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O bendito acordo ortográfico


Uma coisa eu não entendo. Por que essa bosta de governo deu tanto valor pra essa reforma ortográfica, já que não liga para a gramática, pois o importante é a compreensão da lingua, mesmo escrita errada (Haddad)?

A única coisa que deveria mudar no português era a maneira como se formula uma pergunta.

Colocar a interrogação só no final é um problema. Muitas vezes começamos a ler algo como se fosse uma afirmativa e depois constatamos que se trata de uma pergunta.


No espanhol temos a interrogação no final da frase uma interrogação invertida (não sei o nome técnico pra isso) no começo da frase, aí o leitor, ao se deparar com uma pergunta imensa, de um parágrafo, já sabe desde o começo como ler.


No inglês eles invertem o verbo com o sujeito (You are (afirmativa), Are you?), assim como no francês (Vous êtes (afirmativa), Êtes-vous)

Os diplomatas devem agir segundo os princípios da "diplomacia"!

Mas na prática é diferente, hoje o Brasil adquiriu o status de potência e Portugal infelizmente é só um país decadente, dando trabalho para os grandes da UE, um doente em estado terminal.

A situação de Brasil e Portugal (guardadas as devidas proporções) é semelhante aos EUA e a Inglaterra, onde a ex filial está a anos luz daquela que um dia foi sua matriz.

Se o Brasil quiser ser um país respeitado e elevar mais ainda sua condição de potência, ele não pode se render as exigências de países de menor importância como é o caso de Portugal.

O Brasil deveria "dar as cartas" no que se refere às normas ortográficas - já que é o país lusófono mais importante da atualidade. Não sei porque temos que ficar nos sujeitando a essas regras, o português brasileiro como o mais falado tinha que seguir seu rumo.

Eventualmente o português brasileiro VAI se separar porque não existe uma dinâmica de cultura e populações tão forte entre nós como existe entre os EUA e Reino Unido, Austrália, Canadá e etc.

Temos que mudar o nome de língua portuguesa pra língua brasileira, isso sim. Da mesma fora que na Áfriica do Sul se fala o afrikander, e não o holandês.

Eu sempra usei trema e todos que eu conheço usam, agora qual diacrítico vai ser utilizado para marcar dierése? Nenhum! Isso aumenta ainda mais as diferenças regionais de pronúncia, nada impede agora que no Norte se fale lingüiça e no Sul se passe a falar linguiça.


Eu vez ou outra vejo as mudanças, mas não as decoro/aprendo bem e volta e meia releio esse conteúdo, o que lembro mesmo é a mudança de acentuação para os ditongos abertos de ei/oi quando paroxítonos, o hífen é o que mais me pega ainda.

O bom do português, é que é uma língua falada EXATAMENTE como se escreve, sem frescuras.

Não tem como “abandonar” a língua materna, isso é tão surreal que ninguém nunca discute ou considera algo assim, isso é a mesma coisa que pedir para abandonar as suas referências culturais mais básicas, e olha que eu nem dou bola pra esse nacionalismo besta, mas há que se ter o pé no chão, nós somos brasileiros, falamos português e nossa cultura é oriunda majoritariamente de Portugal, não se pode deixar de ser aquilo que se é.


Se fosse assim na Europa onde grande parte das pessoas fala inglês como segunda língua não haveria mais uma forte expressão da cultura local, mas pelo contrário cada idioma se conserva, incluíndo diversos dialetos e línguas confinadas ao campo.

O idioma geral era falado somente no interior, especialmente no sertão de São Paulo e por mestiços, ele não vingou porque a maior densidade demográfica estava no litoral que falava português e foi um caso clássico de dominação linguística, o português o substituiu também a força.

Quanto o hebraico existe uma motivação muito maior por trás disso que aspectos puramente “econômicos” e “pragmáticos”, pois se fosse assim não se falaria mais um monte de idiomas, acho muito surreal a ideia, os judeus ao menos nas primeiras gerações não largaram as línguas de seus países de origem.

Jânio Quadros que era professor de português, criou uma lei proibindo programas na TV em lingua estrangeira.

Todos tinham que ser dublados. A lei vale até hoje. Curiosamente a TV cultura de São Paulo anda passando alguns filmes com legendas, o que a rigor é proibido.

Jânio criou a lei justamente por acreditar que as crianças em pouco tempo estariam falando em inglês, ao invés de português.


É mais artificial criar leis obrigando as mídias a utilizarem o idioma inglês, seu ensino como única língua, penalizar quem utilize o português ou bonificar quem utilizar o inglês e usá-lo nos meios de Estado do que criar leis proibindo estrangeirismos.

Na França existem diversas leis regulando palavras de origem inglesa, mas isso também é contra a realidade uma vez que o próprio inglês tem diversas palavras de origem franco-normanda, por incrível que pareça nossa situação atual é uma das menos problemáticas.
Aliás a tendência atual é que cada pessoa fale e compreenda cada vez mais línguas e linguagens, vamos pegar o exemplo de um alemão.

Ele conserva o seu dialeto, fala o alemão padrão, domina o inglês, aprende francês, possivelmente uma outra língua, talvez Oriental como alguma língua eslava ou mongólica, por consequência domina um novo alfabeto, ele domina a linguagem da informática, as linguagens dos sinais e pictogramas, os gestos e etc.

Em seu livro, Charles Berlitz, neto do fundador do curso de idiomas diz que, quando era criança pequena, ele conversava em alemão com o avô, em inglês com o pai, francês com a mãe, falava fluentemente quatro línguas e nem ainda se dava conta de que eram idiomas diferentes, imaginava que fossem apenas maneiras diferentes de falar dos seus familiares. Afirma, também que há na Alemanha pequenas cidades onde nenhum habitante fala inglês, e diz que é impossível para um adulto aprender uma língua de outro tronco linguístico, como um ocidental aprender árabe ou japonês.

Não sei se é impossível, mas diria que dominar de maneira quase igual ao nativo é meio difícil. É difícil imaginar um brasileiro fazendo poesia em japonês de modo que nem se sonhe não ser algo próprio da cultura e língua japonesa.

Em árabe há sons emitidos pela garganta, que só crianças conseguem aprender. Na África do sudoeste há línguas que tem estalos, tampouco possíveis de se reproduzir. O embaixador do Brasil no Cairo reconheceu outro dia na rádio CBN que, sequer, lê árabe. Se alguém aí souber árabe pode se candidatar a embaixador.

A Universidade de Salamanca tem um catedrático e oferece um curso de idioma caldeu, apesar de apenas algumas poucas palavras dessa língua serem conhecidas. Assim sendo, não me surpreende que se use o hebraico na Palestina ocupada.

Os brasileiros reclamam do acordo, mas os portugueses tem muito maiores razões para fazê-lo.

Quem mais precisaria de um acordo ortográfico é a língua inglesa que, apesar de ser escrita da mesma forma em todos os países, é a única em que as letras modificam seus sons conforme a palavra em que se agrupam.

É ridículo palavras como "idéia" ou "pôde" não ter acento.

Mas na terra em que falar errado não da nada, porque é tudo uma questão de preconceito linguístico, não me surpreende.

O português brasileiro é melhor do que o de Portugal. Portugal ainda usa formas arcaicas de se escrever, usando consoantes que não são pronunciadas: "facto", "óptimo", e etc...

Só não gostei da perda da trema, acho que uma marca para a diérese é muito importante, do mesmo modo que marcas gráficas pros diacríticos são muito importantes, em alemão por exemplo é muito mais conveniente se escrever ä do que æ ou ö do que œ.

A questão dos acentos diferenciais e do hífen também é chato, o que o povo mais reclama que é a acentuação dos ditongos abertos de ei e oi em paroxítona é o mais tranquilo (sem trema).

Infelizmente os nossos gramáticos e afins ainda estão muito atrelados à sintaxe lusa e a reclamação dos nossos escritores é antiga; ela começou com alguns modernistas de 1922. Só agora surgem alguns prescritivistas pioneiros (Possenti, Faraco, Ataliba, etc) que valorizam a linguagem do nosso povo. Penso que nossa subordinação ao modelo padrão português se dá mais pelo nosso imobilismo do que por opinião deles.

Não é a língua que deve subordinação às regras gramaticais, mas o contrário, pois a gramática só existe para tentar explicar uma língua. Acontece que nossa gramática está ultrapassada e ainda ligada a um dialeto espanhol derivado do galego, o português de Portugal. Uma vez que a língua é uma coisa viva, que se modifica a cada instante.

A gramática brasileira deve existir sim, e não deve estar ligada de forma alguma a um dialeto falado por apenas 10 milhões de portugueses visto que somos quase 200 milhões.

A força de um idioma se dá pela importância econômica dos países que o falam, ou seja, independetemente do Brasil formar um grupo lusófono, nossa língua só terá alguma relevância quando o Brasil se firmar como potência econômica. A importância da língua portuguesa hoje se dá basicamente em função da música popular brasileira, da capoeira, e do próprio Brasil.

De resto se Portugal e os portugueses quiserem se adaptar a língua brasileira isso é problema deles e não nosso. Ou seja, cada macaco no seu galho, cada qual com sua língua.

O problema de Portugal consiste no fato de que o banco castelhano Santander está insolvente e insiste em transferir seu prejuízo para o Estado e o povo portugueses, com a cumplicidade dos políticos locais.

O problema do Brasil é o mesmo que Portugal tinha antes, a partir de 1988, a saber, acreditar no governo quando este diz que o país está crescendo, ficando rico, que todos devem consumir e se endividar.

Pode ser uma tendência que no futuro o português brasileiro possa se firmar como língua, mas nisso nós perderíamos comunicação com vários povos e ai nossa língua passaria a ter menos importância ainda no mundo globalizado, quem se interessaria em falar "brasileiro" se o Brasil não fosse a maior potência da Terra?

E os EUA não perderam nada em continuar falando inglês e não "americano", assim como os australianos, canadenses e etc.

A língua pertence ao povo que a fala. Em relação a lusofonia, o Brasil é muito maior que ela. Na verdade qual a vantagem que a lusofonia traria para o Brasil? Uma língua não quer dizer muita coisa, existem países soberanos que tem até mais de dois idiomas como oficiais. O Brasil não está isolado ele tem relações com diversas outras nações que não falam português, isso é totalmente desnecessário, seria jogar recursos fora. Isso sem falar que o português só é falado em países atrasados.

As vantagens do Brasil falar português incluem a proximidade com o espanhol, facilita a comunicação com os nossos vizinhos, e com Portugal que é uma porta de entrada para a Europa e seus mercados e pode vir a ser melhor explorado, na comunicação com alguns Estados africanos e possibilidade de negócios negligenciados por outros países ocidentais.

O português obviamente não é a língua ocidental mais importante, mas mantê-lo nos insere nesse universo cultural que é muito mais vantajoso que se isolar dentro do próprio Brasil, uma língua reflete costumes, qual é a vantagem no mundo globalizado de falar a língua geral? manter o português faz do nosso país menos desprezível em um contexto global.

O que seria da Índia se não aproveitassem o legado do inglês? e olha que eles possuem línguas realmente de expressão, ou seja tem mais motivos que o brasileiro metido a besta para abandonar a língua do colonizador, o que é melhor pra África do Sul, afrikaner ou inglês?

Não estou falando em voltar a falar língua geral. Só digo que o Brasil não pode se submeter a regras gramaticais e a uma sintaxe que já não faz o mínimo sentido no Brasil. Sou contra o acordo ortográfico por isso. Se a nossa língua continuará a ser chamada de Português isso para mim é indiferente. Os estrangeiros que aprendem português não querem aprender o português de Portugal. As pessoas que querem aprender português o fazem por se interessarem pelo Brasil (música brasileira, capoeira, o Brasil...). Nossa comunicação com países de língua espanhola será melhor quando as escolas começarem a realmente oferecer um ensino de qualidade aos nossos alunos.

Para mim ter a liberdade de adaptar a língua a norma que a população usa é uma questão de soberania. Aliás, a normatização de uma língua é baseada na fala das pessoas que a usam, não vejo sentido em utilizar uma norma de um outro país que não seja o nosso. Nem os americanos, nem os australianos fizeram qualquer tipo de normatização linguística com a Inglaterra, não vejo sentido neste acordo.

Lá no RS existe um programa de intercambio em escolas da fronteira, onde crianças brasileiras do primário tem aulas com professores uruguaios e crianças brasileiras tem aulas com professores uruguaios. Pelo que eu soube o interesse e desempenho das crianças uruguaias pelo nosso idioma é bem maior que o interesse brasileiro pelo idioma deles. Existe o fato de que na fronteira os uruguaios são bombardeados com a programação da TV brasileira e o contrário não acontece.

Caiam na real, o Império Português não existe mais. Alguns portugueses precisam descolonizar suas mentes. Não entendo por que os portugueses se sentem injustiçados por os brasileiros não acharem que têm uma dívida eterna de gratidão para com Portugal. Nossos caminhos agora são separados.

Só acho que esse acordo poderia ter se utilizado mais das normas de escrita brasileiras, por que se certa forma, o Brasil é o mais influente país que se fala português.

O acordo é para editoras ganharem dinheiro. Mas os portugueses foram mais prejudicados, tiveram de mudar mais palavras do que os brasileiros.


PARA CITAR ESTE ARTIGO:

O bendito acordo ortográfico David A. Conceição, abril de 2012, blogue Tradição em Foco com Roma.



CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:


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