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A Igreja primitiva


A Igreja primitiva NÃO se considerava uma seita judaica, e dizer isso apelando ao Apóstolo Paulo me faz crer que você nunca leu o Novo Testamento. Também NÃO era contra o Império, muito pelo contrário: apesar de Roma aparecer como capital de um precursor do Anticristo, Nero, os primeiros cristãos serviam ao exército, obedeciam ao poder temporal em tudo que não fosse contra a fé e sempre alegavam isso quando eram acusados de subversivos. E a própria Igreja sempre teve uma estrutura hierárquica, o que pode-se ver claramente no Novo Testamento e nos Padres primitivos.

O "comunismo" da Igreja primitiva pode-se comparar com uma sociedade monástica. Nunca existiu um comunismo cristãos no sentido de o Estado ser dono de tudo e, assim, considerarmos que "o povo" é dono de tudo (como se Estado e povo fossem a mesma coisa). No feudalismo medieval, tudo era, teoricamente, do Estado (representado pelos senhores feudais, que eram chefes do poder temporal), mas ninguém entendia isso como se tudo fosse "do povo".

E nada disso tem a ver com "progressismo". Perguntado de a Igreja pode progredir, São Vicente Lerins (pós-Nicéia) respondeu que sim, desde que seja fiel a certos princípios. O "conservadorismo" da Igreja sempre existiu, em primeiro lugar com relação à mensagem revelada (a Igreja primitiva NÃO aceita nenhuma forma de relativismo). E sobre o poder temporal, o Apóstolo Paulo diz (comentários meus em negrito):

"Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus (ou seja, o poder vem de Deus e não do povo). Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus (exceto no que for contra a fé); e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação. Em verdade, as autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu louvor. Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, porque não é sem razão que leva a espada (ou seja, o poder temporal usa de violência legitimamente): é ministro de Deus, para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal.

Portanto, é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência. É também por essa razão que pagais os impostos (claro, pois Cristo pagou imposto ao Império romano, e uma das acusações falsas contra ele era justamente que não pagava imposto e queria rebelar-se politicamente contra o Império), pois os magistrados são ministros de Deus, quando exercem pontualmente esse ofício. Pagai a cada um o que lhe compete: o imposto, a quem deveis o imposto; o tributo, a quem deveis o tributo; o temor e o respeito, a quem deveis o temor e o respeito" (Romanos 13).

Que a Igreja primitiva não se revoltava contra o Império, e que tinha uma estrutura hierárquica, você pode achar testemunhos em vários Padres antenicenos: São Cipriano, Papa São Clemente, Santo Ináco de Antioquia, etc.

Uma comunidade/doutrina só pode ser seita de algo, se estiver dentro desse algo. O cristianismo explicitamente abarcava, além de judeus, todos os povos ("em Cristo, não há judeu nem gentio"). Então, não pode ser uma seita judaica.

Mas alguém poderia dizer que, apesar disso, ainda é um judaísmo que aceita gentios, sem trazer nada de novo. Ora, a novidade do cristianismo é a chegada do Messias, que se revela Verbo de Deus encarnado e padece pelos nossos pecados, ressuscitando ao terceiro dia. Isso é pouco? Já está claramente caracterizada uma outra religião, que é continuação do judaísmo, mas vai além, traz coisas novas. Quando Jesus diz que os pais dos judeus comeram o maná e morreram, mas que os cristãos comeriam o Pão da Vida e teriam a vida eterna, coloca uma diferença ENORME, afirma uma TRANSCENDÊNCIA em relação ao judaísmo. Como é que pode-se chamar isso de "seita judaica"? Óbvio que, se "seita judaica" significar que o cristianismo continua o judaísmo, embora transcendendo e abarcando todos os povos com uma mensagem nova, então ok, é uma "seita judaica"... Mas nesse sentido até hoje a Igreja é uma "seita judaica"....

Houve uma controvérsia na Igreja primitiva (durante a vida dos Apóstolos), em que se perguntaram: o Evangelho é para todos mesmo? Decidiu-se que sim, pois era a óbvia instrução do Cristo. E depois: os gentios devem manter a Lei de Moisés? Decidiu-se que não, mas primeiramente impondo-lhes as "cláusulas de Tiago" (que não são as "leis de Noé" coisa nenhuma - já que estas não incluem preceitos alimentares -, mas sim alguns preceitos básicos que evitariam o escândalo na relação entre gentios e judeus), depois adotou-se a postura de plena liberdade que São Paulo defendia. Tudo isso não passou de uma das controvérsias da Igreja primitiva, que rapidamente foi solucionada, e ainda em vida dos Apóstolos. Não tem nada de "seita judaica" aqui.

A Lei de Moisés ou Lei Antiga era uma aplicação circunstancial da Lei de Deus - a circunstância era a separação entre o povo judeu e os outros povos.

Essa distinção entre "Lei de Moisés" (aplicação circunstancial da Lei de Deus) e "Lei de Deus" pura e simples já aparece nos evangelhos. Por um lado, Jesus diz que "nem um til" da Lei passará, por outro remove a permissão do divórcio, dizendo que "no princípio não era assim, mas que Moisés permitiu por causa da dureza dos vossos corações". Jesus também afirma com toda força alguns preceitos que até já existiam na tradição judaica, mas não com a mesma ênfase e centralidade, resumidamente: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Nesses dois mandamentos, que são uma síntese do decálogo, está a Lei de Cristo, que é a própria Lei de Deus pura e simples.

Por fim, o Apóstolo Paulo declara que a Antiga Aliança está velha, perdeu qualquer força, em favor da Nova e Eterna Aliança.

A Sucessão Apostólica está claramente descrita na Bíblia e nos Padres primitivos. Havia:

a) a imposição das mãos sobre alguns homens;

b) que, por sua vez, tinha o poder de impor as mãos sobre outros;

c) e todos pasavam, então, a ter responsabilidades dentro de uma hierarquia.

Com um estudo mais cuidadoso no NT e nos Padres, verificamos que essa hierarquia é feita de diáconos, presbíteros e bispos.

Os bispos às vezes são referidos como "anciãos". Mas, por óbvio, enquanto os Apóstolos estivessem vivos, eles seriam os maiores bispos, dotados de maior autoridade. Completamente sem fundamentos é falar em uma "sucessão dinástica", pois:

a) o fato de Jesus ser Rei, não tem nada a ver com a organização da Igreja, nunca se viu algum bispo, apóstolo ou não, ser chamado de "Rei" por ter sucedido Jesus, nem São Tiago foi chamado assim em qualquer momento, ao contrário, o Reinado de Cristo é dito único e eterno;

b) Tiago era bispo de Jerusalém, que era UM dos centros do cristianismo, e naquele momento com certeza o maior, mas daí pra considerá-lo líder da Igreja por determinação de Cristo não há provas (pode ser, e de fato é, uma lideração circunstancial pelo fato de a Igreja de Jerusalém ser a mais importante no momento);

c) a relação de Jesus com Pedro, Paulo, e as relações entre os Apóstolos são clara demonstração que não havia nada de "dinástico" ali.

A Igreja primitiva era contra Roma por que lá governava Nero. Roma também era vista como centro de opressão, impiedade, dos costumes pagãos, do politeísmo, etc.

No entanto, Jesus e Paulo mandaram pagar impostos e "dar a César o que é de César". E os cristãos primitivos sempre prestavam serviço militar e obedeciam ao Império em tudo que não fosse contra a fé.

Ou seja, NÃO eram contra o poder temporal do Império em si, mas sim contra o mau uso que se fazia dele com Nero e outros perseguidores.

A Igreja sempre teve hierarquia, e a única hierarquia instituída por Cristo é essa: diáconos, presbíteros e bispos. O resto é acidental, consequência da Igreja naturalmente amoldar-se ao Império quando este se converteu ao cristianismo.

A sucessão apostólica não necessita de que alguém tenha falecido, mas baseia-se no dom que é transmitido de um bispo a outro:

"Eis uma coisa certa: quem aspira ao episcopado, saiba que está desejando uma função sublime" (I Tim. III, 1); "Não negligencies o carisma que está em ti e que te foi dado por profecia, quando a assembléia dos anciãos te impôs as mãos" (I Tim. IV, 14); "A ninguém imponhas as mãos inconsideradamente, para que não venhas a tornar-te cúmplice dos pecados alheios. Conserva-te puro" (I Tim. V, 22).

Nesses versículos fica evidente que havia a imposição das mãos para receberem uma função, que por sua vez lhe abria a possibilidade de fazer o mesmo com outros.

São Clemente Romano, contemporâneo dos Apóstolos, testemunhou na Epístola aos Coríntios:

"Nossos apóstolos conheciam, da parte do Senhor Jesus Cristo, que haveria disputas por causa da função episcopal. Por este motivo, prevendo exatamente o futuro, instituíram aqueles de quem falávamos antes, e ordenaram que, por ocasião de morte desses, outros homens provados lhes sucedessem no ministério".

No século II, Sto. Inácio de Antioquia disse na Epístola aos Efésios:

"Que ninguém se engane: quem não está junto do altar está privado do pão de Deus. Se a oração de duas pessoas juntas tem tal força, quanto mais a do bispo e de toda a Igreja! Aquele que não participa da reunião é orgulhoso e já está por si mesmo julgado, pois está escrito: 'Deus resiste aos orgulhosos'. Tenhamos cuidado, portanto, para não resistirmos ao bispo, a fim de estarmos submetidos a Deus"

Onde há influência do direito romano das sucessões ? E por que um direito romano (jus civile) restrito aos cidadãos romanos, que era totalmente proibido aos plebeus, escravos e estrangeiros (cujas relações eram regidas pelo jus gentium), influenciaria a formação de um movimento religioso de origem judaica que via em Nero um precursor do Anticristo?

Citações

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“Atendei ao Bispo, para que Deus vos atenda. Ofereço minha vida para os que se submetem ao Bispo, aos presbíteros e aos diáconos. Possa eu, com eles, ter parte em Deus. Trabalhai uns com os outros e, unidos, combatei, lutai, sofrei, dormi, despertai, como administradores, assessores e servidores de Deus. Procurai agradar Àquele sob cujas ordens militares e do qual recebeis vosso soldo. Não se encontre entre vós nenhum desertor. Que o vosso Batismo seja como escudo, a fé como elmo, o amor como lança, a perseverança como armadura. Atendei ao Bispo, como Jesus Cristo segue o Pai, e aos presbíteros como aos apóstolos; respeitai os diáconos como à lei de Deus. Sem o Bispo ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja. Onde aparece o Bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica. É bom reconhecer a Deus e ao Bispo. Quem respeita o Bispo é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do Bispo, serve ao diabo.” (Santo Inácio de Antioquia aos Esmirniotas p. 118 e a Policarpo p. 123 – Padres Apostólicos – Paulus – São Paulo – 2002)

Cristo Nosso Senhor, para apascentar e aumentar continuamente o Povo de Deus, instituiu na Igreja diversos ministérios, para bem de todo o corpo. Com efeito, os ministros que têm o poder sagrado servem os seus irmãos para que todos os que pertencem ao Povo de Deus, - e por isso possuem a verdadeira dignidade cristã,- alcancem a salvação, conspirando livre e ordenadamente para o mesmo fim. Neste tempo da instituíção da Igreja, conta-nos o apóstolo Marcos que uma grande multidão O seguia, quando Ele decidiu subir ao monte e chamar para junto de Si, aqueles que dariam continuidade a implantação de seu Reino que Ele adquirira a preço de Seu sangue. Muitos eram os discípulos, mas escolheu somente doze deles - mostrando que a vocação é uma iniciativa divina - para a tarefa específica de Apóstolos (cf. Mc 3, 13-19), que quer dizer: "enviados". Por isso Jesus mais tarde diz: "Não fostes vós que Me escolhestes a Mim, mas Eu que vos escolhi a vós"(Jo 15,16).

Esta escolha de doze apóstolos tem um profundo significado, pois o seu número corresponde ao dos doze Patriarcas de Israel, e os Apóstolos representam o novo povo de Deus, a Igreja, fundada por Cristo Jesus que quis assim por em relevo a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Eles são as colunas sobre as quais Cristo edifica a Igreja. A própria designação dos Doze mostra que formam um grupo determinado e completo.

Sendo Ele a Pedra Angular e Pedro o chefe visível de Sua Igreja, chamou-os para levar sua mensagem a todos aqueles que os escutassem, fazendo-os discípulos, santificando-os e governando-os com o poder do próprio Espírito de Deus, que foi derramado sobre eles no dia de Pentecostes, confirmando assim sua missão, dando-lhes poder para serem de fato testemunhas fieis da Ressurreição do Senhor e constituindo-os verdadeiros servos de Cristo em prol deste povo escolhido.

Esta missão que lhes incumbiu, tem a garantia de durar até ao fim dos tempos, pois para levá-la a cabo, o próprio Cristo Glorioso promete acompanhar Sua Igreja e não abandoná-la. (Toda autoridade Me foi dada no céu e na terra […] Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo. Mt 28,18.20) ”Quando na Sagrada Escritura se afirma que Deus está com alguém, quer-se dizer que este terá êxito nas suas empresas. Daí que a Igreja, com a ajuda e a assistência do Seu Fundador divino, está segura de poder cumprir indefectivelmente a sua missão até ao fim dos séculos que será, em última análise, de ensinar aos homens as verdades acerca de Deus e a exigência de que identifiquem essas verdades, ajudando-os sem cessar com a graça dos sacramentos, instituídos por Cristo”. (Bíblia de Navarra – Evangelho de Mateus - p.443)

Ainda no estabelecimento de Sua Igreja, o Senhor, além de chamar seus escolhidos, instituiu os Sacramentos para administrar as graças que Ele havia adquirido na Cruz, para aqueles que haveriam de crer e aderir à Sua mensagem de salvação, sendo estes guardados e administrados por esta mesma e única Igreja, através destes escolhidos, a fim de levar adiante a missão de formar "um povo santo, um reino de sacerdotes e uma nação consagrada para Deus."(Êxodo 19,6).

Dentre os sete sacramentos, havia um - o da ordem - que capacitava e capacita o "ordenado a configurar-se a Cristo em virtude de uma graça especial do Espírito Santo, para que fosse instrumento de Cristo a serviço da Sua Igreja. Graças a este sacramento, a missão confiada por Cristo aos seus Apóstolos continua a ser exercida até ao fim dos tempos: ele é portanto, o sacramento do ministério apostólico, o que confere um dom do Espírito Santo, que o permite exercer um poder sagrado, que pode vir só de Cristo mediante a Igreja. O enviado do Senhor fala e atua não por autoridade própria, mas em virtude da autoridade de Cristo; não como membro da comunidade, mas falando a ela em nome de Cristo. Ninguém pode conferir a si mesmo a graça; ela deve-lhe ser dada e oferecida. Isto supõe ministros da graça, por Cristo ornados de autoridade e aptidão. O sacramento do ministério apostólico comporta três graus. O ministério eclesiástico, de instituição divina, é exercido em ordens diversas por aqueles que desde antigamente são chamados bispos, presbíteros, diáconos..("De diaconatu permanenti" - Declaração da Congregação do Clero em conjunto com a Congregação da Educação Católica - 22 fev 1998 - Sua Santidade João Paulo II)

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Portanto nós filhos do Pai Altíssimo, devemos por amor a Cristo e Sua Igreja, acolher, amar e sobretudo obedecer com diligência e solicitude o parecer dos Bispos, quando estão em comunhão com o Romano Pontífice, vendo neles de fato, o representante de Deus, um pai para nos instruir, um mestre para nos conduzir ao reto caminho, rumo a morada celeste, já que detém a autoridade do próprio Cristo para suceder o Colégio Apostólico, sustentáculo da Igreja e da Verdade. A ele toda nossa obediência e reverência, isto é bom e agradável ao Pai.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino