.

Entendimento racional sobre Deus

Todo estudo das ciências naturais aponta para Deus.

Afinal de contas, elas estudam uma certa ordem e regularidade que existe no universo (caso contrário não seria possível a ciência). Se há uma ordem, se há leis ou princípios ordenadores, deve haver quem tenha pensado e mantido essa ordem.

Sim, é possível provar logicamente a existência de Deus. Geralmente isso se dá pela verificação da ordem existente no mundo, ou pela simples constatação da existência de seres. As cinco vias de São Tomás se encontram aqui.

Há outros modos de provar, não tão rigorosos, mas também persuasivos, que mostram como seria tudo absurdo e sem sentido se não houvesse Deus, e como ela nos fornece a melhor e mais racional crença sobre a existência.

Por fim, existem os argumentos ontológicos, que tentam provar a existência de Deus pela própria essência dele.

É claro que, se conhecêssemos a essência de Deus, saberíamos que sua existência é necessária. Mas como não conhecemos, é questionável se há alguma versão do argumento ontológico que seja válida.

A de Santo Anselmo não era; mas variações mais modernas dela parecem escapar de algumas fraquezas do argumento original.

Provas científicas da existência de Deus não há e nem nunca haverá.

É uma realidade que pertence à uma ordem totalmente distinta das ciências (entendo ciência aqui como é comumentemente entendido, ou seja, as ciências naturais, cujo método se baseia na verificação e repetição). Podemos chegar a existência de Deus pela razão, mas o que toca a Deus ultrapassa os objetos que podem ser alvo de um estudo científico no sentido mais comum dessa palavra.

Não é uma mera questão de Deus estar em outro plano.

Deus é absolutamente transcendente à toda criação. Ou seja, Ele não está em plano nenhum, e sim fora e acima de todos os planos e dimensões.

Sendo Ele absolutamente infinito e nós e o resto da criação finito, não há qualquer proporção entre nós e Ele.

Tratá-lo como um ser superior que habita uma outra dimensão é diminuir em muito a Deus. Ele é o Ser Absoluto, o Ser pelo qual todos os outros existem, e distinto de todos eles. Há tanta propaganda anti-religiosa hoje em dia que é comum mesmo essa hipótese ser negada por princípio por muitos.

A Fé não só não é contra a razão, mas a razão está persente em seu conceito.

Fé é um dom que faz com que a razão adira à Verdade revelada. A razão adere porque muito do conteúdo da Revelação é perceptível racionalmente e o que não é não vai contra ela, mas está acima dela.

É de uma ignorância singular essa acusação de a Igreja perseguia a ciência, como se a descoberta de causalidade entre os eventos naturais do mundo de alguma forma tirasse o poder de Deus.
Do que os cientificistas não têm como escapar é a necessidade de os processos causais naturais terem eles próprios uma causa; e se essa causa for também algo natural, também ela terá que ter alguma causa; essa regressão de causas só pode acabar com algo fora do campo de estudo da ciência.

Da mesma forma, os cientificistas não têm como explicar a existência de regularidade e ordem no universo. Tentam novamente empurrar a causa dessa ordem, que só pode ser Deus, para algum outro princípio natural.

Eles podem andar para trás o quanto quiserem; a existência de Deus é logicamente necessária. Ainda que se descubra que antes do Big Bang ocorreram outros eventos naturais, nada muda. Infelizmente, tenho certeza de que se esse dia chegar, em que se tenha certeza de algo que ocorreu antes do Big Bang, vai ter muito ateu pensando "ah, agora os teístas estão fritos!"

No universo, cada ser se comporta de acordo com sua forma. Pedregulhos, líquidos, vegetais, plantas, animais; nenhum desses seres escolhe racionalmente o que fazer; mesmo os animais, cujo movimento é auto-iniciado, agem com base unicamente em seus instintos e condicionamentos.

E o conjunto de todos esses seres, cada um agindo diferentemente de acordo com uma forma diferente, produzem um sistema ordenado e estável. Ou seja, cada ser coopera na produção desse fim, que não está de forma alguma na intenção dos seres.

Essa ordem estável do universo tem que ser o resultado de uma inteligência maior, que ordena cada coisa a seu fim.

A quinta via tomista me parece um dos melhores argumentos para a existência de Deus.

Se puderem entender, abaixo, os conceitos aristotélicos, mostramos como a pergunta "Quem criou Deus" é tola.

Enquanto, para Heráclito, a realidade é só a mudança, e para Parmênides é só o eterno, o imutável, o ser, a teoria de Aristóteles contempla o ser e a mudança.

Isto porque Aristóteles mostra que o ser comporta uma dualidade: ato e potência. A mudança é a passagem da potência ao ato. Ora, em Deus não há potência. E isto é possível? Sim. Porque a potência não pode existir sozinha, mas precisa estar atrelada ao ato; já o ato não precisa da potência. O ato é que serve de suporte à potência e não a potência que serve de suporte ao ato. Assim, o ser não precisa de causa para existir.

O que precisa de causa é, portanto, a mudança. É a passagem da potência ao ato, no que tange a uma perfeição de um determinado ser, que não pode dar-se senão por outro ser que já possua aquela perfeição em ato. E este é que é chamado "causa".

Quem não admite a dualidade ato-potência, tem obrigatoriamente que tomar para si a posição de Heráclito ou a de Parmênides, e assumir, naturalmente, as conseqüências de haver, na natureza, conjuntamente, seres que mudam e seres que permanecem na mesma condição em que estavam. E, sendo provado, pela experiência, que aqueles que mudam, podem não mudar, e os que permanecem, podem não permanecer, tanto a postura de Heráclito quanto a de Parmênides carecem de solidez e completude.

Nota-se, inclusive, através de sites como o da “Sociedade Terra Redonda”, que esses novos ateus não são pessoas propensas ao diálogo. Não querem conhecer os argumentos cristãos seriamente. Prova-o o fato de os conhecerem muito superficialmente.

São, na maioria das vezes, pessoas deslumbradas com o progresso da ciência, mas que nunca pensaram seriamente na ciência. Nunca pensaram no que possa ser a ciência ou o que faz da ciência uma verdade aceitável.

Diria Manuel Correa de Barros:

.
Toda a ciência se baseia em princípios; mas, que valem esses princípios? São evidentes? E se o são, não serão casos particulares doutros princípios evidentes, mais gerais? Podem não ser evidentes, mas empíricos, baseados em fatos experimentais. E que vale a experiência? O seu valor não é, justamente, um dos princípios? Tudo isto são questões que nenhuma ciência especializada pode abordar; mas que estão ocultas debaixo de todas as suas conclusões, e podem falsear todos os seus resultados, ou pelo menos fá-los pôr em dívida. O seu estudo compete à filosofia, que o deve levar até ao seu último termo, isto é, até àquelas verdades elementares de que temos conhecimento natural.

(Lições de filosofia tomista)

A ideologia neo-atéia acerta ao dizer que o ateísmo virou uma nova religião, mas religião no sentido que os ativistas procuram dar a essa palavra, ou seja, a de uma crença irracional.

Ele fala sobre a concepção dos novos-ateus de que "a religião é perversa". Puro non sense, na medida que sabemos que essa opinião geralmente tem por base análises históricas e culturais viciadas.

É interessante, como seria de esperar do neo-ateismo, tendem para um lado desde seu início, posto que ignora o movimento, muito mais forte, em sentido contrário, que nos últimos anos vem desmascarando os mitos cientificistas (como no caso do evolucionismo). É todo um fenômeno cultural que a imprensa brasileira ignora de propósito e quando o cita, de passagem, é sempre num tom pejorativo. Neo-ateus insistem em tratar a "espiritualidade" como um conceito etéreo, no ar, derivado de um sentimento de bem estar e a religião como algo meramente cultural. Qualquer católico não-modernista coloca essa bobagem no chão.

Fala-se do crescimento desse ateísmo como uma reação ao "avanço político de forças religiosas sobre o mundo laico na última década", como se o crescimento da importância da religião não fosse uma reação ao laicismo totalitário e inebriante (um verdadeiro ópio do povo) dos últimos 300 anos.

Creio que falta a essas pessoas a boa e velha filosofia perene, de Aristóteles e Santo Tomás, que trabalha com o real e coloca tudo em seu lugar.

Embora os cientistas ignorem, o método científico, a epistemologia de Popper, o empirismo, são posturas filosóficas. Portanto, se é para desconsiderar a filosofia como ciência, o método científico também deixa de ser científico, e com ele, todas as outras ciências.

.
. "Uma parede é azul em ato. Ela é azul por causa que foi movida por uma tinta azul. Tal tinta azul é azul em ato porque absorve a freqüencia azul da luz (que a possui em ato). Porém, a luz é formada por pequenos pacotes de energia, e, para que seja gerada energia, não é necessária algo que possua a cor azul em ato."

Não, porque um efeito pode ser devido à múltiplas causas. A causalidade acidental é justamente isso, uma vez que o acaso nada mais é do que o encontro de duas (ou mais) causas.

Isso, contudo, não significa que não existam, na natureza, séries de causas eficientes e as correlatas séries de causas finais. A própria reprodução não pode ser devida ao acaso. Mas, em todos os eventos, há uma certa dose de acaso. Por exemplo, não podemos desprezar que a matéria seja também causa – causa intrínseca –, e, sem dúvida, influirá sobre o efeito tanto quanto a causa eficiente.

Mas tomemos cuidado com aquilo que chamamos "ato e potência". De fato, a mudança é a passagem da potência ao ato, mas identificar o que é ato e o que é potência é tarefa para uma ciência especializada, e não para a metafísica. À metafísica só interessa dizer que há ato e potência.

.
"sobre a teoria de ato e potência de Aristóteles. Para passar de potência para ato, é necessário ajuda de um outro elemento que possua tal ato. Porém, se esfrego minhas mãos, que têm potência para serem aquecidas, elas se aquecem, mesmo sem o ato motor, já que ambas as mãos são potências."

Não entendo muito de biologia para dizer que parte do seu corpo está sofrendo passivamente a ação e aquela que está agindo como causa, mas eu diria que não são as mãos as responsáveis pelo ato motor e sim o seu cérebro, que tem ligação com todo o seu corpo, ou ainda, você próprio. De qualquer forma, um impulsiona o outro, da sua alma (sede da vontade) ao cérebro, e a partir daí o seu cérebro que age sobre as suas mãos, e as mãos que se esfregam, aquecendo a superfície.

Sobre o calor ter de existir em ato, eu diria que é a energia que existe em ato. O mesmo acontece com o ventilador, que converte a energia elétrica em energia mecânica. Da mesma forma, a fricção das suas mãos transforma a energia mecânica do seu corpo (em ato) em energia térmica (potência). Chamamos isso “causa análoga”. Quando a panela aquecida aquece outra panela, transmitindo-lhe energia térmica, é “causa unívoca”.

A causa eficiente cuja forma é idêntica à que imprime no ser a que dá origem diz-se “unívoca”; aquela em que essa forma existe virtualmente, como que absorvida numa forma de ordem mais elevada, chama-se “análoga”. Podemos dizer, por exemplo, que o Sol, pela energia que irradia, é causa eficiente análoga de grande parte dos fenômenos que se dão na Terra.

"Santo Tomás nos diz também que as coisas podem não ser. Bem, sendo o Universo um sistema único, é racional pensar que ele é um sistema fechado, isto é, a matéria não pode ser destruída - pode ser mudado o estado, mas não destruída. O nosso próprio corpo, formado principalmente de carbono e água é, segundo dizem, aproveitado pela natureza. O que eu falei tem um cunho materialista, acredito. Logo, os átomos não podem não ser. Modificarem-se sim, mas serem destuídos..."

A idéia da negação, do nada, do não-ser, não tem fundamento em qualquer ser que exista ou possa existir na realidade. É devida a que a nossa inteligência, feita para o ser, tem de recorrer aqui a uma ficção, e de emprestar ao não-ser certos aspectos de um ser, sem, aliás, lhe atribuir existência, se raciocina bem. Chamamos isso "ser de razão".

Toda a noção, como noção, é um ser; é idéia, existente na inteligência que a pensa. É um "ser de razão". Mas pode corresponder a um ser real, isto é, existente fora da inteligência; ou pode não lhe corresponder nenhum ser real, o que não quer dizer que seja errada, visto que só seria errada, se fosse acompanhada da convicção de que essa correspondência existia.

O primeiro é o caso das qüididades dos seres reais, isto é, das suas essências abstratas, consideradas independentemente da sua existência.

O segundo é o caso das qüididades dos seres simplesmente possíveis, isto é, das essências a que falta o ato de existência, e que por isso mesmo são abstratas e só abstratas. Enquanto esses seres não existem, e alguns podem não chegar nunca a existir, são noções que não correspondem a nenhuma realidade. A idéia que um arquiteto tem de uma construção coerente, ainda em projeto, serve de exemplo de noção dum ser possível.

O segundo é o caso, também, das noções a que não corresponde, nem pode corresponder, nenhum ser real, por não exprimirem nenhuma essência. São assim os universais, os gêneros e as espécies, se os tomarmos com o seu caráter de universalidade; na realidade, só existem individuados. São assim, ainda, muitas noções utilizadas pela lógica: sujeito, predicado, etc.

Também são seres de razão as noções negativas, como a privação e a negação. A privação tem um fundamento na realidade, mas não corresponde a nenhum ser real. O que existe não é ela, mas um ser privado de uma perfeição que lhe compete. O nosso pensamento decompõe a noção desse ser em duas: a do ser perfeito, e a da perfeição que lhe falta, esta a subtrair da primeira, como privação. Quando pensamos em um homem a quem falta um braço, por exemplo, o nosso espírito distingue duas noções: a do homem completo, com ambos os braços, e a da privação do braço que lhe falta. Logo se vê que a segunda não pode corresponder a nada de real, senão conjugada com a primeira.

Se se refere aqui à matéria-prima, é óbvio que sim. A matéria-prima nunca é aniquilada. Somente Deus poderia aniquilá-la, mas Deus não aniquila o que criou.

A metafísica também afirma que nada pode vir do nada. De fato, é válido o velho adágio de Lucrécio, "Ex nihilo nihil fit". Vimos, anteriormente, que o próprio "acaso" nada mais é do que um encontro de causas. Ora, se nada pode vir do nada, há de haver um certo equilíbrio entre as causas e os efeitos: o efeito não pode ser maior do que a causa. O que pode é várias causas concorrerem para um único efeito (mas cada causa estará aqui também, de certa forma, privando a outra parcialmente de seu próprio efeito).

Referências:

“Lições de Filosofia Tomista”, de Manuel Correia de Barros.

Questionamentos em azul: blog ateu
Deusilusão

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino