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A Tradição pode conciliar-se com a modernidade?

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Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos

Essa promessa de Cristo me indica que todas as épocas são boas. E de todas, para nós, a melhor é a atual, por um motivo muito simples: porque nela nos colocou a Providência divina, e por isso o nosso cristianismo tem que ser, necessariamente, o do século XXI.

Claro que devemos beber da fonte, que é Cristo. Claro que devemos aprender com os acertos de épocas anteriores... e também com os seus erros, que foram muitos e devemos procurar evitar. Claro que devemos estudar e utilizar a magnífica teologia de Tomás de Aquino, mas tendo em conta que ele é medieval, e não podemos pedir-lhe que não o seja...

Não estamos, entre os que equivocadamente consideram a Idade Média uma idade das trevas. Gosto, inclusive, da colocação de que é a idade da luz, expressão que designa tanto os magníficos vitrais como o desenvolvimento da inteligência, a criação das universidades...

Mas é necessário que essa teologia entre em diálogo com o mundo atual. É principalmente disso que trata o então Pe. Ratzinger em seu livro Dogma e anúncio, que estou lendo e tenho comentado muitas vezes [com a ajuda do Wagner, que foi quem me falou desse livro]. Ali ele diz, explicitamente, comentando a Gaudium et spes:

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Pode acontecer, por exemplo, que aparentemente a fé esteja contra o mundo, qundo na realidade apenas o século XIII está contra o século XX. Erroneamente, identifica-se a polarização da existência cristã alcançada no século XIII com a fé como tal. Nos embates entre a fé e o mundo, que sempre tornarão a aparecer, será necessário em todo o caso ter um olhar vigilante para tais perigos.

O embate não é entre duas eras, mas entre o joio e o trigo, que sempre irão conviver ao longo da história. É preciso distinguir o joio do modernismo do trigo da modernidade, o que nem sempre é fácil. Mas somente fazendo esta distinção poderemos santificar o nosso tempo.

Penso também que é preciso explicar a que Ratzinger se referia ao falar em 
polarização da existência cristã. O texto em referência se chama O cristão no mundo de hoje. Aliás, o livro todo é uma preciosidade, como temos comentado.

A reflexão sobre as relações entre o cristão e o mundo estão longe de ser novidade. Mesmo assim, o texto de Ratzinger várias vezes nos 
desequilibrou e nos fez repensar conceitos.

Ratzinger começa dissertando pelos vários significados que pode assumir a palavra 
mundo na teologia. E fala de uma polarização:
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O conceito mundo... Descreve um pólo da própria existência dos cristãos; portanto, no fundo, o problema "o cristão e o mundo" significa a questão da polarização interna da existência cristã mesma, isto é, a questão pelo modo como os 2 pólos da formação das determinações terrenas da existência e da centralização rumo à eternidade devem ser relacionadas entre si na vida do cristão.

Entre esses pólos, existência terrena e eternidade, nos movemos. E a síntese que fazemos depende do contexto histórico. Uma das conclusões que se tira disso é que, mesmo que as verdades eternas não mudem, a teologia precisa evoluir paralelamente à história humana, e não pode ficar estagnada em determinado período histórico, por mais que a síntese obtida fosse adequada para aquele momento.

O diálogo com a filosofia moderna, sanando os seus erros e aproveitando o que há de bom é fundamental para a teologia, até para falar uma linguagem acessível ao homem de hoje.

E Ratzinger fala de 3 pessoas que provocaram grandes mudanças na história da humanidade e representaram um desafio para a "imagem do mundo" com a qual interagia a fé de nossos antepassados.

A primeira dessas pessoas é Colombo. Ele nos apresenta o problema de um modo que é bem divertido:

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No canto 26 do Inferno, Dante descreve o seu encontro com Ulisses… O aventureiro, tendo voltado para casa, não ficou muito tempo na sua pátria, partindo para uma viagem muito mais arrojada. Atravessa o estreito de Gibraltar, ultrapassando o marco limítrofe posto aos homens, o qual mesmo Hércules, o semideus, tinha respeitado, e lançou-se no oceano que limita o mundo. O fim da “viagem temerária” (como a chama Dante) é que Ulisses naufraga com seu navio no monte do purgatório – não transgrediu sem castigo os limites postos ao homem. O “Ulisses” verdadeiro, Colombo, que um século e meio depois de Dante atravessou o oceano, não se destroçou no monte do purgatório, mas descobriu a América.

Nessa oposição, há mais que apenas um capricho da história do espírito. Ela é a expressão de um abalo espiritual que ainda está longe de estar superado por dentro. O mundo que outrora passava nas suas bordas como que naturalmente para a metafísica e a eternidade é desvendado nos descobrimentos modernos como puro mundo por todos os lados. [Dogma e Anúncio, pg. 168]


O que muitos pensam ser uma profunda dicotomia é, na verdade, uma íntima união de duas realidades: a Igreja tem o seu modo ímpar de ser; todavia, assim como Deus "falou segundo a cultura própria de cada época (Gaudium et spes 58,1), ela tem a missão de entrar em contato com o mundo de diversas maneiras.

É necessário frisar, entretanto, que esta tarefa deve ser precedida por um 
esforço metódico e progressivo de pesquisa e de discernimento (Sagr. Cong. para o Culto Divino, A Liturgia Romana e a inculturação, 5,2). Assim, portanto, poderá haver uma verdadeira integração e assimilação de uma cultura nos moldes do Evangelho.

Mas, por outro lado, tendo sido enviada aos homens de todos os tempos e lugares, a Igreja não está exclusiva e indissoluvelmente ligada a nenhuma raça ou nação, a nenhum gênero de vida particular, a nenhuma tradição, antiga ou moderna. Aderindo à própria tradição e, ao mesmo tempo, consciente da sua missão universal, é capaz de entrar em comunicação com as diversas formas de cultura, com o que se enriquecem tanto a própria Igreja como essas várias culturas. (Gaudium et spes 58,3)



O que pode, verdadeiramente, assumir um novo feitio são as explicações acessórias, subordinadas ao dogma. O dogma, em si, não evolui. E algumas definições, bem como confirmações e condenações, devem ser entendidas no sentido mesmo em que foram feitas, dado o seu caráter de clareza.

Quanto à filosofia, é uma questão que, simplesmente, escapa à qualquer formalização da Igreja. Mesmo quando a Igreja afirma ser de fé eclesiástica as verdades de razão, não as afirma com base na própria razão, mas na infalibilidade de seu magistério. Torna-as, em certa medida, verdades de fé.

Também não se pode fazer tábula rasa da filosofia cristã, sob pena de se ter novamente que 
descobrir a roda.
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17. Abandonar, pois, ou repelir, ou negar valor a tantas e tão importantes noções e expressões que homens de talento e santidade não comuns, com esforço multissecular, sob a vigilância do sagrado magistério e com a luz e guia do Espírito Santo, conceberam, expressaram e aperfeiçoaram para exprimir as verdades da fé cada vez com maior exatidão, e substituí-las por noções hipotéticas e expressões flutuantes e vagas de uma filosofia moderna que, assim como a flor do campo, hoje existe e amanhã cairá, não só é de suma imprudência, mas também converte o dogma numa cana agitada pelo vento. O desprezo dos termos e noções que os teólogos escolásticos costumam empregar leva naturalmente a abalar a teologia especulativa, a qual, por fundar-se em razões teológicas, eles julgam carecer de verdadeira certeza.(Humani generis)

Em suma, é possível substituir temporária e subordinadamente uma expressão para a melhor compreensão imediata do homem moderno, todavia sem perder a referência da expressão ideal. É o caso, por exemplo, de alguém que queira explicar para uma criança o que é transubstanciação. No entanto, não se deve ter a pretensão (e essa sim condenada na Humani generis) de eliminar totalmente uma expressão escolástica, já aprovada pelo magistério da Igreja, em prol de uma nova, com intuito de que esta passe a ser a referência daí para frente.

O Papa Bento XVI tem nos falado acerca do diálogo com o mundo moderno, todavia, esse diálogo pode assumir uma forma branda, flexível, sem jamais perder as referências. Estas sempre estarão lá, servindo de fundamento para todas as futuras reflexões. Creio ser também esta a posição do Papa, expressa na sua denúncia da 
ditadura do relativismo, e no seu discurso sobre a razão na Universidade de Ratisbona.

Somos a favor da duplicidade de linguagem, pois não é todo mundo que se sente à vontade com essa flexibilidade do 
anúncio. O próprio Papa deixou isso claro, ao referir-se àqueles que se sentem mais à vontade com o Catecismo de São Pio X do que com o Catecismo atual, confira no link

Alguns tem a dificuldade de compreender aqueles que acabam por considerar ou herético ou em desacordo com a tradição ou com a continuidade do ensinamento 
de sempre usar desse instrumental moderno para expressar os pontos da fé.

E esse aspecto que o Papa levanta de que muitas vezes se confunde o 
way of life ou o arcabouço institucional e social (além do cultural e filosófico) do século XIII como o próprio da catolicidade é um erro que pode levar a trágicas consequências. Ainda que esse período possa ter representado, até o presente momento, o ápice da influência cristã na humanidade, isso não significa que aquelas instituições sejam o modelo ou o tipo ideal (no conceito weberiano) de sociedade católica.

Inclusive há um erro na identificação cristianismo-Europa. Vendo, por exemplo, a China agora pela televisão, nota-se no muito que perdemos com essa identificação. Isso é um acidente. Não é essencial. Nem foi lá o berço do cristianismo. Nesse ponto, a abertura proporcionada pelo Concílio Vaticano II preparou o caminho para que tivéssemos uma Igreja mais desprendida de tempos e lugares, mais católica, sem perder o essencial. O grande problema é quando os acidentes ganham tanto destaque em nossa vida que desejamos que sejam coisas essenciais.

As notas essenciais da Igreja são aquelas assinaladas no Credo Niceno-Constantinopolitano: Una, Santa, Católica e Apostólica. Pe. Penido falava sobre isso, em um de seus livros de eclesiologia, de que a latinidade não é essencial ao catolicismo. A nota 
romana é, na verdade, um subproduto da nota apostólica, mas que se liga, em realidade, à Sé de Roma, não à cultura latina desenvolvida na Igreja.

Como apaixonado por história e pela história da Igreja, tenho de me encantar mesmo com o trecho do Ratzinger que vale a pena repetir:


Pode acontecer, por exemplo, que aparentemente a fé esteja contra o mundo, quando na realidade apenas o século XIII está contra o século XX. Erroneamente, identifica-se a polarização da existência cristã alcançada no século XIII com a fé como tal. Nos embates entre a fé e o mundo, que sempre tornarão a aparecer, será necessário em todo o caso ter um olhar vigilante para tais perigos.



No meio da historiografia é comum encontrar pessoas de pensamento ainda não maduro venerando o antigo apenas por ser antigo -- assim como é comum encontrá-las nos meios mais tradicionais da Igreja -- e, com isso, contrapondo-o com o novo como se este fosse o objetivo da História. O Nosso Papa, mais do que um ensaio sobre como fazer teologia (que dá um banho em muitos teólogos que vemos aí hoje), provoca uma epifania, muito necessária, da maneira de se fazer história. Mais importante do que tentar entender como os antigos viviam, estudar história é se perguntar como nós vivemos, independentemente do tempo.

Por isso o cuidado necessário 
nos embates entre a fé e o mundo. A Igreja é, talvez, o único fenômeno da humanidade que é bidimensional em termos históricos: possui uma face histórica e outra perene (Marx e Hegel nunca entenderiam isso). Lembro a citação da GS, em outro post, e a passagem do Evangelho logo após as parábolas sobre o Reino de Deus. Jesus as finaliza dizendo:

Por isso, todo escriba instruído nas coisas do Reino dos céus é comparado a um pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e velhas. (Mt 13, 53)

É comum, também, encontrar-se uma deturpação desse pensamento, sob aparência de lucidez. É o caso, por exemplo, do abandono de uma coisa só por ser antiga, ou de se acreditar que as idéias envelhecem. Idéias não envelhecem, e, como entes de razão, podem sempre retornar na mente dos homens, sejam eles antigos ou jovens.

A verdade também não envelhece. E, aí, a deturpação desse pensamento de Ratzinger, que é sadiamente progressista, pode fazer degenerar o que era são em modernismo, isto é, a falsa concepção do dogma como verdade relativa.

Nesse sentido, concordamos com o que diz o Prof. Manuel de Barros, autor de uma introdução ao tomismo, na qual dizia:

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A exemplo de S. Tomás, também eu não defendo o sistema tomista por espírito de partido, mas por julgar que esse sistema, pelo menos nas suas grandes linhas, e compreendido no seu espírito mais do que nas palavras que às vezes podem traí-lo, se deve considerar verdadeiro.

Santo Tomás dizia que o argumento de autoridade é fraquíssimo. Ele não gostaria de ver esse mesmo argumento, que ele reputava de fraquíssimo, sendo usado a favor dele.

Exemplificado direito ao que foi referido quando dito 
expressão ideal.

Existem verdades que são reveladas imediatamente por Deus e que constituem o objeto do dogma. Estas são ditas de fé divina, quando contidas na Revelação, de fé divina e católica, quando explicitadas pelo magistério ordinário universal, ou de fé divina e católica definida, quando proclamadas pelo magistério extraordinário.

Mas há verdades também, que não são imediatamente reveladas, mas sobre as quais o magistério tem falado de forma definitiva (Cân. 750, § 2). São conexas com a Revelação, e não propriamente reveladas.

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_1998_professio-fidei_po.html

Estas verdades são infalíveis e imutáveis, tanto quanto o dogma. Certos teólogos as classificam como 
de fé eclesiástica (em contraposição às de fé divina e católica). Tal categoria engloba as verdades racionais que constituem o fundamento natural do dogma (ex: a espiritualidade da alma, o livre arbítrio), ou as expressões filosóficas que o próprio magistério toma para explicar o dogma, e que são inseparáveis de sua definição (natureza, Pessoa, substância, matéria, forma, etc.), as conclusões teológicas propostas pelo magistério da Igreja (ex: qualquer ordenação feminina é inválida) e os fatos dogmáticos (a canonização de um santo, a condenação de um herege, a eleição de um Papa, etc.).

http://www.mercaba.org/teologia/ott/025-039.htm

Penso que Santo Tomás não concordaria com a atitude de alguns tomistas atuais, ele não gostava do argumento da autoridade. Ele se afastou de algumas idéias de Santo Agostinho, até então a linha mestra da Teologia, para fazer uma construção de pensamento diferente, para a qual utilizou a filosofia de um grego pagão que havia sido traduzida ao latim por um muçulmano.

Algumas verdades filosóficas são tão próximas da definição dos dogmas que poderíamos considerá-las a matéria, o fundamento sob o qual o dogma está "construído". Exemplos:

- A essência de Deus é incompreensível aos homens;

- Os bem-aventurados no Paraíso gozam de um conhecimento imediato e intuitivo da essência divina;

- Em Deus há três Pessoas; cada uma delas possui a essência divina que é numericamente a mesma;

- A natureza divina e a humana estão, em Cristo, unidas hipostaticamente, isto é, em unidade de Pessoa.

A aprovação desses dogmas pelo magistério torna essas verdades racionais também um objeto de infalibilidade, chamado objeto secundário de infalibilidade. Mas essa infalibilidade não diz respeito à forma com que os doutores expressaram essas verdades, que pode ser outra sem trair-lhe o sentido. Por isso, 
é possível substituir temporária e subordinadamente uma expressão para a melhor compreensão imediata do homem moderno, todavia sem perder a referência da expressão ideal (aquela aprovada pelo magistério da Igreja).

Temos em mente o caso do Pe. Schillebeeckx, que negava esse objeto secundário de infalibilidade, pois dizia que o Concílio de Trento não tinha definido exatamente o modo como se dava a conversão do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo (transubstanciação). Embora o uso do termo “transubstanciação” fosse adequado à condenação das teses errôneas de Wycliff e Lutero (consubstanciação), não há dúvida que a Igreja tenha definido também o modo exato como se dava essa conversão, o que seria falso se não fosse verdadeiro o emprego da palavra “substância”. Por isso, a preocupação de Pio X, no Motu Proprio Doctoris Angelici:

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Os pontos mais importantes da filosofia de Santo Tomás não devem ser considerados à maneira de opiniões, discutíveis sob qualquer aspecto, mas antes bem como fundamentos sobre os quais se baseia toda a ciência do natural e do divino; caso se recusem ou, de qualquer modo que seja, se corrompam tais pontos capitais, seguir-se-á necessariamente que aqueles que estudam as ciências sacras não poderão nem sequer entender o sentido das palavras com as quais o Magistério da Igreja expõe os dogmas revelados por Deus.



A fidelidade a Santo Tomás é antes de tudo uma fidelidade não à forma, mas ao sentido. Se for possível traduzir esse sentido para o homem moderno, isso será um trabalho excelente.

Mas é possível afirmar que exista uma forma ideal para expressar uma verdade revelada? Parece que o que o dogma ou uma definição magisterial define é o conteúdo com o uso de uma forma e, por isso, São Pio X afirma que faz-se necessário compreender a doutrina tomista, pois foi com esse instrumental - disponível e extremamente adequado - que a Igreja fez uso (na história, isto é , no e um tempo definido) para dar contorno (a forma) dos conteúdos revelados.

Logo, se alguém quiser compreender uma doutrina tal qual definida pelo Magistério precisa compreender os termos e a filosofia de S. Tomás e pode, se assim puder, expressá-la com outro instrumental.

E mesmo alguns desses conceitos essenciais podem sofrer evolução, no sentido de que podem ser ampliados e completados sem que se perca o que diz respeito ao conteúdo. Um exemplo disso, talvez, possa ser aquela conversa que tivemos um tempo atrás sobre o conceito de pessoa que o mesmo Ratzinger traz nesse mesmo livro 
Dogma e Anúncio.

Parece que os teólogos aceitam sim que essa forma é ideal, baseados na autoridade infalível da Igreja. Todavia, como o conhecimento humano é analítico, é possível expressar o mesmo conteúdo através de outra forma.

A Igreja não é protegida contra erro apenas nas formulações dogmáticas, mas também em todos os aspectos concernentes (conexos) com o dogma. Do contrário, não seria infalível ao condenar um herege, por exemplo. Nesse último caso, é necessário não só condenar o erro, mas mostrar também onde ele se encontra, para que os fiéis possam se manter distantes dele. Assim, a Igreja tem que ser infalível, não só ao ensinar as verdades reveladas, mas também nas verdades conexas com a Revelação, denominadas 
verdades católicas: as verdades de razão, as conclusões teológicas e os fatos dogmáticos.

A impugnação dessas doutrinas põe em perigo a verdade revelada, e quem as defende está em perigo de heresia; é suspeito de heresia, embora não seja herege no sentido próprio, pois esta censura corresponde à negação de uma doutrina divinamente revelada, e como tal proposta pelo magistério da Igreja.

As sentenças teologicamente certas são também conclusões teológicas, mas sobre elas não há se manifestado ainda o magistério da Igreja. Já as conclusões teológicas, que fazem parte das verdades católicas, são aceitas com assentimento de fé que se apóia unicamente na autoridade infalível da Igreja.

Tentando abordar por outro ângulo que pode ser a questão principal.

Penso que a distinção fundamental a ser feita é que definitivo não é finalizado.

Veio-me à mente uma comparação, que vou expor, apesar das falhas que sempre há em qualquer analogia. Vou usar um argumento oriundo da luta pró-vida.

Eu vim ao mundo no momento da fecundação. Nele se constituiu a minha identidade, única e irrepetível. Aquela célula microscópica já era eu. O que houve a partir daí foi o desenvolvimento das características que de algum modo já estavam em mim, no meu DNA. Apesar das diferenças acidentais, existe uma identidade essencial entre e eu-zigoto, o eu-embrião, o eu-feto, o eu-bebê, o eu-criança... Na fecundação já estava o eu definitivo, pois foi justamente o processo de fecundação que 
definiu o eu. Mas não estava pronta e acabada.

Acho que podemos pensar que o 
DNA das verdades de fé está na Revelação. A verdade revelada já tem sua plena identidade, embora ela esteja parcialmente oculta a nossos olhos. Nos inícios do cristianismo deu-se a fase embrionária, e o estabelecimento do dogma pode ser considerado o nascimento. Com o dogma, a verdade de fé está registrada em cartório. A identidade - que já existia - agora tem uma explicitação. Mas isso não quer dizer que não possa ainda desenvolver-se.

É necessário que o desenvolvimento esteja em harmonia com o 
DNA, não se desprenda de suas definições iniciais, sob pena de tornar-se um monstro... Mas nada impede que, mantendo-se a fidelidade à essência, possa haver uma evolução da terminologia, por exemplo, que possibilite a abordagem de aspectos ainda não resolvidos.

Foi citado o discurso de Ratisbona, e ele aborda um aspecto interessante em relação à isso. O Papa se pergunta por uma possível helenização do cristianismo primitivo, e se não seria preciso desprender-se de tudo o que há de 
grego na fé cristã para que ela realmente se torne católica. Para nosso alívio, o Papa responde que não. Isso porque, por Providência divina, a fé cristã encontrou-se com a cultura grega ainda na fase da Revelação. Em grego, e fazendo uso da terminologia própria da filosofia grega, foram escritos muitos livros do Novo Testamento. Por isso, essa é uma âncora que a Igreja nunca vai soltar.
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Mas há outra face da moeda. Desse próprio raciocínio decorre que as incorporações posteriores à revelação, mesmo as que fazem parte do dogma, podem ser reconsideradas e receber outra forma de expressão e outros desdobramentos.

Aliás, não é uma idéia nova que o dogma possa ser desenvolvido. O próprio dogma da Santíssima Trindade foi definido gradativamente.

É providencial para este artigo que tenha esse parágrafo da Humani generis. Ele esclarece mais profundamente o que já foi dito até aqui:

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30. É verdade que em tal filosofia se expõem muitas coisas que, nem direta, nem indiretamente, se referem à fé ou aos costumes, e que, por isso mesmo, a Igreja deixa à livre disputa dos peritos; entretanto, em outras muitas não existe tal liberdade, principalmente no que diz respeito aos princípios e aos fundamentais assertos que há pouco recordamos. Mesmo nessas questões fundamentais pode-se revestir a filosofia com mais aptas e ricas vestes, reforçá-la com mais eficazes expressões, despojá-la de certos modos escolares menos adequados, enriquecê-la com cautela com certos elementos do progressivo pensamento humano; contudo, jamais é licito derrubá-la ou contaminá-la com falsos princípios, ou estimá-la como um grande monumento, mas já fora de moda. Pois a verdade e sua expressão filosófica não podem mudar com o tempo, principalmente quando se trata dos princípios que a mente humana conhece por si mesmos, ou daqueles juízos que se apóiam tanto na sabedoria dos séculos como no consenso e fundamento da revelação divina. Qualquer verdade que a mente humana, procurando com retidão, descobre não pode estar em contradição com outra verdade já alcançada, pois Deus, verdade suprema, criou e rege a humana inteligência, de tal modo que não opõe cada dia novas verdades às já adquiridas, mas, apartados os erros que porventura se tiverem introduzido, edifica a verdade sobre a verdade, de forma tão ordenada e orgânica como vemos estar constituída a própria natureza da qual se extrai a verdade. Por esse motivo o cristão, seja filósofo, seja teólogo, não abraça apressada e levianamente qualquer novidade que no decurso do tempo se proponha, mas deve sopesá-la com suma diligência e submetê-la a justo exame a fim de que não venha perder a verdade já adquirida ou a corrompa, com grave perigo e detrimento da mesma fé.

Disto decorre:

- Não é toda filosofia que se impõe com necessário vínculo com o dogma, havendo legítimas disputas acerca de algumas questões (isso se prova também pela presença de correntes filosóficas opostas no seio da Igreja, como tomistas, agostinianos, escotistas).

- Mesmo nas questões especulativas, onde há vínculo com a fé ou a moral ensinadas infalivelmente pela Igreja, 
pode-se revestir a filosofia com mais aptas e ricas vestes, reforçá-la com mais eficazes expressões, despojá-la de certos modos escolares menos adequados, enriquecê-la com cautela com certos elementos do progressivo pensamento humano

Eu diria que o sentido não pode caminhar na direção contrária do sentido apontado pela Igreja, mas pode aprofundá-lo, pois a inteligência humana caminha do efeito às causas, ao contrário da inteligência dos anjos, que caminha das causas para os seus efeitos, por ser intuitiva.

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Contudo, jamais é licito derrubá-la ou contaminá-la com falsos princípios, ou estimá-la como um grande monumento, mas já fora de moda

Isso concorda com o que foi dito: 
No entanto, não se deve ter a pretensão (e essa sim condenada na Humani generis) de eliminar totalmente uma expressão escolástica, já aprovada pelo magistério da Igreja, em prol de uma nova, com intuito de que esta passe a ser a referência daí para frente.

A adequação da minha fala está no “eliminar totalmente”. Pois progredir no sentido de uma expressão, exige que aquela expressão não seja derrubada. A expressão, na forma como foi aprovada pelo magistério infalível da Igreja, é referência ideal para as futuras reflexões. Mas pode ser que o mesmo magistério, no intuito de se manter fiel ao sentido da expressão, adira a uma definição mais rica ou reforçada da mesma, como forma de reconhecimento ao progresso humano.

Na questão da Trindade, uma mui completa definição encontra-se no Sínodo de Latrão, sob S. Martinho, Papa, que condenou os monotelistas, em 649:

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Can. 1. Si. alguno no confiesa, de acuerdo con los Santos Padres, propia y verdaderamente al Padre y al Hijo y al Espíritu Santo, la Trinidad en la unidad y la Unidad en la trinidad, esto es, a un solo Dios en tres subsistencias consustanciales y de igual gloria, una sola y la misma divinidad de los tres, una sola naturaleza, sustancia, virtud, potencia, reino, imperio, voluntad, operación increada, sin principio, incomprensible, inmutable, creadora y conservadora de todas las cosas, sea condenado [v. 78-82 y 213].

Veja-se que ele não usa o termo “Pessoa”, mas 
três subsistências consubstanciais.

Também em outras definições acerca da Trindade, é fácil ver que o magistério nunca se enganou com o termo 
Pessoa, nem nunca pretendeu aplicar às Pessoas da Santíssima Trindade a mesma definição de Boécio, mas sempre usou o termo subsistência consoante com o termo grego hupostasis.

Outra questão espinhosa, que muitos consideram superada pelo desenvolvimento da doutrina após o Vaticano II (para muitos o aggiornamento significou um abandono da filosofia escolástica) é a questão da infusão da alma intelectiva. Muitos considerariam uma heresia que alguém dissesse não haver pessoa humana logo após a concepção (pessoa decorre de haver racionalidade, conforme a definição de Boécio). E, não havendo pessoa humana, não haveria direitos a proteger, muito embora o aborto, por sua própria natureza contrária às leis de Deus, continuasse a ser um delito grave. Confronte-se, por exemplo, com a declaração abaixo, de 1974, onde a expressão 
vida humana, para ser coerente com a falta de definição, poderá ser entendida como alusiva só a vida vegetativa ou a sensitiva:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19741118_declaration-abortion_po.html
#_ftn19

Mas a doutrina mudou de 1974 para cá? Não me parece expressamente dito que tenha mudado, apesar do Catecismo e do Compêndio terem estendido os direitos de pessoa também ao embrião logo após a sua fecundação. No máximo, seria 
doutrina católica a extensão desses direitos, mas não a própria natureza ontológica do embrião.

É lícito o uso de qualquer instrumental filosófico, desde que não se oponha àquilo que a Igreja definiu em matéria de fé. O agnosticismo, o fideísmo kierkegaardiano, por exemplo, nunca podem ser lícitos, mas outras filosofias, que não se opõem às verdades de fé, são lícitas. No entanto, caímos num dilema: Como desprezar tantos séculos de especulação cristã, sob a observação constante do magistério? Será que não conviria a nós trabalharmos em cima desse edifício já construído?

No caso da questão da graça, não acreditamos que tenhamos uma solução que concilie as diversas posturas. Nem acredito que o magistério vá defini-lo um dia. É claro que somos inclinados a pensar que o magistério nunca dará uma definição contrária à da teologia tomista, pelo fato de que há questões racionais envolvidas que o magistério não poderá contrariar. Mas respeito aquilo que o magistério deixou em aberto.

Acho que há muito de pragmático na mentalidade de alguns teólogos. Há muito se deixou a especulação, pelo menos para esse caso, para se ater àquilo que é essencial, comum a todas as teorias. Por exemplo, na questão da graça, procura-se saber quais são as definições dadas pela Igreja, mas não se procura mais entender de que modo se dá o influxo de Deus em nossas ações, se ele é anterior ou suscitado por elas.

Sobre o que essencial saber, veja-se o Catecismo:

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308) Eis uma verdade inseparável da fé em Deus Criador: Deus age em todo o agir de suas criaturas. E é a causa primeira que opera nas causas segundas e por meio delas: Pois é Deus quem opera em vós o querer e o operar, segundo a sua vontade (Fl 2,13). Longe de diminuir a dignidade da criatura, esta verdade a realça. Tirada do nada pelo poder, sabedoria, bondade de Deus, a criatura não pode nada se for cortada de sua origem, pois a criatura sem o Criador se esvai; muito menos pode atingir seu fim último sem a ajuda da graça.

Em termos magisteriais, eu até entendo que deva ser assim, pois o magistério, que não quis definir nem uma nem a outra teoria, não pode colocar-se a favor de uma em detrimento da outra. O Compêndio até introduz algumas palavras que me dão um leve impressão de uma inclinação à teoria molinista, tipo: Deus, apesar de querer «que todos tenham modo de se arrepender» (2Ped 3,9), tendo criado o homem livre e responsável, respeita as suas decisões (nº 213). Ou seja, não entra a fundo no que significa esse “Deus respeitar”. Mas isso se justifica devido ao público ao qual se destina (de acordo com o Cardeal Ratzinger, o Compêndio era mais próprio para a catequese paroquial, dos grupos de oração, dos movimentos eclesiais, ao passo que o Catecismo seria a referência para os seminários e faculdades teológicas).

Abaixo, uma interessante catequese de João Paulo II, sobre predestinação, em que o Servo de Deus procura resgatar o sentido verdadeiro dessa palavra, como sendo o do amor incondicional de Deus para com o homem:

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860528_sp.html

O que Ratzinger coloca é que o fixismo é, na verdade, muito mais uma visão 
laica ou científica de mundo (de origem pré-cristã) que é compatível com a fé do que, propriamente, uma visão derivada do texto bíblico.

Pelo contrário, chega a afirmar, se não me engano, que o fixismo é mais complicado de ser adequado à fé do que a evolução!

Em outras palavras, retornamos nesse tema àquelas palavras do 
Dogma e Anúncio logo no início: confunde-se visões de mundo de uma época - mais cristianizada que a atual - como algo do corpo doutrinal, como certas estruturas sociais e políticas, instrumentais filosóficos, visões científicas, etc.

De fato, essas estruturas muitas vezes se confundem com a própria verdade religiosa, embora eu ache que o fixismo nunca foi um problema para a filosofia. Tem muito mais a ver com as interpretações que alguns davam ao texto bíblico do que com alguma coisa que estivesse cristalizada por determinadas estruturas filosóficas. A própria noção de ato e potência é muito mais de acordo com um mundo em constante evolução do que um mundo onde as espécies já surgem fixas.

Uma questão interessante: se é necessário adaptar a reflexão sobre a fé ao pensamento contemporâneo, será que só existe um pensamento contemporâneo? Será que estamos esquecendo que vivemos na pós-modernidade?




A era pós-moderna é a era das diferenças, das opiniões, das diversidades. Se o discurso da Igreja deve ser adaptável à situação concreta do homem, me parece ser a conclusão inevitável, nessa era pós-moderna, que ele se adapte à situação concreta de cada indivíduo. Nesse âmbito, deve haver espaço para as mais curiosas adaptações. Será que tanto subjetivismo não será perigoso para a fé?
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Gostaria de partir de uma profunda convicção, que várias vezes expressei: A fé cristã fez a sua opção clara: contra os deuses da religião pelo Deus dos filósofos, ou seja, contra o mito unicamente dos costumes pela verdade do ser (J. Ratzinger, Introdução ao cristianismo, cap. III). Esta afirmação, que reflecte o caminho do cristianismo desde o seu alvorecer, revela-se plenamente actual no contexto histórico-cultural que estamos a viver. De facto, só a partir desta premissa, que é ao mesmo tempo histórica e teológica, é possível ir ao encontro das novas expectativas da reflexão filosófica. O risco que a religião, inclusive a cristã, seja instrumentalizada como fenómeno sub-reptício hoje é muito concreto.

Se a reflexão cristã assume o Deus dos filósofos e a verdade do ser, já se coloca contra a pós-modernidade. Por outro lado, se os assume, assume o discurso de sempre, pois não há apoio na pós-modernidade para se construir algo novo; não há apoio nessa pós-modernidade para a construção de uma nova filosofia cristã. Não há como refletir sobre a fé com base no pluralismo e no relativismo. Seria como construir sobre a areia movediça.

Na verdade, o Papa contextualiza bastante claramente os limites e os parâmetro em que esse diálogo é possivel.

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A compreensão do cristianismo como transformação real da existência do homem, se por um lado estimula a reflexão filosófica a uma nova abordagem com a religião, por outro encoraja-a a não perder a confiança de poder conhecer a realidade. A proposta de "alargar os horizontes da racionalidade" não deve ser, portanto, incluída entre as novas formas de pensamento teológico e filosófico, mas deve ser compreendida como o pedido de uma nova abertura à realidade à qual a pessoa humana está chamada na sua unitotalidade, superando antigos preconceitos e reducionismos, para se abrir também assim o caminho para uma verdadeira compreensão da modernidade. O desejo de uma plenitude de humanidade não pode ficar sem resposta: espera propostas adequadas. A fé cristã é chamada a assumir esta urgência histórica, comprometendo os homens de boa vontade neste empreendimento.

Em outras palavras, esse diálogo, ainda que um novo ou diferente instrumental, só é possível sobre as mesmas bases da doutrina de Tomás: a primazia do ser, ou, como fala a 
Fides et Ratio, em não abdicar da possibilidade de se conhecer o ser.

No entanto, se o diálogo com a modernidade caminha com as novas descobertas científicas, não é necessário uma reformulação nos conceitos filosóficos, pois esses conceitos não mudam com a evolução das ciências naturais. A questão de Ratzinger é mais um diálogo da Teologia com as ciências naturais e até com a filosofia moderna, mas sempre partindo da Teologia, até porque Ratzinger se distingue como teólogo e não como filósofo.

Por outro lado, é verdade que viver em um mundo cheio de construtos humanos nos dificulta perceber a presença do Criador. O Papa comentou isso, falando de bioética, que 
o homem tornou-se o seu próprio produto.

Por isso, é preciso voltar a compreender o papel do Criador.


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PARA CITAR ESTE ARTIGO:

A Tradição pode conciliar-se com a modernidade?

David A. Conceição 04/2012 Tradição em Foco com Roma.

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