.

21 Anos sem Dom Mayer...

Somos católicos que aceitam o Vaticano II e a Missa de Paulo VI. Nosso critério de fé é a adesão incondicional ao Magistério da Igreja. “Dado que a verdade não contradiz a verdade, definimos ser inteiramente falsa toda afirmação contrária à verdade da fé iluminada”(Leão X, V Concílio de Latrão, D.B. 738)

---

D. Antonio de Castro Mayer, embora tenha cometido seus equívocos, nunca foi da mesma estirpe de D. Lefebvre. Era seu amigo, combatia os desvios e a crise modernista e, de fato, por vezes, exagerou e acabou criticando o CVII (isso mais nos últimos anos, quando já não era Bispo de Campos). De fato, até mesmo aderiu às sagrações de Ecône e pediu a sagração de D. Licínio Rangel para sua fraternidade sacerdotal em Campos. Mas, analisando o contexto geral, não lhe seguiu in totum.

Até mesmo quando Bispo de Campos, permitiu que o rito novo se celebrasse em sua diocese. Radicalizou mais tarde por conta das inúmeras perseguições (inclusive de excelentes Bispos que, no calor dos acontecimentos, o entenderam mal), o que acabou empurrando D. Mayer para o cisma lefebvriano, do qual, dizem, arrependeu-se pouco antes da morte.


D. Licínio, seu fiel discípulo, e sucessor no comando da união sacerdotal fundada por ele em Campos para agregar os padres expulsos da Diocese por persistirem no rito tradicional, lutou pelo fim do cisma prático e obteve a regularização canônica de seu grupo e fiéis e de sua sagração. Mais ainda: conseguiu de Roma um sucessor sagrado segundo o rito tradicional e dentre o clero de sua nova Igreja Particular: a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. Esse sucessor é o ortodoxo, piedoso, inteligente, zeloso e extremamente bem humorado D. Fernando Arêas Rifan, a quem temos a honra de chamar de amigo. (1)

---

Tanto o Papa Paulo VI como o Concílio Vaticano II estão na mesma linha continuada da fé comum, a de sempre. Não se deve confundir o que o Vaticano II ensinou e que, lamentavelmente, se aplicou e ainda se aplica. Vale aqui o antigo dito medieval: Ecclesia reformanda est. Se hoje, há abusos é porque eles sempre houveram. Muito mais, aliás, no tempo do Papa Leão X que o mesmo Paulo Henrique cita, sem diminuir em nada a sua autoridade.

É bom lembrar que tanto Mons. Marcel Lefevre, como Dom Antônio Castro Mayer participaram do Vaticano II, tiveram liberdade para se expressar e aceitaram suas decisões. O que aconteceu mais tarde é outra história. Repito o dito de Santo Ambrósio: "Ubi Petrus, ibi ergo Ecclesia". Hoje, Pedro é Bento XVI como entre 1963 e 1978 foi Paulo VI. Dentro deste barco, nada me afasta, nem o mais iluminado teólogo ou mesmo um "anjo de céu" (Gl 1,8). Só Pedro recebeu a promessa infalível e indelével. Quanto aos dois citados bispos, só cabe a Deus julgá-los, pois sua excomunhão extingiuiu com o fim de seus dias na terra.

Dom Antonio Mayer e a TFP

A história é bem mais complexa e cheia de acinzentados do que possamos imaginar. Não julguemos antecipadamente os itens e instituções citadas sem conhecer seu histórico profundamente. Existem detalhes sórdidos ou ocultos, como por exemplo, a culpa de D. Castro Mayer brigar com a TFP é única e exclusivamente do zé-do-boné sombrancelhudo, que foi colocar caraminholas na cabeça do Sr. Bispo contra a TFP dizendo, para variar com as paranóias conspiracionistas dele, que eles tinham uma seita maçônica secreta dentro do alto escalão. Isso pra não falar da história dos Arautos...

A geração dos filhos dos fundadores da TFP (a que hoje é trintona) foi criada praticamente dentro de igrejas orientais que mantinham ritos tradicionais (ex. os maronitas foram 'aggiornatos' pelo Concílio e quase que latinizados, já os melquitas e os armênios mantiveram sua liturgia como era antes do concílio). O motivo? Não havia rito tridentino celebrado regularmente em São Paulo, no auge da TL... Eles só conseguiram capelanias e padres que celebrassem para eles o rito tridentino com uma certa regularidade bem mais tarde. Quando não tinham missa tridentina, e por total aversão à missa nova, frequentavam as igrejas orientais, entre elas a igreja melquita e a armênia.

Por mais que possa soar "incrível" ou "esquisito" a TFP (uma sociedade civil) nunca se distanciou da hierarquia da Igreja (desde obviamente que ela não se demonstrasse comunista ou gêneros). Nunca frequentaram nem mantiveram diálogo com qualquer ambiente ou eclesiástico em situação irregular ou sem uso de ordens, sempre prezando pela legalidade. Depois da briga com D. Mayer eles traziam, por exemplo, o bispo emérito lá da Argentina para celebrar, ou usavam padres que tinham uso de ordens na diocese de SP como o próprio padre Mayer (parente do bispo). Quando não dava, iam pros ritos orientais sem pestanejar.

Campos não tinha paróquia ou capelania em São Paulo, apenas em uns 2 lugares no interior, com missa mensal. A antiga União Sacerdotal São João Maria Vianney só começou a se expandir mesmo para outros lugares do Rio e do sul de Minas onde haviam fiéis oriundos de Campos, em número razoável para justificar uma capelania com missa celebrada em período irregular. Depois da legalização é que conseguiram se expandir mais.

---

1. A TFP, durante a vida do seu fundador, Plínio Corrêa de Oliveira, que era advogado e professor, não engenheiro, é algo a ser considerado de modo distinto da TFP após a sua morte.

2. Quando morreu, dois grupos passaram a disputar o legado espiritual do fundador. A maioria das TFPs do mundo (Espanha, Itália, toda a América Latina, Áustria etc) ficou com o grupo do hoje Pe. João Clá, braço direito do Dr. Plínio. Mais tarde, esse grupo transformou-se nos Arautos do Evangelho, associação de direito pontifício.

3. A TFP do Brasil seguiu seu estatuto e continuou sob a liderança do conselho de fundadores, que era questionado por João Clá e seu grupo (que o acusava, inclusive, de não ser tão fiel ao espírito do fundador). As TFPs dos EUA, da França e da Alemanha, e parcelas de outras, ficaram com esse grupo.

4. O pessoal dos Arautos do Evangelho, no Brasil, conseguiu, na Justiça, reaver o controle da TFP, pois alegaram que nunca houve eleição para a escolha da diretoria. Tentaram reaver a TFP porque diziam que seus diretores - os co-fundadores - não guardavam o legado do Dr. Plínio. Cada grupo se dizia fiel à TFP da época do fundador.

5. Assim, o grupo dos Arautos acabou sendo o mesmo da TFP, e os fundadores criaram outra organização: a TFP-Fundadores.

6. Não entro no mérito de quem está certo. Mas condenar, em bloco, o que se chama de TFP, ou condenar a TFP da época do Dr. Plínio (ou mesmo o próprio Dr. Plínio) é condenar os Arautos, que foram aprovados pela Santa Sé. Pode-se discordar de métodos, espiritualidades, e até mesmo achar que a TFP-Fundadores tem traços cismáticos - eu que não, mas tudo bem. Agora, chamar a TFP da época do Dr. Plínio de cismática ou o próprio fundador, é atacar as bases do apostolado de uma associação plenamente reconhecida pela Igreja.

7. Interessante que a TFP da época do comentário da CNBB (nos tempos do fundador, em que os dois grupos ainda estavam na mesma entidade) tinha o apoio do clero na maioria dos paises em que estava presente, inclusive na Espanha. Esse clero é o que depois viria a apoiar os Arautos!

8. Seria coincidência não ter esse apoio de um clero visivelmente tendente a teologia da libertação como era a cúpula da CNBB à época? Ademais, o comunicado da CNBB não está revestido da autoridade de governo e de ensino necessárias.

A TFP na época do Dr. Plínio era recomendável, sim. Apenas que uma parcela TL da CNBB utilizou-se de uma autoridade INEXISTENTE para atacá-la. Para assessores nada ortodoxos, a TFP nunca seria recomendável.

Tanto é assim que, enquanto parte da CNBB atacava a TFP (mesmo na época do Dr. Plínio), no resto do mundo (França, Alemanha, Itália, Espanha, EUA, Áustria, e toda a América Latina), as TFPs eram louvadas e recomendadas por vários Bispos. O próprio Dr. Plínio era amigo PESSOAL de Bispos ucranianos perseguidos pelo comunismo, e hospedou até CARDEAIS nas sedes da TFP brasileira. O Bibliotecário da Santa Sé, Cardeal Stickler era ardoroso defensor da TFP. E o episcopado espanhol sempre a defendeu. Aliás, o grande teólogo espanhol, Pe. Antonio Royo Marín, OP (que recebeu do Papa João Paulo II e medalha Pro Pontifice, por sua FIDELIDADE AO PAPADO!!!), sempre foi muito amigo da TFP e próximo do Dr. Plínio.

Quem é que atacava a TFP? A TL, infiltrada em setores da Igreja no Brasil. (2)

---

Acho que, pela prudência, a melhor atitude seria imitar Mons. Lefèbvre e Dom Antonio de Castro Mayer recém-saídos do concílio. Com certeza, em seu interior, eles já possuíssem lá as suas indagações, mas agiram com reverência, procurando aceitar de modo geral o concílio e fazer dele uma leitura dentro da tradição católica. Provavelmente, foram os abusos de alguns que os encaminharam em outra direção, às críticas duras, e aí já não havia mais conserto.

Eu tenho uma obra de D. Antonio de Castro Mayer intitulada Por um Cristianismo autêntico. A obra é uma seleta de várias cartas pastorais do Bispo que contem diversos assuntos relativos ao cristianismo e mais 4 cartas sobre o Vaticano II: sobre a Liturgia, a Igreja, a Aplicação dos textos conciliares e a crise pós-conciliar ("'Aggiornamento' e Tradição). Nela o Bispo visa fazer uma defesa sistemática do concílio, e fala de muitos pontos que foram mal entendidos, como a finalidade de João XXIII, a colegialidade, e outros assuntos. Eu particularmente não vejo contradição do que ele diz nessa obra com muitos artigos em que ele divulgou por volta dos anos 80 se fizermos uma leitura sistemática do que ele disse antes e depois.

Um exemplo disso é a questão da colegialidade, que embora tenha sido um ponto superado e tendo assim um sentido católico, na prática aconteceu totalmente o contrário, e o interessante notar é que infelizmente até em Roma sofreu essas influências e que fizeram com que depois os dois Bispos enxergassem que os problemas nem sempre eram do Episcopado, mas que vinham propriamente *de Roma*. Quando se fala que os problemas vem de Roma, não se pode dizer propriamente que venham diretamente da pessoa do Papa, pois tais problemas podem vir da Cúria e dos Cardeais que foram confiados pelo Papa (como também os Bispos).

Levantamento da excomunhão de D Castro Mayer

Houve um relato de um pedido no momento da regularização de Campos para o levantamento da excomunhão de Dom Antonio de Castro Mayer, a resposta dada pela Santa Sé é que a Igreja (militante) não tinha poder após a morte para levantar a excomunhão de falecidos.

O efeito fundamental do levantamento de uma excomunhão é o restabelecimento da comunhão visível com o Corpo místico. Esse restabelecimento da comunhão visível pode ser feito a um falecido, ainda que, após a morte, já tenha sido selado o seu destino eterno. Nesse caso, haveria o reconhecimento por parte da Igreja de que sua excomunhão foi meramente material, não tendo ficado o indivíduo privado verdadeiramente da comunhão com a Igreja, ou, se ficou durante algum tempo, recuperou-a antes da morte.

Após a morte, a alma passa pelo julgamento particular, e, se estiver salva, vai para o céu, logo após a sua purificação no Purgatório, se necessário; se estiver condenada, vai para o inferno, tendo a excomunhão efeitos somente jurídicos, caso a alma tenha, antes da morte, voltado à comunhão com a Igreja em virtude de uma contrição perfeita.

Ainda assim, o levantamento da excomunhão teria razão de ser, para dar ao falecido um enterro cristão e incluí-lo nas preces públicas da Igreja, e, assim, possibilitar à alma do falecido o benefício dessas orações públicas, mas, conforme dito, sem influir no seu destino eterno. Esse era, sem dúvida, o motivo por que existia, no antigo Ritual Romano, um rito de absolvição da excomunhão, para falecidos. Na atual legislação da Igreja, acho que já não se pratica mais penas que estendem seus efeitos para depois da morte, como a suspensão de um enterro cristão ou a exclusão das orações públicas. Sendo assim, não tem mais razão de ser o levantamento da excomunhão a um falecido, a não ser para reabilitar a sua memória diante da Igreja.

A pena de excomunhão é tornada nula com a morte do réu. É o que ensina o livro Teologia Moral: compêndio de moral católica para o clero em geral e leigos, de Teodoro da Torre Del Greco. E também porque a Igreja não tem jurisdição sobre o Além (o céu apenas ratifica o que a Igreja ligar na terra). Apenas alguns efeitos da excomunhão perduram após a morte, pois permanecem sob a jurisdição da Igreja.

A Igreja poderia, no entanto, ainda que não se aplique mais o rito previsto no antigo Ritual Romano para remitir os efeitos da excomunhão após a morte do réu, reabilitar a memória de Dom Lefebvre e Dom Mayer, mas, para isso, ela teria que reconhecer que cometeu uma injustiça no caso dos bispos citados, pois, ainda que tenham se arrependido, eles não vieram até a Igreja buscar o perdão publicamente.

Sem contar que qualquer sacerdote próximo poderia ter absolvido Dom Mayer in extremis, caso eles estivessem arrependidos. Podem, no entanto, ter se salvado, se apenas seguiu a sua consciência invencivelmente errônea.

Referências: 1 / 2 Rafael Vitola Brodbeck

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino