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O conceito teológico do modernismo. 2º parte


A primeira parte do estudo você encontra aqui

É de grande importância que eu faça alguns acréscimos sobre meu último estudo aqui publicado, do conceito teológico do modernismo, para se evitar maus entendimentos. Quando disse que não faz sentido chamar de modernista àqueles que têm algumas ideias com aspectos similares do movimento não quis negar que alguns destes não mereçam repreensão. Só quis mostrar que a consideração em si não prova erro de fé, heresia, e para isso dei exemplos quanto a um católico ortodoxo. E isso não é opinião só deste pobre ignorante que vos escreve, Pio XII admitiu essa possibilidade:

"Os teólogos e filósofos católicos, que têm o grave encargo de defender e imprimir nas almas dos homens as verdades divinas e humanas, não devem ignorar nem desatender essas opiniões que, mais ou menos, se apartam do reto caminho. Pelo contrário, é necessário que as conheçam bem; pois não se podem curar as enfermidades antes de serem bem conhecidas; ademais, nas mesmas falsas afirmações se oculta por vezes um pouco de verdade; e, por fim, essas opiniões falsas incitam a mente a investigar e ponderar com maior diligência algumas verdades filosóficas ou teológicas." (Pio XII, Humani Generis, 9)

Mas há aqueles que renegam a fé em defesa de inovações, não se importam com a Sagrada Tradição, tampouco com as definições. Estes, sim, merecem repreensão, são os chamados progressistas ou neomodernistas. Isso é bem contrário ao Concílio Vaticano II (a partir de agora CVII) como pude provar no artigo citado. O Papa João XXIII fez bem as distinções quando falava das intenções do Concílio:

“O nosso dever não é somente guardar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente pela antiguidade, mas dedicar-nos com diligente vontade e sem temor a esta obra, que a nossa época exige... É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de modo que corresponda às exigências do nosso tempo. De facto, uma coisa é o depósito da fé, isto é, as verdades contidas na nossa veneranda doutrina, e outra coisa é o modo com o qual elas são enunciadas, conservando nelas, porém, o mesmo sentido e o mesmo resultado" (S. Oec. Conc. Vat. II Constitutiones Decreta Declarationes, 1974, pp. 863-865).

Ora, qual conhecedor da doutrina católica poderia negar uma só vírgula do dito?

O mesmo foi explanado pelo grande São Vicente de Lérins:

“Talvez alguém diga: então nenhum progresso da religião é possível na Igreja de Cristo? Certamente que deve haver progresso, e grandíssimo! Quem poderá sertão hostil aos homens e tão contrário a Deus que tentaria impedi-lo? Mas a condição de que se trate verdadeiramente de progresso pela fé, não de modificação. É característica do progresso de todas as maneiras possíveis à inteligência, o conhecimento, a sabedoria, tanto da coletividade como do indivíduo, de toda a Igreja, segundo as idades e os séculos; com tal de que isso suceda exatamente segundo sua natureza peculiar, no mesmo dogma, no mesmo sentido, segundo uma mesma interpretação.” (Communitorium, 23)

Por exemplo, tais “inovações” quanto aos ritos (uma das intenções reformáveis do CV II) foram deixadas claras pelo Concílio de Trento quando diz que a Igreja tem sempre o poder de “determinar e mudar aquelas coisas que julgar conveniente à utilidade dos que os recebem ou à veneração dos mesmos sacramentos, segundo a variedade das coisas, tempos e lugares” (Concílio de Trento, sessão XXI, cap. 2, ver também Papa Pio XII na Encíclica Mediator Dei, n. 44 e 45.).




O Progressismo



O progressismo como corrente teológica traz muito dos pressupostos do modernismo, mas não se vê necessariamente vinculado a ele, nem é tão rebuscado quanto ele. Ele mescla vários tipos de posições, daí ser tão diversificado, existindo entre eles marxistas e liberais, uns que odeiam a Igreja e outros que dizem amá-la. O que os une é progresso, a mutabilidade da doutrina. Antes do Concílio do Vaticano II o modernismo estava como um cadáver, assim como hoje falece a teologia da libertação.

As condenações do Papa Pio X travaram o avanço modernista. Os papas posteriores puderam respirar melhor depois disso. O Papa Pio XII pôde incentivar a pesquisa teológica, fazer grandes mudanças litúrgicas, coisas que não seriam cogitadas nos tempos do Papa Pio X, pois os modernistas poderiam entender certa aprovação. Poder-se-ia imaginar o Papa Pio XI dizendo que “o homem religioso possui um direito inalienável de professar sua fé e exercê-la segundo os ditames. Os pais, conscientes e conhecedores de sua missão educadora, têm antes que mais nada, direito essencial à educação dos filhos, que Deus os deu, segundo o espírito da sua fé, e de acordo com suas prescrições. Leis que impedem ou dificultam a profissão e prática dessa fé se acham em contradição com o direito natural” (Mit Brennender Sorge, AAS 29, 1937, p. 160)?

Mais, quem esperaria Pio XI falar em “liberdade das consciências” sem fazer com isso alguma distinção? Ainda, quem diria que Pio XI em relação à condenação da laicidade por Pio IX deixaria implícito que existe uma laicidade válida (Maximam gravissimamque, A.A.S. 16, 1924, p. 10)? E depois, diria o Papa Pio XII que existe não só uma laicidade legítima e sadia, mas que isto é doutrina católica (Discurso, 23 de Março de 1958)? É claro que poderiam ter efeitos ruins esses discursos no tempo em que o modernismo estava no seu auge.

Acontece, que depois do Concílio Vaticano II os modernistas reviveram com novos aspectos monstruosos. Não que antes não se manifestasse de várias formas. O próprio Papa Paulo VI falava no tempo do CVII que o modernismo “ainda se manifesta em várias tentativas de expressão heterogêneas à realidade autêntica do catolicismo”. (Ecclesiam Suam, 10) Mas ao que tudo indica depois do CVII, com as várias interpretações errôneas dadas aos seus textos, à influência modernista pôde voltar com muito mais vigor, e assim deixar mais escancarado seu fruto que é o progressismo. Em 1970 Joseph Ratzinger, atual Papa, disse:

“Não é que a crise modernista tivesse vindo plenamente à luz: aconteceu que foi interrompida pelas medidas tomadas por Pio X e pela mudança de situação após a primeira Guerra Mundial. A Crise atual é apenas uma continuação, adiada no tempo, daquilo que já tinha começado antes.”

(Glaube und Zukunft, Kosel Verlag, 1970, trad. Cast. Fe y futuro, Sígueme, Salamanca, 1972, págs. 69 e 77.)




Papas hereges



Os lefebvrianos acreditam que os papas conciliares se não foram modernistas são progressistas. Aceitam o pressuposto que um papa pode cair em heresia, mas não chegam à conclusão que este perderia o cargo.

A posição que diz que se o Papa caísse em heresia perderia sua jurisdição não é dogmática, mas não carece de fundamento. Os lefebvrianos se tornam bastante dúbios quando querem aceitar muita coisa do Magistério nos tempos de outrora e ao mesmo tempo negam a conclusão lógica, apoiada em vários documentos, que o Papa herege cai “ipso facto”, ou seja, sem necessidade de declaração ulterior. A possibilidade do Papa perder seu cargo em caso de heresia foi defendida por vários santos e doutores entre os quais: São Roberto Belarmino (De Romano Pontifice, II, 30), São Francisco de Sales (O católico, Edição em Inglês, pp 305-306), Santo Antonino (Summa Theologica, citado en Actes de Vatican I. V. Frond pub.), Santo Afonso Ligório (Defesa do poder supremo da Igreja), etc.

O embasamento pelas leis da Igreja:

Decretum Gratiani confirma que o Papa perderia o cargo por heresia:

“Nenhum mortal ouse redargüir as culpas de um papa, porque ele julga a todos e não deve ser julgado por ninguém; a não ser que seja ele encontrado como desviado da fé” (nisi deprehendatur a fide devius). (Decretum, V, 23, parte I, dist. XI, c. 6)

Ele foi reordenado pelo Papa Gregório XIII. Foi amplamente usado e reconhecido, embora nunca tenha sido promulgado oficialmente.

Ele foi, muitas vezes, usado como referência nas obras de São Tomás de Aquino e foi uma de suas “autoridades”.

Livro Extra dos decretais, promulgado pelo Papa Gregório IX com força de lei para toda Igreja e sem recurso ab-rogando tudo que tinha na primeira contradizendo a nova, mas não ab-rogando o que não contradizia:

“Todos os hereges de quaisquer títulos estão condenados pelo concílio geral.” (Cf. título haereticis, capítulo excomunicamus)

Código de Direito Canônico de 1917:

"Em virtude de renúncia tácita admitida pelo mesmo direito, tornam-se vacantes, ipso facto, e sem nenhuma declaração, quaisquer ofícios, se o clérigo 4 – defeccionar publicamente da fé católica". (Cânon 188, 4)

"Todos os apóstatas da fé cristã e cada herege ou cismático são ipso facto excomungado." (cânon 2.314)

Por mais que se possa discutir se esta lei específica (incluindo principalmente o que diz Cum Ex Apostolatus Officio de Paulo IV sobre isso) foi revogada ou ab-rogada, não se pode negar que isso era entendimento comum e não se deve esquecer que o Novo Código Canônico sobre isso diz: “Em um caso de dúvida, a revogação de uma lei pré-existente não se presume, mas leis posteriores devem ser comparadas com as anteriores e, quanto possível, com elas harmonizadas.” (cânon 21) O Código de 1917 também dizia o mesmo: “Em caso de dúvida se alguma prescrição dos cânones diverge do direito antigo, não se deve afastar deste.” (cânon 6, 4) E mais, se porventura a questão da perda do cargo do papa herege for de Direito Divino, então não foi revogada (Cf. CDC 1917, cânon 6,6 e Papa Pio IX na declaração coletiva aos bispos da Alemanha em 1875, Denzinger 3114)

Concílios e ditos papais sobre isso:

Papa Inocêncio III:

“Enquanto que para outros pecados só Deus é meu juiz, no caso de um pecado contra a fé posso ser julgado pela Igreja. Posto que o que não crê já está julgado” (Migne, Patr. Lat., CCXVII, 656: “In tantum enim fides mihi necessaria est, ut cum de caeteris peccatis solum Deum judicem habeam propter solum peccatum quod in fide committitur possem ab Ecclesia judicari. Nam qui non credit, jam judicatus est”)

Latrão IV:

“Nós excomungar e anatematizamos toda heresia que se levanta contra a fé santa, ortodoxa e católica ... todos os hereges sob qualquer títulos” (cânon 3)

“É bastante absurdo que um blasfemo contra Cristo exerça a força do poder sobre os fiéis” (Cânon 69).

Papa Paulo VI:

“Considerando a gravidade particular desta situação e seus perigos ao ponto que o mesmo Romano Pontífice, que como Vigário de Deus e de Nosso Senhor tem o pleno poder na terra,e a todos julga e não pode ser julgado por ninguém, se fosse encontrado desviado da Fé, poderia ser acusado... Agregamos que se em algum tempo acontecesse que um Bispo, incluso na função de Arcebispo, ou de Patriarca, ou Primado; ou um Cardeal, incluso na função de Legado, ou eleito Pontífice Romano que antes de sua promoção ao Cardinalato ou assunção ao Pontificado, se houvesse desviado da Fé Católica, ou houvesse caído em heresia, ou incorrido em cisma, ou o houvesse suscitado ou cometido, a promoção ou a assunção, incluso se esta houvera ocorrido com o acordo unânime de todos os Cardeais, é nula, inválida e sem nenhum efeito... “ (Bula Cum Ex Apostolatus Officio)

Papa Adriano II:

“Lemos que o Pontífice Romano sempre julgou os chefes de todas as igrejas (isto é, os Patriarcas e Bispos); mas não lemos que jamais alguém o tenha julgado. É verdade que, depois de morto, Honório foi antematizado pelos orientais; mas deve-se recordar que ele foi acusado de heresia, único crime que torna legítima a resistência dos inferiores aos superiores, bem como a rejeição de suas doutrinas perniciosas” (Alloc. III lecta in VIII Concilio, Act.7 – Harduinus, t.5, col.866)

III Concílio de Constantinopla:

“A Honório, o herege, anátema!” (Session XVI)

“tendo verificado estarem elas em inteiro desacordo com os dogmas apostólicos e as definições dos santos concílios e de todos os Padres dignos de aprovação, e pelo contrário seguirem as falsas doutrinas dos hereges, nós as rejeitamos de modo absoluto e as execramos como nocivas às almas ... ―Julgamos que, juntamente com esses, foi lançado fora da Santa e Católica Igreja de Deus, e anatematizado, também Honório, outrora Papa de Roma, pois verificamos, por seus escritos enviados a Sérgio, que em tudo seguiu o pensamento deste último e confirmou seus princípios ímpios.”

Por mais que se possa mencionar uma possível falsificação de documentos pelos orientais faz sentido analisarmos como São Roberto de Belarmino:

“Sobre isso deve-se observar que, embora seja provável que Honório não tenha sido herege, e que o Papa Adriano II, iludido por documentos falsificados do VI Concílio, tenha errado ao julgar Honório como herege, não podemos no entanto negar que Adriano, juntamente com o Sínodo romano e mesmo com todo o VIII Concílio geral, foi de parecer de que em caso de heresia o pontífice romano pode ser julgado” (De Rom. Pont.‖, lib. II, cap. 30, p. 418.)

Todos esses textos seguem o seguinte raciocínio: um herético se põe fora da Igreja (Cf. Mystici Corporis 22) e por isso não pode ter poder sobre ela, como nos diz o Catecismo Romano.

Outro problema para os lefebvrianos é que eles afirmam que todos os Papas conciliares foram hereges “modernistas” ou “progressistas” antes das suas eleições. Mesmo eles não sabendo por tal razão suas eleições seriam sem efeito. É o que lemos na já citada Bula Cum Ex Apostolatus Officio. Na sessão quinta do Concílio de Latrão V é dito que a eleição de um herege simoníaco como Pontífice Romano não teria validade.

Tentativa de solução ao silogismo apresentado no artigo “conceito teológico do modernismo”

Caso não recordem ou não tenham lido aqui está à construção lógica apresentada, modificada para se chegar a conclusão conservadora:

1. Os ritos da Igreja possuem infalibilidade negativa

2. A Missa nova é um rito da Igreja.

3. Logo, a Missa Nova possui infalibilidade negativa.

A forma de negá-la é contradizer a premissa menor, repreendendo-me por deixar já entendido que a Missa Nova é da Igreja para chegar à conclusão e dar aparência de verdade.

Se as leis litúrgicas aprovadas pelo Papa não são da Igreja são de quem, então? Será que se alguém condenar a Missa Tridentina será desculpado se disser que ela não é da Igreja?

O Papa Martinho V apresentando uma questão para serem respondidas pelos seguidores de Wyclif e Huss diz: "15. Igualmente se ele acredita que aqueles que desprezam, com uma mente consciente, os ritos da igreja, as cerimônias de exorcismo, catecismo e água consagrada para o batismo, peca mortalmente." (Bula "Inter cunctas")

Que sentido faria esta questão se não são todos os ritos aprovados que são DA Igreja? Se a questão dos ritos fosse tão relativa e invisível, ou seja, o mesmo Papa que aprova ritos da Igreja aprovaria outros que não são dela, tantos documentos da Igreja condenando os que não aceitam sua disciplina não teriam nenhuma força efetiva e nem poderiam servir como argumento. O Papa Gregório XVI na Encíclica Mirari Vos fala que seria reprovável e muito alheio à veneração condenar as leis da Igreja e seus costumes, apresentando-os como defeituosos ou imperfeitos. Mas e aí Pontífice, quais são e quais não são as leis da Igreja? Eu terei que partir do meu livre exame sob o Magistério e escolher as que eu bem entender? Mas não é também isso que é reprovado? Mais uma pergunta aos nossos neoprotestantes o Código de 1917 é da Igreja e o de 1983? A partir das próprias que chegaram a esta conclusão? Então, no que os modernistas ou progressistas diferenciam de vocês neste aspecto?

O Papa Pio XII diz:

“se se trata dos sacramentais e de outros ritos instituídos pela hierarquia eclesiástica, então a eficácia deriva principalmente da ação da Igreja (ex opere operantis Ecclesiae), enquanto esta é santa e opera sempre em íntima união com a sua Cabeça.” (Mediator Dei, 24)

Isso significa que os ritos instituídos pela hierarquia eclesiástica tem sua eficácia derivada da ação da Igreja, enquanto esta é santa e opera SEMPRE em íntima união coma a sua Cabeça. A questão nunca foi subjetiva.

Ele diz mais:

“Já que a sagrada liturgia é exercida sobretudo pelos sacerdotes em nome da Igreja, a sua organização, o seu regulamento e a sua forma não podem depender senão da autoridade da Igreja. Esta é não somente uma conseqüência da natureza mesma do culto cristão, mas é ainda confirmada pelo testemunho da história.”

(Mediator Dei, 37)

E para finalizar:

“Como, em verdade, nenhum católico fiel pode rejeitar as fórmulas da doutrina cristã compostas e decretadas com grande vantagem em época mais recente da Igreja, inspirada e dirigida pelo Espírito Santo, para voltar às antigas fórmulas dos primeiros concílios, ou repudiar as leis vigentes para voltar às prescrições das antigas fontes do direito canônico; assim, quando se trata da sagrada liturgia, não estaria animado de zelo reto e inteligente aquele que quisesse voltar aos antigos ritos e usos, recusando as recentes normas introduzidas por disposição da divina Providência e por mudança de circunstâncias.” (Mediator Dei, 56)


PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Nelson M. Sarmento,
O Conceito teológico do modernismo – parte 2, Porto Alegre, abril de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

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