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A ignorância invencível e a salvação



Sem Roma, totalmente frustada por ver a FSSPX caminhando em direção à Barca de Pedro, não mais pode apoiar-se na mesma para justificar seu "apostolado". Aliás, agora são Sem Roma & FSSPX.

Em uma tentativa vã que só convenceu os organizadores da idéia, quiseram mostrar uma suposta contradição em uma frase do Pe Paulo Ricardo com o ensino católico no folder acima.

Iremos mostrar, nesse artigo, que as palavras do Reverendíssimo padre, que tanto bem faz a Igreja no Brasil na formação sólida tradicional entre leigos e seminaristas, estão em perfeita harmonia com o que o Magistério sempre ensinou.

Obviamente que o Padre Paulo fala dos que estão em ignorância invencível. Ora, se diz que eles têm em mente um simulacro, um boneco, ao invés da Igreja Católica, é claro que faz referência aos que não pecam mortalmente por isso. O que ele falou sempre foi consenso entre os teólogos.

O grande teólogo Penido diz o seguinte sobre isso:
“Melhor seria cognominá-los cristãos dissidentes. Herege ou cismático, a falar com rigor, é quem abraça o erro ou se revolta contra a autoridade, com obstinação, pecando assim gravemente. Não negamos que os possa haver, no seio das comunidades dissidentes: alguns veem a verdade do catolicismo, mas não se rendem. No dissidente de boa fé, porém, existe desejo sincero de aderir à revelação divina, de obedecer à Igreja, unido não raro à mais edificante vida cristão, como se notava no futuro Cardeal Newman, durante sua carreira anglicana, e como averiguam dia a dia os que privam com ortodoxos, ou protestantes fervorosos. Nesses, a heresia ou o cisma não são pessoais, são por assim dizer hereditários, e ignorância invencível impediu-os de libertarem-se do erro. Não rejeitam o catolicismo real, mas apenas uma caricatura que lhes foi apresentada, pelo seu meio religioso, como sendo o catolicismo autêntico. E falece-lhes a possibilidade de dissipar o mal-entendido.”(Iniciação Teológica, v I, O Mistério da Igreja, 1956, Pág. 180)

O Papa Pio IX:
“os que laboram em ignorância invencível de nossa santíssima religião, se eles se esforçam para seguir a lei natural e os preceitos divinamente gravados em todos os corações, se estão prontos a obedecer a Deus e levam vida reta e honesta, podem, pela virtude da luz e graças divinas, entrar na vida eterna. Com efeito, Deus que vê, sonda e conhece todas as mentes, inclinações, pensamentos e disposições dos homens, jamais permitiria, em sua soberana bondade e clemência, que um homem não responsável de culpa voluntária sofresse o castigo de penas eternas.” (Quanto Conficiamur Moerore) [ Ref: Nelson Monteiro ]

Mas quem se encontrasse, sem culpa sua, fora da Igreja poderia salvar-se?

Quem, encontrando-se sem culpa sua - quer dizer, em boa-fé - fora da Igreja, tivesse recebido o batismo, ou tivesse desejo, ao menos implícito, de o receber, e além disso procurasse sinceramente a verdade e cumprisse a vontade de Deus o melhor que pudesse, ainda que separado do corpo da Igreja, estaria unido à alma d’Ela, e portanto no caminho da salvação. Catecismo de São Pio X - 170.

Talvez seja interessante mostrar-lhe o que o Catecismo de João Paulo II (oficialmente chamado "Catecismo da Igreja Católica") ensina sobre "fora da Igreja não há salvação":

I.7.1 "Fora da Igreja nenhuma salvação"

§846 Como entender esta afirmação, com freqüência repetida pelos Padres da Igreja? Formulada de maneira positiva, ela significa que toda salvação vem de Cristo-Cabeça por meio da Igreja, que é seu Corpo:

Apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, [o Concílio] ensina que esta Igreja peregrina é necessária para a salvação. O único mediador e caminho da salvação é Cristo, que se nos torna presente em seu Corpo, que é a Igreja. Ele, porém, inculcando com palavras expressas a necessidade da fé e do batismo, ao mesmo tempo confirmou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo Batismo, como que por uma porta. Por isso não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus por meio de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disso não quiserem nela entrar ou nela perseverar.

§847 Esta afirmação não visa àqueles que, sem culpa, desconhecem Cristo e sua Igreja:

"Aqueles, portanto, que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob o influxo da graça, cumprir por obras a sua vontade conhecida por meio do ditame da consciência podem conseguir a salvação eterna".

§848 "Deus pode, por caminhos dele conhecidos, levar à fé todos os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho. Pois 'sem a fé é impossível agradar-lhe' Mesmo assim, cabe à Igreja o dever e também o direito sagrado de evangelizar" todos os homens.


É interessante que o Catecismo do Concílio Vaticano II é explícito sobre a necessidade da fé para a justificação, repetindo as palavras da Escritura: Pois 'sem a fé é impossível agradar-lhe'.

É necessário buscar a Deus com o desejo, ao menos, implícito de querer a sua vontade como a vontade de Deus. Querer que alguém se salve por suas obras naturais é a heresia do pelagianismo.

A fé pode ignorar certos mistérios como a Trindade e a Incarnação, mas nunca a existência de Deus e que este pune os maus e recompensa os bons (Hebreus XI, 6).

"Se o homem sofre de ignorância invencível, Deus aceita um voto implícito, assim chamado porque contido naquela boa disposição da alma com a qual o homem quer a sua vontade conforme à vontade de Deus."

"Exige-se, realmente, que o desejo mediante o qual alguém é ordenado à Igreja seja moldado pela perfeita caridade; e o voto implícito não poderá ter efeito se o homem não tiver a fé sobrenatural"
(Carta do Santo Ofício, de 1949).

Para obrar de maneira sobrenatural, é necessário o amor a Deus, ainda que este não seja suscitado de modo atual em cada ação, bastando um ato de caridade precedente em que o justo, junto com todas as suas ações, se abandona a Deus.

Não é todo mundo que está em ignorância invencível que se salva. Mas somente aqueles que seguem a Lei Natural.

Não estariam algumas versões mais populares da salvação em ignorância invencível sendo ingênuas demais com relação à realidade da vida humana?

A grande maioria dos seres humanos, especialmente fora da civilização ocidental moderna, acredita naquilo que é a norma em sua sociedade. Se tiver nascido em uma cultura na qual se crê em uma divindade justiceira, crerá nela. Se, por outro lado, nasce numa cultura, digamos, que creia que todos evoluirão rumo à salvação, ou ainda que não haja Deus e que o homem volta ao nada de onde veio, crerá nisso.

O mesmo vale para convicções morais.

Fora aquela pequena parcela da população que pode se dedicar ativamente à atividade intelectual, aqueles que nascem numa cultura na qual um dos requisitos objetivos mínimos à salvação não está presente estão condenados (de acordo com a teoria).

Apenas aqueles que têm à sua disposição o lazer e os recursos intelectuais para a filosofia nessa cultura poderiam se salvar. De um homem comum seria absolutamente não-razoável esperar o nível de desenvolvimento intelectual necessário para que ele chegasse às crenças e princípios morais corretos, indo contra todo o consenso do resto da sociedade.

Pode um camponês pobre que vive nas redondezas de um monastério budista chegar à conclusão do Deus justiceiro por conta própria? Salvo iluminação divina direta, parece que não.

Por isso, não seria mais correto afirmar, quanto à salvação sob ignorância invencível, que ela depende da culpabilidade individual quanto ao desconhecimento das verdades de Fé (e dos preâmbulos a essas verdades) e da honestidade da vontade em agir de acordo com aquelas poucas verdades que o intelecto conhece?

Quanto ao caráter sacramental/carismático da natureza, parece-me que alguns separam o conhecimento da teologia do conhecimento intuitivo (ou talvez místico?) de Deus. Aqui discordamos: mesmo a mística precisa estar informada pela teologia correta. O conhecimento racional e discursivo tem limitações, mas não só não se opõe ao misticismo como é necessário para que dele advenham bons frutos e "intuições" corretas.

Quanto às noções morais gravadas no coração, não há qualquer dúvida de que elas dependem necessariamente da sociedade para se atualizarem no intelecto humano.

Os meninos criados por lobos não tinham nenhum princípio moral em suas mentes; pelo contrário, a mente deles não tinha sequer chegado à racionalidade que é de sua essência.

Para passar da potência ao ato é necessário alguma causa que exista em ato. Para que o homem conheça o que é certo e o que é errado, para que seu coração lho indique como agir, para que sua consciência alerte-o quando age mal, é necessário que a sociedade ao seu redor ou já cultive esses valores ou ao menos dê-lhe o mínimo para desenvolvê-los.

Os bons sentimentos, as dores da consciência, o remorso, o arrependimento, são todos efeitos da existência em sociedade, e não a causa dela.

Já existem, é claro, em potência em todo ser humano. Mas para passar dela ao ato, é necessária a cooperação social.

É possível experiências místicas positivas sem grandes conhecimentos detalhados de teologia ou filosofia. Mas a experiência sempre tem que estar associada ao uso correto da razão, mesmo que num plano ainda simples.

O índio pode ter tido uma experiência mística (mas talvez apenas psicológica). Mas parece certo que o intelecto dele apreendeu (racionalmente) uma verdade: Deus é o nosso criador. E seu aproveitamento da experiência foi tão grande quanto esse conhecimento racional permitiu.

É necessário, no entanto, distinguir entre o bem natural e o bem sobrenatural; entre o mérito natural e o mérito sobrenatural.

O mérito natural não é suficiente para justificar-nos diante do Altíssimo. Todavia, a salvação das pessoas pela Lei Natural e sob ignorância invencível é uma afirmação infalível da Igreja.

Pio IX:

"E aqui, queridos Filhos e Veneráveis Irmãos, é preciso recordar e repreender novamente o gravíssimo erro em que se acham miseravelmente alguns católicos, ao opinar que homens que vivem no erro e alheios à verdadeira fé e à unidade da católica possam chegar à eterna salvação. O que certamente se opõe em sumo grau à doutrina católica.

Coisa notória é para Nós e para Vós que aqueles que sofrem de ignorância invencível acerca de nossa santíssima religião, que cuidadosamente guardam a lei natural e seus preceitos, esculpidos por Deus nos corações de todos e que estão dispostos a obedecer a Deus e levam vida honesta e reta, podem conseguir a vida eterna, pela operação da virtude da luz divina e da graça; pois Deus, que manifestamente vê, esquadrinha e sabe a mente, ânimo, pensamentos e costumes de todos, não consente, de modo algum, conforme sua suma bondade e clemência, que ninguém seja castigado com eternos suplícios, se não é réu de culpa voluntária.

Porém, bem conhecido é também o dogma católico, a saber, que ninguém pode salvar-se fora da Igreja Católica, e que os contumazes contra a autoridade e definições da mesma Igreja, e os pertinazmente divididos da unidade da mesma Igreja e do Romano Pontífice, sucessor de Pedro, 'a quem foi encomendada pelo Salvador a guarda da vinha', não podem alcançar a eterna salvação" (Quanto Confficiamur Moerore, Denzinger, 1677).


Os teólogos ensinam que as diversas proposições da fé cristã se compendiam em dois artigos, os quais contém implicitamente todos os dados da Revelação. São eles:

1)Deus existe;

2)É o Juiz Supremo que assinala a cada homem a merecida recompensa.

De maneira simples: a existência e a providência salvífica de Deus.

Professar esses dois artigos será possuir o mínimo de fé com o qual, na impossibilidade de se obter ulterior instrução religiosa, se pode agradar a Deus e chegar até Ele. Reciprocamente, sem assentimento a essas duas proposições não pode haver acesso a Deus nem salvação eterna.

Então, embora Deus nem sempre proporcione a todos o conhecimento pleno do Evangelho, nunca deixará de colocar diante do indivíduo essas duas verdades. Aqui é que podemos fazer uma combinação do desenvolvimento da reflexão teológica sobre o tema com a posição adotada na Alta Idade Média, pois a toda pessoa que chega à idade da razão, o Senhor, por uma iluminação interna, sobrenatural, dá a conhecer que Deus existe e exerce uma providência salvífica, recompensando a criatura que lhe seja fiel. Veja, não se está negando a existência da graça sobrenatural que deve acompanhar o cumprimento da Lei Natural, pois a bem-aventurança sobrenatural só pode vir de uma luz sobrenatural (não há limbo de adultos – adultos no sentido teológico do termo), mas se está dizendo que ela não implica em saber coisas com a existência da Trindade.

Uma má interpretação do dogma “fora da Igreja não há salvação”:

Quando o mentor de “Deus Revelans”, o Padre Leonard Feeney começou com essa exegese tresloucada sobre o citado dogma, o Santo Ofício, em agosto de 1949, escreveu o seguinte (o negrito é meu) para Revmo. Sr. Arcebispo de Boston (EUA):

“Entre os mandamentos de Cristo não é de pouca importância aquele que preceitua nos incorporarmos de Batismo ao Corpo Místico, que é a Igreja, e prestemos nossa adesão a Cristo e ao Seu Vigário, (Vigário) pelo qual o próprio Cristo na Terra governa, de modo visível, a Igreja.

Por conseguinte, não se salvará quem, consciente de que a Igreja foi divinamente instituída por Cristo, não obstante se recuse a se lhe submeter e denegue obediência ao Romano Pontífice, Vigário de Cristo na Terra.

Todavia... para que alguém possa obter a salvação eterna, não se requer sempre que seja atualmente incorporado à Igreja como membro, mas é necessário, ao menos, que lhe esteja unido por desejo e voto.

Este desejo, porém, não deve ser sempre explícito, como ele o é nos catecúmenos. Dado que o homem esteja envolvido em ignorância invencível, Deus aceita igualmente o desejo implícito, o qual é assim chamado por estar incluído naquelas boas disposições de alma que levam alguém a querer conformar sua vontade com a vontade de Deus.

Estas verdades são claramente ensinadas na Carta Dogmática ‘A Respeito do Corpo Místico de Jesus Cristo’, publicada pelo Sumo Pontífice o Papa Pio XII aos 29 de junho de 1943 (A.A.S. XXXV 1943 193ss).

No fim dessa Encíclica (o Sumo Pontífice), movido de profundo afeto, convida à unidade os que não pertencem ao Corpo da Igreja Católica; menciona estão ‘os que por certo e inconsciente desejo e almejo estão voltados para o Corpo Místico do Redentor’; estes tais, Sua Santidade de modo nenhum os exclui da salvação eterna;afirma, porém, que se acham em condições ‘nas quais não podem estar certos de sua salvação eterna... visto permanecerem privados dos muitos dons e auxílios celestiais dos quais somente na Igreja Católica se pode usufruir’ (A.A.S., 1.c. 243).

Com essas sábias palavras tanto reprova aqueles que excluem da salvação eterna os que, por desejo implícito apenas, estão unidos à Igreja, como rejeita aqueles que falsamente asseveram que os homens podem ser salvos tão bem numa religião como em qualquer outra
(cf. Pio IX, Alocução ‘Singulari quadram’, Dz 1646ss; Encíclica ‘Quanto conficiamur moere’, Dz 1677).

Não se pense, porém, que basta à salvação um desejo qualquer de entrar na Igreja. Com efeito, é preciso que o desejo com o qual alguém tenda à Igreja, seja animado pela caridade perfeita; o desejo implícito não produz efeito a não ser que o homem tenha fé sobrenatural: ‘Aquele que se aproxima de Deus, deve crer que Deus existe e é Remunerador daqueles que O procuram’ (Heb. 11, 6). O Concílio de Trento declara: ‘A fé é o início da salvação dos homens, o fundamento e a raiz de toda justificação; sem ela é impossível agradar a Deus e chegar ao consórcio dos filhos de Deus’ (Dz 801).

á observamos que Deus revela sobrenaturalmente as duas verdades básicas para a salvação (existência e providência salvífica de Deus), mas falta refletir sobre como isso é feito.

É lícito conjecturar que tal processo assuma formas secretas e múltiplas. Com efeito, o Senhor pode utilizar agentes intermediários (ou pessoas ou seres inanimados; uma conversa, um escrito ou uma figura, por exemplo) a fim de suscitar as duas noções. Além disso, pode iluminar interiormente a inteligência.

Essa última maneira, pode, por sua vez, se concretizar numa espécie de intuição sobrenatural, onde as noções básicas são propostas para que a inteligência as atinja diretamente, ou o Senhor se serve de um tipo de revelação ainda mais simples, a solicitação de optar contra ou a favor de algum bem humano honesto, ou seja, fazer o bem e evitar o mal (princípio básico da Lei Natural).

Certamente a medida do esforço necessário varia para cada um.

Precisa um camponês siberiano sair à procura dos argumentos pró e contra o "Filioque" e à posição real dos Santos Padres quanto ao primado de Pedro mesmo que isso implique abandonar sua casa e ir viver na cidade? Parece que não.

E um bispo católico que crê que a ressurreição de Jesus Cristo tenha sido provavelmente apenas uma história mítica, mas não real de fato? Esse parece que tem o dever de pesquisar bastante sobre o assunto.

Deus cobra de cada um de acordo com o que cada um recebeu.

É impossível para nós conhecer a consciência dos homens. O fato é que até mesmo o camponês siberiano teria como chegar a verdade, mas isso requeriria um esforço tal que, dado o conhecimento atual dele, não parece que renderá frutos.

Também um índio americano pré-Colombo poderia construir um barco e procurar um povo que conhecesse uma religião comprovadamente verdadeira e superior à sua. Isso era possível, e nenhum índio o fez. São culpados por isso? Obviamente que não.

Podemos tratar de casos hipotéticos e fazer afirmações condicionais. Mas como não conhecemos o estado subjetivo, a consciência, de cada um, é impossível dizer se são culpados ou não (culpados mortalmente).

O fato é que não podemos afirmar de ninguém que, se continuar no estado em que está, irá com toda certeza para o Inferno ou para o Céu. Mas sabemos quais as condições para ir para um ou outro.

Vejamos o que o conceituado Manual de Teologia Dogmática de Ludwig Ott (Barcelona, Editorial Herder, 1960) diz sobre o assunto:

“A necessidade de pertencer à Igreja não é unicamente de preceito, mas também de meio, como indica claramente a comparação com a Arca, que era o único meio de escapar da catástrofe do dilúvio universal. Mas a necessidade de meio não é absoluta, apenas hipotética. Em circunstâncias especiais, como no caso de ignorância invencível ou de impossibilidade, a pertença atual na Igreja pode ser substituída pela desejo da mesma (votum). Não é necessário que esse desejo seja explícito, senão que possa traduzir-se numa disposição moral para cumprir fielmente a vontade de Deus (votum implicitum). Desta maneira, podem assim mesmo alcançar a salvação os que se acham fora da Igreja católica.

Cristo ordenou que todos os homens pertencessem a Igreja, pois a fundou como uma instituição necessária para se alcançar a salvação. Ele revistiu os apóstolos de sua autoridade, lhes deu o encargo de ensinar e batizar todas as nações, fazendo depender a salvação eterna de que essas quisessem receber sua doutrina e serem batizadas (...) Todos aqueles que com ignorância inculpável desconhecem a Igreja de Cristo, mas estão prontos para obedecer de pronto aos mandamentos da vontade divina, não são condenados, como se deduz da justiça divina e da universalidade da vontade salvífica de Deus, da qual existem claros testemunhos na Escritura (...)”

Só lembro que essas pessoas que estão nos casos citados só estão fora da Igreja "fisicamente", mas estão nela espiritualmente, ou seja, estão nela.

Quem está em ignorância invencível nos casos em que pode haver salvação pertence espiritualmente à Igreja. Além disso, vale notar que
um dogma só trata daquilo que é essencial, não de todas as questões anexas; veja o exemplo do dogma da Assunção de Nossa Senhora, nele está afirmada a verdade da assunção, mas, ao contrário do que muitos pensam (devido a uma exegese falha do documento de proclamação), não está afirmada ou negada a morte de Maria (esse é um ponto acidental).

Santo Tomás diz que, se o homem fizer tudo o que estiver ao seu alcance (leia-se, cooperar com a primeira graça atual e com as graças que dela são derivadas), Deus lhe revelará o que é necessário crer para se salvar, seja por inspirações interiores, seja enviando-lhe um pregador da fé (que é mais comum que seja um homem). A citação abaixo é segundo a Enciclopédia Católica:

"É ensinamento comum que, se um homem nascido entre as nações bárbaras e infiéis faz realmente o que está a seu alcance, Deus lhe revelara o que é necessário para a salvação, bem seja por inspirações interiores ou enviando-lhe um pregador da fé" (In Lib. II Sententiarum, dist. 23, Q. viii,a.4, ad. 4 am).

o Concílio Vaticano II diz, em sua Constituição Pastoral Gaudium et Spes:

"E o que fica dito, vale não só dos cristãos, mas de todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente (31). Com efeito, já que por todos morreu Cristo (32) e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido."

O texto apenas trata daquilo que já era conhecido da teologia pré-conciliar: a universalidade da graça suficiente. É verdade que Deus quer que todos os homens se salvem, e daí deriva a graça suficiente. Todavia, essa graça suficiente não é eficaz a ponto de superar os impedimentos das causas segundas, quer seja a livre vontade do homem, quer sejam as circunstâncias que abreviam a vida do feto ou do recém-nascido não batizado, antes da idade da razão.

O magistério da Igreja tem ensinado que não se pode pôr limites à ignorância invencível, justamente porque a Igreja não tem o poder de julgar o oculto, isto é a consciência das pessoas (Ecclesia de occultis non judicat).

Ignorância invencível é sinônimo de agir com a retidão de consciência, isto é, consciência moralmente certa, e esse princípio é evocado não só na questão teológica da salvação, mas também para as ações morais.

Além disso, a ignorância invencível, no máximo, pode desculpar um "pecado" (pecado material, não formal). Mas não pode justificar. Por isso, afirmamos aqui a importância da fé na existência de Deus e na retribuição futura, mesmo para os pagãos. No caso das igrejas e seitas separadas da unidade católica, a salvação pode tornar-se ainda mais presente, posto que eles têm vários meios de santificação que por direito divino pertencem à Igreja.

Referências:


A Vida que começa com a morte. D. Estevão Bettencourt O.S.B. Livraria Agir Editora, 3º edição, 1963.

Demonstração Popular da Verdadeira Religião. Frei Affonso Maria ord. carm. Imprensa Industrial, Recife, 1935.

O Mistério dos Sacramentos, do Pe. Dr. Mons. Teixeira Leite Penido, Vozes, 1954.

 

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