiar.

O Scott à procura da Igreja.

Scott:


Scott e Kimberly, decidiram voltar à cidade onde tinham se conhecido. Queriam estabelecer sua família numa localidade pequena e bonita, onde conheciam muita gente, ao mesmo tempo que tinha esperanças de encontrar um trabalho que permitisse ter as noites livres para poder estudar os problemas difíceis que o atormentavam.

Aceitou a oferta de trabalhar como assistente do reitor do Grove City College. Era o emprego ideal. Trabalhava das nove as cinco na administração e ensinava a tempo parcial como professor convidado no Departamento de Teologia, dando uma cadeira por semestre.

Isso deixava as noites livres para estudar.

Um de seus antigos professores perguntou por que razão estavam de volta a cidade. Tinham-lhe dito que tinha sido pastor de uma próspera Igreja na Virgínia e que ensinava também no Seminário local. Estava desconcertado com a mudança de Scott.

Scott insinuou-lhe que a vida nos arredores do distrito de Columbia era muito agitada. Que queriam se dedicar mais à família... Não podia dar-lhe todas as razões, pois nem ele próprio as conhecia com certeza.

Pouco depois da mudança, durante uma visita aos seus sogros em Cincinnati, Scott descobriu uma livraria de livros usados que tinha adquirido a biblioteca de um defunto sacerdote católico, reconhecido especialista em Sagrada Escritura.

Ao longo dos dois anos seguintes foi saindo daquela livraria com quase trinta caixas dos seus livros de teologia. Começou a devorá-los, lendo cinco, seis e as vezes mesmo sete horas por noite.

Chegou a examinar pelo menos duzentos livros. Pela primeira vez estava em contato com o catolicismo nas suas próprias fontes, por assim dizer.

As vezes, à noite, brincava com a Kimberly ao que Scott chamava "Adivinha quem é o teólogo".

Numa ocasião leu um texto do Concílio Vaticano II e perguntou-lhe:
 

- Quem é que achas que escreveu isto?
 

- É parecido com os sermões que fazias na Virgínia... - disse ela - Não imaginas como tenho saudades de te ouvir pregar!
 

- Isto não é meu. É do Vaticano II. Acreditas?
 

- Não me interessa nada disso - foi sua única resposta.

Scott continuou ler todo o tipo de livros de teologia católica. Uma noite se deteve na sala de jantar, de caminho para o escritório e disse a Kimberly:
 

- Kimberly, tenho que ser sincero contigo. Há um tempo que venho lendo livros católicos e creio que Deus me está a chamar para a Igreja católica.

Ela respondeu rapidamente:
 

- Não poderíamos tornar-nos episcopalianos?

Pelo visto havia algo mais terrível do que ser episcopaliano. Tudo, menos católicos!

Scott entrou num seminário católico de rito bizantino para assistir à liturgia das Vésperas. Não era uma missa; era apenas um ofício de oração, com todas as reverências, incenso, ícones, odores e sinos. Quando terminou, um seminarista veio até Scott e perguntou:
 

- O que é que lhe parece?

Scott só conseguiu murmurar:
 

- Agora já sei para que é que Deus me deu um corpo: para adorar o Senhor com o Seu povo na liturgia.

Voltou para casa procurando e pedindo insistentemente a ajuda de Deus. Ainda tinha esperança de encontrar algum defeito grave que o dissuadisse de "se lançar ao Tibre", ou de se tornar um papista, como costumavam dizer.

Começou então a interessar-se pela religião ortodoxa. Foi falar com Peter Gilquist, um evangélico convertido à Igreja Ortodoxa da Antioquia, para saber porque é que ele tinha preferido a Igreja Ortodoxa à Católica.

As sua razões reforçaram a sua impressão de que o protestantismo estava errado; mas ao mesmo tempo Scott achou a sua defesa da Igreja Ortodoxa como superior à Católica insatisfatória e superficial.

Depois de um profundo exame, deu-se conta que as diversas Igrejas Ortodoxas estavam irremediavelmente divididas, como acontecia com os protestantes, com a diferença de que os ortodoxos se encontravam divididos por nacionalismos étnicos: Havia os que se autodenominavam gregos, russos, ruténios, romenos, búlgaros, húngaros, sérvios etc. Coexistiram durate séculos, mas mais como uma família de irmãos que perderam o pai.

Um estudo mais atento, levou Scott a concluir que a religião ortodoxa tem uma liturgia maravilhosa e uma rica tradição, mas ficou estagnada na teologia.

Scott se convenceu também que tinha erros doutrinais, ao ter rejeitado alguns ensinamentos da Escritura e da Igreja Católica, especialmente a cláusula filioque ("e do Filho"), que foi acrescentada ao Credo no Concílio de Nicéia.

Por outro lado, a sua rejeição ao Papa como cabeça da Igreja parecia apoiar-se mais numa política imperial do que em sólidas bases teológicas.

Isso ajudou Scott a entender por que razão, ao longo da sua hitória, os ortodoxos tendem a exaltar mais a figura do imperador e do Estado do que a do bispo e da Igreja ( o que também se conhece como "cesaropapismo")

Veio então a cabeça de Scott que a Rússia sofreu as consequências desta perspectiva ortodoxa ao longo do século XX.

Desde a época do seminário Scott mantinha frequentes e maratonianas conversas telefônicas com o seu velho amigo de Gordon-Conwell, Gerry Matatics.

Tínhamos grande afinidade espiritual e ele amava a Bíblia tanto como Scott e odiava a Igreja Católica ainda mais que Scott.

Naquela época era pastor de uma Igreja Presbiteriana em Harriaburg.

Ambos partilhavam a convicção de que a Igreja Católica era completamente diferente de certas denominações protestantes, como os Metodistas, os Luteranos ou a Assembléia de Deus, que estavam, um pouco desviadas num ou noutro ponto da doutrina.

Mas a Igreja Católica estava errada, não era apenas em questões de pormenor, porque nenhuma Igreja protestante sobre a terra tinha as extraordinárias e ofensivas pretensões que a Igreja Católica reivindicava como próprias.

Por exemplo, os Metodistas nunca mantiveram que a sua fosse a única e verdadeira Igreja fundada por Jesus; nem os Luteranos afirmam ter como cabeça um Papa que é o vigário infalível de Cristo sobre a terra; nem os responsáveis da Assembléia de Deus afirmam possuir uma ininterrúpta linha de sucessão que remonta ao próprio Pedro.

Tal como o Cardeal Newman antes deles, o Gerry e Scott pensavam que, se a Igreja Católica estava equivocada, era pelo menos diabólica. Se, pelo contrário, estava na verdade, então tinha que ter sido fundada e preservada divinamente; mas para ambos dificilmente esta seria uma séria possibilidade.

Para ser sincero, aterrava a ele pensar o que aconteceria quando o Gerry descobrisse o que ele tinha andado a ler e a pensar. E como se falavam muito, calculou que seria apenas uma questão de tempo.

Uma noite, finalmente aconteceu. Estavam a falar sobre a Eucaristia há quase uma hora, quando de repente sentiu a necessidade de lhe ler um fragmento de O espírito e as formas do protestantismo, do padre Louis Boyer. Não pensava dizer o título nem o autor, nem sequer a crença religiosa.

Só queria ver a reação.

Depois de uma longa pausa. o Gerry exclamou:
 

- Caramba, Scott, isto está muito bem! De quem é?

A sua resposta deixou Scott sem respiração, pois nunca pensou que gostasse. O que faria agora?
 

Quase sem voz, respondeu-lhe:
 

- Louis Bouyer.
 

- Boyer? Nunca ouvi falar dele... É o que? Anglicano?
 

- Não.
 

- Não há problemas, Scott, eu também leio autores luteranos.
 

- Também não é luterano.
 

- Então é o que? Metodista?
 

- Não.
 

- Então, Scott, o que é isso? Uma adivinha? Deixa-te de brincadeiras. É o que?
 

- Scott tapou a boca e murmurou:
 

- Católico.

Ouviu o Gerry bater o telefone e dizer:
 

- Scott, acho que tenho um problema na linha e não consegui ouvir o que disseste.

Scott balbuciou um pouco mais alto
 

- Disse que é católico.
 

- Scott, realmente deve haver alguma coisa no meu telefone. Juraria que disseste que é um católico.
 

- Foi que disse Gerry. Na verdade tenho lido muitos livros católicos ultimamente.

Subitamente saiu tudo de golpe.
 

- Tenho que confessar, Gerry, que encontrei ouro. Não sei porque é que no seminário nunca nos falaram dos pensadores e teólogos mais brilhantes dos tempos modernos, homens como Henri de Lubac, Reginald Garrigou-Lagrange, Joseph Ratzinger, Hans Urs von Balthasar, Josef Pieper, Jean Danielou, Christopher Dawson e Matthias Scheeben. São magníficos - apesar de estarem errados - são uma mina de ouro.

O Gerry ficou pasmado.
 

- Calma, Scott. Mais devagar. Espera um pouco. O que é que está a contecer?
 

- Gerry, preciso da tua ajuda - suspirou.

Claro que te ajudo, homem - disse - Claro que te ajudo. Manda-me uma lista dos títulos que leste, e eu mando-te outra com os melhores títulos anticatólicos que conheço.

Foi assim que Scott enviou a Gerry uma lista dos melhores livros de teologia católica que tinha lido. Quando chegou a lista dele, Scott verificou que já tinha lido todos.

Passado um mês o Gerry voltou a telefonar.

A Kimberly mal podia conter a ansiedade. Tinha estado a rezar intensamente para que Deus mandasse logo uma ajuda.

Enquanto Scott pegava o telefone , ela sussurrou:
 

- Finalmente alguém se preocupa contigo querido. Pedirei 
pelos frutos da vossa conversa.

No mês decorrido desde a última conversa, o Gerry tinha lido todos os livros da lista e até alguns mais. E agora pedia a Scott:
 

- Por favor, podes mandar mais alguns títulos? Quero ser verdadeiramente imparcial.

Para a Kimberly, o Gerry era uma espécie de "cavaleiro da reluzente armadura" enviado por Deus para resgatar o seu esposo da heresia. E tinha credenciais para o efeito. Era um erudito Phi, Beta, Kappa, que se graduara em grego clássico e em latim, e fizera estudos de hebreu e aramaico. Estava, portanto, mais que preparado para o combate.
 

- Claro, Gerry. Envio-te mais alguns títulos com muito gosto.

Quase uma mês mais tarde falaram durante três ou quatro horas, até cerca de três da manhã.

Depois enfiou-se silenciosamente na cama para não acordar Kimberly. Mas ela sussurrou:
 

- Que tal ocorreu? - Estava completamente acordada.
 

- Foi impressionante, Kimberly
 

- O quê? - exclamou.

Na escuridão Scott ouviu-a enfiar-se na cama. Escondeu a cara na almofada e começou a chorar.

Scott procurou acalmá-la, mas ela exclamou:
 

- Não me toques! Sinto-me traída.
 

- Desculpa. Desculpa. Em todo o caso, o Gerry continua a estudar, por isso não percas a esperança.

O Gerry, que supostamente iria ajudar, acabou por fraquejar.

Começou a estudar mais a fundo a Escritura e, como consequência, descobriu todo o sentido da fé católica à luz da teologia da Aliança e dos primeiros Padres da Igreja.

Sentou-se na cama.
 

- Ah sério? Sabia que o Senhor ouviria as minhas orações e que o Gerry te ajudaria.
 

- Sim, o Gerry está a judar-me. Leu todos os livros.
 

- Scott, ele está mesmo a tomar-te a sério.
 

- Claro que sim.

- Então, e o que é que ele pensa?
- perguntou ela.
 

- Bom, disse-me que por agora não encontrou um único ponto da doutrina católica para o qual não se possa encontrar um suporte bíblico.

Não era isso exatamente que Kimberly esperava ouvir.

Falaram muito ao telefone, procurando descobrir em que é que a Igreja Católica estava errada. Tinha que estar. Como conseguiriam prová-lo?

De cada vez que parecia que tinham dado com o calcanhar de Aquiles, não só encontravam uma resposta, como uma resposta inquestionável. Começaram a sentir-se realmente inquietos.

Entretanto, a Kimberly acabava de dar a luz ao segundo filho, Gabriel. Outro filho significou uma enorme alegria; ao mesmo tempo, tornou mais preemente a necessidade de resolver a situação.

Agora a Kimberly era uma mãe muito ocupada, com pouco tempo para estudar teologia, e que ainda se sentia cada vez mais ansiosa e confusa. Mas Scott continuava a ler e a estudar, como um fanático.

Foi duro, para Scott, porque a Kimberly não queria ouvir falar da Igreja Católica. E mais duro ainda porque vários sacerdotes que visitou também não queriam falar sobre a Igreja.

Saía discretamente à procura de algum sacerdote que pudesse responder a algumas das dúvidas que ainda tinha, mas um após outro o desiludiram.

A um deles, Scott perguntou:
 

- Padre Jim, o que é que devo fazer? Converter-me ao catolicismo?
 

- Em primeiro lugar - disse - não me chame "padre", por favor. Em segundo lugar, creio que na realidade não precisa se converter. Depois do Vaticano II não é muito ecumênico converter-se. O melhor que pode fazer é ser simplesmente o melhor presbiteriano que puder. Fará melhor a Igreja Católica se se mantiver onde está.

Assombrado, Scott repondeu:
 

- Ouça padre, não lhe estou a pedir que me agarre nos braço e me faça católico à força. Creio que Deus me pode estar a chamar à Igreja Católica, que ai encontrei o meu lar, a minha família da Aliança.

Ele respondeu friamente:
 

- Bom, se o que quer é alguém que o ajude na sua conversão, veio ter com a pessoa errada.

Scott ficou gelado.

De regresso a casa pediu ao Senhor que o guiasse até alguém que pudesse responder as suas questões.

De repente teve uma idéia:

Talvez devesse inscrever-se em cadeiras de Teologia numa Universidade católica.

Enviou sua candidatura para o programa de doutoramento da Duquense University, em Pittsburg. Foi aceito e foi lhe concedida uma bolsa. Semanalmente viajava até lá de automóvel para assistir as aulas.

Nalguns dos seminários era o único protestante, e o único estudante que defendia João Paulo II! Era algo paradoxal. De repente deu consigo a explicar a sacerdotes (e até a ex-sacerdotes) como certas crenças católicas tinham o seu fundamento na Bíblia, especialmente na sua teologia da Aliança.

Não era claro que fosse encontrar resposta para as sua perguntas ali.

As vezes, acompanhava Scott no regresso de Pittsburg um amigo católico de Grove City, que ali se encontrava com o padre Jonh Debicki, um sacerdote do Opus Dei. Nunca antes tinha ouvido falar do Opus Dei. Tudo que sabia é que era um sacerdote que levava a sério as sua perguntas, dava respostas ponderadas e fazia Scott saber que rezava por ele.

Era um homem humilde. Só mais tarde Scott descobriu que tinha estudado Teologia em Roma, e ai se tinha doutorado.

Vários católicos de Duquesne vieram ter com Scott e comentaram:
 

- Tu realmente consegues tornar eloquente a Escritura. Soa a católico o que dizes.

Scott disse-lhes:
 

- Creio que é católico.

Nesse dia à noite, perguntou em alta voz a si próprio diante de Kimberly:
 

- Por que será que o Gerry e eu somos os únicos a ver estas doutrinas católicas na Escritura?

A Kimberly respondeu com um certo cinismo:
 

- Se calhar a Igreja sobre a qual andam a ler já não existe.

Talvez ele tivesse razão. Sentia-se assustado. Sabia que a Kimberly pedia a Deus que alguém o ajudasse. Scott tbem rezava muito.

Alguém mandou a Scott um terço de plástico.

Ao ver aquelas contas , sentiu que enfrentava com o obstáculo mais forte de todos: Maria.

Os católicos não fazem a mais pequena idéia de como é duro para os cristãos bíblicos aceitarem as doutrinas e devoções marianas.

Mas eram já tantas as doutrinas da Igreja Católica que se tinham mostrado solidamente baseadas na Bíblia, que Scott decidiu dar um passo de fé neste ponto.

Fechou-se no escritório e rezou silenciosamente: "Senhor, a Igreja Católica demonstrou estar na verdade em noventa e nove por cento dos casos. O único grande obstáculo que ainda subsiste é Maria. Peço-te perdão de antemão se o que vou fazer te ofende... Maria, se és apenas metade do que a Igreja Católica diz que és, por favor, apresenta a minha petição - que parece impossível - ao Senhor mediante esta oração".

Rezou então pela primeira vez o terço.

Voltou a rezá-lo muitas vezes pela mesma intenção ao longo da semana seguinte, mas depois esqueceu-se do assunto. Três meses depois deu-se conta de que desde o dia em que tinha começado a rezar o terço aquela situação aparentemente impossível se tinha alterado completamente. A sua petição tinha sido atendida!

Sentiu-se muito envergonhado pelo seu esquecimento e ingratidão. Nesse momento agradeceu a Deus a Sua misericórdia e voltou a pegar no terço, que não deixou de rezar desde esse dia.

É uma oração poderosa, uma arma invencível, que ressalta o escândalo da Encarnação: o Senhor elegeu uma humilde virgem camponesa e elevou-a a ser aquela que daria a natureza humana sem pecado à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, para que pudesse tornar-se nosso Salvador.

Pouco depois Scott recebeu um telefonema de um velho amigo da Universidade. Tinha ouvido dizer que Scott andava a coquetear com a "rameira da Babilonia", como ele próprio disse. Não poupou palavras.
 

- O que quer dizer que já adoras Maria, não, Scott?
 

- Ouve, Cris, tu sabes muito bem que os católicos não adoram Maria, veneram-na simplesmente.
 

- E qual é a diferença, Scott? Nenhuma das duas coisas tem base bíblica.

Scott não sabia o que dizer. De terço na mão, invocou Maria para que o ajudasse.

Revigorado, respondeu-lhe:
 

- Olha que podes apanhar um surpresa.
 

- Ah, sim? Por que?

Scott começou a dizer a primeira coisa que veio a cabeça:
 

- Realmente é muito simples, Chris. Simplesmente recorda dois princípios bíblicos básicos.
 

Primeiro: sabes que, como homem, Jesus Cristo cumpriu na perfeição a lei de Deus, incluindo o mandamento de honrar pai e mãe. A palavra hebreia para honrar, Kabodah, significa literalmente "glorificar". Ou seja que Cristo não só honrou o Seu Pai celeste, como também honrou perfeitamente a Sua mãe terrena, Maria, outorgando-lhe a Sua própria glória divina.
 

O segundo princípio é ainda mais simples: a imitação de Cristo.
 

Imitamos Cristo não só honrando as nossas próprias mães, como também honrando aqueles que Ele honra, e com o mesmo tipo de honra que Ele lhes outorga.

Seguiu-se uma longa pausa, antes de que Chris dissesse:
 

- Nunca tinha ouvido as coisas apresentadas desse modo.

Para ser franco, eu também não.
 

- Chris, isto é apenas um resumo do que os Papas tem dito ao longo dos séculos sobre a devoção a Maria.

O Chris voltou ao ataque:
 

- Uma coisa são os Papas, mas onde é que isso aparece na Escritura?

Scott respondeu instintivamente.
 

- Chris, Lucas 1, 48 diz: " De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem aventurada".

É isso que faz o terço, cumprir a Escritura.

Seguiu-se outra longa pausa, antes do Chris mudar rapidamente de tema.

A partir de então Scott sentiu que a recitação do terço o ajudava a aprofundar na sua própria compreensão da Bíblia.

A chave era, obviamente, a meditação dos quinze mistérios, mas também se deu conta de que a própria oração confere uma certa perspicácia teológica para considerar todos os mistérios da nossa fé de acordo com algo que ultrapassa muito - mas não se opõe - a capacidade racional do intelecto: o que alguns teólogos designaram como "a lógica do amor".

Scott descobriu pela primeira vez essa "lógica do amor" ao contemplar a Sagrada Família em Nazaré, modelo de qualquer lar.

A Sagrada família, por sua vez, apontava para a Aliança, e, em última instância, para a própria vida íntima de Deus como eterna Sagrada Família: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Esta belíssima e convincente visão começou a encher o seu coração e a sua mente, mas não estava ainda muito seguro de poder identificar a Igreja Católica com a expressão terrena da família da Aliança de Deus.

Para chegar lá precisava de bastante mais oração e estudo.

Durante esta etapa, Gerry e Scott continuaram com suas conversas telefônicas. Um dia, convidou Scott a acompanhá-lo a um encontro com um dos mais brilhantes mestres, o Dr. John Gerstner, um teólogo calvinista formado em Harvard e de fortes convicções anticatólicas.

O Gerry tinha-lhe comentado que estavam a estudar com muita seriedade as afirmações da Igreja Católica, pelo qual ele estava mais do que disposto a encontrar-se com ambos e rsponder as sua questões.

O Gerry organizou o encontro. Deveriam levar o Novo Testamento em grego, a Bíblia hebreia, os textos dos Concílios em latim e tudo o mais que quizessem, e deveriam estar preparados para debater qualquer questão, mas especialmente o tema da sola fide.

Ficaram de se encontrar para jantar no York Steak House, próximo a casa de Gerry em Harrisburg. Isso significava que o Dr. Gerstner e Scott viajariam juntos durante várias horas, tanto à ida como no regresso.

Scott senti-se entusiasmado e nervoso ao pensar que ia poder falar com um especialista tão erudito e devoto.

Durante a viagem, o Dr Gerstner e Scott tiveram já quatro horas de intensa discussão teológica. Scott começou a tirar toda a reserva de argumentos que tinha estado a preparar, todos acerca da Igreja Católica como ponto culminante da História da Salvação no A.T. e como materialização da Nova Aliança.

O Dr. Gerstner ouviu-o com atenção e respondeu a cada ponto com interesse e respeito. Parecia contemplar os seus argumentos com algo inovador, mas ao mesmo tempo insistia em que não justificavam por si sós que alguém mudasse para a Igreja católica, a que ele chamava "a sinagoga de satanás".

A certa altura perguntou:
 

- Scott que suporte bíblico encontras tu para o Papa?
 

- Dr. Gerstner, o senhor recorda como o Evangelho de Mateus enfatiza o papel de Jesus como Filho de David e Rei de Israel, enviado pelo Pai para inaugurar o Reino dos céus? Creio que Mateus 16, 17-19 nos mostra como Jesus estabeleceu esse Reino. Deu a Simão três coisas: primeiro, um novo nome, Pedro; segundo, o Seu compromisso de edificar a Sua Igreja sobre Pedro; e, terceiro, as chaves do Reino dos céus. É este terceiro aspecto que me parece mais interessante.
 

Quando Jesus fala das "chaves do Reino" está a referir-se a um importante texto do A.T, Isaías 22,20-22, onde Ezequias, o herdeiro do trono real de David e rei de Israel nos tempos de Isaías, substitui o seu velho Primeiro Ministro, Shebna, por um novo chamado Eliakim. Qualquer pessoa podia dizer qual dos membros do gabinete real era o novo Primeiro Ministro, pois lhe tinham sido entregues as chaves do Reino. Ao confiar a Pedro "as chaves do reino", Jesus estabelece o cargo de primeiro Ministro para administrar a Igreja como o Seu Reino na terra. Portanto, as "chaves" são um símbolo da missão e do primado de Pedro, para ser transmitido ao seu sucessor, assim foi sendo transmitido ao longo das épocas.
 

-É um argumento muito engenhoso, Scott - replicou.
 

-E como o refutamos nós, os protestantes?
 

- Bom, não creio tê-lo ouvido antes. Teria que pensar sobre isso mais um pouco. Continua com teus argumentos...

Scott prosseguiu então descrevendo como a família da Aliança era o princípio central ou a idéia chave da fé católica.

Explica Maria como nossa Mãe, o Papa como nosso pai, os santos como nossos irmãos e irmãs e as celebrações e dias de festa com festa de aniversário.
 

- Dr. Gerstner, tudo isso adquire significado quando se considera a Aliança como o ponto central da Escritura.

Ele escutava atentamente.
 

- Scott, creio que estás a levar demasiado longe este assunto da Aliança.
 

- Talvez tenha razão, mas estou totalmente convencido de que a Aliança é central em toda a Escritura, tal como ensinaram os grandes protestantes João Calvino e Jonathan Edwards; só que também estou convencido de que a Aliança não é um contrato, como eles pensaram, mas antes um vínculo familiar sagrado entre Deus e o Seu povo. Se estou enganado nalguma destas questões, mostre-me onde, por favor. Poderia salvar a minha carreira.

Ele respondeu:
 

- Espera até nos encontrarmos com Gerry.

Uma vez chegados ao lugar da reunião, estiveram durante horas e horas a esmiuçar uma grande quantidade de temas, mas sobretudo a questão da justificação.

Scott apresentou a perspectiva católica, segundo a qual a filiação não é apenas uma mera absolvição, mas, a luz do Concílio de Trento, uma divina filiação.

Durante seis horas, o Gerry e Scott apresentaram vários pontos de vista católicos; nenhum foi refutado. Colocaram tbém muitas perguntas que não tiveram uma resposta satisfatória.

Ao terminar, Gerry e Scott olhavam um para o outro: ambos estavam pálidos. Para eles fora um choque. Tinham desejado e rezado para que alguém os livrasse da humilhação de ambos ter que se converter.

Num momento em que ficaram sozinhos, Scott disse:
 

- Gerry, sinto-me atraiçoado pela nossa tradiçao Reformada. Vim aqui pensando que íamos ser salvos das águas; mas a Igreja católica não perdeu num único ponto. Os textos do Concílio de Trento foram tomados fora do contexto.

Sem se dar conta, ele tem estado a interpretar mal os cânones ao desligá-los das definições formuladas nos decretos.

De regresso a casa Scott falou muito mais com o Dr. Gerstner. Pediu-lhe que mostrasse onde é que a Bíblia ensina a doutrina da sola Scriptura.

Mas não lhe deu um único argumento novo.

Em vez disso, colocou uma pergunta:
 

- Scott, se estás de acordo em que agora possuímos a inspirada e inerrante Palavra de Deus na Escritura, que mais nos faz falta?

Scott respodeu:
 

- Dr. Gerstner, não creio que a questão principal seja saber o que é que precisamos. Mas uma vez que me pergunta, exponho-lhe o meu ponto de vista. Desde a época da Reforma, foram surgindo mais de de vinte e cinco mil confissões protestantes, e os especialistas dizem que na atualidade surgem cinco novas por semana. Cada uma delas afirma seguir o Espírito Santo e o sentido autêntico da Escritura.
 

Deus sabe que devemos precisar de algo mais.
 

O que eu quero dizer, é que quando os fundadores da nossa Nação nos deram a constituição, não se contentaram só com isso. Imagina o que teríamos hoje se a única coisa que nos tivessem dado fosse um documento, por muito bom que fosse, junto com a recomendação "Que o espírito de George Washington guie cada cidadão"?
 

Teríamos a anarquia, que é precisamente o que temos os protestantes no que se refere à unidade da igreja.
 

Em vez disso, os nossos pais fundadores deram-nos algo mais do que a Constituição; deram-nos um Governo - formado por um Presidente, um Congresso e um Senado - todos eles necessários para aplicar e interpretar a Constituição.
 

E se isso é necessário para governar um país como o nosso, o que é que será necessário para governar uma Igreja que abarca o mundo inteiro?
 

É por isso, Dr Gerstner, que começo a acreditar que Cristo não nos deixou apenas com um livro e o Seu Espírito. Aliás, no Evangelho não diz uma única palavra aos apóstolos acerca de escreverem; além disso, só menos da metade deles escreveram livros que foram incluídos no Novo Testamento.
 

O que Cristo disse realmente - a Pedro - foi: " Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja... e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela". Por isso parece-me mais lógico que Jesus nos tenha deixado juntamente com a sua Igreja - composta por um Papa, Bispos e Concílios - tudo o que é necessário para administrar e interpretar a Escritura.

O Dr Gerstner fez uma pausa para pensar.
 

- Tudo isso é muito interessante, Scott, mas disseste que não te parece que esse seja o tema principal. Qual é então para ti o tema principal?
 

- Dr Gerstner, creio que a questão principal é o que a Bíblia ensina sobre a Palavra de Deus, já que em nenhum lugar reduz a Palavra de Deus apenas à Escritura. Pelo contrário, a Bíblia diz-nos em muitos lugares que a autorizada Palavra de Deus deve buscar-se na Igreja :- na sua Tradiçao (2 Tes 2,15; 3,6), assim como na sua pregação e ensino (I Pe 1,25 ;2 Pe 1,20-21; Mt 18,17).
 

Por isso penso que a Bíblia apoia o princípio católico de solum verbum Dei , "só a Palavra de Deus", em vez do princípio protestante sola Scriptura, "só a Bíblia."

O Dr Gesrtner respondeu insistindo uma e outra vez que tanto a Tradição Católica, como os Papas e os Concílios ecumênicos, todos eles ensinaram coisas contrárias à Escritura.
 

- Contrária a que interpretação da Escritura? - perguntou Scott - Além disso, todos os historiadores da Igreja estão de acordo em que recebemos o Novo testamento do Concílio de Hipona do ano 393 e do Concílio de Cartago do ano 397, e ambos enviaram as suas decisões a Roma, para serem aprovadas pelo Papa. Não lhe parece que do ano 30 ao 393 é demasiado tempo para estarmos sem Novo Testamento?
Além disso, havia muitos outros livros que a gente de então pensava que poderiam ser inspirados, como a Epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas e os atos de Paulo. Havia também múltiplos livros do Novo Testamento, como a Segunda Carta de Pedro, a carta de Judas e o Apocalípse que alguns consideravam que deviam ser excluídos.
 

Afinal, que decisão seria digna de crédito e definitiva se a Igreja não ensinasse com autoridade infalível?

O Dr Gerstner replicou em tom calmo:
 

- Os Papas, os Bispos e os concílios podem enganar-se e de fato enganaram-se, Scott. Como é que tu podes pensar que Deus tornou Pedro infalível?

Scott refletiu um momento.
 

- Bom, tanto protestantes como católicos estão de acordo em que Deus deve ter tornado infalível Pedro pelo menos em duas ocasiões: quando escreveu a Primeira e a Segunda Epístola de Pedro, por exemplo. Ora se Deus o pode tornar infalível para ensinar com autoridade por escrito, porque é que não podia preservá-lo do erro ao ensinar com autoridade em pessoa?
 

Do mesmo modo, se Deus pode fazer isso com Pedro e com os outros apóstolos que escreveram a Escritura, porque não podia fazer o mesmo com os seus sucessores, especialmente ao prever a anarquia a que haveria de chegar se não o fizesse?
 

Por outro lado, como podemos estar seguros de que os vinte e sete livros do Novo Testamento são em si mesmos a infalível Palavra de Deus se foram Papas falíveis e concílios falíveis que nos deram essa lista?

Scott nunca esquecerá sua resposta:
 

- Scott, isso significa simplismente que o único que podemos ter é uma coleção falível de documentos infalíveis.
 

- Isso é realmente o melhor que o cristianismo protestante histórico consegue proporcionar?
 

- Sim, Scott, tudo o que podemos fazer são juízos prováveis baseados na evidência histórica. Não temos nenhuma outra autoridade infalível além da Escritura.
 

- Mas, Dr, como posso eu saber que é realmente a Palavra de Deus infalível o que estou lendo quando abro Mateus, ou Romanos, ou Gálatas?
 

- Como te disse, Scott, tudo o que temos é uma coleção falível de documentos infalíveis.

Scott sentiu-se muito insatisfeito com as suas respostas, embora soubesse que apresentava com toda a honestidade as teses protestantes. Ali ficou sentado, a meditar no que dissera sobre a última fonte da autoridade e sobre a inconsistência lógica da posição protestante.
 

- Bom, se as coisas são assim, acho que devemos ter a Bíblia e a Igreja. Ou as duas ou nenhuma!

Scott chegou em casa na madrugada do dia seguinte. Quando contou a Kimberly os resultados da reunião, entrou em pânico. Esperava que a conversa tivesse resolvido o problema.

Pediu-lhe então, um compromisso:
 

- Por favor, não faças nada abruptamente. Seria demasiado doloroso.

Scott assegurou-lhe:
 

- Se me converto, Kimberly, não será antes de 1990, como mínimo; prometo. E só me converterei se for absolutamente necessário; se não tiver outra saída em face destas conclusões.

Estavam em 1985. Parecia tempo suficiente para dar o passo de modo intelectualmente respeitável, se é que finalmente se convertia.

Ela disse:
 

- Está bem. Acho que posso viver com isso.

Depois de muita oração viram que Scott precisava trabalhar neste assunto a tempo inteiro. Decidiram que o melhor seria ir para a Marquette University, onde tinha descoberto uma excelente equipe de teólogos católicos que amava a Igreja e ensinavam muito bem a sua doutrina.

Encontrava-se lá um jesuíta, professor de Teologia, o padre Donald Keefe, especialista em teologia da Aliança.

Quando souberam que Marquette o tinha admitido no programa de Doutoramento em Teologia, e que alé, disso ofereciam a Scott uma bolsa completa e um trabalho como professor assistente, sentiram que o Senhor os estava guiando.

Mal sabia Scott, mal sabiam eles, que o casamento estava a ponto de defrontar um período mais sombrio e tormentoso do que alguma vez teriam podido prever.

Kimberly

Quando regressamos a Grove City, estávamos a entrar no “outono” da nossa historia. Os ventos de mudança tinham começado a soprar. As coisas eram muito belas, mas as mudanças que anunciavam eram presságios de letargo e de morte.

A mudança trouxe também alguma alteração ao ritmo da nossa vida familiar. O Scott começou o seu horário de trabalho das nove as cinco, como assistente do reitor do Grove City College. Eu concentrei-me em Michael e em renovar as nossas amizades.

O trabalho do Scott permitia-lhe dispor das noites para estudar durante horas e horas. Metia-se no escritório, fechava a porta, e eu não tinha nenhum desejo de que a abrisse. Não estava interessada em saber o que é que andava a ler. Enquanto ele conservava a porta fechada, tudo para mim estava em ordem.

Realmente, começavamos a ter diferentes convicções: em parte, porque eu estava muito ocupada, e grávida do nosso segundo filho, e em parte porque não me interessava o que o Scott fazia. Tinha a certeza de que ele se estava a afastar para uma margem, mas que por fim voltaria atrás. O importante para mim era manter-me firme.

Uma noite acordou-me entusiasmado com um pensamento:
 

- Kimberly, dás-te conta de que estamos rodeados aqui e neste mesmo momento por Maria, os santos e um sem número de anjos?

Reagi de imediato:
 

- No meu quarto não! Nem pensar!

O que o Scott dissera perturbou-me. Maria? Pensava muito nela, naquela época. Parecia que os católicos se centravam em Maria, como os protestantes nos centrávamos em Jesus. Era a pessoa acessível; podíamos esconder-nos nas pregas do seu manto, em vez de encarar o rosto severo de Deus Pai.

Maria era como a grande porta das traseiras para obter o favor de Deus, enquanto Jesus continuava a ser a incômoda porta principal. Repugnava-me pensar nessas coisas.

Tinha lido em certa ocasião algo sobre um homem que estava a reparar o teto de uma bela capela italiana, e que um dia viu entrou uma americana que começou a rezar na Igreja.

Pensou que podia passar um bocado divertido, e começou a dizer lá de cima:
 

- Sou Jesus. Nenhuma reposta. Por fim o homem disse ainda mais alto: Sou Jesus. A mulher olhou para cima e gritou: Cala-te! Estou a falar com a tua mãe!

A minha impressão pessoal sobre o modo como os católicos consideravam Maria fazia-me pensar que estavam a substituir o amor, a devoção e a adoração devidos a Jesus pelo amor, a devoção e até a adoração a Maria.

Exprimi esta preocupação ao Scott, que a rebateu fazendo-me notar o quase total abandono a que os protestantes a votavam, ao ponto de nem sequer falarem dela, apesar de ter sido, pelo menos, a escolhida, a mulher mais privilegiada de todos os tempos, que levou no seu seio o Filho de Deus e Lhe deu a Sua natureza humana.

Talvez os protestantes pensassem que assim compensavam a excessiva atenção que lhe dedicavam os católicos.

Quando me convidaram a falar no jantar de Natal das senhoras da Igreja, Scott animou-me a falar de Maria. Preparei então um estudo sobre Maria como mulher de Deus, sem expor nenhum dos conceitos católicos sobre ela (nos quais ainda não acreditava). Disse-lhes que não tivessem medo de a honrarem como a Mãe de Nosso Senhor, pois Jesus era ao mesmo tempo Filho de Deus e Filho de Maria.

Assim que acabei a palestra, as duas esposas dos pastores cantaram “What child is this”?, Mudando propositadamente as ultimas palavras da estrofe: em vez de “o bebê, o Filho de Maria” cantaram “o bebê, o Filho de Deus”, porque, pouco antes do jantar, um dos pastores tinha expressado a sua preocupação de que a letra original exagerasse a honra atribuída a Maria. Que belo exemplo para ilustrar a minha palestra!

Recordei uma aula no seminário, em que o Dr. Nicole disse que um Concílio Ecumênico tinha definido Maria como ‘Theotokos’, Mãe de Deus.

Ao principio aquilo ofendeu-nos – Ela não tinha criado Deus! – mas ele esclareceu rapidamente o sentido desta afirmação: era necessário para a nossa salvação que Jesus fosse tão plenamente humano como plenamente divino: duas naturezas numa só Pessoa, a de Deus Filho. Por tanto, posto que Maria é a fonte da Sua natureza humana, ela é a mãe de Jesus; e posto que Jesus é Deus, ela é a mãe de Deus.

Não havia, portanto, razão para nos escandalizarmos com esta verdade – ressaltava o Dr. Nicole – já que era a garantia da nossa salvação.

Um dia, ao entrar na sala de jantar, o Scott disse-me:
 

- Tenho andado a ler uma grande quantidade de livros católicos ultimamente. Talvez Deus me esteja a chamar à Igreja Católica.
 

- Não poderíamos ser episcopalianos? – foi a minha resposta imediata.

Tal como estavam as coisas, preferia continuar a ser protestante como episcopaliana do que tornar-me católica. Ele sorriu, dando a entende que compreendia a razão da minha pergunta. Depois me pediu que rezasse por ele.

Rezava por ele com gosto, mas não queria conversar sobre as convicções que se iam enraizando na sua alma. Nesses momentos só desejava manter o Scott e as suas novas convicções longe do meu alcance. Durante um passeio, quis partilhar comigo gentilmente as suas dúvidas e convicções.

Disse-lhe:
 

- Scott, tu és muito inteligente. Podes convencer qualquer pessoa em qualquer assunto.

Ele replicou:
 

- Então, não tenho ninguém com quem falar sobre nada?

Isso me tocou fundo no coração. Como pude dizer-lhe, ou até pensar, que não queria falar sobre as suas reflexões teológicas, quando todo o nosso casamento se baseava precisamente nesse tipo de partilha?

O fato de que o Scott fosse uma pessoa muito persuasiva não me dispensava de me enfrentar com a verdade. Mas eu não queria ouvi-la. Era muito arriscado, e tinha muito a perder. Pelo menos, devia ter sentido certa curiosidade em saber por que é que o meu marido considerava que o catolicismo era tão bíblico, entre outras coisas porque a Bíblia era a base das minhas próprias convicções. Mas sentia-me demasiada ameaçada para querer perguntar-lhe.

Comecei a sentir-me como se estivesse casada com um homem com quem não tinha casado. Tinha-me casado com um presbiteriano reformado, não com um cristão qualquer. Contudo, o Scott recordou-me que o que me atraiu dele foi o ser um cristão centrado na Bíblia, coisa que ainda continuava a ser. Suplicou-me que caminhasse ao seu lado na sua busca, mas eu não podia. Não queria.

O Scott afinal tinha sido um anti-católico convencido, que pensava que não se podia ser ao mesmo tempo um cristão zeloso e católico. Eu, em contrapartida, mantinha um ponto de vista mais equilibrado: os católicos podiam ser cristãos, mas não havia necessidade, e muito menos desejo da minha parte, de ser católica. Talvez todos esses estudos o ajudassem a ele a ser menos crítico em relação aos católicos e menos radical. Mas deixar de condená-los não significava juntar-se a eles!

O Scott sentia que andava à procura da “Mãe Igreja”, e que talvez a tivesse encontrado no catolicismo. Em contraste, eu nunca tinha sentido uma aguda necessidade de busca (talvez por ter sido criada dentro de uma família e de uma Igreja tão fortemente evangélicas, que tinham suprimido essa necessidade).

Comparando as convicções do Scott de agora com as que ele tinha quando estávamos na Universidade, pareciam-me claramente diferentes. O Scott via uma continuidade onde eu só encontrava descontinuidade. O Scott explicava isto com uma analogia: uma bolota não parece um carvalho, mas tem em si todas as potencialidades para vir a ser um carvalho.

Costumava dizer: “aquilo em que eu acreditava na Universidade e no seminário está a chegar agora a um florescimento mais rico do que nunca. Houve um crescimento orgânico, embora as minhas crenças pareçam diferentes do que eram num princípio. Ainda creio na Bíblia. Ainda sou um cristão comprometido”.

A analogia era plausível, há que reconhecer. Mas também era possível que se estivesse a enganar a si mesmo e a meter-se em verdadeiros problemas teológicos.

Procuramos o conselho do meu pai, que me sugeriu manter-me a par das investigações do Scott. Mesmo que não quisesse dedicar-me a esse estudo, em nada nos ajudaria ir crescendo a ritmos desiguais.

Finalmente aceitei ler um livro, ‘A Fé de Nossos Pais’ do Cardeal Gibbons. Era um livro simples, mas com muita lógica, e isso me incomodou. O catolicismo não podia ser tão claro! Senti-me tão contrariada que atirei com o livro para a outra ponta da sala, coisa que nunca tinha feito antes.

Não, pensei, vou limitar-me a esperar que o Scott encontre por si mesmo o caminho de regresso à verdade. Tenho um ‘Master’ em Teologia! Será que tenho que começar a aprender tudo outra vez, voltar às primeiras letras da Teologia? Tinha uma vida demasiado ocupada para poder fazer isso.

O salmista expressa os sentimentos que me embargavam então: (Salmo 69,14-17):

“Quanto a mim, Senhor, a minha oração sobe até Vós, no tempo propício. Respondei-me, Senhor, pela grandeza do Vosso amor, com a fidelidade do Vosso auxílio. Tirai-me do lodo para que me não afunde. Respondei-me, Senhor, porque o Vosso amor é bondade; segundo a Vossa grande compaixão, volta-Vos para mim”.

No meio de toda essa tormenta teológica em casa, o Senhor abençoou-nos com outro precioso filho, Gabriel Kirk, no nosso quinto aniversario de casamento, a 18 de Agosto de 1984. Ao dá-lo à luz, recordei uma oração que o Scott e eu tínhamos rezado na primeira vez que saímos juntos: que Deus fizesse nascer muitos homens piedosos. Pensei: 


Senhor, será o Gabriel – e, pela mesma razão, o Michael – em parte uma resposta às nossas orações de então? É sem duvida uma maneira lenta de fazer discípulos, mas, por favor, ajuda-nos a criá-los de forma que sejam homens piedosos e entregues a Ti’.

O primeiro ano de vida de Gabriel foi bastante agitado. Além de cuidar dos nossos dois filhos, muitas outras atividades boas consumiam o tempo que poderia ter dedicado a estudar e a resolver os problemas entre mim e o Scott. Dirigia três estudos bíblicos, presidia o grupo local a favor da vida, e ajudava a recrutar advogados pró-vida no ‘campus’ do Grove City College.

O Scott trocou o seu trabalho em tempo integral na Universidade por outro, em tempo parcial com jovens, em duas igrejas e na Universidade. Começou também a preparar o doutoramento na Duquesne University. Apesar de ser uma instituição católica, frequentemente era ele o único defensor da fé católica na aula.

No meio de todas estas ocupações, o Scott prosseguia a sua busca. Ao ver que o seu interesse pela Igreja Católica não diminuía, comecei a considerar o peso de tudo o que perderíamos se o Scott se convertia ao catolicismo. Todos os sonhos que tínhamos partilhado acabariam: trabalhar em equipe, como pastor e esposa, o Scott voltar a ensinar no Grove City College ou no Seminário Teológico Gordon-Conwell, e ambos viajando e dando palestras sobre a doutrina da Reforma Protestante.

Uma noite disse-me que tinha começado a rezar o terço. Não podia acreditar no que ouvia! Nem sequer sabia que tinha um terço. O assunto do seu estudo, e agora a prática do catolicismo, começava a tornar-se sério.

Um amigo nosso do seminário, o Gerry Matatics, desafiou a nova orientação teológica do Scott. Em frente do Scott eu chamava-lhe o meu ‘cavaleiro de reluzente armadura’ que vinha salvar-me destra tragédia. O Gerry pressionava o Scott, pedindo-lhe lista dos seus livros católicos. Eu estava-lhe muito agradecida, especialmente porque o Gerry era muito parecido com o Scott: uma pessoa de convicções, que procurava realmente a verdade, fosse qual fosse.

Depois de um dia particularmente atormentado, disse ao Scott: “Nunca pensarei no suicídio como uma opção, mas hoje pedi a Deus que me desse uma doença mortal, que acabasse de uma vez por todas com estas inquietações. Nessa altura poderias encontrar uma bela moça católica e refazer a tua vida com ela”.

O Scott sentiu-se muito abatido ao ouvir-me exprimir assim a minhas angústias.
 

- Não voltes a dizer - nem sequer a pensar – isso outra vez! Eu não quero nenhuma bela moça católica. Quero você!

Era o começo do “inverno” da minha alma. Recordo até em que canto da sala estava quando senti que a alegria do Senhor me deixava. Exceto nalguns breves instantes, não voltei a senti-la durante quase cinco longos anos: foi um vazio como nunca antes tinha experimentado. A alegria do Senhor, que fora a minha fortaleza e alentara o meu espírito, estava agora bloqueada pela minha recusa em abrir-me ao estudo, à leitura e até ao diálogo. Sentia-me como diante de um muro que não sabia como superar, e nem sequer estava segura de alguma vez querer tentar.

Senhor, a alegria desapareceu. Quem és Tu? Conheci-Te toda a minha vida. Pensava que Te entendia, mas agora não entendo nada. És o Deus dos católicos ou o Deus dos protestantes? Sinto-me tão confusa”. Não houve qualquer resposta.

Ir a Roma é voltar a casa.

Scott:


Depois de uma decisão de mútuo acordo, embora difícil, Scott e Kimberly se mudaram para Milwaukee, para que ele pudesse se dedicar a tempo inteiro a preparar o doutoramento em Teologia e Sagrada Escritura.

Naquele semestre de outono, Scott descobriu, seminário após seminário, como podia ser verdadeira e bela a doutrina católica, e como eram exigentes e práticos os ensinamentos morais da Igreja sobre o casamento, a família e a sociedade. Scott se viu defendendo a doutrina católica, mesmo quando os católicos não o faziam.

É verdade que muitos estudantes católicos davam testemunho da sua fé, ao mesmo tempo que a viviam e desfrutavam. Scott partilhava um escritório com um deles, o Jonh Grabowski, que o levou à sua paróquia e o introduziu na liturgia eucarística.

Através de Jonh Scott entrou em contato com uma instituição católica excepcional, a Franciscan University of Steubenville, em Ohio, onde ele tinha realizado a licenciatura em Teologia.

Explicou-lhe tudo o que se refere ao enfase que ali se dava à "ortodoxia dinamica".(Mal sabia Scott que , apenas cinco anos mais tarde, ele próprio estaria ali a ensinar).

Outra colega de doutoramento, a Monica Migliorino Miller, o ajudou de várias maneiras. Primeiro, depois de o ouvir falar na aula como um católico, amavelmente, mas com firmeza, o desafiou a viver de acordo com as suas convicções católicas.

Segundo, com o seu valente compromisso no movimento pró-vida, a Monica motivou Scott e Kimberly a colaborar também. O que os permitiu a encontrar o tão necessário interesse comum, como voluntários a favor da família, combatendo o aborto e a pornografia na zona de Milwaukee.

Scott escreveu vários artigos a defender e a fundamentar posições católicas. Desenvolveu os seus argumentos acerca de Mateus 16,17-19 num trabalho de 30 páginas intitulado "Pedro e as chaves" para um seminário sobre o Evangelho de Mateus.

O professor, um protestante, examinou-o durante mais de uma hora, mas reconheceu que não encontrava nenhuma falha na sua argumentação.

Alguns dos seus amigos não-católicos pensavam que o Senhor concedia a Scott uma visão magnífica, embora não soubessem aonde ela o conduziria. Isto absorvia completamente a sua imaginação e a sua inteligência.

Scott preparou outro trabalho, de cerca de cem páginas, intitulado "Famíla Dei : Para uma Teologia da Aliança. da Família e da Trindade", no qual sintetizava o resultado de mais de dez anos de investigação sobre a Aliança.

Esta adquiria cada vez mais sentido: se aliança significa uma família na qual os membros partilham a carne e o sangue, então Cristo tinha instituído a Eucaristia para nos tornar capazes de partilhar o vínculo de carne e sangue da Sua família baseada na Nova Aliança, a Igreja Católica.

O Padre Jonh Debicki, o amigo sacerdote de Pittsburg, pôs Scott em contato com o Layton Study Center, um centro do Opus Dei em Milwaulkee.

Os amigos que ali Scott encontrou, tanto sacerdotes como leigos, deram a ele uma perpectiva prática da oração, do trabalho, da família, do apostolado, que integrou tudo o que havia de positivo na sua experiencia evangélica dentro de um sólido plano de vida católico.

Ensinaram e o animaram como leigo, a encontrar modos de transformar o seu trabalho em oração. Um dos membros casados, o Chris Wolfe, o estimulava constantemente a dar total prioridade a sua vida interior.

Por fim, o processo de conversão começava sobrenaturalmente, a tomar um cariz romântico. O Espírito Santo mostrava a Scott que a Igreja Católica, que tanto o aterrorizava antes, era na realidade o seu lar e a sua família. Experimentava um gozoso sentimento de regresso a casa à medida que redescobria o seu pai, a sua mãe e os seus irmãos e irmãs mais velhos.

Até que um dia Scott meteu fatalmente "o pé na argola": decidiu que tinha chegado o momento de ir sózinho à Missa.

Scott tomou por fim a resolução de atravessar as portas de Gesu, a paróquia da Marquette University. Um pouco antes do meio dia Scott deslizou silenciosamente para a cripta da capela para a Missa diária.

Não tinha a certeza do que ia encontrar; achava que ia estar só com o sacerdote ou com um par de freiras mais velhas. Sentou-se no último banco, a abservar.

Subitamente, numerosas pessoas começaram a entrar vindas da rua, gente normal e corrente. Entravam, faziam uma genuflexão e ajoelhavam-se para rezar. Scott se impressionou com a devoção simples, mas sincera.

Soou uma campainha, e um sacerdote dirigiu-se para o altar. Scott continuou sentado, duvidando ainda se devia ajoelhar-se ou não. Como evangélico calvinista, tinha aprendido que a Missa católica era o maior sacrilégio que um homem podia cometer - imolar Cristo outra vez - por isso não sabia o que fazer.

Observava e escutava atentamente à medida que as leituras, orações e respostas - tão impregnadas da Escritura - convertiam a Bíblia em algo vivo. Tinha vontade de interromper a Missa e dizer: "Espera. Essa frase é de Isaías; o cantico é dos Salmos. Caramba! Aí está outro profeta na oração".

Scott encontrou muitos elementos da antiga liturgia judaica, que tinha estudado tão intensamente.

Então, subitamente, compreendeu que era aqui o lugar da Bíblia. Este era o ambiente no qual esta preciosa herança de família devia ser lida, proclamada e explicada. Depois passaram à Liturgia Eucarística, onde todas as suas afirmações sobre a Aliança encontraram o seu lugar.

Teria querido interromper cada parte e gritar: "Ei! Quereis que vos explique o que está a acontecer do ponto de vista da Escritura? Isto é fantático!" Mas, em vez disso, ali estava ele, sentado, sobrenaturalmente faminto do Pão da Vida.

Depois de pronunciar as palavras da Consagração, o sacerdote elevou a Hóstia. Scott então sentiu que a última sombra de dúvida se tinha dissipado dentro dele.

Com todo seu coração murmurou: "Meu Senhor e meu Deus. Tu estás verdadeiramente aí! E se és tu, então quero estar em plena comunhão contigo. Não quero negar-te nada".

Scott recordou a sua promessa: 1990. "Ah, é verdade. Tenho que me controlar. Sou um presbiteriano, não é verdade? Claro!..."

E com isto, Scott saiu da capela sem dizer absolutamente a ninguém onde tinha estado, ou o que tinha feito. Mas no dia seguinte lá estava ele outra vez, e assim dia após dia.

Em menos de duas semanas estava preso.

Scott não sabe explicar, mas tinha-se enamorado completamente de Nosso Senhor na Eucaristia. A Sua presença no Santíssimo Sacramento era para ele poderosa e pessoal.

Mesmo ficando na parte de trás , começou a ajoelhar-se e a rezar com os outros, a quem agora reconhecia como irmãos e irmãs. Não era órfão! Tinha encontrado sua família, a família de Deus.

De repente,1990 lhe pareceu muito distante.

Dia após dia, presenciando todo o drama da Missa, via a Aliança renovada diante de seus olhos. Sabia que Cristo queria que ele O recebesse com fé, não só espiritualmete no seu coração, mas também fisicamente: sobre a língua, na garganta e dentro de todo o seu corpo e alma.

Era este o sentido da Encarnação. Este era o Evangelho na sua plenitude.

Todos os dias depois da Missa, dedicava entre meia hora e uma hora a rezar o rosário. Sentia que o Senhor derramava o Seu poder através de Sua Mãe diante do Santíssimo Sacramento. Suplicava-lhe que abrisse o seu coração e se manifestasse a Sua vontade.

"Senhor, é a Tua chamada sobrenatural, ou encontro-me simplesmente preso numa espécie de fuga intelectual?"

As coisas começaram a acelerar-se. Duas semanas antes da Páscoa de 1986, Gerry telefonou para anunciar que ele e sua mulher Leslie iam abraçar o catolicismo durante a Vigília Pascal.

Scott ficou pasmado.
 

- Gerry, não posso acreditar. Era suposto que tu irias impedir que me fizesse católico. Não podes chegar primeiro do que eu à Eucaristia! - Não me parece justo.
 

- Scott, não quero intrometer-me nas tuas razões para esperar. Mas a nós o Senhor já nos mostrou o suficiente para nos convencer a converter-nos ao catolicismo este ano.

Scott então se dirigiu ao Senhor em oração: "Senhor, que faço eu?" e pensou: "Pergunto a mim próprio porque é que não Te fiz esta pergunta antes, Senhor: o que é que Tu queres que faça?"

Estava completamente desconcertado, quando, para sua surpresa, sentiu que lhe respondia: "O que é que tu, meu filho, queres fazer?"

Isso era fácil. Nem sequer teve que pensar duas vezes; "Pai, quero voltar a casa. Receber-te a Ti, Jesus, meu Irmão mais velho e Senhor , na Sagrada Eucaristia".

E houve como uma suave resposta do Senhor: "Eu não te estou a deter".

Scott se sentiu rejubilar. É impossível de descrever. Lembrou-se então que era melhor consultar primeiro a única pessoa que estava realmente ainda a procurar dete-lo.

- Kimberly, nem imaginas o que Gerry me acaba de dizer. Ele e a Leslie vão unir-se a Igreja católica na Páscoa, daqui a duas semanas.

A Kimberly respondeu com cautela:
 

- E isso em que é que muda as coisas? - atravessava-o com o olhar.
 

- Bom, tenho estado a rezar e a pedir ao Senhor que me guie...
 

- Disseste que em 1990, lembras-te? Prometeste. Não te esquives agora a tua promessa com pretextos espirituais.

Contrariado, Scott teve que admitir que ela tinha razão.
 

- Sim..., lembro-me..., 1990. Mas desde que comecei a ir diariamente a Missa, sinto que Cristo me chama a Si na Sagrada Eucaristia.

Ouviu em silencio, com uma expressão de profunda dor estampada no rosto.
 

- Kimberly, não sei como explicar, mas tenho receio de ter chegado a um ponto no qual adiar a minha obediência seria desobediência. Queres por favor rezar para ver como podes me libertar dessa promessa?

Sentiram nesse momento uma dor que as palavras não podem descrever...

Depois de um longo momento de oração noutra sala, ela voltou, o abraçou e disse:
 

- Dispenso-te da tua promessa, Scott, mas quero que saibas que nunca na minha vida me senti tão profundamente atraiçoada e abandonada.

Foi muito duro para os dois.

Mais tarde, nessa noite, Scott rezou com insistencia:  


"Senhor, porque é que me mostra a Tua família e ao mesmo tempo me afastas da minha? Para que é que me apresentaste a Tua Esposa, a Igreja, e me arrastaste para longe da minha?"

Durante esse tempo de oração, o Senhor pareceu dizer-lhe: 


"Eu não te estou a chamar apesar do teu amor a Kimberly e as crianças, mas precisamente por causade teu - e do meu - amor a eles. Scott, necessitas da plenitude da graça na Eucaristia para Eu poder amá-los a eles através de ti".
 

"Senhor, não lhe poderias dizer isso a ela Tu próprio?" - suplicou.

Foi então falar com o Monsenhor Bruskewitz, que era então pároco da Igreja de São Bernardo (chegou a ser Bispo de Lincoln, em Nebrasca). São Bernardo era a paróquia mais ortodoxa e também a mais vital, da zona. Tinha a esperança de que se pudesse tornar num lar espiritual para ele. Scott não se enganou.

O Monsenhor ouviu sua longa odisseia teológica. Como teólogo bem preparado, podia compreender todo o seu estudo e a sua luta. Fez com que Scott soubesse que não haveria nenhum obstáculo a sua entrada na Igreja católica durante a vigília Pascal.

Contudo, como sagaz pastor que era, deu-se conta de que Scott necessitava também de alguns conselhos práticos.

Escutou pacientemente os seus planos para se preparar para a Primeira Comunhão: uma semana de oração que terminaria com três dias de jejum até chegar a Vígilia pascal. Depois, com fina sabedoria e gentileza perguntou:
 

- E como é que encaixam Kimberly e as crianças em tudo isto?

Scott teve que reconhecer envergonhado que os tinha deixado de certo modo fora dos seus planos.

O Monsenhor propôs:
 

- Scott, posso sugerir-te um plano alternativo?
 

- Claro que sim! - respondeu contrito.
 

- Por que não lhes prodigalizas o teu amor e as tuas atenções durante toda a semana, e terminas com um estupendo pic-nic no parque no sábado, imediatamente antes de eu te dar a Primeira Comunhão nessa noite?

Graças a Deus pela sabedoria pastoral.

A Vigília Pascal de 1986 foi um momento de verdadeira alegria sobrenatural, unido a uma grande tristeza natural. Scott recebeu o grande slam sacramental: o Batismo condicional, a Penitência, a Confirmação e a Primeira Comunhão.

Regressou ao banco e sentou-se ao lado da sua amargurada esposa, que amava com todo o coração. Pos-lhe o braço a volta, e começáram a rezar. Scott sentiu que era como se o próprio Cristo, por meio da Sua Eucaristia nele, abraçasse os dois.

Era como se o Senhor dissesse: "Scott, isto não depende dos teus sentimentos. Pela minha entrega a ti na Sagrada Eucaristia, podes confiar em mim agora mais do que nunca. Agora habito em ti, no corpo e na alma, de um modo mais forte do que nunca".

Agradeço ao Senhor que tenha usado a Sagrada Comunhão para me assegurar que Ele velaria por nós nos tempos difíceis que nos esperavam.


Kimberly

A mudança para Milwaukee implicou afastar-mos da família, dos amigos e da Igreja, e ir para um lugar estranho para os dois. Não conhecíamos ali ninguém antes de chegarmos.

Apesar de assistirmos juntos a uma Igreja protestante, eu dispunha do tempo que faltava ao Scott para fomentar novas amizades. Mas o fato de estar numa Universidade católica proporcionava-lhe mais oportunidades de arranjar amigos católicos. Assim que, neste aspecto, continuávamos a afastar-nos um dos outros, desenvolvendo amizades separadas.

Dedicava a maior parte do tempo a tratar dos nossos dois filhinhos. Mas à medida que fomos tendo mais consciência da dimensão das indústrias do aborto e da pornografia à nossa volta – nove clínicas de aborto e cinco livrarias “para adultos”, só no centro de Milwaukee, dediquei-me bastante a combatê-las. Como conseqüência, tinha muito pouco tempo, e ainda menos vontade, para estudar. A minha esperança era que alguém em ‘Marquette’ fizesse o que até agora ninguém tinha conseguido: evitar a deserção do Scott para Roma.

Nunca imaginei que o Scott adiantasse a data da sua adesão à Igreja Católica de 1990 para 1986. Quando faltavam uns dez dias para a Páscoa, saiu do escritório para me dizer:  


“Kimberly, o Gerry e a Leslie vão ser recebidos na Igreja Católica nesta Vigília Pascal. Preciso que ouças o que há no meu coração: desde que comecei a ir à Missa na Universidade desejo ardentemente receber o Senhor na Eucaristia.
 

E estou já tão convencido de que a Igreja Católica esta na verdade, que se não me uno a ela agora, e recebo o Senhor, acho que Lhe estou a desobedecer. Ambos sabemos que adiar a obediência é desobediência." 
Senti-me destruída. Ele tinha-me prometido: “Não antes de 1990”. E, contudo, podia ver o seu profundo conflito interior entre a promessa feita, por um lado, e a sua cada vez mais firme convicção, por outro. Não podia interpor-me no caminho da sua obediência ao Senhor, fossem quais fossem as conseqüências para a sua carreira e para o bem-estar da nossa família. O Scott devia deixar-me espaço livre para que o Espírito Santo abrisse o meu coração, e eu devia libertá-lo da promessa de esperar até que eu estivesse disposta a unir-me a ele, para poder seguir adiante em obediência ao Senhor, como ele a entendia.

Nessa noite, registrei no meu diário de oração a intensa solidão e o sentimento de abandono que me embargava. Escrevi: “Senhor, a quem posso ir com a minha profunda ferida?” e com certo sarcasmo acrescentei: “ E não me diga que procure Maria e os Santos!

Estávamos apenas a dez dias da Páscoa. Isso significava que tínhamos apenas dez dias para avisar a família e dar-lhes a conhecer o que até agora tínhamos mantido mais ou menos em silêncio. Tínhamos apenas dez dias para telefonar aos nossos amigos teólogos, com a esperança de que alguns pudessem dissuadir o Scott, antes de dar o salto para a Igreja Católica. (Os professores encontravam-se numa posição muito difícil, procurando responder às objeções que o Scott tinha passado anos a estudar. Mas o fato de que tão poucos tentassem detê-lo, quando podia estar a afundar a sua alma na ruína, e com os seus talentos afundar depois outras almas, aumentou o meu sentimento de abandono.)

Era muito difícil saber como falar do tema de um modo que não comprometesse a lealdade que ambos nos devíamos. Se eu tivesse mencionado à minha família ou à do Scott como era profunda a minha pena, isso teria causado um tremendo enfrentamento entre eles e o Scott. Era uma questão de lealdade para os dois.

Tínhamos que nos proteger um ao outro, pelo bem do nosso, casamento e da nossa família, e não revelar a ninguém o tremendo pesar que ambos sentíamos. Mas isto tornava ainda mais intensa a solidão que ambos experimentávamos.

Eu sentia-me profundamente traída. Não tinha nada contra os católicos, mas não teria procurado um para namorado. E agora acontecia que ia estar casada com um!

Acompanhei o Scott à Missa da Vigília Pascal com uma das minhas queridas amigas protestantes. Lá estava o Chris Wolfe, o padrinho do Scott. A certa altura, o Scott inclinou-se e disse-me que o Greg Wolfe (não era da família de Chris) ia ser padrinho do Gerry nessa mesma noite, quando ele e a Leslie fossem recebidos na Igreja Católica, em Filadélfia. Esbocei um sorriso forçado, mas não disse nada; era mais do que uma pequena ironia que ambos fosse conduzidos à Igreja Católica por dois “lobos”.

Por um lado, a maior parte da cerimônia fascinou-me: houve muitas leituras das Escrituras que narravam as diversas Alianças estabelecidas por Deus no Antigo Testamento, até chegar a Cristo. (Eu não imaginava que os católicos lessem tanto a Bíblia!)

Muitos elementos da liturgia recordavam-me o culto judeu do Antigo Testamento, com o incenso, as reverências, o altar e o sacrifício. E a alegria das pessoas era muito grande (com se acreditassem mesmo em tudo o que estavam a fazer e a dizer).

Contudo, por outro lado, sentia-me a morrer por dentro. Diante dos meus próprios olhos, o Scott estava a comprometer-se com uma Igreja que nos separaria de momento, e talvez para sempre. Nunca mais poderíamos receber a comunhão lado a lado, a não ser que um dos dois mudasse de maneira de pensar (e não era difícil imaginar quem teria de ser!).

Este grande signo de unidade cristã transformou-se no nosso símbolo de desunião. E a alegria das pessoas era como um punhal no meu coração, porque o que os alegrava era para mim causa de uma dor indescritível.

Depois da Missa alguém pregou numa máquina para fazer uma fotografia de todos com o Scott. Quis escapar do grupo, mas o Scott insistiu para que eu também aparecesse na fotografia. Eu pensava: “Para que quero uma recordação da pior noite da minha vida?

Apesar de todos os amigos do Scott terem sido muito amáveis comigo na celebração que se seguiu, era desesperante ver a admiração que mostravam por ele, quando o nosso casamento estava atravessando o pior momento de sempre.


Os Problemas de um casamento Misto.

Scott

Começaram a telefonar amigos , cheios de curiosidade. A conversa típica era mais ou menos esta:
 

- Scott, acabo de ouvir um rumor mal intencionado - sei que não pode ser verdade - que te converteste num católico ramano! 

Scott respondia:
 

- Pois é verdade, podes crer! Pela graça de Deus, converti-me ao catolicismo, e nunca poderei agradeçe-lo bastante.

A conversa costumava acabar neste ponto, de forma mais ou menos abrupta:
 

- Oh..., estou a ver. Bom, Scott, por favor dá saudades à Kimberly e diz-lhe que rezamos por ela.

Scott supunha que o que na realidade queriam era dar-lhe os pêsames. Na prática, era como se ele tivesse morrido e tivesse sido substituído por um papista impostor, a avaliar pela forma como a maioria o tratava.

Amigos íntimos distanciaram-se. Membros da sua família deixaram de lhe falar e voltaram-lhe as costas. Um dos seus colegas de estudo, graduado com Scott e fervoroso evangélico, converteu-se em ex-amigo de um dia para o outro.

O mais irônico é que, pouco tempo antes, Scott tinha sido muito mais anti-católico do qualquer deles. De fato, a maioria não se considerava em absoluto anti-católica, apesar de nem sequer franzirem a sombrancelha se ele simplesmente se tivesse unido aos luteranos ou aos metodistas. Faziam Scott se sentir como um leproso.

Jamais houve qualquer desejo de dialogar e muito menos de discutir. As sua razões não tinham nenhuma importância, porque tinha feito o inconcebível. Tinha cometido uma traição, um crime vil.

Mas a dor e a desolação não se podiam comparar com a alegria e a fortaleza que lhe vinham de saber que estava a fazer a vontade de Deus e a obedecer a sua Palavra.

Comparados com o privilégio de ir diariamente à Missa e receber a sagrada Comunhão, os seus sacrifícios eram mínimos. Aprendeu também que estes sofrimentos podiam unir-se ao sacrifício de eucarístico de Cristo, com um efeito real e com muita consolação.

No meio de tudo isso, sentia-se conduzido a uma maior intimidade com Nosso Senhor e com Nossa Senhora.

O sofrimento tornava o romance mais real.

Entretanto, a Kimberly e Scott navegavam em águas cada vez mais agitadas. Passavam-se dias e semanas sem partilharem nada de tipo espiritual.

O que ela menos desejava era ouvi-lo falar acerca dos benefícios da Missa diária ou da meditação dos mistérios do terço. Enquanto a sua vida interior avançava vigorosa, o seu casamento retrocedia. E o que tornava isso mais penoso era que, muito pouco tempo antes, tinham partilhado momentos muito ricos no apostolado conjunto.

Scott se perguntava se alguma vez as cisas como dantes, se o seu casamento conseguiria sobreviver a este período de prova e de agonia.

Só o Senhor, por meio da graça do sacramento do Matrimônio, os fez perseguir, como mais tarde ambos reconheceram. Scott ouviu uma vez um sacerdote dizer: "O casamento não é difícil, é humanamente impossível. Por isso Cristo o restabeleceu como um sacramento."

A Kimberly continuava a alimentar a esperança de que aparecesse alguém que conseguisse o convencer. Um pastor calvinista chamado Wayne resolveu encontrar-se com eles. Depois de um par de sessões de mais ou menos quatro horas, o Waine disse a Kimberly:
 

- Qualquer dia o Papa excomunga o Scott, por ser demasiado bíblico.
 

- Quais são os seus pontos fracos?
 

- Bom, não sei. Os argumentos dele apoiam-se na Bíblia e na Aliança. Mas não são católicos. Não podem ser.

Suspeitava que a Kimberly se interrogava secretamente sobre até que ponto o catolicismo seria bíblico, mas não estava disposta a partilhar com Scott as sua "dúvidas".

Tinham chegado a um ponto em que quase não conseguiam falar de nada sem cair numa discussão doutrinal; qualquer tentativa de enfrentar com sinceramente as suas diferenças terminava em mágoa e frustração.

Scott animava Kimberly a ouvir as suas discussões com outras pessoas acerca de aspectos controvérsos da doutrina católica. Esta aproximação indireta revelou-se uma fonte de menos tensões nas suas relações, do que quando se enfrentavam a sós.

Parece afastar das tensões domésticas e das pressões academicas, Scott começou a dar um curso biblíco semanal na sua paróquia, São Bernardo. Monsenhor Brukewitz deu-lhe o maior apoio, e era ele próprio, com a sua sólida pregação, que fomentava o interesse dos fiéis pela Biblia.

Era alentador para Scott ver - e para a Kimberly ouvir - o seu desejo insaciável da Sacrada Escritura. Que grande privilégio era poder abrir a Palavra de Deus para partilhar os tesouros da fé da Igreja com os seus novos irmãos e irmãs católicos!

Depois de uma sessão especialmente animada sobre "Uma explicação biblíca das indulgencias" um velho paroquiano chamado Joe exclamou:
 

- Sim, senhor! As vezes tem que ser um imigrante a explicar as coisas aos nativos.

Poucos meses depois de ter sido recebido na Igreja Católica, começaram a assaltar-lhe algumas dúvidas, não sobre se tinha se enganado ou não ao converter-se ao catolicismo, mas sobre se não teria cometido um suicídio profissional ao ter ficado sem nenhuma opção de trabalho.

Afinal, se perguntava, como pode um especialista em teologia evangélica converter-se num humilde aprendiz da teologia católica? Não é que não estivesse encantado com o estudo da teologia católica, mas o que não via na prática era como é que com isso podia trazer o pão a sua mesa.

Decidiu telefonar ao seu pai, que ainda dirigia em Pittsburg o negócio familiar "Helm and Hahn" uma pequena companhia de desenho e produção de jóias. Poucos anos antes, deram emprego ao seu irmão mais velho, Fritz. Tinha esperança de que tivesse um lugar disponível para outro membro da família.
 

- Papai, por acaso tens trabalho na oficina para um teólogo evangélico?

Após uma pausa respondeu-lhe com um tom de profundo pesar:
 

- Scott ficaria encantado de ter a trabalhar conosco. Bens sabes. Mas por acaso não posso oferecer-te trabalho. A economia anda mal por aqui, e o negócio de joalheria em geral caiu em todo o país. Sinto muito, filho.
 

- Não te preocupes papai. Só tinha esperança de encontrar um trabalho para manter a minha família.
 

- Scott o que estás a dizer? Lembro-me perfeitamente de ter ouvido o reitor da tua Universidade dizer que te queria de volta o mais rapidamente possível, para dares lá aulas de teologia. E o que é feito dos teus professores Gordon-Conwell? Não te disseram eles que acabasses o doutoramento para regressares e ensinares ali também?
 

- Sim papai, mas isso era antes de eu ser católico. Agora sou persona non grata em ambos os sítios. Ninguém pensaria se quer em contratar um papista como eu.
 

- Scott, custa me ouvir isso. Mas digo-te uma coisa: Não renuncies ainda a teologia. Tens amor para a estudar em um dom para a ensinar. Se fosse a ti, mantinha-me nela ainda por algum tempo.

Graças sejam dadas a Deus pela sabedoria paterna.

Pesava a Scott mais do que nunca se ver agora com uma família a crescer, mas sem forma de a manter. Perseguia a idéia de que jamais teria o tempo suficiente para dominar o latim, e muito menos para as obras de Tomás de Aquino, Boaventura, Caetano, Belarmino e toda uma série de outros veneráveis. Como poderia chegar a ensinar teologia católica?

A ajuda e o consolo vieram de duas fontes. A primeira foram os seus estudos prévios de filosofia no Grove City College, onde tinha se entusiasmado e empapado da filosofia de S. Tomás.

Apesar de sua atitude anti-católica, Scott percebeu que era algo bom desde que o descobriu, e na sua mente nada se podia comparar ao Aquinate. Obviamente tinha posto a parte tudo o que era especificamente católico aos seus escritos. (Tomas - pensava Scott - nasceu cedo demais; muito antes de que a luz de Lutero e Calvino pudessem guia-lo).

Mas tinha devorado seus escritos filosóficos, especialmente a metafisica, adquirindo de passagem a estranha e inverosímel reputação de ser um "evangélico tomista".

O consolo veio também de uma segunda fonte, em concreto de um amável e velho sacerdote, bibliotecário emérito do Seminário Sant Francis, o Padre Ray Fetterer, que teve piedade desde pobre graduado presbiteriano que procurava ilustrar a sua passagem para a Igreja Católica.

Sempre que um convento, mosteiro, colégio ou universidade fechava suas portas na região, as respectivas bibliotecas eram enviadas ao Padre Fetterer para serem classificadas e amontoadas num velho ginásio subterraneo. Dezenas de milhares de livros de teologia, escritura, filosofia, história e literatura, terminavam nas estantes, para que as pessoas interessadas pudessem folhea-los e comprá-los a preços irrisórios, fixados por um velho sacerdote filantrópico.

Scott descobriu essa mina de ouro acidentalmente, já que não a anunciavam e raramente a abriam, em geral só com marcação prévia. Ao fim de um ano, já tinha adquirido literalmente dezenas de caixas de livros e como ele se compadecia tanto de sua situação precária, pagava apenas uma parte dos já baixos preços que pedia normalmente. Para Scott era um sonho feito realidade: por graça de Deus, a generosidade de um sacerdote trouxe a fortuna a esse convertido!

Por poucas centenas de doláres, Scott acabou por possuir milhares de livros, incluindo clássicos, como sessenta volumes da edição Blackfriars da Summa Theologica de S. Tomas de Aquino (em latim e inglês), mais de duas dúzias de volumes das Obras do Cardial John Henry Niewman, um monumental Dictionnaire Théologie Catholique em 15 enormes volumes, a velha Catholic Encyclopedia, a New Catholic Encyclopedia além de centenas de livros de comentários escriturísticos e escritos patrísticos, para não mencionar várias décadas de valiosas revistas teológicas, tais como The Thomist, Theological Studies, Communio, American Ecclesiastical Review, Catholic Biblical Quarterly, Revue Biblique e Vetus Testamentum.

Graças a Deus Scott encontrou-se de posse de uma biblioteca pessoal de teologia, filosofia e histórias católicas que teria sido uma benção para qualquer seminário.

O que é que ia fazer com semelhante tesouro? Tornar-se joalheiro?

Deus utilizou esse consolo para devolver a Scott a confiança de que Ele supriria o que tivesse faltado na sua formação como teólogo católico, além disso, se deu conta de que na realidade não havia naquele momento instituições católicas nas quais um leigo como Scott pudesse receber uma formação doutrinal rigorosa dentro da tradição católica, mesmo que tivesse tido o dinheiro e o tempo suficientes para tal.

Continuava pois a perguntar-se, se haveria ou não um lugar para ele nalgum sítio dentro da Igreja.

Uma noite, recebeu uma chamada do Dr. John Hittinger, professor de filosofia do Sant Francis College de Joliet, em Illinois. Representava uma equipe que procurava um professor de teologia com a qualificação necessária para dar cursos em diferentes graus de ensino no ano seguinte, especialmente a estudantes universitários.

Não se considerava particularmente capacitado, nem sequer tinha preparado um curriculum vitae e menos ainda o tinha posto a circular.

E como não tinha apresentado a sua candidatura a esse trabalho (nem para qualquer outro), aí estava ele sentado, interrogando-se enquanto falavam, onde teria conseguido aquele professor o seu nome.

Quando lhe perguntou, referiu-se a um "amigo de confiança" do Departamento de Teologia de Marquette, que o tinha recomendado.

Scott sentiu-se tão surpreendido como agradecido.

Naquele momento, contudo ainda contava poder dedicar o ano seguinte, como estudando a tempo inteiro a escrever e defender a tese de doutoramento.

Mas suas economias andavam tão apertadas que Scott se questionava se poderia faze-lo. Era cada vez mais duvidoso. Contudo, mesmo no caso de conseguir sempre lhe seria util a experiência de passar por uma entrevista de trabalho numa instituição católica. Além disso, o John dissera a ele que havia mais de 30 candidatos ao lugar, assim que bem vistas as coisas, quais eram as suas possibilidades?

A entrevista correu muito bem; estavam interessado em Scott. Talvez pelo seu entusiasmo de neófito. Em todo o caso, a situação era atrativa. Nessa instituição o Reitor estava interessado em recuperar a identidade católica da Universidade, seriamente afetada por anos de pressões financeiras, acadêmicas e espirituais. Parecia um desafio apaixonante. Depois de uma segunda entrevista e de muita oração Scott decidiu aceitar a proposta.

Nessa época, Kimberly e suas duas crianças não iam a missa com ele. O Mon Senhor Bruskewitz disse-lhe que dada a sua particular situação, o permitiria acompanhá-los a igreja de Elmsbrook, desde que isto não pudesse em risco a sua fé católica. Scott simplesmente ia para dar um pouco de paz aos seus domingos.

Um domingo de manhã em Elmsbrook, estavam de pé a cantar o hino final quando de repente a Kimberly se voltou para ele, pálida como um fantasma e murmurou:
 

- Scott, sinto-me muito mal.

Sentou-se ao seu lado, enjoada e semi-incosciente. Enquanto a congregação saia, a Kimberly agarrou-lhe a mão apertando fortemente:
 

- Scott estou a sangrar muito.

Naquele momento estava a meio da terceira gravidez. Deitou-a no banco e, sem saber o que fazer, correu ao telefone público para tentar localizar o ginecologista. Num manhã de domingo, que probabilidades havia? Além do mais ele era novo na cidade. Mas isso não impediu Scott de rezar intensamente a São Geraldo e a São José.

No serviço de atendimento do médico não sabiam onde poderia estar, mais iam tentar localizá-lo atras do Beep. Quando desligou sentia-se a beira do desespero: "Senhor, porque nos mandas isto agora? A Kimberly já se sente abandonada por Ti, tal como estão as coisas".

Menos de dois minutos mais tarde soou o telefone.

Scott levantou perguntando a si próprio quem seria:
 

- Pronto?
 

- Sou o Dr. Marmion. Posso falar com Scott Hahn?
 

- Oh sim! Sou eu.
 

- Scott, qual o problema?
 

- A Kimberly está com uma hemorragia séria.
 

- Scott, onde é que estão?
 

- Estamos nos arredores de Milwaukee, numa aldeia chamada Brookfield.
 

- Em que sítio?
 

- Na igreja de Elmbrook, quase nos arredores.
 

- Em que parte da igreja?
 

- Fora do santuário, em frente a porta principal.
 

- Vou imediatamente. Estou precisamente embaixo de ti, na cave!

Meio minuto mais tarde o Dr. estava ao lado da Kimberly, o tempo suficiente para Scott invocar de novo São Geraldo, pedindo sua intercessão. Foram imediatamente para o hospital São José. Uns amigos levaram as crianças e os dois correram para o hospital.

Uma vez ali, tiveram consciência de que o Senhor tinha salvo o bebê, e que, com cuidados particulares, a condição de "placenta prévia" não nos roubaria esse filho.

Pela primeira vez depois de muito tempo, louvaram juntos a Deus do mais fundo do coração.

Kimberly

Eu procurava ajustar-me à nova vida do Scott como católico. Na semana a seguir à Páscoa, dirigiu um estudo bíblico em nossa casa, a que eu também assisti. Quando pediram a um jovem que rezasse uma oração para começar, imediatamente recitou a Ave Maria. Saí da sala agoniada, caí de joelhos no quarto, e chorei amargamente: como se atrevera a pronunciar essas palavras em minha casa, esfregando com sal as minhas feridas, ainda abertas pela conversão do Scott!

Mais tarde procurei unir-me a eles novamente, mas os seus comentários e expressões de piedade católica eram insuportáveis. O Scott transferiu rapidamente o estudo bíblico para fora de nossa casa, gesto pelo qual lhe fiquei muito agradecida.

Felizmente o Scott nunca fez da sua fé católica um “assunto de submissão” entre nós, obrigando-me a submeter-me à sua orientação espiritual quando o meu coração ainda não podia admitir o que minha mente ainda não aceitava.

Embora ansiasse com todo o seu ser ter-me ao seu lado na Missa, suplicando-me que partilhasse a sua alegria na Igreja e o ajudasse no seu ministério dentro da Igreja, não abusava da sua posição de líder espiritual da família para exigir-me que fizesse algo contrario à minha consciência.

De fato, respeitava-me por manter as minhas convicções, embora questionasse a minha continua resistência a examinar as questões que causavam a nossa separação espiritual.

Contudo, ambos sabíamos – e era a minha convicção profunda - que os nossos filhos pertenciam primordialmente a Deus sob a orientação espiritual do Scott. Isso queria dizer que, mais tarde ou mais cedo, nalgum momento, seriam educados como católicos independentemnete de eu ser protestante ou católica.

Que pudesse ser brevemente o único membro protestante da minha família era para mim algo extraordinariamente doloroso. Mal podia suportar a idéia da solidão que sentiria nessa situação.

De fato, em breve essa idéia perturbou o meu profundo desejo de ter outro filho. Disse ao Scott que não ia dar à luz mais crianças para o Papa! Afortunadamente, em poucas semanas, o Senhor utilizou o meu desejo de ter mais filhos, e o meu amor ao Scott para abrir meu coração à vontade de Deus em relação aos filhos.

Tinha que ser obediente ao Senhor estando aberta a novas vidas e confiando-Lhe as conseqüências que pudessem derivar da pertença do Scott à Igreja.

Habitualmente o Scott guardava os objetos religiosos – terços, escapulários e imagens – no escritório, mas ás vezes, encontrava-os em cima da cômoda. (Comecei a notar em mim certos ciúmes em relação à Maria) similares aos que, como tinha ouvido, os homens sentiam em relação a Jesus quando as suas mulheres se tornavam cristãs.

Eu estava em clara desvantagem; supostamente ela era pura, amável, uma companhia maravilhosa, gentil, compassiva; em contraste, eu não tinha a mesma amabilidade com o Scott.

Quando ele saia para dar uma volta, sabia que era para rezar o terço à Maria. Agradecia-lhe que não o rezasse na minha frente, mas sentia ciúmes de que pudesse dedicar tempo e passear e a falar amenamente com ela, e parecesse não ter tempo para fazer o mesmo comigo.

Um dia, quando o Scott se preparava para dar testemunho da sua conversão ao catolicismo, rebentei:

- Não consigo entender porque é que Deus pode pegar num jovem casal, uns esposos bem instruídos e comprometidos numa visão unânime da vida e num apostolado em comum, para por as suas vidas completamente às avessas, de modo a irmos agora em direções diferentes. Porque terá Ele querido isso?

Não esperava a resposta do Scott. Observou:
 

- Será possível que Deus nos ame tanto? Uma vê que por ti própria nunca te terias interessado em conhecer o catolicismo, talvez Ele me tenha convertido a mim primeiro e me tenha feito passar por esta terrível solidão – isolado de muitos protestantes, e de tantos católicos da Universidade, a quem não interessa nada o que fiz, para não falar da solidão entre nos os dois – para te poder mostrar gradualmente a beleza da Igreja Católica, para te acolher também a ti no Seu seio, para te abençoar com os Seus sacramentos, para te dar a plenitude da fé que já possuis.

Disse-lhe:
 

- É difícil ver tudo isso como amor, mas calculo que é possível.

Tinha que admitir que, realmente, por minha própria iniciativa, nunca me teria interessado pelo catolicismo. E acrescentei:
 

- Só que não fiques aí a espera de me ver por aí a correr para dar o meu testemunho, se é que me converto.

O Scott respondeu rapidamente:
 

- Não quero que te convertas a não ser quando estiveres ansiosa por partilhar a tua fé.

Dizendo isto, afastou-se saindo pela porta, e para ali fiquei eu, de novo a sós com os meus pensamentos.

As vagas de sofrimento afogavam-nos por separado, enquanto contemplávamos a morte de tantos sonhos. Sei que o sofrimento é uma emoção que pode parecer demasiado forte para ser aplicada ao nosso caso, mas de fato não me vem à cabeça uma palavra melhor. Ambos estávamos sofrendo uma morte lenta, sem sequer ter a certeza de que pudesse haver alguma espécie de ressurreição mais tarde. O Scott pelo menos tinha o consolo de acreditar que estava a fazer a vontade de Deus. Eu não tinha essa certeza.

A minha amargura era diferente da dele. Sofria por já não poder ser a esposa de um pastor, como tinha sido o meu sonho toda a vida. Não via como me podia encaixar na missão do Scott de formar sacerdotes, que era o que agora ele dizia que queria fazer; tínhamos planejado aconselhar jovens casais na preparaçao do casamento, coisa que não tem cabimento num seminário católico.

A possibilidade de voltarmos tanto ao Grove City College como ao Seminário Teológico Grodon-Conwell para lecionar, outro sonho que ambos tínhamos alimentado, tinha-se esfumado. O futuro era incerto quanto à possibilidade do Scott poder algum dia voltar a ensinar ao nível para que tinha se formado.

Sempre tinha desejado que todos os meus filhos se dedicassem a tempo completo a servir o Senhor, mas agora dava-me conta de que, se eles o fizessem, tinha de resignar-me a não ter netos. (como protestantes, tanto o meu pai, como o meu irmão e o meu marido eram ministros casados, pelo que nunca tínhamos tido que pensar no celibato).

Embora pareça uma minúcia, temia também a possibilidade de ver a nossa casa abarrotada de artigos religiosos. Quando um amigo nos deu um crucifixo na presença de um grupo de pessoas fiquei sem palavras. Tudo o que consegui pensar foi: Já tens o meu marido; não queiras agora decorar a minha casa!

Felizmente o Scott teve o acerto de dizer ao aceitar:
 

- Já sei ponde o vou por, no escritório.

O nosso querido amigo não fazia a menor idéia do sofrimento que isto me causava. E não havia ninguém com quem o partilhar, para sentir algum alivio.

Já não mantínhamos nenhuma conversa teológica de alguma profundidade que não acabasse numa áspera discussão. O Scott tinha sido o meu melhor amigo, com quem partilhara o meu sofrimento. Mas agora, como podia fazê-lo, se ele era precisamente a causa maior dos meus pesares? Também o Scott teria podido suportar mais facilmente a solidão se me tivesse tido ao seu lado, mas eu não podia nem queria ajuda-lo a levar esse peso, ao fim e ao cabo, tinha sido uma decisão dele, e estas eram as conseqüências.

O Scott sofria de fato um isolamento atroz. Era mal interpretado e rejeitado por muitos amigos protestantes, que não lhe falavam pelas mesmas razões pelas quais eu não lhe falava. (Alguns amigos suportaram-nos até eu me converter; a partir de então, também eles rejeitaram a nossa amizade).

Sentia que alguns antigos professores pensavam que nem sequer valia a pena procurar convencê-lo de que estava enganado. E também não conseguia entender a indiferença de muitos católicos de Marquette pela sua conversão; católicos que mostravam total desinteresse pela sua experiência, em lugar de lhe proporcionarem acolhimento por tudo o que tinha arriscado e deixado para trás.

E, para cúmulo, tinha começado a viver como católico no seio de uma família protestante, indo à Missa sozinho (o que continuou a fazer durante dois anos e meio), e sem partilhar os aspectos específicos da sua fé com as crianças, uma vez que ainda não tinha chegado o momento oportuno.

O isolamento entre nós era cada vez mais insuportável. Tínhamos sido tão amigos e partilhado tanto das nossas vidas! No seminário muitas mulheres não se interessavam pelos estudos dos maridos mais do que se teriam interessado por entender folhas de balanços ou leis de impostos se os seus maridos fosse contabilistas. Mas eu tinha caminhado sempre ao lado do Scott, estudando com ele, lendo os seus textos e aprendendo com ele.

Agora, em lugar de partilhar as suas descobertas e alegrar-me com ele, odiava conhecer os detalhes. Optei por ler os seus trabalhos sem grande atenção, embora fosse eu que os passava à maquina. (Se se escreve com bastante rapidez, não é necessário ler o texto.) Como podia o Scott partilhar a sua carga de sofrimento comigo, se eu era a principal causa dessa dor?

O meu único consolo era a Bíblia. Mas comecei a ter medo de pesquisar nela, porque o Scott insistia em que a Bíblia dizia uma coisa diferente do que eu pensava. O Scott proclamava que a Bíblia o tinha conduzido à fé católica. Mas a Bíblia era a base da minha fé! Em certa ocasião lançou-me esta pergunta:
 

- Qual é a coluna e o fundamento da verdade?
 

Repliquei rapidamente:
 

- A palavra de Deus.

Disse-me:
 

- Então por que é que S. Paulo em I Timóteo 3, 15 diz que é a Igreja? Por que é que não lhes vem a cabeça esta resposta aos protestantes?
 

- Porque isso só esta na tua Bíblia católica, Scott.

Ele então abriu a minha Bíblia e mostrou-me esse versículo que não me lembrava de ter lido nunca antes.

Não tínhamos simples conversas sobre teologia, tínhamos autênticos debates teológicos. Às vezes as discussões entre nos duravam até as duas ou três da manha e no dia seguinte ao pequeno almoço o Scott me perguntava se tinha tido novas idéias. Começávamos tentando manter uma discussão cordial sobre teologia, mas sempre se tornava muito penosa e difícil. Então parávamos, recuávamos cada um para o seu canto, por um tempo. Era uma aflição renovada.

Alguns amigos diziam-me que uma esposa se devia submeter ao marido, que não interessava o que tivesse na cabeça. Não entendiam porque é que não dava um passo em frente e me convertia. Outros amigos protestantes recordavam-me continuamente que continuavam a rezar para eu conseguir agüentar até o Scott reavaliar. E havia católicos que diziam: “Qual é o problema? Se Maria é um incômodo para ti, simplesmente coloque-a de lado.

O Scott continuava comigo porque não era a favor do divórcio. E na realidade eu também não. Quando casamos concordamos em sequer fazer brincadeiras com esta palavra, de tal modo era profundo o nosso modo de pensar sobre este tema. E, contudo, houve dois momentos nesse primeiro ano a seguir à conversão do Scott nos quais, vagueando pela casa, me interroguei: Posso deixá-lo? Até pensava para que hotel iria e o que faria depois, porque não suportava o peso desta aflição: fisicamente feria o meu coração e emocionalmente sentia-me destroçada. A única coisa em que conseguia pensar era em ir-me embora.

Mas sabia que não podia me afastar do Scott sem ao mesmo tempo me afastar de Deus. E afastar-me de Deus era condenar-me a mim própria ao Inferno. A existência de ambos, de Deus e do Inferno, era demasiado clara para mim para continuar a pensar em escapar, graças a Deus. Assim, durante dez minutos, Deus dava-me força suficiaente para resistir outros dez. E depois sentia-me capaz de ficar e de agüentar mais tempo.

Esta passagem do capitulo 3 das Lamentações expressa bem a agonia do meu coração e a minha luta para recuperar a esperança no Senhor:

“Cravou nos meus rins as flechas da sua aljava.
 

Quebrou-me os dentes com uma pedra, e mergulhou-me na cinza.
 

A paz foi desterrada da minha alma. Já não sei o que é a felicidade.
 

E eu disse: Desapareceu a minha força, bem como a minha esperança no Senhor.

Lembra-vos dos meus tormentos e misérias, que são para mim absinto e veneno.
 

A pensar nisto sem cessar, a minha alma desfalece dentro de mim.
 

Eis porem o que hei de recordar para recuperar a esperança:
 

É graças ao Senhor que não fomos aniquilados; sim, não se esgotou a Sua misericórdia.
 

Cada manha se manifesta; é grande a sua fidelidade.
 

O Senhor é a minha herança, disse a minha alma, por isso esperarei n’Ele”.

De certo modo, tinha esperança: não pelo Scott ou por mim, mas pela fidelidade do Senhor. De algum modo, o Senhor renovaria a sua misericórdia comigo – e com o Scott - para termos todos os dias a Graça que necessitávamos neste difícil momento.

O Scott amava cada vez mais os símbolos da catolicidade, embora sem ostentação. Fazia o sinal da cruz ao rezar. Tinha um crucifixo no escritório. Ouvi-o rezar uma Ave Maria com um amigo. Cada uma destas coisas era uma punhalada no meu coração. Cada uma, uma recordação da nossa desunião.

A ausência da alegria na minha salvação era muito intensa. E isto se tornava às vezes particularmente penoso, porque conseguia adivinhar quanta alegria o Scott procurava dissimular. Mesmo no meio da sua dor, ele realmente experimentava a alegria do Senhor em moldes novos, especialmente através da Eucaristia. Uma e outra vez perguntava ao Senhor no meu diário de oração: “Onde está a alegria da minha salvação? Sei que fui salva. O Scott nem sequer põe isso em dúvida, mas onde está a minha alegria e porque é a dele tão forte?

Era muito recalcitrante, é o melhor adjetivo que consigo usar. Teria desejado estudar, mas ao mesmo tempo, tinha medo. Às vezes ele vinha e dizia-me:
 

- Kimberly, queres ler só um parágrafo deste artigo?
 

- É acerca de Maria?
 

- Sim
 

- Então não. Por favor, sai. Não poderias encontrar alguma sobre a qual podemos ler e conversar?

Um converso instruído e conservador não é uma pessoa com quem seja fácil conviver (naquela época, eu talvez não tivesse lido muito, mas tinha ouvido teologia suficiente para obter outro Máster). Para ele, conviver com uma pessoa de mente fechada e avessa a conversar também era muito difícil.

O mais duro de todo este tempo era não conseguir entender onde estava Deus, porque não conseguia dizer se Deus estava do lado do Scott ou do meu lado. Após uma noite em que derramei o meu coração diante do Senhor com muitas lagrimas, escrevi esta ‘conversa’ com Deus no meu diário de oração.
 

Estás no Céu, irritado com este prolongado capricho emocional, ou estás a chorar comigo, Senhor? Sustenta-me ou estás a puxar por mim para me levantar? Não te quero obrigar a tomar partido pelo Scott ou por mim, Senhor, mas onde é que Tu estás em tudo isto?

Estou na Cruz, a sofrer precisamente pelos pecados que ambos estais a cometer agora. Eu sou o Senhor elevado e entronizado, que vos está a chamar a um casamento que me exemplifique a Mim e à Minha Igreja.
 

“Senhor podemos fazer isso num casamento misto?”
 

Não, essa não pode ser a Minha vontade
 

“Qual é a Tua vontade, Senhor, e como é que podemos seguir, enquanto procuramos descobrí-la? Como podemos crescer mais no meio deste sofrimento, Senhor? Posso ser leal ao Scott, aos amigos e à família? A quem posso contar as minhas penas? Por favor, renova em mim a alegria da salvação. Que eu Te possa louvar enquanto viver. Digna-Te, meu Deus, curar as minhas feridas e restaurar-me. Por favor, dá força ao Scott neste tempo de sofrimento, e o conduz pelos caminhos da verdade”.

O desespero batia-me continuamente à porta. O Scott sempre tinha dito que o meu maior defeito era ser patologicamente positiva. Mas durante este tempo tive que lutar duramente contra o desespero. Algumas das cruzes que carregávamos então tinham sido fabricadas por nós, outras, fabricamos um ao outro.

Quando uma amiga católica rezou por mim, comentou que a frase que tinha recebido do Senhor era que ao Scott e a mim se nos tinha confiado um ‘apostolado do Corpo destroçado de Cristo’.
 

A angústia que sentíamos no nosso casamento era similar à tristeza e desgarramento produzido pela Reforma e outros cismas. Deus tinha-nos dado um dom precioso, que podia durar muito pouco tempo.

Precisávamos conservá-lo como algo bom. Eu não fazia idéia de se era esse ou não o plano de Deus, mas certamente sentíamos dia a dia o desgarramento que desde a Reforma afetava as famílias. E agora também nós sofríamos a dor dessa separação.

O trabalho como voluntários converteu-se num laço que nos ajudou muito a trabalhar juntos. Combater ao lado um do outro o aborto e a pornografia dava-nos metas comuns e fortalecia o nosso casamento, tanto ao exercer uma tarefa comum como al aumentar as nossas amizades. Ajudava-nos a concentrar-nos no que estava à nossa volta, quando olhar para o interior se tornava demasiado penoso.

No natal de 1986 soubemos que tinha a caminho outro filho. A frase que o Senhor me sugeriu foi: “filho da reconciliação”. Eu dizia continuamente: Ó meu Deus, isto significa que será um filho católico? Significa que me terei de tornar católica? E imediatamente começava a rezar.

A reflexão seguinte era: Como será batizado este filho? Era uma questão crítica. Acreditava no Batismo das crianças, mas assistia a uma Igreja protestante que não acreditava. Sempre tinha sonhado que o meu pai batizaria os nossos bebês, mas já não via como isso seria possível. E além disso, batizar como católico o nosso filho era admitir que pertencesse à Igreja Católica.

Foi uma decisão muito custosa. Tratou-se de uma luta interior, pos na realidade o Scott e eu nunca discutimos este ponto. Deus foi muito bom guiando o meu coração para longe de qualquer disputa com o Scott. Reconhecê-lo como o líder espiritual de nossa casa tornou-me fácil permitir que o bebê fosse batizado como católico. Por fim cheguei a ter uma grande paz em relação a este ponto, e quase fiz o Scott desmaiar quando, com toda a calma, lhe pedi para falar com o Monsenhor Bruskewitz, para batizar o Bebê quando nascesse.

Pouco antes de nascer a nossa filha, tive uma conversa importante com o meu pai. É um dos homens mais piedosos que conheço. Foi realmente o pai que eu necessitava para me conduzir ao meu Pai Celeste. Detectou tristeza na minha voz e perguntou-me:
 

- Kimberly, rezas a oração que eu rezo todos os dias? Dizes: “Senhor irei onde Tu quiseres que vá, farei o que Tu quiseres que faça, direi o que Tu quiseres que diga, e entregarei o que Tu quiseres que entregues”?
 

- Não Papai, nestes últimos dias, não tenho rezado essa oração.

Ele não fazia idéia da agonia por que eu estava passando pelo fato do Scott ser católico. Disse sinceramente afetado:
 

- Não rezas?!
 

- Papai, tenho medo. Tenho medo que rezar essa oração possa implicar a minha adesão à Igreja Católica. E eu nunca hei de ser uma católica!
 

- Kimberly, não creio que isto signifique que te tenhas que tornar católica. O que significa é que ou Jesus Cristo é o Senhor de toda tua vida ou não é o teu Senhor. Não dizes ao Senhor aonde queres ou não queres ir. O que lhe dizes é que estás á disposição d’Ele. Isto é o que mais me preocupa, mais do que o fato de te tornares católica ou não. Caso contrario, estás a endurecer o coração para o Senhor. Se não consegues rezar esta oração, pede ao Senhor a graça de a poderes rezar, até conseguires. Abre-lhe o coração: podes confiar n”Ele.

Corria muitos riscos ao dizer isso

Durante trinta dias rezei diariamente: “Deus meu, dá-me a graça de conseguir rezar essa oração”. Tinha muito medo de estar a selar o meu destino ao rezá-la: teria que me despojar da minha capacidade de pensar, esquecer o que houvesse no meu coração, e seguir o Scott como uma imbecil na Igreja Católica.

Por fim, senti-me disposta a rezá-la, confiando ao Senhor as conseqüências. O que descobri foi que eu própria tinha construído uma jaula, e, em vez de fechá-la à chave, o Senhor abriu as portas para me deixar em liberdade. O meu coração saltava. Agora me sentia livre para querer começar a estudar e a investigar, para começar a examinar as coisas com certa dose de alegria outra vez. Agora podia dizer: “De acordo, Senhor, não eram os meus planos para a minha vida, mas os Teus sonhos são excelentes para mim. O que é que queres fazer no meu coração? No meu casamento? Na nossa família? Quero saber”.

A 7 de Agosto de 1987 nasceu Hannah Lorraine. Recebemos a nossa primeira filha com grande alegria, e com grande alívio, e por a situação de placenta prévia e de sangramento intermitente ter acabado. Este bebê é outro símbolo vivo do poder da oração, e uma testemunha do nosso amor permanente, mesmo no meio dos maiores sofrimentos e lutas.

Assisti ao Batismo de Hannah sem sequer saber se o sacerdote ia me dizer: “Senhora Hahn, quer fazer o favor de se sentar aí enquanto eu batizo a sua filha?” Tudo o que sabia era que, em obediência a Deus, ela tinha que ser batizada como católica.

Assim que entramos, Monsenhor Bruskewitz deu-me as boas vindas, e convidou-me cordialmente a fazer e a dizer tudo que em consciência pudesse dizer e fazer. Embora me tivesse mantido calada durante a invocação aos santos, e no meu coração dissentisse da sua explicação sobre o batismo, participei com todo o entusiasmo que pude.

Fiquei assombrada com a beleza, que para mim inesperada, da liturgia batismal. Ali estava tudo o que eu teria querido pedir para a minha filha. A certa altura, precisamente antes do sacerdote terminar de rezar uma impressionante oração, pedindo que a nossa filha ouvisse e respondesse ao Evangelho, apertei a mão do Scott da pura alegria que sentia nesse momento. (Ele temeu que estivesse a agarrar a sua mão para não desatar a correr.).

Não tive a impressão de que Hannah ficasse atada e presa pela carga de ser católica (como nalgum momento cheguei a temer), mas, pelo contrario, de que tinha lido libertada para ser a filha de Deus que estava chamada a ser.

Ao sair de S. Bernardo naquele dia, Deus tinha feito algo grande no meu interior. Disse ao Scott: “Sei que hoje é um dia decisivo para mim”.

Não era certamente o único mas era muito importante.


Uma Roma-ântica Reunião

Scott

Pouco antes de se mudarem para Joliet, a Kimberly e Scott compraram a sua primeira casa, apenas a três quarteirões de distância de Saint Francis College. Mudaram para lá menos de um mês depois de Kimberly ter dado a luz a Hannah.

Estava ainda a recuperar da terceira cesariana, enquanto Scott acabava de completar os requisitos de linguas, fazendo os exames de frânces e de alemão. E no meio de tudo isso, tinha ainda que preparar as quatros cadeiras que devia começar a lecionar num prazo de menos de duas semanas.

Trabalhar com estudantes universitários foi alentados e proveitoso. Rapidamente se deu conta de que muito poucos, ou nenhum dos seus alunos católicos conheciam realmente a doutrina católica, mesmo nos aspectos mais básicos.

Por isso foi muito gratificantes ajudar "católicos de berço" a descobrirem as riquezas da sua própria herança espiritual, especialmente da Escritura. Scott começou um curso biblico semanal com uma dúzia de jogadores da equipe de futebol, e passava muito tempo com os estudantes fora das aulas.

Viver a três quarteirões da univerdade revelou-se uma grande vantagem para estabelecer novas relações.

Ao longo de 3 anos deu-se conta que se necessitava algo mais do que um sincero desejo por parte de uns quantos membros da administração e da faculdade, para recuperar a identidade católica de uma Universidade que já tinha avançado bastante pelo caminho da secularização.

As vezes travava-se uma autêntica luta. Foi o seu primeiro encontro direto com católicos que tinham abandonado a sua fé, mas não queriam largar as suas posições de poder. Felizmente teve o privilégio de trabalhar num departamento com 4 grandes colegas: John Hittinger, Greg Sobolewski, a irmã Rose Marie Surwillo e Dan Hauser.

Um dia, no emprego, rebeceu um telefonema de Bill Bales, um ex-amigo do seminário, que era nessa altura pastor presbiteriano da Virginia. Telefonava para pedir desculpas por algo que tinha feito, quando a Kimberly e as crianças tinham estado de visita em sua casa sem Scott, quase um ano antes.

Bill falou num tom calmo e tranquilo:

- Scott tenho que te pedir desculpa.
 

- Por que, Bill? Para mim é um prazer o simples fato de que ainda queira falar comigo!
 

- Scott, receios que sejas tu que não queiras falar comigo 
quando te disseram o que fiz.
 

- Está bem, Bill, o que é que fizeste?
 

- Há alguns meses, a tua mulher comentou comigo os teus argumentos católicos; creio que ela esperava que lhe desse muitos meios para os refutar. A verdade é que não tinha nenhuma resposta preparada, em lugar disso, sugeri-lhe que considerasse se não teria bases bíblicas para se divorciar de ti.

Aquelas palavras foram um duro golpe, mas sentia-me tão contente por poder estar novamente num plano de dialogo que recuperei muito depressa.
 

- Não te preocupes, Bill. Como sabes, se tivesse acontecido comigo há cinco anos, eu próprio teria aconselhado o divórcio numa situação similar.

Bill fez uma pausa e ganhou alento.
 

- Há ainda outra coisa, Scott.

Scott não tinha certeza de conseguir aguentar um segundo tiro de canhão tão depressa.
 

- O que, Bill?
 

- Bom, disse a Kimberly que lhe voltaria a telefonar para lhe dar sólidos argumentos para rebater as tuas idéias católicas.
 

- Sim... continua.
 

- Pois, já passou bastante tempo, e não consegui encontrar um único.

Scott mal podia conter o tom triunfante. 


- Bill, essa é uma ofensa desculpável, se é que é ofensa.
 

- Obrigado, Scott, mas não te estou a pedir desculpa por isso. O que quero é pedir-te ajuda. Nestes meses dediquei-me muito a pensar e a ler sobre o catolicismo e há vários temas e questões sobre os quais queria falar contigo.

Scott percebeu imediatamente aonde queria chegar.
 

- Bill, diz-me só: estás a perceber a força dos argumentos bíblicos a favor da religião católica?
 

- Acho que sim.
 

- Sentes um certo pânico ao ponderar as implicações que a longo prazo isto teria para ti como pastor presbiteriano?
 

- Mesmo que não acredites, assim é.

Nessa altura Scott já sabia a verdadeira razão de seu telefonema. Foi o primeiro de muitos outros. Ao longo do ano seguinte, o Bill telefonava com perguntas suscitadas pelo seu próprio estudo intensivo da teologia católica.

Para Scott, Bill era um caso especial. No seminário ultrapassava a todos em compreensão e amor ao hebreu. Colava páginas fotocopiadas da Bíblia hebréia nas paredes do escritório, apenas para o ajudarem a estudá-la e a memorizá-la.

Depois da licenciatura, Bill tornou-se ministro presbiteriano, servindo como pastor auxiliar de Jack Lash, o seu mais íntimo ex-amigo dos tempos do seminário. Bill ainda ali era ministro quando lhe telefonou. Naqueles bons tempos, quando Scott ainda era calvinista, Jack pediu-lhe que pregasse no se serviço de ordenação e de tomada de posse.

Desde que Scott se tornou católico, não voltou a lhe falar. Após meses de estudo e debates telefônicos periódicos, a orientação do Bill foi se tornando mais clara. As investigações estavam a conduzi-lo cada vez mais perto de Roma.

O Jack e os anciãos da sua igreja tomaram pedidas para contra atacar a sua possível deserção. Às vezes isso chegou a ser cruel e desagradavel, e só conseguiu intensificar a decisão da sua mulher de estudar o catolicismo com mais imparcialidade. Como resultado, ambos, juntamente com a Kimberly, continuaram a ler e a discutir cada vez mais.

Até esse momento as táticas de confronto de Scott com Kimberly não tinham conseguido nada construtivo. As tentativas de a fazer participar nos debates eram infrutuosas, e todos os livros que lhe recomendava, eram automaticamente descartados. Deus estava a ensiná-lo a ceder, para que o Espírito Santo tivesse mais campo para atuar.

Em vez de continuar a apresentar argumentos apologéticos, Scott optou por partilhar seus sentimentos pessoais; mas não como uma estratégia alternativa que lhe permitisse manipulá-la com mais resultado; simplesmente este era o único modo de poder afrontar a suas diferenças com respeito e amor.

Pouco a pouco Scott foi aceitando o fato de que talvez a Kimberly nunca chegasse a tornar-se católica, e de que a sua conversão não devia ser o seu pereme objetivo.

Depois de se mudarem e de terem encontrado novos amigos na comunidade, a Kimberly e ele começaram a encontrar a espécie mais dura de anti-católicos que alguma vez tinham conhecido: os ex-católicos fundamentalistas. Ao contrário de qualquer anti-católico protestante normal, que desfruta sobretudo com manter intensos debates bíblicos sobre temas católicos, como Maria e o Papa, os anti-católicos fundamentalistas entre os quais estavam metidos, estavam cheios de tal raiva e ressentimento em relação a Igreja, que eram totalmente incapazes de um discurso racional.

Para eles , Scott estava possuído pelo demônio e pressionaram a Kimberly para que nem se quer o ouvisse, pois satanás estava a utiliza-lo para a confundir as suas mentiras.

Graças a Deus, com uma mulher tão inteligente e independente como a Kimberly, semelhante conselho era um tiro pela culatra. A maior parte das vezes, procurava dialogar com anti-católicos fundamentalistas que manifestavam preocupação pela sua salvação. Apreciava os seus zelo apostólico.

Certa noite, depois do jantar, Scott contou a Kimberly uma conversa que mantivera nesse dia com um fundamentalista que, quando soube que ele era católico, começou diretamente a tentar evangelizá-lo.

Naturalmente, começou por peguntar:
 

- Você nasceu de novo?

Scott respondeu:
 

- Sim, claro que sim. Mas, o que é que você quer dizer com isso?

Mostrou-se surpreendido.
 

- Aceitou Jesus Cristo com seu Senhor e Salvador?

Scott sorriu abertamente e disse-lhe:
 

- Sim, evidentemente. Mas não é por isso que nasci de novo. Nasci de novo pelo que Cristo, atráves do Espírito Santo, fez em mim quando fui batizado.

Ainda se mostrou desconcertado pelo que Scott continuou:
 

- Bem vê, em parte nenhuma a Bíblia afirma: "Tens que aceitar Jesus Cristo como teu Senhor e Salvador pessoal". É bom fazê-lo, mas não era disso que falava Jesus quando disse a Nicodemos em João 3,3 que tinha que "nascer de novo".
 

Jesus esclareceu o que queria dizer ao afirmar apenas dois versículos mais adiante: "Tens que nascer da água e do Espírito", com o que Ele se referia ao batismo. João esclarece o leitor sobre esse ponto, já que ao terminar de descrever o discurso de Jesus nos versículos 2 a 21, afirma no versículo que "depois disto, Jesus e seus discípulos foram ao território da Judéia; ali esteve com eles e batizava".

E uns quatro versículos mais a frente, João relata como os 

"fariseus ouviram dizer que Jesus estava a fazer e a batizar mais discípulos que João". Por outras palavras, quando Jesus diz que devemos "nascer de novo", está a se referir ao Batismo.

De bom grado reconheceu a Kimberly que atuara com demasiada força. De passagem, explicou-lhe por que razão lhe parecia que era errôneo da parte dos fundamentalistas pensarem que os católicos não são verdadeiros cristãos, pelo simples fato de não usarem certas frases bíblicas no mesmo sentido que eles, especialmente quando os próprios fundamentalistas nem sequer interpretavam adequadamente essas mesmas frases dentro do seu contexto original.

Estava totalemnte de acordo com ele.

Pouco depois disto, Scott regressou de uma conferencia para teólogos na Franciscan University of Steubenville. Fora a primeira vez que estivera ali. Ficou surpreendido por encontrar tantos católicos ortodoxos e de grande zelo apostólico.

E mais surpreendido ficou com o que viu na Missa do meio-dia: a capela estava repleta com centenas de estudantes que cantavam com todo o coração, mostrando um grande amor a Cristo na Sagrada Eucaristia.

Mal podia esperar para contar a Kimberly tudo isto. Sentiu-se comovida ao saber que o zelo apostólico com que ela tinha crescido, também podia encontrar no seio da Igreja católica.

Scott comentou a um amigo da paróquia os seus esforços para dar a conhecer a doutrina católica a sua mulher, que era evangélica. Descreveu-lhe o entusiasmo nos cânticos, a dinamica pregação bíblica e a cálida camaradagem, tudo coisas que a Kimberly tinha experimentado desde a infância.

Ele fez uma observação curiosa.
 

- Scott, pessoalmente creio que os protestantes tem todas estas coisas porque não tem o Santíssimo Sacramento. Se tens a presença real de Cristo na sagrada Eucaristia, não precisas nada disso. Não achas?

Scott mordeu a língua. Não queria se exaltar, mas precisava de corrigir o que lhe pareceu um equívoco inquietante.
 

- Acho que percebo o que queres dizer: que o culto eucarístico pode ser silencioso e reverente, sem perder nada da sua profundidade e poder. Nisto estou de acordo. De fato começo a ter um real apreço pelo canto gregoriano e pelo latim na liturgia.
 

Mas eu apresentaria as coisas de outro modo. Diria antes que, porque nós temos a presença real de Cristo na Sagrada Eucaristia por isso precisamente - muito mais que os protestantes - temos motivo para cantar, para pregar, para "celebrar" juntos.

Houve um momento de incomodo silencio.
 

-Ah, sim! Se pões as coisas assim, quem não estaria de acordo?

Pensando em voz alta disse:
 

- Por que razão, então, nem sempre vemos as coisas desse modo?

Ele não teve resposta e Scott também não.

Scott sempre se perguntou por que razão tantos católicos não aprofundam mais nos mistérios da sua fé. Sempre o surpreendeu como todos e cada um dos mistérios estão enraizados Escritura, centrados em Cristo e de certo modo atualizados e proclamados na liturgia da Igreja , a família de Deus baseada na Aliança.

Foi algo que começou a ganhar força dentro de Scott um dia depois de ter assistido a Missa no Dia dos Fiéis Defuntos.

A Kimberly quis saber o significado da celebração. Ao fim de pouco tempo a conversa começou a derivar para um novo combate sobre a doutrina do Purgatório.

Scott decidiu transpor a doutrina para uma chave mais ampla, por assim dizer, enquadrando-a em termos do amor de Aliança de Deus.
 

- Kimberly, a Bíblia mostra-nos quantas vezes Deus se revelou ao Seu povo na forma de fogo, para renovar a Sua Aliança com ele: "Como forno fumegante e como tocha de fogo" com Abraão, em Genesis 15; na sarça ardente com Moisés, em Exodo 3; na coluna de fogo em Israel, em Números 9; como fogo celeste que consome os sacrifícios do altar com Salomão e com Elias, em I Reis 8 e 18; nas "línguas de fogo" em Pentecostes com os Apóstolos, em Atos 2,....

A Kimberly interrompeu:
 

- Está bem, Scott, qual é a tua idéia?

Era a oportunidade de por as coisas no seu lugar.
 

- Apenas isso: Quando Hebreus 12,29 descreve Deus como "um fogo consumidor", não se está a referir necessariamente a sua cólera. Existe o fogo do Inferno, mas há um fogo infinitamente mais abrasador no Céu: é o próprio Deus.
 

De maneira que o fogo se refere ao infinito amor de Deus , muito mais do que a sua eterna cólera. A natureza de Deus é como uma ardente fogueira de veemente amor. Por outras palavras, o Céu de certeza que é mais cálido do que o inferno.
 

Não é estranho, portanto, que a Escritura se refira aos anjos mais próximos de Deus como serafins, que literalmente quer dizer "abrasadores" em hebreu.
 

Por isso tambem, São Paulo pode descrever em I Coríntiso 3,13 como todos os santos devem passar através dum juízo ardente no qual " a obra de cada um ficará a descoberto; manifestá-la-á no Dia que se há de revelar pelo fogo"...
É evidente que não está a falar do fogo do Inferno, posto que os que são julgados são santos. Está a falar do fogo que os prepara para a vida eterna com Deus no Céu; de maneira que o propósito do fogo é claro: revelar se as suas obras são puras (ouro ou prata) ou impuras (madeira, feno, palha)
 

O versículo 15 esclarece que alguns santos que estão destinados ao paraíso passarão através do fogo e sofrerão: 

"Mas aquele cuja obra fique abrasada sofrerá o dano; ele, contudo, ficará a salvo, mas como que passa através do fogo".
 

É portanto um fogo purgatório, que serve para purificar e preparar os santos que estarão envolvidos no fogo abrasador da presença eterna do amor de Deus.

Scott tinha falado muito, talvez demasiado. Permaneceu sentado a espera que a Kimberly reagisse com raiva e frustração, como tinha feito sempre que ele puxava o tema do Purgatório. Mas desta vez ela também ficou ali sentada, em silêncio, com semblante reflexivo.

Podia dizer pela expressão dos seus olhos, que estava a avaliar o que acabava de ouvir. Decidiu não prosseguir, pelo menos de momento.

Em meados do semestre de outono de 1989, Scoot, recebeu, como caído do Céu, um telefonema de Patrick Madrid da Catholic Answers, considerada a melhor organização apologética de todo o país.

Com sede em São Diego, a Catholic Answers foi fundada por Karl Keating, autor de Catholicism and Fundamentalism, o melhor livro que conhecia para ajudar as pessoas a combaterem os ataques fundamentalistas contra a Igreja. Foi bom poder por fim contactar com espíritos tão afins.

Estiveram em contacto constante durante as semanas seguintes. Enquanto falávam acerca de futuras possibilidades de trabalho, pediram-lhe que os visitasse para uma entrevista informal e para dar um seminário de uma noite na igreja S. Francisco de Sales de Riverside, na Califórnia. Rapidamente ficou tudo combinado.

Depois de três anos e meio a procura de almas que pensassem como ele, o encontro com Karl e Patrick foi como sentir-se no oasis. Sábado a tarde, nos escritórios da Catholic Answers passou a maquina rapidamente um resumo da palestra que daria no seminário a noite.

Consistiria num testemunho de sua conversão ao catolicismo, de um pouco menos de uma hora, seguido de perguntas e respostas. A palestra era parecida a que tinha dado dezenas de vezes; mas desta vez resultou diferente de todas as outras.

Converteu-se n'A gravação.

(conhecida também como Um ministro protestante torna-se Católico). 

Dez minutos antes de começar, apresentaram a Scott Teery Barber, da Saint Joseph Comunnications, que estava a preparar apressadamente o equipamento de gravação para a palestra.

Enquanto colocava o microfone, explicou-lhe que ele e a sua flamante esposa, Daneille, acabavam de chegar de lua de mel em Fátima. Justificou tambem o seu atraso: tinha andado a gravar palestras em cinco sítios diferentes nesse dia.

Terry parecia ter tomado a última da hora a decisão de vir a palestra. Nesse momento, Scoot não se importou absolutamente nada com isso; mais tarde ambos agradeceram o fato eternamente.

Às 7,30 em ponto Scott foi apresentado a um pequeno grupo de trinta e cinco pessoas. Depois de falar pouco mais de uma hora - nunca acabou nada a tempo - houve um pequeno intervalo e Scott voltou para a sessão de perguntas e respostas.

Quando tudo acabou, dirigiu-se a parte posterior da sala, para falar com o Patrick. Enquanto se falavam, o Terry subiu a correr, agitando uma cassete de gravação.
 

- Deus vai servir-se desta gravação, meu amigo! Tenho a certeza.

Scott se sentiu contente de o ver com tanto estusiamo, mas, tendo dado a mesma palestra em tantas outras ocasiões, nas quais tinha sido gravada, não pensava como ele.

Disse a si mesmo, que pouco preparado estava esta noite... Noutras ocasiões correu muito melhor. Talvez esta tenha sido a razão pela qual Nosso Senhor escolheu servir-se desta palestra em particular de uma modo tão poderoso: para que ninguem se atribuísse o mérito que só a Ele corresponde.

Scott voou de regresso a casa, em Joliet, e contou a Kimberly tudo o que se referia ao fim de semana com a Catholic Answers, nem se incomodou a contar-lhe o seminário da noite. Ainda lhe parecia algo sem importância.

No dia seguinte, foi de novo dar as suas aulas.

Passaram algumas semanas antes de ter novamente notícias de Terry. Telefonou-lhe para dizer que tinha enviado dezenas de cópias gratuítas de sua gravação a vários católicos eminentes e a grupos de todo país.

Terry comentou que estava a ter uma resposta maravilhosa.

Pouco imaginava Scott que aquela gravação mudaria a vida de ambos, e a de uma das nossas esposas!
 

- Não me admiro - disse-lhe - o que é que podias esperar de tamanho esforço editorial? Terry, acho que tens a determinaçao de uma apóstolo.

Scott descobriu que uma cópia fora enviada ao evangelizador católico, Padre Ken Roberts, o qual, ao ouvi-la, fez uma encomenda de cinco mil cópias, que começou a distribuir por todo o país. A referência do padre Ken a gravação, no canal católico de televisão EWTN, abriu caminho para aparecer como convidado no programa da Madre Angélica vários meses mais tarde.

O Karl e o Patrick o advertiram:
 

- Scott, muito em breve a tua vida vai acelerar-se e tornar-se sumamente ocupada.

Tinham razão; e tinham também alguma culpa.

Um dos seus primeiros projetos comuns surgiu pouco depois da produção da gravação, a Catholic Answers patrocinou um debate público de três horas entre o Dr. Robert Knudser - professor de Teologia e Apologética no Seminário Teológico de Westminster - e Scott.

Durante a primeira parte, discutiram sobre a doutrina da Sola Scriptura; durante a segunda parte, sobre a doutrina da Sola fide.

Scott confessa que se sentia mais do que um pouco nervoso ao se preparar para discutir com um especialista reconhecido mundialmente, sobre os dois temas mais transcendentais que separam os protestantes e católicos.

Scott nunca sonhou com um resultado tão positivo. Não só os estudantes do Westminster Seminary presentes no seminário expressaram no fim a sua surpresa e entusiamo, como tamém, o que é mais importante para Scott, logo que chegou a casa, a Kimberly ligou um gravador para ouvir integralmente o debate.

Três horas mais tarde, ela estava ali sentada, com um olhar de absoluta surpresa. Tudo o que conseguiu dizer foi:
- Não posso acreditar no que ouvi.

Scott ficou emocionado. Sem perder tempo passou-lhe uma cópia da gravação. Era a primeira vez que ouvia o seu testemunho desde que se tinha tornado católico.

As coisas continuaram a acelerar-se. Recebeu um telefone do Dr. Alan Scherec, diretor do Departamento no ano letivo seguinte, 1990-1991, e sugeriu que lhe enviasse o curriculum vitae. Scott mandou-o imediatamente.

Um par de anos antes, a Franciscan University tinha patrocinado uma conferência sobre o matrimonio e família, e Scott tinha assistido com Phil Sutton, um bom amigo e colega, que por então ensinava psicologia no Saint Francis College.

Depois da conferência quando voltávam a casa, recordavam que os judeus dispersos pelo mundo tem um dito: "No próximo ano, em Jerusalém". Na brincadeira, o Phil e Scott inventaram um novo dito católico para eles próprios: "No próximo ano, em Steubenville".

No ano seguinte, Phil abandonou Saint Francis para começar a ensinar na Franciscan University of Steubenvillhe, fora contratado para iniciar o programa de uma licenciatura em assessoramento psicológico. Agora contratavam Scott para o próximo ano.

Nunca imaginávam que o Senhor tivesse interpretado um dito engenhoso como uma oração.

Quando Scott falou a Kimberly desta oportunidade, recordou-lhe a sua experiência ali.

Falou-lhe da orientação pró-vida da Universidade, desde o reitor, o padre Michael Scanlan, até a faculdade e aos estudantes.

Fez-lhe saber que a Franciscan University tinha mais de cem estudantes a diplomarem-se em Teologia - mais do que a Catholic Universityou Notre Dame - além de um programa de Master em Teologia com uma especialidade em Matrimônio e família.

Pela primeira vez há mais de cinco anos, voltaram a rezar com um só coração.

Por altura do Natal, viajaram a Steubenville para uma entrevista inicial com o padre Michael Scalan e o Dr. Scherec. No dia anterior a partida, a Kimberly sofreu um segundo aborto espontâneo. Scott se sentiu esmagado, ela estava destroçada.

Já no final da entrevista, a Kimberly comentou o que acabava de acontecer. E imediatamente pediu - a um sacerdote católico- que rezasse por ela. Sem hesitar um instante, o Padre Scalan levantou-se do outro lado da da secretária, impôs as mãos sobre os seus ombros, e começou a invocar a graça curativa de Deus com uma oração.

Durante a entrevista o padre Scalan lhes falou das suas próprias lutas no passado relativamente a certas doutrinas e devições marianas. Nada poderia ter agradado mais a Kimberly do que ouvir o que custou a um sacerdote católico crescer em compreensão e apreço a Maria.

Ouvia atentamente, enquanto ele continuava a explicar a sua recente descoberta de como são na realidade bíblicas e cristocêntricas a doutrina e devoção marianas, quando são devidamente entendidas e praticadas como as apresenta o Concílio Vaticano II. Foi algo breve , mas impressionante.

Passaram várias semanas antes de viajar de novo, para um segunda entrevista e para dar uma conferência aos estudantes. Ambas as coisas correram muito bem. O tempo que passou com Alan e Nancy Sherec foi particularmente cordial.

Além de magníficos anfitriões, começaram a tornar-se bons amigos. Poucos dias depois de voltar a casa, Alan telefonou a Scott dizendo que lhe ofereciam o lugar. Nessa altura as suas orações a pedir a orientação divina eram um pouco menos neutrais. Com grande ansiedade e entusiamo aceitaram a oferta.

Embora pareça estranho, estava mais inseguro do que nunca sobre a posição da Kimberly relativamente ao catolicismo.

Finalmente aprendera a lição martelada na sua cabeça por Gil Kaufmann, um bom amigo do Opus Dei: mais romance e menos doutrina.

Scott voou de novo a Nova York, para participar numa conferência nacional sobre apologética patrocinada pela Catholic Answers. Muita gente ali tinha ouvido a gravação e fazia perguntas sobre a Kimberly.

Depois de terminar a exposição, a primeira pergunta foi mais ou menos a seguinte: "Scott, todos os que aqui estamos ouvimos a gravação que fizeste há escassos meses. Diz-nos, como vai progredindo a tua mulher na compreensão da fé católica?"

Foi embaraçoso, mas Scott teve que confessar-lhes que não sabia.

Nesse dia a noite telefonou a Kimberly, para casa dos Scherec, onde se encontrava a passar o fim de semana, enquanto procurava casa. Quando Scott lhe contou que a maioria dos participantes na conferencia tinha ouvido a gravação e queria saber o que é ela pensava agora, perguntou-lhe se havia alguma coisa que queria que lhes dissesse.

Não esperava em absoluto a resposta dela.

Depois de uma pausa, disse-lhe:
 

- Diz-lhes que ontem, Quarta-Feira de Cinzas, quando vinha a guiar para Steubenville, depois de muita reflexão e oração, vi claramente que Deus me chama a voltar a casa na Páscoa.

Nenhum dos dois soube o que dizer durante mais de um minuto. Depois vieram as lágrimas, as orações e a alegria.

Pouco depois, todos na conferência sabiam a notícia.

A Kimberly foi recebida na Igreja Católica na igreja de Saint Patrick, em Joliet, durante a Vigília Pascal de 1990 ( a data era mais do que irônica: cinco anos antes tínhamos fixado 1990 como a primeira data em que Scott poderia entrar na Igreja: a data de Scott se converteu na data de Kimberly).

A alegria pela conversão da Kimberly era as vezes difícil de conter, e viver juntos o espírito de penitencia da Quaresma foi um verdadeiro desafio para os dois. A celebração da Semana Santa nunca fora tão especial.

A meio da Semana Santa Scott perguntou a Kimberly por acaso:
 

- Quem escolheste como santo padroeiro?

Ficou a olhar para ele atordoada.
 

- O que é que estás a dizer?

Scott explicou-lhe:
 

- Quando se recebe a Confirmação, tem-se a opção de escolher um nome de confirmação, tomado de um santo padroeiro a que nos sentimos mais unidos. Por exemplo, quando eu entrei para a Igreja, escolhi S. Francisco de Sales.

A Kimberly parecia ainda não entender. Perguntou:
 

- E porque ele?

Explicou-lhe com pormenor:
 

- S. Francisco de Sales era bispo de Genebra , na Suíça, quando João Calvino andava a afastar as pessoas da fé católica. Descobri em minhas leituras que S. Francisco de Sales foi um pregador e apologeta tão eficaz com os seus sermões e seus escritos, que mais de quarenta mil calvinistas voltaram a Igreja.
 

Imaginei então que, se ele foi capaz de guiar o regresso de toda essa gente, poderia agora guiar o regresso de mais uma. Alem disso, S. Francisco de Sales foi declarado padroeiro da Imprensa Católica e como adquiri cerca de quinze mil livros, pensei que era a escolha natural para mim.

A Kimberly afastou-se com ar pensativo:
 

- Creio que tenho que fazer oração sobre isso, a ver se o Senhor me tráz alguém a cabeça.

Não disse nada, mas Scott já tinha uma primeira opção para seu santo padroeiro.

Dois anos antes, pouco depois de ser recebido na Igreja, Scott assistiu a uma conferência da Associação de Intelectuais católicos, onde se encontrou com um conhecidíssimo teólogo, Germain Grissez.

Sentou-se ao lado dele e da sua mulher, Jeannette, no banquete do sábado a noite. Comentou-lhe tudo acerca do entusiasmo de sua coversão, e sua preocupação pela resistência da Kimberly.

No fim da conversa , olharam um para o outro , e depois para Scott. O Germain disse:
 

- Acho que temos a solução.

Scott não captou o sentido daquela enigmática obeservação.
 

- O que é que queres dizer?

Ambos começaram a falar de Santa Elizabeth Ann Seton: dona de casa, mãe de cinco crianças, católica convertida do protestantismo e fundadora das Irmãs da Caridade Americanas. Fora recentemente canonizada como a primeira santa nascida na América. Mencionaram também que a basílica a ela dedicada ficava perto da casa deles em Emmitsburg, em Maryland.

Uma semana depois, Scott recebeu um embrulho pelo correio. Quando viu "Germain e Jeannette" no remetente, pensou que era algum artigo religioso católico, pelo que subiu ao escritório para o abrir longe do olhar da Kimberly.

Dentro havia um exemplar da biografia de Santa Elizabeth Ann Seton, escrita por Joseph Dirvin e algo que nunca vira antes: um pequeno relicário com uma relíquia de Madre Seton.

Não fazia idéia do que fazer com o relicário, por isso pediu a um amigo católico que lhe explicasse o que era. Depois , começou a levar o relicário no bolso. Servia a Scott de recordatório, quando as coisas se punham tensas entre ele e Kimberly, para encomendar a sua causa ao Senhor sob o patrocínio e a intercessão da Madre Seton.

Um dia aconteceu o inevitável. Ao esvaziar os bolsos para lavar a roupa , a Kimberly encontrou o relicário.
 

- Scott, o que é isto?

Scott sentiu arrepios. Com mal dissimulado nervosismo, gaguejou:
 

- Oh, não é nada, não é nada. De certeza que não te interessa.

Observou-o um momento com desconfiança - talvez temesse que, se continuasse a perguntar Scott lhe explicaria algo que realmente não estava interessada em ouvir - e depois o devolveu.

Numa combinação de medo e de prudência, deixou de levar o relicário consigo e o colocou na parte de trás da gaveta da secretária. Nessa altura já tinha escondido a biografia na estante do fundo da esquina mais oculta do escritório.

No dia a seguir a perguntar a Kimberly sobre o seu nome de confirmação e o seu santo padroeiro, enquanto se preparava para se deitar, perguntou-lhe:
 

- O que é que estás a ler, querida?
 

- É um livro sobre Santa Elizabeth Ann Seton.

Parou a meio de vestir o pijama.
 

- Kimberly, posso saber onde é que o encontraste?

Com um tom indiferente, explicou-lhe:
 

- Bom, Scott, hoje andei a vasculhar nos teus livros, e peguei neste por acaso.

Scoot ignorou os arrepios que corriam pelas suas costas.
 

- E então, que te parece?
 

- Oh, bem! - disse com emoção - estou há horas a lê-lo, Scott, e acho que encontrei a minha santa padroeira.
 

- Ou ela te encontrou a ti! - pensou.

Tudo que conseguiu fazer foi exclamar: "A sério?" ( Nesse momento ele já não tinha tanta certeza onde terminava a "comunhão dos santos" e onde começava a sombre de penumbra).

A seguir sentou-se na cama e explicou-lhe o que tinha acontecido dois anos antes. Depois deu-lhe a relíquia.

Acabaram o dia com uma curta oração de agradecimento a Deus e à sua maravilhosa filha, a nossa irmã espiritual em Cristo, Santa Elizabeth Ann Seton.

Chegou finalmente a grande noite. A Kimberly foi para a Igreja para a Vigília Pascal meia hora antes, para que o Padre Memenas pudesse ouvir sua primeira confissão.

A meio da Missa, a Kimberly passou-lhe uma pequena nota. Scott olhou-a e leu as seguintes linhas: "Meu querido Scott, estou tão agradecida por ti e pelo esforço em conseguires este passo para nos. Amo-te, K".

Scoott sentiu-se paralizado pela felicidade que não conseguiu dizer nada; mas o sorriso e as lágrimas foram suficientes para a Kimberly saber o que ele estava a pensar.

Nessa noite, pela primeira vez, receberam a Comunhão juntos.

Foi o clímax adequado para este vertiginoso romance religioso: a sua mulher e ele de novo unidos por meio de Cristo e da Sua Esposa.

Kimberly

Uma semana depois do batismo de Hannah mudamos para Joliet, em Ilinois. Foi um período muito agitado, procurando instalar-nos numa nova casa, a primeira que comprávamos, ajustando-nos ao novo bebê, e começando pela primeira vez a aventura da educação em casa. das crianças.

O Scott dava aulas em tempo integral, em Saint Francis, no Departamento de Teologia, e estava encantado. Era uma vida abundante!

Para mim foi como o degelo primaveril depois do inverno. Com todo o coração queria agora estudar, especialmente o Batismo. O Scott arranjou tempo para tomar conta das crianças, para eu poder dedicar tempo ao estudo.

Longe de ver os dias do seminário como uma perda de tempo, dei-me conta de que neles adquirira ferramentas com as quais podia examinar seria e detidamente a Escritura. Foi uma grata surpresa para mim estudar especialistas católicos da Bíblia; não sei por que razão pensava que os católicos se limitavam a citar documentos papais.

Pude apreciar melhor como a Hannah tinha sido transformada em filha de Deus, pelo Batismo, ao nascer de novo pela água e pelo Espírito.

O que estudava sobre o Batismo destoava diretamente com o que estudara sobre a justificação. Tal como o Scott, os meus estudos no seminário tinham-me levado a rejeitar como não bíblico o ensinamento protestante da justificação exclusivamente pela Fé.

O Batismo das crianças punha a ênfase na justificação exclusivamente pela Graça. Fiquei encantada com a beleza dos tratados escriturísticos católicos sobre a justificação e o Batismo.

Não tinha voltado a assistir à Missa desde a Vigília Pascal em que o Scott entrou na Igreja, dois anos antes. Ao assistir agora á cerimônia de Quarta-Feira de Cinzas numa pequena capela, fiquei surpreendida ao ver quão profundamente me tocou a liturgia.

O apelo ao arrependimento era tão claro que eu pergunto a mim própria como é que vários dos nossos amigos ex-católicos podiam não o notar, e diziam que nunca tinham sentido a chamada do Evangelho na Igreja Católica.

Logo que o Scott se fez católico, pareceu-me que os nossos filhos (na época com dois e três anos) começaram a falar em serem sacerdotes. Mal podia acreditar no que ouvia! Naquela altura isto ainda me deixava em carne viva.

Mas em Joliet encontrei um grande número de sacerdotes maravilhosos, cheios de fé. E o meu coração começou a mudar de atitude quanto á vocação que Deus quisesse suscitar aos nossos filhos.

Agora me agradava o desejo expressado pelo nosso filho Gabriel, então de três anos, quando disse: “Mamã, não há suficientes sacerdotes e freiras no mundo. Quero ser sacerdote para ir por todo o mundo fazer mais sacerdotes e freiras”.

Este tipo de mudança em mim só podia vir do Senhor.

Comecei a colocar as perguntas na oração de um modo diferente. Comecei a pedir ao Senhor que me desse a perspectiva do Seu coração e da Sua mente em relação à Eucaristia e aos outros Sacramentos. Em vez de com gritos de lástima - causados pelos confrontos entre o Scott e a Kimberly nestas matérias – procurava aproximar-me de Deus, desejando encontrar a Sua perspectiva, mesmo que esta fosse católica.

Tinha ainda períodos de grande angústia pela sensação de estar sendo absorvida pelo vazio, de não ser capaz de pensar com suficiente clareza, pois, se o fazia, podia ver os erros da Igreja Católica.

Tinha ainda momentos de soluções tão profundos no meu ser, que quase me deixavam sem respiração, ao sentir o peso do medo ao desconhecido.

Mas também tinha momentos de Graça incrível, que me faziam ver com mais clareza. Nem sempre conseguia distinguir onde acabavam minhas convicções e onde começava a minha obstinação. Mas Deus, na sua infinita misericórdia, ia me guiando.

O Scott e eu concordamos que quando o Michael fizesse sete anos receberia a Primeira Comunhão, e que as crianças seriam católicas. Mas este plano não surgiu das minhas reflexões. Não podia suportar a pressão que isto traria. Procurava antes concentrar-me nas conseqüências.

O Scott animou-me a aproveitar a oportunidade de visitar uns amigos que eram ministros na Virgínia, durante a primavera de 1998. Tinha muitas duvidas que esperava que eles pudessem ajudar-me.

Foi uma viagem muito frutuosa, que me permitiu renovar amizades afastadas pela conversão do Scott, e ter interessantes conversas teológicas.

Ao procurar explicar aos nossos amigos por que é que o Scott dizia o que dizia, comecei a convencer-me da lógica que havia nos seus argumentos, embora isso não fosse necessariamente o que eu queria.

O Jack e eu começamos lendo frase a frase, a passagem de João 6, 52-69, analisando a doutrina católica. Embora tivesse lido S. João por completo varias vezes na vida, nunca me tinha sentido tão impressionada pela força das palavras de Jesus quando diz, uma e outra vez que devemos comer (inclusivamente mastigar) e beber o seu corpo e sangue para ter a Sua vida.

Disse:
 

- Jack, como é que entendes isso?
 

- Creio que Jesus está ensinando acerca da fé, Kimberly.

Era a mesma análise que nos tinham apresentado nas aulas que ambos tínhamos no seminário.
 

- Espera um pouco. Estas se baseando na frase: “a carne é inútil” do versículo 63? Lê o resto do versículo: “O Espírito é que dá vida, a carne é inútil”. É o Espírito que dá vida. Por outras palavras, Jesus não estava dizendo às pessoas: “Vinde, e um pode pegar num pedaço da minha mão e outro num pedaço do meu pé...”. Está se referindo a um tempo posterior à Sua Morte, Ressurreição e Ascensão, no qual o Espírito daria aos seus discípulos o Seu corpo glorificado de modo que a Sua carne pudesse ser fonte de vida para o mundo.

Alem disso, por que é que havia de ofender tantos os judeus que Jesus estivesse falando apenas acerca da fé e de um sacrifício simbólico do Seu corpo e sangue? Eles foram-se embora descontentes, pensando que Jesus estava falando de canibalismo.

Por que é que Jesus deixaria ir embora a maioria dos seus discípulos só por um mal entendido tão simples, sem esclarecer nunca, nem sequer aos discípulos mais próximos, que estava só falando da fé num mero símbolo do Seu eventual sacrifício? Pelo menos, aos discípulos mais próximos, esclareceu más interpretações dos seus ensinamentos noutras passagens da Escritura.

Jack não via as dificuldades que eu percebia na interpretação protestante desta passagem, mas eu estava realimente sentindo pela primeira vez a força dos argumentos católicos. Esta discussão lançou luz também sobre outro problema que eu tinha relativamente à transubstanciação: Como pôde Jesus na sua humanidade dar aos seus discípulos na Última Ceia o corpo e o sangue que Ele próprio tinha ali? E se não o fez nesse momento, então como podemos dizer que a nossa repetição deste ato é mais do que um mero símbolo?

Sabia que os católicos respondiam que se tratava de um milagre, mas isso sempre me tinha parecido uma explicação demasiado fácil, até entender a sua relação com os ensinamentos da primeira parte do capitulo de S. João, sobre o milagre dos pães e dos peixes.

Esta multiplicação da comida aponta para a milagrosa multiplicação do corpo e do sangue de Jesus para a vida do mundo.

Mesmo que, considerando apenas a sua humanidade, Jesus não pudesse separar o Seu corpo e o Seu sangue na Sala de Cima, para os oferecer aos seus discípulos, Ele nunca foi exclusivamente humano. Posto que Jesus era totalmente divino e totalmente humano, podia estar ali sentado com o Seu corpo e com o Seu sangue, ao mesmo tempo converter o pão e o vinho no Seu corpo e no Seu sangue.

Depois disto visitei outro amigo pastor, Bill, e a mulher Lisane. Após um bocado de conversa, Bill perguntou-me:
 

- O que é que vai acontecer com os teus filhos?
 

- Os nossos filhos serão educados como católicos, mais cedo ou mais tarde. Não tenho alternativa.
 

- Aí isso é o que tens- assegurou-me Bill – podes ficar com as crianças e divorciar-te, porque o Scott abandonou a fé e abraçou uma heresia.
 

- Não posso fazer isso, porque sei que o Scott atuou com suficiente integridade cristã como para considerá-lo agora perdido e espiritualmente, e levar as crianças.

O Bill e a Lisanne fizeram inúmeras perguntas e brindaram-me a oportunidade de partilhar o que havia no meu coração, contrariamente à maioria dos amigos protestantes que tínhamos.

Mais tarde disse-lhes:
 

- Atenção, eu não sou uma relativista, e vocês também não. Se chegasse à converter-me ao catolicismo- o que certamente não quero - se chegasse a convencer-me de que é a fé verdadeira, levar-nos-ia também a vocês comigo!

(Poucos meses mais tarde, o Bill telefonou ao Scott para lhe pedir desculpa por me ter aconselhado a divorciar-me dele, e disse-lhe que as minhas explicações sobre as crenças dele tinham sido tão convincentes que tinha começado a estudar a doutrina católica com seriedade.

A Lisanne veio a ser a minha companheira de estudo à distancia. Ambas nos encontrávamos uma situação similar: tendo que estudar estas coisas e ao mesmo tempo com sentimentos contraditórios sobre o assunto. Líamos sobre um tema ou um livros e depois tínhamos conversas de uma a três horas duas vezes por mês. Uns meses depois da minha conversão, o Bill e a Lisanne converteram-se também, no meio de muitos sofrimentos por causa da atitude da sua antiga Igreja e confissão).

Voltei à casa, depois da viagem, com emoções contraditórias. Tinham-se acrescentado mais peças aos quebra-cabeças católico, mas sabia que algumas das minhas amizades protestantes se tornariam muito delicadas se eu prosseguia à minha busca. Tinha ainda os meus momentos de depressão e solidão. E sentia que algumas das nossas novas amizades católicas desconfiavam de mim.

Não estava muito segura de que os católicos acreditassem no que eu estava estudando como crenças católicas. Quando íamos à Missa, as pessoas chegavam e ficavam de casacos vestidos, dando a impressão de estar prontas para saírem disparadas, assim que recebessem a Hóstia (eu nunca iria jantar na casa de ninguém, ficando de casaco vestido!).

Para uma evangélica protestante, habituada à fraternidade e à conversa amigável depois do culto, era uma perturbação descobrir que a maioria das pessoas não tinha a menor intenção de demorar ou de se cumprimentar.

Via as pessoas que se aproximavam para receber a Comunhão e saiam imediatamente (suponho que para serem os primeiros a tirarem o carro do estacionamento). Como é possível que alguém seja convidado pra jantar, e nem sequer agradeça a quem o convidou e lhe deu de comer?

E, contudo era suposto estarem a receber o Senhor do universo, o Deus-Homem que morreu para salvá-las! E não tinham tempo para Lhe darem graças por este dom tão incrível! O Scott chamava a isto da saída de Judas: receber e desandar.

Uma noite tivemos oportunidade de assistir a uma Missa seguida de uma procissão eucarística. Nunca vira nada assim antes. Ao ver que, fila após fila, homens e mulheres maduros se ajoelhavam e inclinavam à passagem da custódia, pensei: Esta gente realmente acredita que é o Senhor e não só pão e vinho.

E se é Jesus esta é a única reação apropriada. Se hoje em dia as pessoas se inclinam diante de um rei, quanto mais não se devem ajoelhar diante do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores! Será prudente não fazer o mesmo?

Mas continuei a pensar: “E se não é Jesus? Se não é Jesus que esta na custódia, então o que esta gente esta fazendo é uma idolatria grosseira. Será prudente ajoelhar-se?

A situação fazia ressaltar o que Scott costumava dizer: a Igreja CATÓLICA não é apenas uma confissão a mais: ou é verdadeira ou é diabólica.

Como me tinha que decidir, posto que a custódia se aproximava, fiz um movimento vacilante, meio para cima meio para baixo. Uma vez mais senti que o Espírito Santo me dava um empurrão, para me animar a continuar o meu estudo com seriedade porque aqui não se tratava apenas de escolher minha confissão favorita.

Apesar de ainda não estar preparada para me comprometer com a Igreja católica, alguns amigos fundamentalistas afastaram-se porque lhes parecia que me estava a tornar demasiado católica.

Como se não entendessem que todos estamos no regaço do Pai, e me quisessem afastar dizendo: “Tu não tens direito a estar aqui! Estás se convertendo uma católica romana!”

Contudo, Ainda tinha grandes objeções para me converter, especialmente sobre Maria. O Scott compreendia-me bem; ele também passou pelo mesmo. Quando soube que o Dr. Mark Miravalle ia fazer uma apresentação sobre Maria na Universidade, convidou-me para a conferência. Pensei que não era ma idéia assistir à exposição, variando assim os enfrentamentos nos quais o Scott e eu costumávamos cair.

Nem, tudo o que eu ouvi me agradou; fiquei com muitas perguntas. Mas também não estava na defesa, como anteriormente. Ouvi o Dr. Miravalle esclarecer o que a Igreja Católica ensina sobe Maria. Primeiro, que ela não e uma deusa: é digna de louvor e veneração mas não de adoração pois esta só é devida a Deus.

Segundo, que Maria é uma criatura formada de uma maneira única pelo seu Filho, como nenhuma outra mãe tinha sido nem será depois dela. Terceiro, que Maria se regozijou em Deus seu salvador, como ela própria afirma no Magnificat, porque foi preservada do pecado por Jesus desde o momento da concepção. Por outras palavras, a sua impecabilidade era um dom de graça que a salvou antes de pecar. (na realidade, Deus salvou muitos de nós de uma libertinagem feroz antes de cairmos nela; talvez tivesse salvo Maria ainda antes.).

Quarto, o título de Maria como Rainha do Céu não derivava de estar casada com Deus – como eu pensava -, baseava-se na honra de ser a Rainha Mãe de Jesus, o Rei dos Reis e Filho de Davi.

No Antigo Testamento, o rei Salomão, filho de Davi, elevou a sua mãe, Betsabé, colocando-a num trono à sua direita, rendendo-lhe homenagem na sua corte como Rainha Mãe. No Novo Testamento, Jesus elevou a Sua mãe, a Bem-Aventurada Virgem Maria, colocando-a no trono que está à Sua direita, no Céu, animando-nos a render-lhe homenagem como Rainha do Céu.

Quinto, a missão de Maria era apontar para alem dela, para o seu Filho, dizendo: “Fazei o que Ele vos disser”. Dei-me conta então de que certos exemplos de piedade mariana, que se centravam demasiado em Maria, ao ponto de negligenciarem Jesus, talvez não correspondessem aos ensinamentos católicos sobre ela.

Talvez as boas almas que faziam isto nem sequer se dessem conta de que estavam a ofender a Virgem Santíssima com as suas tentativas de a honrarem, ao descuidarem a missão primária de Maria que é conduzir-nos ao seu Filho.

Quando o Scott e eu voltamos a casa nessa noite, tivemos um belo debate sobre as afirmações do Dr. Miravalle. Ele acrescentou uma descrição de Maria como a obra prima de Deus, que me pareceu muito útil.
 

- Maria é a obra prima de Deus. Já alguma vez foste a um museu onde um artista tenha em exposição as suas obras? Achas que ele ficaria ofendido se entretivesses a olhar para o que ele considera a sua obra prima? Ficaria ressentido se ficasses a contemplar a sua obra em vez de o contemplares a ele? “Ouve lá, é para mim que tens que olhar!” em vez disso, o artista sente-se honrado pela atenção que prestas à sua obra. E Maria é a obra por excelência de Deus, do principio ao fim

O Scott prosseguiu:
 

- E se alguém elogia um dos nossos filhos na tua presença, você o interromperia para dizer: “o seu a deu dono”? Não, você vai se sentir honrada quando os nossos filhos são admirados. Do mesmo modo, Deus é glorificado e honrado quando os seus filhos são admirados.

Com estas considerações fiz a minha oração àquela noite, e pela primeira vez perguntei a Deus o que pensava de Maria. As frases que vieram ao meu coração foram estas: “Ela é minha filha amada”. “A minha filha fiel”, “a minha preciosa vasilha”, e “a minha Arca da Aliança que leva Jesus ao mundo”.

Não podia entender porque é que os católicos davam a impressão de adorar a Maria, mesmo sabendo eu que a adoração a Maria era claramente condenada pela Igreja. Veio-me então à cabeça esta idéia: a questão esta no que se considera adoração.

Os protestantes definem a adoração em termos de cantos, louvores e pregações. Assim, quando os católicos cantam a Maria, lhe dirigem súplicas através da oração e pregam sobre ela, os protestantes interpretam que ela esta sendo adorada. Mas os católicos definem a adoração como o sacrifício do corpo e do sangue de Jesus, e nunca ofereceriam um sacrifício de Maria ou a Maria sobre o altar. Estas reflexões foram um benéfico alimento para a minha alma.

Muitas das duvidas teológicas mais importantes estavam resolvidas mas ainda havia um muro, um obstáculo emocional que requeria um dom sobrenatural de fé só para eu o conseguir reconhecer quando mais para o vencer! Em Novembro de 1988 escrevi: “Onde há morte, Deus pode trazer ressurreição; mas não se pode ressuscitar o que não esta completamente morto. Morri finalmente? Estou completamente disponível para Ti, Senhor, para morrer para mim mesma e viver em Ti? É muito difícil continuar a esquivar a depressão e o desespero, mas mesmo no meio da minha confusão louvo-Te, Senhor, porque Tu conheces o fim desde o principio”.

Um dia em que estava com muitos problemas, principalmente com as crianças, um amigo me telefonou. Contei-lhe que tinha um dia horrível, e ele disse-me:
 

- Porque não pensas em Maria como a mãe maravilhosa, a quem podes dirigir-te e pedir ajuda?

Eu disse:
 

- Sejamos honestos. Primeiro você está me dizendo que trate com uma mulher que nunca pecou. Segundo, está me falando de uma mulher que teve só um filho que era perfeito. Pensa só nisto. Se alguma coisa na mesa corre mal, todos se viram para S. José, a culpa tem que ser dele! Eu não acredito nisso de rezar aos santos. Mas se o fizessem dirigia-me a S. José. Não tenho nada a ver com Maria!Mais tarde comentei esta história a uma amiga que andava preocupada pelo fato de eu não me poder dirigir a Maria. Depois de pensar um pouco, disse-me: “Kimberly, o que disseste é verdade – ela é perfeita e só teve um filho, também perfeito – mas, se realmente á a mãe de todos os crentes, pensa só quantos filhos difíceis tem”.

Foi por essa altura que Deus, na sua misericórdia, nos concedeu um sofrimento especial: perdemos dois bebês prematuros em 1989: um em Janeiro (Raphael) e outro em Dezembro (Noel Francis). Digo na sua misericórdia porque Deus tem uma maneira extraordinária de usar a dor e o sofrimento para afastar de nos muitas coisas supérfluas e aproximar-nos mais d’Ele. Como diz a Madre Tereza, os nossos sofrimentos são carícias bondosas de Deus que nos chama para que voltemos a Ele, e para nos fazer reconhecer que não somos nós que controlamos as nossas vidas, mas que é Deus que tem o controle, e podemos confiar plenamente n’Ele.

Compreendi mais profundamente as verdades que já tinha aceitado relativamente à contracepção, no que respeita ao dom de novas vidas por parte de Deus, e comecei a entender de um modo pessoal a natureza redentora dos nossos sofrimentos.


O Céu converteu-se numa realidade mais plena. Até essa altura, entendia-o como algo só entre Jesus e eu. Tinham-me ensinado que pensar em estar com alguém mais no Céu, ia de certo modo, em detrimento da Glória e maravilha de estar com Jesus. Mas em cada aborto, uma parte de mim morrera. Desejava estar com essas crianças, ampará-las e conhecer as suas preciosas almas.

A alegria de voltar a reunir-me com aqueles que amamos – pais, irmãos, filhos – e que, como nós, amam o Senhor, é uma alegria que manifesta a Glória de Deus, refletindo, não ofuscado, a luz da Sua Glória.

O Céu é descrito como uma grande celebração, como a festa das bodas do Cordeiro! Certamente que o amor não é aniquilado à medida que se aperfeiçoa, mas pelo contrario, chega ao seu máximo florescimento na presença do nosso Deus.

Após uma operação causada por uma gravidez extra-uterina, a 22 de Janeiro de 1989, encontrava-me prostrada no quarto do hospital, cheia de vazio, com um grande sentimento de solidão pela perda desta vida dentro de mim, e com a dor física da cesariana que me tinham feito (sem o consolo natural duma criança a quem abraçar).

O Scott tinha ido para casa para estar com os nossos outros três filhos, que não tinham licença para me visitarem no hospital, durante os quatro dias da recuperação. E para piorar as coisas, o médico internara-me na Maternidade, onde estava continuamente a ouvir os bebês e as mães, durante todos os dias da estadia.

Enquanto abria o meu coração ao Senhor, imaginando o meu bebê, separado de mim mas nos Seus braços, Ele trouxe-me à cabeça passagens da Escritura que aprendera uns tempos antes em Hebreus 11 e 12. (É de notar como foi importante ter memorizado esses textos da Escritura, pois assim Deus pode trazê-los ao meu coração num momento de crise, quando não tinha acesso à sua Palavra.

Os católicos podem e devem memorizar a Escritura; os protestantes não têm nenhum gene especial que lhes facilite a tarefa!).

Hebreus 11 e esse grande capítulo sobre a fé que menciona santos maravilhosos que arriscaram tudo, incluindo as próprias vidas, por Deus.

O principio do capítulo 12 diz: “Portanto também nós, tendo à nossa volta uma grande nuvem de testemunhas, sacudamos todo o pecado e o lastro que tão facilmente nos cercam, e corramos com fortaleza à prova que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, o iniciador e consumador da nossa fé”.

Pensava no meu modo de entender protestante, que a comunhão dos santos que se afirmava no Credo significava os santos no Céu em comunhão entre si, e os santos na terra entre cada um de nós e o Senhor. Afinal de contas o Antigo Testamento condena claramente a necromancia: consultar os mortos para conhece o futuro.

Mas Hebreus 12 parecia dizer que estamos rodeados na nossa prova de aqui abaixo, por todos os irmãos e irmãs que partiram antes de nós. Por outras palavras, não estava só no meu quarto de hospital. Sabia que Cristo estava ali, mas também estavam muitos outros irmãos e irmãs que tinham morrido antes de mim.

Era como se estivéssemos num estádio olímpico e os que ocupavam as bancadas fossem antigos medalhados na mesma prova que eu agora estava a disputar. Sabiam o que lhes custou ganhar, e agora estavam à minha volta para me animarem.

Nessa nuvem de testemunhas presentes ali mesmo, junto á minha cama de hospital, seguramente havia santas que tinhas perdido filhos de mais idade que o meu bebê, ou cujos esposos tinham morrido (não tinham ido simplesmente para casa tomar contra das outras crianças), ou cujas experiências de solidão foram piores do que as que eu tinha vivido, e cuja condição física fora pior do que a minha.

E, contudo, não estavam ali para me julgarem, afiando as suas línguas sobre a minha miserável incapacidade de superar a tristeza e a solidão.

Estavam antes, para me assistirem em nome do Senhor, com a sua compaixão, e intercessão por mim, enquanto jazia ali com toda aquela dor e pesar.

Se as orações do justo são tão poderosas, como diz São Tiago 5, 16, quanto mais as daqueles que já foram purificados? Se posso pedir à minha mãe na terra que reze por mim, e sei que o Senhor ouvirá as suas petições, porque não posso pedir à Mãe de Jesus que interceda por mim?

Isto não é necromancia: estas almas são de vivos, não de mortos. E não estava pedindo que me predissessem o futuro, estava-lhes pedindo que intercedessem por mim, exatamente como peço aos meus irmãos e irmãs em Cristo aqui na terra.

Não estava me dirigindo a eles em vez de me dirigir a Jesus, mas a dirigir-me com eles a Jesus, como faço na terra.

Esta oração de intercessão não diminui em nada a Glória de Deus; manifesta essa Glória, porque vivemos como irmãos e irmãs n’Ele. Outros textos da Escritura adquiriam agora sentido, e comecei a entender a rica doutrina da comunhão dos santos: todos eles eram verdadeiramente meus irmãos mais velhos no Senhor!

Até essa altura, os crucifixos sempre me tinham incomodado. Mas, enquanto estive prostrada na cama do hospital (só por um dos abortos tive três hospitalizações), olhava para o crucifixo e rezava: “Jesus, o simples fato de estares nessa Cruz dá sentido ao meu sofrimento, porque posso oferecer-Te. Embora o meu sofrimento não seja nada em comparação com o que Tu suportaste”.

A Sua dor dava razão de ser à minha. Sentia-me muito reconhecida por isso. Estas hospitalizações foram instrumentos de Deus para me atrair a Si mais fortemente do que nunca.

Na ocasião seguinte em que assistimos à Missa em família, tive a forte sensação de que toda a nossa família estava unida.

A Escritura ensina que os que estão no Céu participam da mesma liturgia em que participam os que estão na terra. Deste modo, na presença do Senhor, a nossa família estava unida.

Perguntei à minha irmã mais nova, que já sofrera cinco abortos, como encarava a possibilidade do sofrimento por um novo aborto uma e outra vez. Kari referiu-se a essas preciosas crianças que ela e o marido tinham perdido como os seus tesouros guardados no Céu. Dei-me conta de que tal como ela, também eu e o Scott, com aquelas duas queridas alminhas, tínhamos dois tesouros no Céu. O Senhor concedera dois intercessores especiais à nossa família.

Pouco depois, por ocasião da Páscoa, a nossa filha Hannah (de ano e meio) teve que ser hospitalizada por desidratação. Uma coisa era estar eu no hospital com a minha dor, e outra muito diferente estar dia e noite ao lado da cama da minha filha, com o seu sofrimento. Quando foi internada tinha febre altíssima, e passados cinco dias subiu aos 40,6.

As enfermeiras apressaram-se a aplicar-lhe panos com gelo, para baixar rapidamente a febre. Eu dormia no quarto, pelo que me levantei de um salto, para ajudar. Felizmente, ao não ser enfermeira, não chegava a avaliar a gravidade da situação.

Quando o seu corpinho ardente aquecia uma das toalhas tirávamos-lha e colocávamos outra gelada: era indispensável conseguir baixar a febre. Hannah ali estava prostrada com um braço ligado a um tubo intravenoso, com o outro esticado para mim, o mais que podia e tremendo fortemente ao mesmo tempo que gritava: “Mamã! Mamã”!

Hannah não conseguia entender o que eu estava fazendo. Era suposto estar ali para defendê-la do sofrimento e, em vez disso ajudava a por sobre ela esses panos que tanto a faziam sofrer e a incomodavam. Não lhe conseguia explicar, mas sabia que estava fazendo, com todo o meu amor, o que era melhor para ela.

Enquanto tudo isto acontecia, senti que o Senhor punha a Sua mão no meu ombro e me dizia: “Kimberly, vez como és boa mãe? Amas a tua filha e por isso provoca-lhes um sofrimento para a curar. Dás-te conta de como Eu te amei, minha filha? Fiz-te sofrer para te curar, para te atrair a Mim” enquanto as enfermeira se concentravam em aliviar a Hannah, dentro de mim também se estava realizando uma profunda cura, e chorei pelas duas.

Nesse momento da minha vida, dei-me conta de que tinha de enfrentar uma nova aflição: se tomar a decisão de não continuar a ser a única protestante na minha família imediata, teria uma nova ruptura, como a única católica na minha família de origem.

Como podia escolher separar-me da minha família, dentro da qual fora educada e partilhara tão fortes laços espirituais? Como era possível que as mesmas pessoas que me conduziram à mesa do Senhor não pudessem a partir de agora partilhá-la comigo? Eram novas questões e novos motivos de tristeza.

As conversas com os meus pais e irmãos sobre temas da Escritura, as mesmas Escrituras que os meus pais me tinham ensinado a conhecer e a amar, tornaram-se mais difíceis. Foi também muito duro para os meus irmãos comprovarem a dor que estava a causar aos meus pais. E sei que os meus pais não a exteriorizavam muito diante dos meus irmãos, para não perturbarem as minhas relações com eles (são almas nobres, que suportam o sofrimento frente ao Senhor).

Nesse tempo escrevi: “O vigor da fé de mamãe e papai, e a sua disponibilidade para mudarem á medida que crescem na sua vida espiritual são para mim um testemunho claro para seguir a Cristo na Sua Palavra até onde estiver convencida que Ele me conduz. Não lhe poso evitar a eles a dor que sentem ao ver-me percorrer este caminho. Não o procurei, foi Deus que pela Sua graça e misericórdia me pôs nele”.

Em Chicago, o Scott e eu descobrimos um grupo que na altura se chamava a Sociedade de São Tiago. Ali travamos amizade com pessoas que tinham as mesmas convicções que nós (diferente dos nossos amigos protestantes que não queriam saber nada, outros nossos amigos católicos que não conseguiam entender o que é que me detinha para me comprometer com a Igreja Católica).

Eram pessoas em peregrinação, a caminho, que colocavam muitas das questões que eu colocava. Foi um alivio encontrar pessoas que valorizavam o agonizante esforço que nos custava alcançar uma unidade espiritual, e que se alegravam com as descobertas que ia fazendo.

No ano seguinte fiz um curso sobre o Rito de Iniciação Cristã para Adultos (RCIA), na Igreja de Saint Patrick, para resolver as minhas duvidas de uma forma mais convencional. Muitos aspectos da fé católica faziam sentido, mas muitos outros ainda eram poucos claros.

Isto me fez recordar as primeiras semanas na nova casa de Joliet: O Scott andava muito ocupado dando aulas no College of Sainte Francis, e eu tinha trabalho a tempo integral, cuidando da recém nascida e dos nossos filhos de três e quatro anos.

Isso não nos deixava muito tempo para desempacotar e abrir caixotes. Quando me sentia desanimada pelo lento avanço da mudança, ia até à bela sala de jantar, virava-me para não ver os caixotes, e simplesmente desfrutava da beleza da sala.

Voltava então a acreditar que a vida voltaria rapidamente à normalidade. Sucederia a mesma coisa com a Igreja Católica? Poderia ser, bastava que soubesse, “o que havia nos caixotes”.

Por outras palavras, a beleza da Igreja atraia o meu coração, mas ainda havia demasiadas interrogações para me comportar como se tudo já tivesse sido desempacotado.

Uma das aulas lançou um pouco de luz sobre um tema incômodo: os quadros e as imagens de Jesus, de Maria e dos Santos. Perguntei:
 

- Por que se permitem e até se estimulam, se um dos Dez Mandamentos condena fabricar ídolos e prostrar-se diante deles?

O padre Memenas respondeu com outra pergunta.
 

- Kimberly, tens em tua casa fotografias de família?
 

- Sim.
 

- Por que? O que é que representam para ti?
 

- As fotografias recordam-me toda essa gente maravilhosa que eu amo: pais, irmãos, filhos...
 

- Kimberly, o que é que amas, as fotografias ou as pessoas que representam?
 

- Claro que são as pessoas.
 

- Pois essa é a função das imagens e dos quadros: recordam-nos esses maravilhosos irmãos e irmãs que partiram antes de nos. Amamo-los e damos graças a Deus por eles.

A questão decisiva não é se as imagens devem existir ou não, uma vez que o Antigo Testamento, pouco depois de enumerar os Dez Mandamentos, dá instruções especificas acerca das imagens que se de vem fazer como parte do Santo dos Santos - do jardim do Éden, e o querubim sobre o propiciatório, pelo exemplo.

Deus, inclusivamente ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze sobre uma haste que o povo devia olhar para ser curado da praga. Ou Deus deu mandamentos contraditórios, ou a idéia do mandamento não é tanto não ter imagens, mas, sobretudo não as adorar (como fizeram os judeus no Monte Sinai com o bezerro de ouro).

Estas e outras discussões deram-me muito que pensar. Começou a surgir um dilema: agora que me sentia atraída pela Igreja Católica o que é que ia fazer com toda a amargura e feios sentimentos que acumulara contra ela?

Tinha chegado às vezes a detestá-la, culpando-a da crise do meu casamento, a odiá-la pôr ter destruído uma vida familiar feliz, a amaldiçoá-la pela falta de alegria na minha relação com Deus por causa da sua intromissão na minha vida.

Sentia rancor pela perda dos meus sonhos. E agora a minha “inimiga” estava se tornando minha amiga ou pelo menos isso parecia.

Quando levei isto à oração, senti que Deus me dizia:  


“Deveis ver-me a Mim detrás de tudo isto. Culpaste o Scott, culpaste a Igreja Católica. Mas tens que entender que sou Eu que estou detrás de tudo isto. E posso assumir a tua mágoa”.

Quando fui deitar nessa noite, sentia-me como uma criancinha, porque tinha abandonado tudo isso em Deus. Sentia-me como uma criança que se senta sobre as pernas do seu pai dando murros no peito e chorando até adormecer exausta. Deixei as coisas assim.

De manhã recebi uma chamada de um amigo, Bill Stelmeier, do canal católico EWTN. Disse-me:
 

- Kimberly?

Respondi:
 

- Olá!
 

- Estava rezando esta manhã e o Senhor disse-me que te ligasse e te dissesse: “Kimberly, amo-te”. Isto é tudo

Não relacionei isso com a oração da noite anterior, até que chegou a minha mãe e disse a mesma coisa, um pouco mais tarde. E a minha mãe não costuma dizer coisas do tipo de que o Senhor deixou algo no seu coração para mim.

De repente compreendi que o que Ele estava me dizendo era: “Kimberly, eu arranquei essa raiva do teu coração. Absorvi-a. Ainda te amo. Como vês, estou ao teu lado, estou atrás de ti, guio-te”. Tive uma profunda sensação de paz.

Alem de freqüentar o RICA, ajudei também na aula de catequese do Michael, não só para colaborar com a paróquia, mas também para saber o que iam ensinar aos meus filhos, esses católicos.

Na aula repetíamos o Pai Nosso, a Ave Maria e o Glória. Eu rezava o Pai Nosso e o Glória, mas não a Ave Maria. Sabia-a, mas não a rezava.

Quando chegou a altura da Primeira Confissão, já acreditava que era um Sacramento. Senti-me particularmente contente por uma miudita: se alguém necessitava verdadeiramente da primeira confissão era ela. Quando voltou, depois de falar com o sacerdote vinha quase chorando.
 

- Acontece alguma coisa má? Perguntei-lhe
 

- Bom, o Padre disse-me para rezar a Ave Maria - respondeu-me
 

- Bom, então o melhor é que rezes já – disse.
 
- Não me lembro.

Eis-me noutro dilema. Eu não rezava a Ave Maria porque não tinha a certeza de não ofender a Deus; mas também sabia que ela tinha que rezar a sua penitência para que o Sacramento fosse válido. Engoli em seco e disse: Repete comigo: Ave Maria.
 

- Ave Maria
 

- Cheia de Graça...

Recitamos tudo e quando acabamos ficou olhando para mim com os seus grandes olhos e disse:
 

- Duas vezes!

Sabia que ela necessitava realmente do Sacramento! Voltei a respirar fundo, e recomeçamos a rezar. Muita gente não se lembra quando rezou pela primeira vez a Ave Maria, mas eu guardo uma recordação muito viva da minha primeira vez!

Dave, um amigo de Milwaukee, telefonou-me uma noite para ver se podíamos falar sobre o que ainda me impedia de me converter ao catolicismo. Disse-lhe que o problema era ainda saber se Maria era ou não a minha mãe espiritual. Ele disse:
 

- O que é que pensas do capitulo 12 do Apocalipese?
 

- Não sei. Não me lembro de o ter lido. Deixa-me ir buscar a Bíblia.

Quando voltei ao telefone, Dave explicou-me:


- Esse capítulo trata de quatro personagens principais que travam uma batalha. Embora sejam símbolos de certos grupos de pessoas, a verdade é que são também pessoas específicas. A mulher com o filho varão é Maria com Jesus.
Lê o versículo 17: “Furioso contra a Mulher o dragão foi fazer a guerra ao resto dos seus filhos, os quais guardam os mandamentos de Deus, e dão testemunho de Jesus”.

Fiquei perplexa. Como podia ter omitido esta passagem no meu estudo sobre Maria? Tinha que admitir:


- Suponho que significa que se eu dou testemunho de Jesus e guardo os seus mandamentos, então espiritualmente ela é minha mãe. Caramba! Maria é uma donzela guerreira que combate por meio da sua maternidade.

Sentia-me identificada com isso.

Esta passagem ajudava a compreender por que razão ao pé da Cruz, quando estava em plena agonia, segundo relata S. João 19, 26-26: “Quando Jesus viu a sua mãe e o discípulo que amava, disse à sua Mãe: “Mulher, eis aí o teu filho”.

Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”! “E a partir daquele momento o discípulo recebeu-a em sua casa”.

Baseando-se nesta passagem, a Igreja católica ensina que a oferta que o Senhor fez de Maria “ao discípulo amado” era uma prefiguração deste mesmo dom de Maria a todos os seus discípulos amados.

Eu era uma discípula amada. Como João, também tinha que a receber em minha casa como minha mãe?

Em vez de ver Maria como um tremendo obstáculo para mim, começava a vê-la como um precioso presente do Senhor: alguém que me amava, que me cuidava e rezava por mim com o coração de mãe.

Já não era uma doutrina que havia que entender mas uma pessoa a quem abraçar com todo o coração!

Estava ainda indecisa acerca de me converter nessa Páscoa. Na Quarta-Feira de Cinzas deixei os nossos filhos em casa da minha irmã, para procurar casa em Steubenvelle. (O Scott acabava de receber um contrato da Franciscan Univearsity of Steubenville).

Como era Quarta-Feira de Cinzas perguntei a Deus a que é que poderia renunciar durante a Quaresma: chocolates, sobremesas... , grandes sacrifícios para mim.

Senti então que o Senhor dizia:


- Kimberly, porque não te rendes?
 

- O que?! Por que não me rendo a que?

Ele disse:


- Porque não te entregas a ti mesma? Tu sabes o suficiente para confiar em Mim e na minha ação na Igreja Católica. A tua atitude passou de reclamar: “Eu não creio nisto...Demonstra-o! a dizer: “Senhor não entendo isto. Ensina-me” porque não aceitas o convite? Porque não renuncia a ti mesma na Quaresma?

Naquele momento senti que era realmente o Senhor que me chamava à Igreja Católica. Passei as quatro horas seguintes rezando e louvando-o, finalmente com uma grande paz. A surpresa que o Scott ia ter!

Na noite seguinte, depois de ouvir ao telefone a descrição das casas que eu tinha visto, disse-me:

É verdade, estou nesta conferencia de apologética aqui na Califórnia, e toda a gente me pergunta qual é a tua posição atual em relação à Igreja. – O Scott fazia um grande esforço para aparentar indiferença.

Tinha entendido a diferença entre a sua argumentação e a convicção que vem do Espírito Santo.


– Não te quero pressionar em nada. Se não é nesta Páscoa não há problema. Mas tens alguma idéia de onde te encontras neste processo?

Mal podia esperar para lhe contar:


- Será nesta Páscoa, Scott. O Senhor falou-me ao coração enquanto guiava o carro e disse-me que seria nesta Páscoa.

Scott?... Scott?... Está?

Demorou um minuto a recuperar “Louvado seja Deus!”.

Pela primeira vez o Scott podia sonhar com o muito que poderíamos fazer com, uma família católica unida. Era tanta a felicidade! Era tanta a liberdade!

Já era altura! Já era altura de estarmos unidos sob a liderança espiritual do Scott. Hora de procurarmos juntos, dentro da Igreja Católica, um apostolado que pudéssemos realizar como casal. Hora de decidir que podia encontrar as respostas ás minhas dúvidas dentro da Igreja que o próprio Jesus fundou e preservou do erro.

Hora de me libertar de toda a resistência e de estar agradecida a Deus por tudo o que me tinha revelado.

Embora eu acreditasse na transubstanciação há mais de um ano, nunca tinha sentido até então o desejo de receber a Comunhão.

Mas agora uma fome de Eucaristia converteu-se no último pensamento da noite e no primeiro da manhã. Pela fé, aceitara Jesus como Salvador e Senhor desde a adolescência, mas agora ansiava por receber o seu Corpo e o Seu Sangue.

Porque Jesus não só tinha se humilhado por nós ao assumir a natureza humana para ser o nosso sacrifício perfeito, tinha-se rebaixado ainda mais dando-nos a Sua própria carne como vida e alimento das nossas almas.

E tudo isso para que O pudéssemos ter em nós, não só no coração, mas também no corpo físico, convertendo-nos em sacrários vivos.

Sentia que o meu coração rebentava de felicidade!

Dar a conhecer a boa nova não foi tão fácil. Alguns se alegraram tanto que foi muito humilhante, para não dizer uma coisa pior (Não imaginas quantos terços rezei pela tua conversão!). Houve amigos protestantes que não queriam acreditar que ao fim de quatro anos eu tivesse cedido (É uma tragédia!).

Para a minha família foi uma grande tristeza; não me rejeitavam por esta decisão, mas foi para eles muito dolorosa, porque me amavam e porque temiam as conseqüências que pudesse ter na nossa família de sangue.

Quando telefonei aos meus pais para lhes comunicar que decidira entrar na Igreja Católica nessa Páscoa, o papai nem me animou nem me desalentou. Disse simplesmente:
 

- Kimberly, Jesus é a única Pessoa a quem tens que dar contas. Quando tens Jesus diante de ti, o que é que lhe consegues dizer com a consciência tranqüila?

Eu respondi-lhe:
 

- Papai, dir-lhe-ei com todo o coração: “Jesus, amei-Te a grande custo, e fui obediente a tudo o que entendi, seguindo-Te até à Igreja Católica”.
 

- Kimberly, se é isso que dirias, então é isso que deves fazer.

As semanas da Quaresma estiveram repletas de graças especiais para o Scott e para mim. As minhas objeções acerca da Confissão esfumaram-se: Já não podia esperar mais.

Um dia, duas semanas antes da Páscoa, o Scott disse-me:
 

- Por que não rezas o terço?

Com o meu típico estilo dócil, disse-lhe:
 

- Já estou a fazer-me católica, querido. Não me pressiones!
 

- Está bem... era só uma sugestão – respondeu

Na semana seguinte, enquanto o Scott visitava a ETWN, o Bill Steltemeier disse-lhe:
 

- É verdade, o Espírito Santo disse-me que mandasse o meu terço a tua mulher.

Pensando na nossa conversa recente, o Scott observou:
 

- Não sei se faria isso.

O Bill não se desanimou:


- O Santo Padre deu-me este terço, e eu nunca pensei desfazer-me dele. Mas o Espírito Santo disse-me para dá-lo à Kimberly, por isso vou mandá-lo à tua mulher.

O Scott contou-me isto e deu-me um livro sobre o rosário bíblico. Quando o terço do Bill chegou, olhei-o e disse a mim própria: Que tesouro isto é para um católico! Realmente não o posso deixar abandonado na secretária. Mas, atrever-me-ia a usá-lo?

Preocupava-me que o terço fosse um exemplo da vã repetição ao rezar, que fora claramente condenada por Jesus.

Contudo, uma introdução ao terço, preparada por uma freira, ajudou-me a adquirir uma nova perspectiva. Animava os crentes a verem-se a si mesmos, não como adultos cristãos, mas como crianças diante do Senhor.

Por exemplo, recordava aos leitores que quando os nossos próprios filhos pequenos dizem uma e outra vez, durante o dia: “Amo-te mamãe”, nunca lhe respondemos: “Querido, isso é só uma repetição vã”.

Do mesmo modo, nós, como crianças pequenas, dizemos a Maria: “Amo-te mamãe; roga por mim”, por meio do terço.

Embora seja repetitivo, só se tornaria vão se disséssemos as palavras sem lhes dar sentido. Kimberly, se é isso que dirias, então é isso que deves fazer.

As semanas da Quaresma estiveram repletas de graças especiais para o Scott.

Nos primeiros três dias rezei só um mistério, dizendo: “Senhor, espero que isto não te ofenda”. Mas, passados mais alguns dias, senti realmente que o Senhor dava a sua aprovação e me ajudava espiritualmente por este meio. O terço converteu-se assim num elemento normal da minha vida.

Decidi então contar isto ao Scott. Foi mais uma das ocasiões em que, entre lágrimas e abraços, tive que me humilhar para reconhecer diante do Scott que ele tinha tido razão em muitas coisas. E li-lhe o que acabava de escrever no meu diário de oração:


Senhor, quebra o gelo do meu coração com o cálido alento do Teu Espírito. Quero tirar-me do meio e deixar-Te trabalhar em mim. Perdoa-me, por favor, os anos em que rejeitei a orientação espiritual do Scott, e muda o meu coração de pedra por um coração de carne, da Tua carne Eucarística. 

 
Obrigada pela oportunidade de apagar os meus sujos pecados com as Tuas poderosas graças no Sacramento da Confissão e Penitência, permitindo-me a participar na reparação do dano que causei ao Corpo de Cristo.

Desfrutei completamente com o Noivo e o seu Pai, e espero com emoção a festa de casamento já próxima; mas Jesus quer que conheça também a Sua Noiva, a Igreja, para compreender mais profundamente com quem participarei na celebração.

Qual seria o noivo que quereria que fosse à festa e ficasse a contemplá-lo só a ele? Quer que também conheça a sua esposa e a aprecie. Até agora, a Igreja tem sido para mim uma abstração, algo puramente espiritual e não tangível. Mas agora está se convertendo em algo mais do que sermões inspiradores e estimulantes serviços; está se tornando pessoal.

Mais do que uma coleção de doutrinas mais verdadeiras e ricas do que as que tinha antes, a Igreja tornou-se uma realidade viva, palpitante, cheia de pessoas defeituosas, como eu, que estão doentes e precisam de médico, e tudo isto envolto na magnífica Glória de Deus.

Prometi negar-me a mim mesma nesta Quaresma, e contudo, como sempre acontece com Deus, o que é que entreguei que não fosse o que já não quero conservar? O Teu amor transformou tudo, Senhor.

Sim, o Scott tinha razão: porque me trataste assim? Para me demonstrar o Teu amor.

Lembro-me do dia em que em Grove City comecei a sentir que já não sabia quem Tu eras: o Deus dos protestantes ou o Deus dos católicos. Aplaudias o Scott e estavas desgostado comigo?

Perguntava a mim mesma, mas não mudava de opinião. Não lia, não estudava, não rezava: era muito doloroso.

Não queria renunciar aos meus sonhos, aos meus projetos, ao meu titulo acadêmico, à minha forma de entender a verdade.

Tinha tudo controlado. Redefinir os meus termos teológicos, ou arriscar-me a perder amizades ou desgostar a minha família? Nem Pensar! Era uma espécie de pesadelo, de que tinha a certeza que ia acordar brevemente.

Mas agora, Senhor, posso sentir o Teu amor por mim em plenitude. Tu não me amas só agora que cheguei à verdade.

Tu amaste-me em cada passo do caminho, pelo que sou, não só pelo que viria a ser.

Peço-Te que me ensines tudo desde o principio. Quero ser dócil. Fui quebrada. Derrama o azeite do Teu gozo para tornar moldáveis os cacos de barro.

O meu coração canta novamente a bondade do Senhor.

As cruzes que me enviastes por meio do Scott e de mim mesma nestes últimos sete anos, são grandes dons.

A dor deu o seu fruto.

Durante um período de oração, na semana anterior à Páscoa, fiquei maravilhada ao descobrir como a custódia parece um símbolo da Igreja Católica.

Como muitos protestantes, pensava que Maria, os santos e os sacramentos eram obstáculos no caminho entre os crentes e Deus, e que deviam esquivar-se para chegar a Ele.

Pareciam complicar desnecessariamente a vida com Deus, como as aderências sobre os tesouros imersos, que se devem por de parte para chegar ao que é realmente importante.

Mas agora via que era precisamente o contrário. O catolicismo não é uma religião ausente, mas pelo contrario, orientada à presença.

Eram os católicos que tinham fisicamente presente nas Igrejas, e se viam a si mesmos como sacrários vivos depois de receberem a comunhão.

E, como Jesus é a Eucaristia, tê-lo a Ele como centro permite que toda a riqueza doutrinal da Igreja emane d’Ele, como os belos raios dourados se derramam da Hóstia na custódia.

A minha Vigília Pascal teve um misto de gozo e de pesar, como aconteceu com a do Scott. Os meus pais decidiram assistir à missa; uma vez mais que eu ia tomar uma decisão importante, que mudaria toda a minha vida, consideraram que deviam estar presentes.

Alegrei-me que viessem, pois isto me permitia partilhar a dor que lhes estava causando, embora experimentasse ao mesmo tempo a alegria de ser recebida na Igreja Católica.

Vieram cheios de amor para estar conosco. Jantamos fora na véspera, e tive uma ótima oportunidade de lhes explicar do fundo do coração por que razão me tornava católica. Queria soubessem que era uma decisão longamente meditada, e alcançada depois de muita oração e estudo.

De fato - disse-lhes – mesmo que o Scott morresse na segunda-feira de Páscoa, eu nem sequer pensaria em voltar a sair com um protestante, já que a minha fé se tinha fraguado a tão alto preço.

Queria dizer-lhes também que eu não era a causa principal da sua dor, pois o Senhor estava detrás de tudo.

Para mim teria sido mais fácil lançar as culpas ao Scott pelo meu sofrimento, ou à Igreja Católica por ter se metido na minha vida, em vez de ver a mão do Senhor atuando.

Mas agora podia ver que Deus na Sua misericórdia tinha intercedido na minha vida porque me amava muitíssimo.

Na manha da Vigília Pascal a minha querida amiga Barb trouxe três Círios Pascais da parte de um grupo do qual a nossa família fazia parte.

Este grupo, o Catholic Families and Friends, preparou uma festa especial nessa noite para festejar conosco. Queriam que a casa estivesse todo o dia cheia de um aroma de felicidade. Em seguida, os meus padrinhos, o Dr, Al Szews e a mulher, chegaram, vindos de Milwaukee, com presentes especiais.

Como preparação para a cerimônia os meus pais rezaram comigo em casa, e os meus padrinhos rezaram depois comigo na Igreja.

Depois da Confissão, rezei sozinha para preparar o meu coração para a Missa da Vigília. A seguir, escrevi uma nota para o Scott: “Meu querido Scott, estou tão agradecida por ti e pelo seu esforço para conseguir este passo para nós. Amo-te. K”

Não sabia como exprimir a enorme gratidão que sentia pela fidelidade do Scott a Deus

Nos bancos, ao meu lado sentou-se o Scott, que chorava de alegria ao ver-me chegar à plenitude da fé católica e receber com ele o Senhor na Eucaristia. Os meus pais choravam de tristeza ao verem-me convertida a uma Igreja que eles nunca teriam escolhido para mim, e que agora nos separava à mesa do Senhor.

Pensei que mal poderia suportar, quer o gozo quer a pena, no momento de dar o sinal da paz.

Logo a seguir à Missa começou a festa.

Os meus pais escaparam-se passados poucos minutos.
 

A alegria de todos pela minha conversão era indescritível. No Domingo de Páscoa, depois da Missa de Gloria de manhã, fomos a Milwaukee, onde celebramos a nossa condição de família católica na companhia de grandes amigos, em casa dos Wolfe (os padrinhos do Scott).

Que imensa alegria! No meu caminho espiritual tinha chegado o verão.


A Vida de uma Família Católica

Scott

Quando os protestantes evangélicos se converterem à Igreja Católica é frequente sofrerem uma espécie de "traumatismo cultural religioso".

Deixaram para trás congregações em que se canta a plenos pulmões, com uma pregação prática baseada na Bíblia, um tom conservador pró-família no púlpito, e um vivo sentido de comunidade, com várias reuniões de oração, companheirismo e estudo bíblico, entre as quais podem escolher durante a semana.

Em contraste, a paróquia católica média é geralmente parca nestes aspectos. Embora os novos conversos normalmente sintam que "voltaram a casa" ao fazerem-se católicos, nem sempre se "sentem em casa" nas suas novas famílias paroquiais.

A Kimberly e Scott puderam experimentar isto.

Contudo, lugares como a Franciscan University of Steubenville demonstram que as coisas não tem necessariamente que ser assim. O que mais nos impressionou durante a estadia em Steubenville foi precisamente a forma como se conjuga o evangélico com o católico.

Scott se refere ao modo como a fé católica une o que outras religiões tendem a separar: devoção pessoal e ritual litúrgico, apostolado evangélico e ação social, fervor espiritual e rigor intelectual, liberdade acadêmica e ortodoxia dinamica, culto entusiasta e reverente comtemplação, pregação vigorosa e devoção sacramental, Escritura e Tradição, corpo e alma, o individual e o comunitário.

Depois da conversão de Kimberly, puderam partilhar tudo isto em família. Esforçavam-se por assistir diariamente a Missa em família na Universidade. Com a Eucaristia como centro das suas vidas, acham que serão capazes de mostrar aos seus filhos como a Bíblia e a liturgia estão unidas, como a ementa com a refeição. Seus filhos vêem dezenas de sacerodotes e centenas de estudantes que vivem o evangelho de um modo prático.

Dar aulas a esses estudantes revelou-se uma das experiências mais gratificantes de sua vida.

Scott tem paixão por estudar a Escritura,por aprender teologia e por fazer centenas de perguntas difíceis. ( Afetuosamente chama os seus alunos "os meus santos chupa-cérebros").

Depois da aula, procuram o modo de aplicarem o que aprenderam, nos seus trabalhos e nas relações pessoais. Scott esta persuadido de que Deus está a preparar muitos dos futuros responsáveis da Igreja Católica nesta Universidade.

Além do trabalho na Universidade, o Senhor proporcionou a eles, inúmeras oportunidades de dar testemunho. Com centenas de suas palestras em cassetes e videos, a mensagem chega muito para além do nosso limitado raio de ação por meio das viagens.

Estas gravações circulam atualmente por muitos países. Tem-nos telefonado ou escrito do Canadá, México, Inglaterra, Escócia, Holanda, Polonia, LItuania, Bélgica, Austria, Austrália, Nova Zelândia, Ghana, Japão, Indonésia, Filipinas, etc. E pensar que temiam não poder voltar a fazer apostolado juntos!

Tudo isso se tornou possível graças a associação com Terry Barber e a Saint Joseph Communications. No período de um ano a gravação da palestra que Scott deu a apenas 35 pessoas em 1989, foi adquirida por mais de 35 mil. Os números aumentaram a centenas de milhar nos últimos anos. Além da gravação da sua conversão, o Terry distribuiu mais de 200 gravações dos seus discursos, que abordam uma grande variedade de temas e explicam diversos aspectos da doutrina católica.

Afinal o seu pai tinha razão (e ele encarrega-se de que Scott não o esqueça). Assegurou-se bem de que Scott soubesse como se sentia orgulhoso do seu filho mais novo, o teológo não o joalheiro.

Depois de uma longa doença, faleceu em dezembro de 1991. Foi uma das mais duras, e ao mesmo tempo mais belas experiências de sua vida. Durante muitos anos foi um agnóstico, mas através do sofrimento recuperou sua fé pessoal em Cristo. Nas últimas semanas de vida Scott e ele conseguiram partilhar momentos muito significativos, a rezar, a ler a Escritura e a falar a cerca da sua vida e do Senhor.

Scott nunca esquecerá o privilégio que teve de segurar a sua mão e lhe fechar os olhos quando o pai celeste o chamou; e também nunca deixará de agradecer a Deus o ter-me dado um pai terreno que me tornou tão fácil amar o Pai do Céu.

Uma semana mais tarde, o seu sogro, o Doutor Jerry Kirk, telefonou a convidá-lo a acompanhá-lo a Roma no mês seguinte, a uma reunião com o Papa João Paulo II.

O que faz a graça de Deus!

Como fundador da R.A.A.P. (Religious Alliance Against Pornography), o Jerry tinha sido convidado por membros da hierarquia catolica a dirigir uma sessão de três dias no Vaticano com um grupo de uns 12 responsáveis religiosos norte-americanos. O Cardeal Bernadin organizou a reunião com o fim de coordenar estratégias com representantes do Vaticano para combater a pornografia em todo o mundo. No fim das deliberações teriamos uma audiência privada com o Santo Padre para lhe apresentar as conclusões e as comentar com ele de forma mais detalhada.

Foi assim que Scott foi a Roma pela primeira vez. Entre as sessões pode visitar S.Pedro e alguns outros lugares santos, não como turista mas como peregrino. Foi algo impressionante.

Ao fim dos três dias, numa quinta feira a tarde os conduziram por um labirito de corredores e os acompanharam a sala de reuniões. Enquanto estavam ali sentados a espera da chegada do Papa, Scott rezou intensamente. Logo que ele entrou na sala, os tramites pareceram completar-se num instante.

Scott apertou-lhe a mão, e foi tudo; o Papa passou a cumprimentar o seguinte da fila. Scott ali ficou, todo feliz e dando graças a Deus pelo privilégio de se encontrar com seu pai espiritual em Cristo, embora apenas por breve segundos. Pelo menos pode apertar a mão do Vigário de Cristo, o sucessor de Pedro, uma emoção não pequena para este antigo anti-católico.

Uma hora mais tarde, os responsáveis voltaram a reunir-se na sala do Vaticano onde tinham-se reunidos ao longo de toda semana. Quando Scott entrou, ouviu uma explosão de risos vindo do lado onde se encontrava sua sogra, parara diante de uma mesa a observar uma fotografia. Scott se aproximou ao chegar ao pé dela pode ver uma fotografia do seu marido apresentando o genro ao Papa. "Consegue-se acreditar? Depois de todos esses anos, por fim o teu sogro conseguiu apresentar-te a ti ao Papa". Enquanto ria ainda mais, abraçavam carinhosamente.

Poucos minutos depois soou um telefone no escritório ao fundo do corredor. Um homem de idade veio a sala de reuniões e perguntou:
 

- Está aqui o Professor Hahn?

Scott levantou a mão para se identificar.
 

- É uma chamada para ti.

Enquanto avançava pelo corredor perguntava a si mesmo quem poderia ser. Pegou no telefone e ouviu uma voz com sotaque acentuado:
 

- Poderia estar amanhã a sete da manhã na Capela Privada de Sua Santidade, o Papa João Paulo II, para assistir a Santa Missa?

Scott a principio pensou que era uma brincadeira. Mas imediatamente recordou um encontro no principio da semana com o professor Rocco Buttiglione, que se ofereceu para usar a sua influência diante do secretário privado do Papa, e conseguir que Scott assistisse a Missa matutina do Papa.
 

- Sim, claro que posso estar.

Mas estava tão nervoso que se esqueceu os pormenores.

Felizmente o Cardial Cassidy, um dos representantes do Vaticano na sala de reuniões, explicou-lhe o procedimento. Devia estar a uma certa porta as 6:30 da manhã, e ai um guarda suiço o acompanharia.

Na manhã seguinte, depois de tentar em vão durmir, Scott levantou-se apanhou um taxi para a praça de São Pedro. Chegou com mais de uma hora de antecedencia. Dando voltas a praça, rezou o rosário e se preparou para o que sabia ser um privilégio de toda uma vida.

Conforme tinham indicado a hora prevista alguém veio burcar-lhe. Levou por escadas e corredores, até que se encontrou entre vários bispos e sacerdotes que se revestiam para concelebrar com o Papa.

Ali permaneceu nervoso, até que subtamente, o secretário pessoal do Papa assomou com a cabeça a porta, olhando a volta da sala. Por fim disse:
 

- Onde está o teólogo da Universidade de Steubenville? 
Scott mal conseguiu entender as suas palavras devido ao sotaque. Mas por fim entendeu que perguntava por ele. Levantou a mão com timidez e disse:
 

- Estou aqui.

Olhou-o e inclinou a cabeça.
 

- Muito bem.

Scott não fazia a mais pequena idéia de que se tratava, mas sentia-se observado por todos os prelados estrangeiros que olhavam para ele e se perguntavam: "Quem é este tipo e que cargo ocupa?".

Momentos depois foi conduzido pelo corredor a uma pequena capela privada. Assim que entrou, notou que o Papa João Paulo II já ali se encontrava no seu reclinatório, orando diante do Tabernáculo. Ajoelhando-se a pouca distância, pediu ao Senhor a graça especial de unir o seu coração ao do seu pai espiritual ao renovar a Aliança pela celebração do Sacrifício de Cristo na Missa.

Quanta reverência e amor manifestava o Papa em cada parte da liturgia eucarística. Scott não se lembra de ter sentido nunca antes tão vivamente a realidade da presença de Cristo.

Ao terminar a Missa, os conduziram ao vestíbulo da capela, enquanto o Santo Padre permanecia no seu reclinatório em ação de graças. Scott foi o último a sair e não conseguiu resistir à tentação.

Deteve-se, ajoelhou-se uns quantos passos atrás dele e rezou, ali a sós com o Papa, durante quase meio minuto, até que ouviu passos se aproximando-se apressadamente em direção à capela.

Como suspeitou, tinham contado as pessoas e notado a falta de alguém. Scott se pos de pé, precisamente quando o secretário pessoal do Papa entrava na capela. O guiou com amabilidade e firmeza a sala onde o Papa se reuniria com eles dentro de poucos minutos.

Enquanto esperavam, Scott rezou e anteviu o que ia fazer. Nisto entrou o Papa. O que mais impressionou imediatamente foi ver como parecia agora mais desperto e enérgico, imediatamente depois da Missa, em comparação com o ar de cansaço que notara no seu rosto no dia anterior a tarde, durante a audiência privada.

Parecia vivamente interessado em cada um dos que ia cumprimentando.

Tratava cada um como se fosse a única pessoa na sala. Olhava-o diretamente nos olhos e escutava atentamente antes de falar. Chegou a vez de Scott.

Avançou para o saudar, e como Scott lhe estendeu os dois braços se abraçaram. Scott entregou-lhe então um exemplar, belamente embrulhado, das suas gravações intituladas "respostas as objeções mais comuns", juntamente com um envelope com uma carta pessoal e dois cheques, como manifestação de amor e respeito das famílias Barber e Hahn.

O Papa olhou em seus olhos e disse:


- Deus te abençoe. Tu é que és o professor de Teologia da Universidade de Steubenville?
 

- Sim, Santo Padre, sou eu.
 

- Por favor transmite as minhas saudações e bençãos a comunidade de Steubenville.
 

- Santo Padre o meu pai natural acaba de morrer no mês passado, e agora o meu Pai celeste bendiz-me com o privilégio de encontrar-me consigo, o meu Pai espiritual.

E abraçaram-se pela segunda vez. Olhou Scott intensamente e disse:
 

- Sinto que teu pai tenha falecido. Deus o abençoe. Rezarei por ele.

O coração de Scott saltou ao recordar imediatamente aquela linha da Escritura:
 

"Tudo que atares na terra, será atado no céu"

Depois explicou-lhe brevemente, num minuto apenas, toda sua peregrinação espiritual de pastor presbiteriano anti-católico que se convertera ao catolicismo apenas 6 anos antes.

Ele ouviu atentamente antes de lhe dar outro aperto de mão, uma benção e um terço. Ao sair da presença de João Paulo II - o ungido pelo meu pai celeste e o meu irmão mais velho que pastoreia a família da Aliança de Deus na terra - Scott teve a forte sensação de que lhe Deus lhe dizia:
 

"Scott, o melhor ainda está por vir".

Kimberly

Seis semanas depois de ter sido recebida na Igreja Católica, o nosso filho mais velho, Michael, fez a Primeira Comunhão. Era católica há muito pouco tempo, e senti que o meu coração estalava de alegria.

Não consigo imaginar o que sentirão esse país, que, tendo nascido católicos, sonharam ter um filho e levá-lo à mesa do Senhor para a Primeira comunhão. (já tivemos a oportunidade de levar também o Gabriel, e esperamos com impaciência a chegada desse dia especial para Hannah).

As preocupações do meu coração foram sempre estas: primeiro, espero que a festa do Cordeiro Pascal do céu seja mais importante do que a festa terrena que se lhe segue. E, em segundo lugar, procuro que a atenção esteja mais centrada na presença de Jesus na Eucaristia do que nos presentes que as crianças vão receber a seguir.

Um dia, durante a consagração, o Scott inclinou-se e disse-me:

- Consegues imaginar o que estarão a pensar os anjos?

A pergunta levou-me a pensar em realidades que não tinha em conta antes. É verdade que os anjos estão presentes na liturgia, mas não recebem o Senhor.

Devem contemplar com espanto e respeito o incrível amor que o Pai celeste tem por nós, enviando Jesus à terra para assumir a humildade da natureza humana, para entregar a Sua vida em sacrifício por nós, e finalmente para nos alimentar com a oferenda gloriosa e ressuscitada do seu Corpo e Sangue. Que magnífico mistério!

Jejuar na hora anterior foi também uma boa experiência, pois é uma pequena mortificação (há sempre demasiado poucas na minha vida!), que me recorda a necessidade de ter fome de almas.

A mudança para Steubenville foi uma grande benção. Encontramos muito amigos maravilhosos na Universidade e na comunidade. Temos mais de quarenta famílias no nosso grupo de estudantes da Universidade foram para os nossos filhos um grande reforço do nosso próprio compromisso dom o Senhor.

Em que é que mudou a nossa vida? O meu coração está cheio da bondade do Senhor e dessa alegria da minha salvação que durante cinco anos queria sentir e não conseguia. Creio que poderia resumir tudo em três frases:

Unidade restaurada, apostolado renovado e família revigorada.

A unidade entre nós foi restaurada. Temos novamente fortes convicções em comum, até mais profundas agora, depois de tudo aquilo por que passamos.

Fico encantada a ouvir os ensinamentos do Scott. Em lugar de me impacientar durante as suas aulas sobre a Bíblia, realmente desfruto.

Participamos juntos na Missa, habitualmente na Franciscan University, unidos a um grupo de crentes comprometidos que amam o Senhor e querem partilhar fielmente o seu amor por Ele.

Antes, as crianças notavam a nossa desunião, embora não falamos muito das nossas divergências diante delas. Mais do que um grande alivio os nosso filhos experimentaram realmente a nossa alegria por estarmos de novo tão profundamente unidos.

O nosso apostolado renovou-se enormemente. Alguns sonhos morreram, mas Deus renovou-os superabundantemente. Em casa temos tido muitíssimas ocasiões de oferecer hospitalidade; anualmente almoçam conosco mais de trezentas pessoas.

Alem disso, hospedar em casa estudantes da Universidade, que mudam de um semestre para o outro, tem sido uma nova aventura para nós, a aventura de viver numa família alargada.

E a enorme sala de estar de nossa casa acolhe todas as semanas grupos de entre vinte e cinqüenta pessoas nos cursos bíblicos que damos o Scott e eu.

Ambos começamos também a dar palestras juntos durante as viagens, e temos tido o privilégio de nos podermos reunir e partilhar a fé com tantos católicos maravilhosos comprometidos e maduros, por todo o país.

A difusão das gravações através da Saint Joseph Communications, possibilitou que a nossa mensagem chegasse muito mais longe do que nós com as viagens.

E o permanente apostolado do telefone e do correio pôs-nos à prova até ao limite do nosso tempo e energia!

E pensar que cheguei a achar que todas essas formas de apostolado estavam perdidas para sempre! O Senhor tinha o Seu tempo para as fazer reviver.

A minha família revigorou-se graças aos novos canais de graça agora à nossa disposição: a Confissão regular e a Eucaristia quase diária.

Tivemos a alegria de aprender o calendário litúrgico, com a observância da abstinência (Advento, Quaresma e sextas-feiras) e com a alegria das festas (além dos aniversários e do Natal, celebramos os dias dos nossos santos e os aniversários de Batismo).

Ao conceber o meu primeiro filho já como católica, sabia que todas as manhãs, ao receber a Eucaristia, o meu bebê era alimentado e nutrido pelo próprio Senhor.

Depois dos abortos espontâneos, não tinha certeza de que todo o dia podia levar essa pequena vida à presença de Jesus e receber a bênção do sacerdote.

Pela primeira vez pus também os santos do Céu a trabalhar, pedindo-lhes que intercedessem pelo meu filho.

Que grande alegria foi dar à luz o Jeremiah Thomas Walker a 3 de julho de 1991, e batizá-lo no começo de setembro! E foi uma enorme alegria para nós, e uma ponte com a minha família de origem, que o meu pai participasse no Batismo.

Até o dia em que fui recebida na Igreja, nunca tínhamos ido à Missa diária em família; agora, é o centro do nosso dia. Recebemos a bênção de muitos sacerdotes que passam por Steubenville e celebram a Missa.

A pergunta mais comum da Hannah, surpreendida ao ver tantos sacerdotes, é: “E esse, também é meu pai?”

Apreciamos a tradição evangélica, na qual as pessoas cantam e rezam com o mesmo entusiasmo.

Por isso, um dos elementos do culto que a nossa família mais apreciou na Franciscan University é a forma como a assembléia participa. Como Scott costuma dizer: “Se a Missão não te leva a cantar, que outra coisa o fará?”.

Embora nem sempre seja fácil, é muito bom que toda a família participe na Missa. É um bom momento para a proximidade física e para falar às crianças do Senhor.

Embora às vezes pareça que a Graça recebida se esgota ainda antes de terminar o Cântico final (por causa da disciplina e das distrações) sempre é melhor levá-los à presença de Jesus, do que deixá-los lá fora.

No fim da Missa costumamos a ter o que chamamos o nosso “santo amontoamento”. Juntamo-nos todos e elevamos uma oração de ação de graças em familia. Sinto-me muito agradecida pela unidade da nossa família sob a orietaçao espiritual do Scott.

Que doce é sentir-se em casa na Igreja Católica!

E que grande privilégio foi refletir sobre as nossas vidas e dar testemunho de como o Senhor guiou os nossos passos para Ele e para a sua Igreja.

Certamente, como diz o salmista: " Fez memoráveis as suas maravilhas, o Senhor é clemente e compassivo". ( Sal. 111,4).

Que o Senhor pela sua abundante misericordia, nos faça a todos capazes de nos entregarmos cada dia mais a Ele.

Scott

Conclusão

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Apelo aos católicos para serem cristãos bíblicos ( e vice-versa).

Já contamos a nossa história. Para terminar queremos dar graças a Deus pela Sua graça e misericórdia. Brevemente, queremos ainda partilhar o desafio que Deus nos fez através da Sua Palavra.

Aos nossos irmãos e irmãs católicos queremos animá-los e motivá-los a conhecerem melhor a fé católica, que lhes foi confiada como um patrimônio sagrado. Para vosso próprio bem - e para o bem dos demais - estudai-a, para saber aquilo em que acreditais e por quê acreditais nisso.

Pegai a Sagrada Escritura e lede-a diariamente. É a inspirada e infalível Palavra de Deus escrita para vós, como a Igreja Católica ensinou sistematicamente ao longo deste século, especialmente no Concílio Vaticano II. Acreditai nela. Partilhai-a. Uasi-a para fazer oração. Memorizai-a. Submergi-vos nela, como numa tina de agua morna! Aprendei-a bem, para poderdes vive-la mais plenamente e partilhá-la com maior alegria.

Esse é o caminho para tornar a fé "contagiosa"! Precisamos de católicos contagiosos!

Além da Bíblia, tende também um exemplar do Catecismo da Igreja Católica e lede-o integralmente - do princípio ao fim - pelo menos uma vez.

É indispensável para por em prática os ensinamentos do Vaticano II. É na verdade a "chave do Concílio". E uma vez que estais com isto, porque não arejais os Documentos do Concílio Vaticano II? (possuís estes documentos, não é verdade?).

Podeis dedicar umas quantas semanas a refrescar-se com o verdadeiro "espírito do Concílio", tirado diretamente dos seus textos.

O Vaticano II dirige um apelo à renovação, mas a resposta a esse apelo atrasou-se. Virá logo que os católicos normais e correntes - como vós e como eu - derem este passo fundamental. Na realidade não é assim tão difícil: qualquer "cristão corrente" o pode fazer!

A mensagem de longe mais importante do Vaticano II é a "chamada universal a Santidade". Basicamente isto significa que todos - não só os padres e as freiras - estão chamados a ser santos.

Isto requer que cada um dê a máxima prioridade à oração, e oração diária. Como americanos, costumamos achar que estamos demasiado ocupados para ter vida interior e para crescer nela; mas, como católicos, sabemos que isto é absolutamente essencial, mais do que tudo o resto.

Fazei um "plano de vida" pessoal que inclua a oração. Pode parecer fácil, mas às vezes é realmente dificil, embora nunca tão dificil como uma vida sem oração diaria.

O fundamento da vida cristã de um católico devem ser os sacramentos, especialmente a Eucaristia. Não podemos fazer as coisas sózinhos. Cristo sabe isso; por isso instituiu os sacramentos, para nos dar a Sua vida e poder divinos.

Temos que estar atentos para não participarmos nos sacramentos de modo inconsciente ou distraído. Não são meios mágicos ou mecânicos para nos fazerem santos sem a nossa fé e esforço pessoal.

Um católico não pode estar na Missa como um automóvel que passa pela lavagem automática. As coisas não funcionam assim . A graça não é algo que nos fazem; é sobretudo a vida sobrenatural da Trindade enxertada profundamente nas nossas almas, para que Deus possa fazer a Sua morada em cada um dé nós.

É a Aliança que estamos chamados a viver como irmãos e irmãs na família católica de Deus. Cristo é o alimento das nossas almas, não façamos dieta.

Os católicos que cultivam a oração, o estudo e uma vida baseada nos sacramentos, devem também ser apóstolos mais ativos no lugar onde se encontram: em casa, no trabalho, no mercado, mas principalmente na família e entre amigos.

Nos últimos anos a Igreja católica perdeu literalmente milhões de fiéis, que passaram para confissões ou congregações fundamentalistas e evangélicas. Este fato oferece novas e estimulantes oportunidades, não só de convencer ex-católicos a voltarem à Igreja ...

Mas também de mostrar aos não católicos a nossa fé como ela é realmente baseada na Bíblia e cristocêntrica.

Temos que reconhecer: muitos cristãos não católicos envergonham-nos. Com a Bíblia na mão e o seu grande zelo pelas almas, fazem muito mais com menos meios, do que muitos católicos, que tem a plenitude da fé na Igreja, mas que estão raquíticos e adormecidos.

Partilhamos com os outros cristãos muito da verdade que a Bíblia ensina sobre Cristo, mas a eles falta-lhes nada mais nada menos do que a presença real de Cristo na Eucaristia. Para falar de modo simples: eles estudam a ementa enquanto nós desfrutamos da Refeição!

E com demasiada frequencia nem sequer conhecemos os ingredientes, pelo qual não podemos partilhar a receita. Será que nos pede demasiado Nosso Senhor aos católicos, quando nos diz que façamos mais, muito mais, para ajudar os nossos irmãos separados a descobrirem no Santíssimo Sacramento o Senhor que tanto amam? Se não o fazemos nós, quem fará?

Queremos também partilhar este desafio com os nossos irmãos e irmãs em Cristo que não são católicos. Com amor e respeito damos nosso testemunho da fidelidade do nosso Deus à Sua Aliança, o qual ao longo das épocas gerou a grande família da Igreja, una , santa, católica e apostólica.

Paulo refere-se a esta Igreja como "o lar de Deus", que é "coluna e fundamento da verdade" (I Tim 3,15). É outro modo de dizer que a família de Deus foi estabelecida e capacitada divinamente para manter a verdade revelada.

Deus gera a sua família numa única Igreja. Um pai é glorificado pela unidade da sua família, um homem é desgraçado quando tem os filhos desunidos. A unidade real significa identidade de vida que se experimenta na unidade da fé e da prática. Tudo isto se aplica à Igreja santa, e isso foi o que fez com a Igreja católica.

É desta Igreja que Cristo fala: "Construirei a Minha Igreja". Não é a tua Igreja nem a minha; é a de Cristo. É Ele o construtor, nós somos apenas instrumentos. Engrandecer a Igreja não é desprezar o Senhor. A Igreja Católica é obra Sua. Reconhecer a grandeza da Igreja católica - a sua autoridade divina e testemunho infalível .

É nada mais nada menos do que enaltecer a obra redentora de Cristo. Consequentemente, rejeitar a autoridade e desprezar o testemunho da Igreja - mesmo que isso se faça por um mal entendido zelo pela exclusiva honra de Cristo - é defiá-lo a Ele e à plenitude da Sua graça e verdade.

A duras penas, Paulo aprendeu esta lição.

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A Igreja Católica é chamada também o Corpo Místico de Cristo; o Espírito Santo é a sua Alma. Um corpo sem alma é um cadáver; uma alma sem corpo é um fantasma.

A Igreja de Cristo não é nem uma coisa nem outra; mas dificilmente se poderá chamar um corpo se carecer da unidade visível. Se assim não fosse, Paulo não lhe teria chamado Corpo de Cristo, mas simplesmente sua Alma.

Mas a alma está feita para dar vida ao corpo, não para andar a flutuar sem ele. Quando a alma cumpre sua missão, todas as partes e os membros do corpo estão vivos e saudáveis. Dentro da Igreja Católica, estas partes e membros chamam-se "santos" .

Os santos irradiam a vida do Espírito Santo no Corpo de Cristo. Este é , portanto, o propósito do Espírito Santo no Corpo de Cristo: manter o Corpo visível de Cristo vivo na verdade e na santidade. Isso tem vindo a fazer ao longo de dois mil anos; isto chama-se Igreja católica.

Não é, portanto, por acaso que no Credo dos Apóstolos estes dois elementos estão tão intimamente conectados: Creio no Espírito Santo, na santa Igreja católica, na comunhão dos santos.

No centro desta visão católica está a Trindade. Deus é uma Família eterna de três Pessoas Divinas: O Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Aliança é o que nos capacita para participar na Sua própria vida divina. Para nós isso significa nada mais nada menos do que a participação familiar - como filhos de Deus - na comunhão interpessoal da Trindade.

Isto é o que os Católicos chamam graça , graça santificante. Este elevado conceito da graça é a base de cada uma das crenças católicas. Quer se trate de Maria, do Papa, dos bispos, dos santos ou dos sacramentos, tudo se torna possível pela graça de Deus viva e activa.

A graça divina é o modo como Deus conduz a nossa natureza caída mais além de si mesma ( A palavra chave aqui é "além de" - Não "contra" - já que a graça não destrói a natureza , mas constrói sobre ela: para curar, aperfeiçoar e para elevar, de modo a poder partilhar a vida de Deus).

Chamar a Igreja católica de " família de Deus" não é então uma afirmação metafórica; é uma asserção metafísica.

É na realidade o mistério da nossa fé.

É verdade que Jesus Cristo quer ter uma relação pessoal com cada um de nós como nosso Salvador e Senhor. Mas quer muito mais do que isso: quer-nos em Aliança com Ele. Eu posso ter uma relação pessoal com o vizinho do lado, mas isso não significa que ele queira que partilhe a sua casa.

Do mesmo modo, César Augusto proclamou-se a si mesmo senhor e salvador de todos os seus súditos; mas não morreu numa cruz para que eles pudessem ser seus irmãos e irmãs.

Jesus Cristo quer-nos na Nova Aliança que estabeleceu por meio de Sua carne e do Seu sangue, a mesma Aliança que renovana Sagrada Eucaristia. Quando Seu sacrifício por nós se renova no altar, reunimo-nos à mesa familiar para a refeição sagrada que nos une.

Jesus quer que conheçamos não só o Pai e o Espírito Santo, mas também a sua Bendita Mãe e todos os Seus iemãos e irmãs santificadas. Deseja também que vivamos de acordo com a estrutura familiar que estabeleceu para a Sua Igreja na terra: o Papa e todos os bispos e sacerdotes a ele unidos.

Regressai a casa na Igreja fundada por Cristo.

A Ceia está preparada e o Salvador chama: "Eis aqui que estou à porta e bato;se alguém ouvir a Minha voz e me abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele Comigo". ( Ap 3, 20). Amém

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PARA CITAR ESTA TRANSCRIÇÃO:

Todos os caminhos vão dar a Roma
transcrito David A. 03/2012 Tradição em Foco com Roma.

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