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A maldade humana exposta nos filmes de terror


Colheita Maldita - 1984

O filme de terror possui diversos tipos de estímulos que causam medo, como sons repentinos, coisas aparecendo de repente, músicas de suspense, etc. Estes estímulos ativam o Sistema Nervoso Simpático, que é responsável pelo estado de alerta em situações de perigo, preparando o organismo para emergências. Esta é um tipo de resposta (ação) do organismo que foi selecionado filogeneticamente, ou seja, ao longo da evolução da espécie. Mas a resposta de medo também possui propriedades aprendidas.

O tipo de estímulo que causa medo pode ser diferente do tipo de estímulo que causa medo em outras pessoas. Isso pode acontecer, principalmente, por dois fatores:

1) Estímulos que naturalmente causam medo aos indivíduos da espécie (como sons estridentes e repentinos) podem deixar de ter este efeito, quando o indivíduo habitua-se com este tipo de estímulo;

2) Estímulos que originalmente não causam medo (como aquelas músicas que, quando ouvimos nos filmes, nos dão arrepios) podem passar a causar quando associados a outros estímulos que causam medo (como os sons estridentes, imagens de monstros aparecendo de repente, etc).

Além disso, o modo como a pessoa expressa o medo também pode variar. Se temos uma pessoa que, em sua história, conseguia atenção, carinho, etc. através de gritos e choramingos diante de filmes de terror, é bastante provável que esta pessoa volte a fazer estes comportamentos novamente diante de novos filmes de terror. O mesmo vale para outros comportamentos e outros ganhos "agradáveis" para esta pessoa.



O que vemos nesses filmes é o retrato da consequência do pecado original herdado de Adão. "Por um só homem entrou o pecado no mundo" (Rm 5,12).

Um pouco sobre a natureza do pecado original:

O homem era o cabeça da mulher e da humanidade. Os textos do Concílio de Trento e da encíclica "Humani generis" também deixam claro que o pecado transmitido foi o pecado de "um só Adão".


"790. 3) Se alguém afirmar que esse pecado de Adão – que é um pela origem e transmitido pela propagação e não pela imitação, mas que é próprio de cada um"

" e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles."

E faz sentido que o pecado original seja atribuído a Adão pela mesma razão em que ele não é transmitido fisicamente através da reprodução, e sim por determinação divina, sendo a concepção mera condição sine qua non (e não de causa eficiente) para a contração de tal pecado.

Se formos prestar atenção ao que realmente diz Santo Tomás, sua explicação sobre o homem como provedor do princípio ativo da geração é perfeitamente compatível com o entendimento da ciência, pois ele não nega que a mãe fornece o material (o que se pode entender perfeitamente como material genético) para a concepção (S. Th., IaIIae, q.81, a.5). Não há dúvida de que o óvulo, sendo fecundado pelo espermatozóide, assume papel passivo até a concepção.


E Santo Tomás não ensina, em nenhum momento, que o pecado original se transmite pelo sêmen, porque sabe que é pecado da alma, mas sim que o homem se faz réu do pecado original, na medida em que participa da natureza recebida por meio de Adão, enquanto motor da geração humana (S. Th., IaIIae, q.81, a.1).



Mesmo assim, a doutrina segundo a qual o pecado original é causado pelo pecado de Adão não depende dessa doutrina, pois é sentença comum e certa, mesmo para os teólogos que têm completo entendimento da geração humana, e que a baseiam nas fontes da doutrina revelada e do magistério.

Apesar do pecado original estar dependente de ser da geração, não seria injusto, se, de uma forma hipotética (não real, pois contraditória com o ensinamento da Igreja), Deus retirasse a graça santificante dessa linhagem não adâmica ou de alguém descendente de Adão nascido antes do pecado original, em solidariedade ao pecado de Adão, pois seria um caso único em que a perda da graça santificante não implicaria num estado de pecado mortal, ficando assim eles em estado só de pecado original, como as crianças não batizadas, e, nesse caso, poderiam, pela fé, recuperar a graça santificante.

Contudo, como vimos, isso é afastado, pelo fato de que o pecado original é transmitido pela geração. Deus também poderia ter criado essa linhagem não adâmica, sem elevá-los à graça santificante, assim, num estado de natureza pura, isto é, destinados apenas à bem-aventurança natural, mas, também nesse caso, teriam que ter desaparecido da Terra antes do pecado original, para não ser contraditório com o ensinamento da Igreja.

Ademais, a existência de homens antes de Adão não é contraditória com a encíclica "Humani generis", mas, pode, por outras razões, ser contrária ao ensinamento do magistério ordinário universal, como me parece bem que é (Pio II, por exemplo, condenou que Adão não foi o primeiro homem em absoluto, e Pelágio I ensinou, na sua confissão de fé, que todos os homens são descendentes igualmente de Adão e Eva).


Algumas penas afligem a humanidade em geral , como, por exemplo, "Do suor do teu rosto comerás o teu pão", mas não a todas as pessoas em particular. Nem todos os homens comem o seu pão através do suor do seu rosto. E aqui não se está referindo ao ato de trabalhar, pois nada impedia que o Adão trabalhasse no paraíso, mas não era um trabalho penoso como depois do pecado (Cf. Gn 2,15; S. Th., Ia, q.102, a.3).

Pois então, alguns homens não trabalham, e outros não exercitam trabalhos penosos, da mesma forma como nem todas as mulheres se submetem aos homens ou têm dores de parto. Mas isso não os livra do castigo essencial imposto aos descendentes de Adão - a perda da graça de Deus -, nem daqueles que, inevitavelmente, afligem todos os homens, como a concupiscência, a doença, a morte, etc.



O crimes bárbaros nos filmes impressionam porque todos sabem que situações semelhantes acontecem na vida real. As pessoas ainda são sensíveis e ficam chocadas com a maldade cometida com as vítimas, mesmo fictícias, e imagino que todos os leitores ficam indignados com estas monstruosidades intoleráveis.

Alguns filmes trazem à tona algumas reflexões sobre a maldade humana. Algumas pessoas cometem o erro grosseiro de responsabilizar toda a sociedade sobre os crimes acontecidos em caso real, por oprimir e não dar condições à algumas pessoas e daí surge a criminalidade.

Gostaria, antes de prosseguir o artigo, afirmar que sou inocente: sou membro da sociedade e não tenho culpa alguma dessas barbaridades. Como brilhantemente disse Percival Puggina, se alguém se sente culpado que se entregue na delegacia mais próxima como co-autor do crime. Essa concepção tem origem no marxismo, e é resultado da visão terrivelmente equivocada que esta ideologia faz do ser humano.



A hora do espanto - 1985

A nossa fé leva essa reflexão a um caminho mais seguro e coerente. Com o pecado original, houve uma desordem na harmonia natural que havia no homem, e há uma inclinação ao pecado. Mas não passa disso, uma inclinação. Lutero é que afirma que o pecado original simplesmente destruiu o ser humano, e que nós vamos pecar mesmo, não teria jeito. Nós cremos diferentemente.

Tendo isso em mente, como explicar a maldade humana? Atos abomináveis vistos diariamente, são simplesmente um reflexo dessa desordem que há em nós? Ou há algo mais aí?

Alguns comentem o erro de tratar a humanidade "em bloco", não em indivíduos. E nós, como cristãos, temos sim que pensar o homem como indivíduo, algo além de um todo.

Cristãos e conservadores parecem querer colocar toda a culpa do mal a uma grande revolução.

Estão certos se formos analisar as matanças comunistas e nazistas, por exemplo. Mas antes mesmo do comunismo, antes mesmo da vinda de Cristo, os homens já cometiam crimes bárbaros.

Vamos avançar um pouco a reflexão. O famoso mito do "bom selvagem" de Rousseau, muito influente, não passa de um gigantesco equívoco. Não há bom selvagem algum, a não ser na cabeça de Rousseau e de outras pessoas que avançaram por uma antropologia equivocada. O filme de Mel Gibson, "Apocalypto", ajudará muitos a se livrarem desta visão distorcida. A maldade não foi trazida pelos europeus até a América, pelo contrário, os requintes de crueldade de muitos nativos daqui eram de impressionar os europeus. Sacrifícios humanos e rituais antropófagos não me parecem um ato digno de um "bom selvagem"...

Tampouco a maldade humana pode ser fruto de diferenças, de opressões. Isso é um absurdo! Como explicar, então, os riquíssimos parlamentares corruptos? Como explicar que alguém riquíssimo e culto como Pimenta Neves seja um assassino?

Querer jogar a culpa na propriedade privada e nas diferenças sociais é um erro gravíssimo. Concedo que pessoas que vivem de modo injusto, indigno, acabam por ter um motivo a mais para entrar no mundo da criminalidade. Mas nada além disso. Pessoas que cometeram crimes horríveis tinham condições muito, mas muito melhores do que as minhas, por exemplo.

As idéias, sem dúvida, podem corromper o homem. Exemplos clássicos são o nazismo e comunismo. Mas pessoas sem ideologia alguma podem cometer crimes graves. Acho que o problema é essencialmente moral, e não simplesmente ideológico.

A idéia de responsabilizar a sociedade não é de todo errada, no entanto não pode ser usada para retirar a responsabilidade pessoal dos bandidos.

Visto que crimes hediondos ocorrem abundantemente na sociedade brasileira e não ocorrem em outras sociedades, é natural pensar que há algo de errado com nossa sociedade, i.e., que ela está enferma ou é deliberadamente culpada de tais fatos. Isto não significa dizer que você ou eu somos particularmente culpados do que acontece e tampouco deve servir pra eximir os bandidos da culpa.

É uma afirmação sobre a sociedade e não sobre um ou outro indivíduo que faz parte dela.

Essa questão da sociedade (cultura???) se reflete em tudo: por que há 40 anos a Europa era uma porcaria e agora está bem, enquanto que o Brasil segue no mesmo passo? Os alemães construiram uma sociedade ordenada e segura a partir de ruínas (e no entanto é mais provável encontrar um alemão indiferente que um alemão amável) e nós não conseguimos tirar o pé da lama (embora seja fácil encontrar brasileiros amáveis e simpáticos que se preocupam com os vizinhos)?

Em outras palavras, o que somos como indivíduos não representa necessariamente o que somos como sociedade. O que me lembra um estudo recente no qual analisaram as grandes empresas e descobriram que a "personalidade" delas é psicótica (mesmo que os funcionários sejam gente boa).

Sem dúvida, os fatores são múltiplos, tendo sempre por origem o pecado.


No que se refere à participação da sociedade, lembrei-me de uma entrevista que com o Cardeal de Lima, D. Cipriani. Ele foi antes bispo de uma cidade nos Andes peruanos, que era o reduto de grupos guerrilheiros, envolvidos em terrorismo e tráfico.

Comentando sobre essa população, especificamente o seu desprezo pela vida alheia nos atos terroristas, ele dizia que um dos problemas era que eles não davam à vida o seu devido valor. Não apenas à dos outros, mas também à própria. Sua vida era tão sem perspectiva, sobrenatural e humana, tão "sobrevivência" apenas, que matar e morrer tornavam-se coisas corriqueiras. Nesse contexto, matar e morrer por um ideal político era algo que percebiam como mais "nobre".

Ele dizia que era preciso ampliar-lhes os horizontes, dar mais sentido à própria vida, que então conseguiam valorizar também a vida alheia.

O homem certamente não é naturalmente mau. Essa visão se aproxima mais do luteranismo do que da reta ortodoxia. O pecado sim, abalou a natureza humana, mas não a destruiu completamente. Esse é o ponto de partida.

Concordo que a sociedade pode sim estar piorando a situação de muitas pessoas. Isso pode ser um agravante. É fato que uma pessoa sem perspectiva alguma pode sim acabar caindo na marginalidade. Mas a questão é que mesmo pessoas com todas as condições cometem maldades por aí. Acho que o cerne da questão é mais profundo do que isso.

Talvez a chave seja o fim último que cada pessoa dá a sua vida. Por exemplo, nós colocamos como nosso fim último conhecer e amar a Deus e, por conseguinte, ao próximo. Se vivermos de modo coerente, de acordo com o fim a que almejamos, certamente não cometeremos barbaridades.

Por outro lado, uma pessoa que coloque o prazer como fim último. Sabemos que o prazer é um sentimento momentâneo, e para ser alcançado, a cada instante a pessoa precisa, necessariamente, fazer algo que lhe propicie prazer. Ora, uma consciência deformada pode conseguir ver prazer no sofrimento alheio, por que não?

A partir do momento em que a moral é jogada para escanteio, devido ao relativismo, a pessoa pode deixar de distinguir o mal do bem. E isso traz consequencias abomináveis.

Mas acho que isso tudo depende do fim último que a pessoa escolhe para si.

Evidente que qualquer pessoa pode alcançar a pessoa. Esse qualquer inclui gente do naipe de Hitler e Stalin. Se esses canalhas se salvaram, eu não sei, mas isso pode até ter ocorrido - embora, objetivamente, não tenha ocorrido nenhum evento na vida dos dois que demonstre isso, ao menos publicamente. Mas, objetivamente, a Graça pode alcançar qualquer pessoa. E temos o dever de rezar para que isso ocorra, para que todos se salvem!

Dito isso, prossigamos nossa reflexão. Compreender a natureza humana em sua totalidade é algo inalcançável, disto não tenho dúvidas.

Com relação ao fim último, a pessoa que não acredita em Deus geralmente coloca como meta uma felicidade, sem identificá-la muito bem. Alguns colocam o prazer, necessariamente, como meio de se atingir essa felicidade ou como fim último.

O problema é que a verdadeira felicidade se encontra apenas em Deus, de modo que a pessoa pode encontrar apenas uma felicidade parcial. E sabe-se lá que meios empregará para ser feliz... geralmente há um apego excessivo à bens materiais e/ou a pessoas. E os bens materiais são banais demais, e as pessoas falham. É frustração certa isso!

Essa frustração também pode gerar maldade, é o que penso. Uma pessoa frustrada tem maior facilidade em se revoltar, ao menos é o que me parece. Penso, inclusive, que crimes passionais sejam explicados por isso: a frustração pessoal.

Vários tipos de barbaridades lembram - e muito - personagens macabros criados por Dostoievski em seu livro "Os Demônios".

Um personagem, em especial, assemelha-se à esse bárbaro. É Stravoguin, que era um pessoa muito má porque havia perdido o senso de bem e mal. Ou seja, não havendo mais bem ou mal, Stravoguin fazia simplesmente o que desse na telha dele, o que desse prazer a ele. E Dostoievski tomou o cuidado necessário para deixar claríssimo que Stravoguin não possuia nenhum problema mental. Ele simplesmente fazia o que quisesse, pois para ele não havia mais nem bem, nem mal.

E isso nada mais é do que destruir a consciência. Pessoas assim calam a voz da consciência, abrindo caminho para qualquer barbaridade imaginável.

E é fato que as pessoas têm uma noção inata de "certo" e "errado": é o que chamamos de Lei Natural. Por exemplo, podemos saber que matar é algo mau sem ninguém nos dizer isso. Quer dizer, se alguém tentar nos agredir, a defesa será instintiva, sabemos que defender a nossa vida é um bem.

Nesse romance de Dostoievski há a forte presença de personagens canalhas, maus e que chegam a dar nojo. O pior de todos é Piotr Stiepanovitch, disparado. Mas a maldade dele é muito verossímil: ele é um socialista ateu que usa de todos os meios imagináveis para manipular e enganar as pessoas para que sirvam a ele e sua causa. Um canalha de primeira categoria, que na vida real pode bem ser um Lenin ou um Stalin. Inclusive esse livro é uma profecia da Revolução que viria e dos "amores de pessoa" que comandariam a mesma.

Então, uma questão: uma ideologia pode corromper uma pessoa ao ponto de essa pessoa praticar um mal, objetivamente falando. E esse mal é um assassinato, por exemplo.

Por que o assassinato não incorre em excomunhão automática, assim como o aborto?

Na verdade, as penas latae sententiae não estão prescritas por Divino divino; são colocadas pela autoridade da Igreja que tem o poder de ligar e desligar. São penas de Direito eclesiástico. Se o Papa quiser, retira a pena latae sententiae para o caso de aborto, mas a Igreja julga que deve existir por algum motivo. Independente das penas de Direito eclesiástico, há as de Direito divino, isto é, a pena eterna e a pena temporal.

O duelo já foi passível de excomunhão no passado. Assim ficaria bastante ilustrado o porquê o aborto hoje recebe a pena da excomunhão e o assassinato não, pois o duelo em séculos passados não era visto socialmente como um crime hediondo e a Igreja colocou a excomunhão nesse caso até que a idéia de que o duelo é crime e pecado permeasse a sociedade.

Santo Tomás ensina, com base na lei natural, que o fim primário da pena é vindicativo, retributivo. Deve-se almejar a reeducação do apenado, claro, mas como um dos fins secundários, que, se não alcançados, não invalidam a eficácia da medida penal.


Por mais influência que uma pessoa tenha recebido em casa, dos meios de comunicação, do ambiente em que vive, isso nunca chega ao ponto de bloquear completamente o livre arbítrio da pessoa. A pessoa é criminosa porque quer. E, se o crime que ela escolhe ameaça a vida de terceiros, é obrigação defender essas vidas. Se o único jeito de fazer isso for eliminar o agressor injusto, faz-se isso.

A verdade é que, sim, as condições do meio influem na formação do caráter da pessoa.

Até que ponto um cara que vê pessoas morrerem de forma bárbara, seguidamente, desde muito jovem, tem a consciência retamente formada? Ou, mais: minimamente formada?

Nas favelas temos crianças de 12 anos com fuzil na mão... com essa idade eu brincava de carrinho e jogava bola. A pessoa não tem a menor educação, a mnor formação, o menor critério e, pior, não tem culpa por ter essa formação. Pior ainda: muitas vezes não tem escolha: ou é isso ou então...

Para uma discussão moral sobre o assunto é preciso, sim, focar a realidade de certos ambientes. A coisa é complicadíssima.

Além do mais, o tal assunto "estruturas de pecado" é coisa da TL, sim... mas essa idéia, embora não possa ser abraçada sem mais nem menos, não está completamente errada.

O Papa João Paulo II tratou sim, de forma ortodoxa, sobre esse assunto de "estruturas de pecado". Por exemplo:

Ela permite-nos superar as múltiplas "estruturas de pecado" em que está envolvida a nossa vida pessoal, familiar e social. Permite-nos obter a graça da verdadeira libertação, com essa liberdade com que libertou Cristo a todos os homens.


Ou seja, há estruturas sociais, sim, que levam o homem a situações em que a sua liberdade e consciência fica gravemente abalada. E nós, como cristãos, temos o dever de garantir condições dignas para os seres humanos viverem: isso dá, inclusive, mais subsídios para que a pessoa chegue a Deus!

O arrependimento do homicida

A contrição, perfeita ou imperfeita, não se confunde com o sacramento da Penitência; é, na verdade, um dos elementos dele (os elementos desse sacramento são: arrependimento, confissão, absolvição e satisfação - lembrando que os dois últimos podem ter a ordem invertida).

A contrição perfeita, de si, já obtém o perdão de Deus,
embora não libere para a comunhão.

Ensina o Mons. Teixeira Leite Penido:

“A contrição, como dissemos, deve de qualquer maneira se referir a Deus. Tal referência poderá revestir diversidade de graus. O grau mínimo ainda é um sentimento interesseiro: pesar porque o pecado merece os castigos de Deus. No grau máximo haverá completo desinteresse: dor motivada por ser o Senhor quem é. De qualquer forma, não existe contrição genuína sem referência explícita a Deus”.

O Catecismo da Perfeição Cristã diz:

“Para a validade da confissão (do ponto de vista da contrição), é suficiente a contrição excitada pelo temor dos castigos divinos...”.

Portanto, mesmo a contrição imperfeita tem de ter relação com Deus, não sendo a meramente derivada de “motivos mundanos” válida.

Não é necessário que tal amargura seja de ordem sensível. Esta existe, por vezes. Lágrimas da Madalena, lágrimas de Pedro. O Missal romano tradicional contém uma oração para se pedir o “dom das lágrimas”. Contudo, pode a compunção ser genuína, sem qualquer frêmito da sensibilidade a venha acompanhar. Pode até acontecer que nos seja mais sensível a perda de um bem temporal que a ofensa feita a Deus. Aquela nos tirará lágrimas, esta não. Entretanto, dada a ocasião, estaremos dispostos a sacrificar o mesmo bem temporal, antes que ofender a Deus. Autentica, pois, era nossa contrição.

A dor dos pecados consiste essencialmente num movimento, a) da inteligência que percebe claramente a malícia da ofensa a Deus; b)da vontade que aborrece o pecado e dele se despega. Na prática do Sacramento da Penitência, ocorre muito menos de nossa sensibilidade ficar comovida do que procurar com a ajuda divina ver, à luz da fé, a malícia do pecado e fazer esforço para dele nos afastar.

A contrição perfeita dispõe imediata e infalivelmente a alma a receber o perdão. Apenas dispõe, não justifica por si, porque só Deus perdoa; só a graça santificante de Cristo justifica; jamais o homem pecador salva-se pelo próprio esforço. Contudo, Deus é tão misericordioso que, em atenção aos merecimentos de seu Filho, ele vem à alma tão logo é removido o obstáculo que lhe impedia a entrada. O Bom Pastor está como que espreitando à porta do coração pecador; apenas este lhe abre, irrompe a graça.

Ora, o único empecilho à entrada de Deus é a vontade perversa do homem. A contrição perfeita destroça esta barreira, pois repele o pecado pela penitência e se atira, pela fé amorosa, nos braços de Deus. Amarfalhado e murcho, o coração revive. Devastado o primeiro amor da alma inocente, brota segundo e novo amor na alma penitente. Muito lhe foi perdoado porque muito amou.

Uma resposta óbvia e superficial seria que jamais temos certeza absoluta de estarmos perfeitamente contritos; jamais sabemos se a veemência de nossa dor iguala a grandeza de nossas faltas. O recurso ao Sacramento será pois de elementar prudência, para suprir o que porventura teria nossa contrição de insuficiente. S e comungássemos não estando em estado de graça estaríamos cometendo um outro pecado, o de sacrilégio.

Mais profundamente, eu já disse que a contrição perfeita envolve o desejo da confissão sacramental. A virtude de penitência não extingue o pecado, sem relação ao Sacramento da Penitência.

Para entender melhor, ocorre lembrar que, na economia da salvação, só podemos ser perdoados em virtude da aplicação, à nossa alma, dos frutos da Paixão. Ora, o Redentor, por livre instituição sua, confiou à Igreja o Sacramento do perdão. Em conseqüência, sentir genuíno pesar implica em abraçar (ao menos pelo desejo) o meio destinado pelo mesmo Cristo, à regeneração da alma. A penitência interna tende, de per si, ao rito externo da Penitência sacramental.

Na medida do possível, se entende. Com efeito, se a recepção do Sacramento é impossível (como na ausência de sacerdote), nem por isso deixarão os pecados de ser apagados pela contrição perfeita. Persistirá, no entanto, o voto, pelo menos implícito, do Sacramento. A absolvição desejada concorrerá para o perdão dos pecados. Deus reconciliará sempre, em dependência do Sacramento.

Ensina Hugo de São Vítor que, se o pecador se arrepende, em verdade, mas não lhe é possível recorrer a um confessor, o Sumo Sacerdote nele completa o que o sacerdote mortal não pôde fazer.

De outro lado, é inegável que o perfeitamente contrito já está reconciliado com Deus, antes de receber a absolvição sacramental. Nem por isso está será supérflua: conferirá ao penitente avantajado suplemento de auxílios, notadamente a graça sacramental que fortifica contra a reincidência; diminui também as penas temporais a serem saldadas ainda pelas faltas já perdoadas. Enfim, habilitará a receber os Sacramentos dos vivos.

No plano sobrenatural não estamos isolados. Somos membros de um Corpo Místico. O pecado não separa apenas de Deus, mais também (ao menos no recesso do coração) da comunidade cristã. O pecador se torna membro enfermo ou morto, donde as conseqüências ruinosas tanto para o indivíduo como para a sociedade dos fiéis. Auto-destruidor de quem o comete, o pecado infesta o Corpo Místico. Peso morto que dificulta a caminhada da Igreja militante, membro empestado que tende a contaminar outros, tal o pecador.

Mais fácil é chegar à compução através do Sacramento. Os atos de obediência e humildade que fazemos ao confessar nossas faltas, atraem mais copiosas graças de Deus, que nos movem à execração do pecado.

40 filmes de terror em 200 segundos

 

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