.

O conceito teológico do modernismo.


Dom Williamson já uma vez fez a relação entre modernistas e sedevacantistas. Deve ficar claro que o que ele entende por modernismo é o que nós chamamos de conservadorismo. Sua relação é toda desfigurada e pretende mostrar as semelhanças entre os que seguem o Vaticano II e os sedevacantistas, mostrar premissas que ambas as posições compartilham. Antes de mostrar no que ele acerta e no que erra sobre as semelhanças e dessemelhanças convém acabar com a bobagem de chamar quem está em comunhão com Roma de modernista.

Isso é repetido absurdamente pela internet. Confundir o modernismo com o conservadorismo é o mesmo que confundir Buda com Cristo, há uma diferença abismal. O conservadorismo além de não ser modernismo é antagônico a ele. Eu farei o seguinte, apresentarei as definições dadas pelo Papa Pio X na encíclica Pascendi Dominici Gregis sobre as doutrinas dos modernistas.

O Papa começa a explicar que todo modernista carrega em si muitos personagens, os quais ele cita, “ isto é, o de filósofo, o de crente, o de teólogo, o de historiador, o de crítico, o de apologista, o de reformador” Logo depois começa a analisar o modernista filosófico. E diz que para o modernista filosófico a razão fica reduzida a consideração dos fenômenos, sendo, portanto, impossível elevar-se a Deus ou conhecer sua existência. Tudo mais seria intelectualismo que para eles é um ridículo e morto sistema. O Concílio Vaticano II diz, justamente, o contrário disso: “O sagrado Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as coisas, se pode conhecer com certeza pela luz natural da razão a partir das criaturas» (cfr. Rom. 1,20) (Dei Verbum, cap I, 6)

Após isso é explicado que o modernismo passa do agnosticismo para o ateísmo científico e histórico quando ao aceitar a dúvida se Deus interveio ou não na história da humanidade, passa a tudo explicar na mesma história pondo Deus a parte. O Concílio Vaticano II com a Dei Verbum faz um documento inteiro sobre a revelação de Deus e sua atuação na história.

Por razão do que foi explicado acima a teologia para os modernistas deve ser explicada como qualquer ciência, sem relação com a revelação divina. Só o fideísmo seria válido nessa matéria. Bem, segundo vimos, o Vaticano II é contrário a isso. Os desatinos deles vão mais longe, propõem que a revelação é pessoal ao homem, é seu sentir de fé, ou talvez, Deus, meio que confusamente, manifestando-se para a alma. Segue-se disso que todas as religiões teriam o mesmo valor, teriam igualmente aspectos naturais e sobrenaturais.

O Concílio Vaticano II se pôs contrário a isto, pois lemos: “A Igreja peregrina é necessária para a salvação, pois Cristo é o único Mediador e o caminho de salvação, presente a nós em seu Corpo, que é a Igreja” (Lumen gentium, 14). E mais: “Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como sociedade, é na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em união com ele (13), que se encontra, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica.” (Lumen Gentium, cap I, 8)

Após, deve-se riscar tudo de divino da existência de Cristo no estudo histórico. Jesus Cristo foi transfigurado pela fé, logo conviria despojá-la de tudo aquilo que a eleva acima das condições históricas. Nem preciso dizer que isto em nada tem a ver com o Concílio. O modernismo defende também que há um raio de luz da inteligência sob a fé. Segue-se daí a expressão deles: o homem religioso deve pensar à sua fé. O Papa explica a forma que isso se dá: “Neste trabalho a inteligência procede de dois modos: primeiro, por um ato natural e espontâneo, exprimindo a sua noção por uma proposição simples e vulgar; depois, com reflexão e penetração mais íntima, ou, como dizem, elaborando o seu pensamento, exprime o que pensou com proposições secundárias, se forem finalmente sancionadas pelo supremo magistério da Igreja, constituirão o dogma.”

Esse ato da inteligência culmina na sanção do dogma, o dogma, por sua vez, serve apenas como instrumento, intermediário entre o crente e sua fé, buscando dar razão a sua fé. Por causa disso o dogma nunca é considerado como verdade absoluta, são meras imagens da verdade, pois são expressões inadequadas daquilo que crer ser a fé, por isso, os dogmas são considerados como meros símbolos. O dogma deve adaptar-se ao sentimento religiosa, sendo esse sentimento mutável, o dogma também será variável, sujeito as condições do sentimento. Em suma: Isto não é outra coisa se não a evolução do dogma. Não creio que alguém pense que o Vaticano II aceita isso, mas por via das dúvidas: “Mas esta infalibilidade com que o divino Redentor quis dotar a Sua Igreja, na definição de doutrinas de fé ou costumes, estende-se tanto quanto se estende o depósito da divina Revelação, o qual se deve religiosamente guardar e fielmente expor....

As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo.” (Lumen Gentium, cap III, 25)

Sobre o modernista filosófico terminamos, assim, pensa o modernista filosófico. E como podemos ver o Concílio Vaticano II não se relaciona com nenhuma dessas ideias.

Seria demasiado trabalhoso fazer o mesmo em relação ao modernista crente, teólogo, historiador e crítico, apologista e reformador, então só irei resumir suas crenças.




O Modernista crente:




- A fé não parte se não na alma do homem, se existe na realidade não é importante. E o fundamento para isso é a experiência pessoal de cada um, nisto assemelham-se aos protestantes e pseudo-místicos. O modernismo veio do protestantismo como sabemos.

- Esse sentimento religioso é uma intuição do coração, que põe o homem em contato com Deus.

- Experiências podem ser dadas em qualquer religião, daí o modernista crente dizer que todas as religiões são iguais. Isso vai além do protestantismo

- Esta experiência também se insere na tradição, pois o que foi recebido muitas vezes é por sugestão. Daí, ser necessário despertar o sentimento, a experiência, original adquirida. A existência viva da tradição é a prova da verdade, e disso, mais uma vez, concluem que todas as religiões são verdadeiras, caso contrário já estariam mortas.

- Não existe conflito entre a ciência e a fé, pois cada uma entra num campo desconhecido da outra. Quando indagados que no mundo visível existe coisas que pertencem a fé, a história, como a vida de Cristo, ressurreição, responderam negando.

E o porquê disso é que mesmo que tais coisas estejam ao número dos fenômenos foram vividas pela fé e por ela desfiguradas, subtraídas ao mundo sensível e passaram a ser matérias do divino. Afirmarão, por exemplo, os milagres de Cristo os crentes como crentes e os negarão os cientistas enquanto cientistas. Em resumo: a ciência e a fé são independentes.

- Mesmo a fé sendo independente da ciência é submissa a ela. Segundo os modernistas o homem crente experimenta a necessidade de estar em harmonia com a ciência, que ela não se oponha de modo geral a constatação da ciência sobre o universo.

- Pelo que foi exposto acima podemos entender por quê suas doutrinas nos pareçam tão contraditória, mas fazem isso em caso pensado, isto é, baseado na opinião que apresentam sobre separação de ciência e fé. É por isso que nos seus livros se vê coisas aceitas por católicos e outras logo depois negadas.



O Modernista teólogo:




- O fim deste é alcançar a conciliação entre a ciência e a fé, sendo esta última subordinada pela primeira.

- O teólogo partindo de premissas do filósofo e do crente conclui: as representações da realidade divina são simbólicas. Nas palavras do Papa Pio X:

“E para falarmos desde já do simbolismo, como os símbolos são: símbolos com relação ao objeto, e instrumentos com relação ao crente, dizem os modernistas que o crente, antes de tudo, não deve apegar-se demais à fórmula, que deve servir-lhe só no intuito de unir-se com a verdade absoluta, que a fórmula ao mesmo tempo revela e esconde; isto é, esforça-se por exprimi-la, sem jamais o conseguir. Querem, em segundo lugar, que o crente use de tais fórmulas tanto quanto lhe forem úteis, porquanto elas são dadas para auxílio e não para embaraço; salvo porém o respeito que, por motivos sociais, se deve às fórmulas pelo público magistério julgadas aptas para exprimir a consciência comum, e enquanto o mesmo magistério não julgar de outro modo.”

- O télogo partindo de premissas do filósofo e do crente conclui: Deus é imanente no homem.

Nas palavras do Papa Pio X:

“Quanto à imanência, é na verdade difícil indicar o que pensam os modernistas, pois há entre eles diversas opiniões. Uns fazem-na consistir em que Deus, operando no homem, está mais intimamente no homem do que o próprio homem em si mesmo; e esta afirmação sendo bem entendida, não merece censura. Pretendem outros que a ação divina é uma e a mesma com a ação da natureza, como a causa primeira com a causa segunda; e isto já destruiria a ordem sobrenatural. Outros explicam-na, enfim, em um sentido que tem ressaibos de panteísmo; e estes, a falar a verdade, são mais coerentes com o restante das sua doutrinas.”

- Ao postulado acima apresentado existe outro o da permanência divina.

Este difere da imanência do mesmo modo que a experiência privada difere da experiência transmitida por tradição. Para entendimento é dado exemplo. Para eles não se pode dizer que a Igreja de Cristo e os Sacramentos foram instituídos por Cristo, por causa de seu agnosticismo, sua visão historicista de Cristo, sua lei da imanência e lei da evolução. Todavia para eles deve admitir-se que a Igreja e os Sacramentos foram instituídos por Cristo. Mas como? Todas as consciências cristãs estariam ligadas à consciência de Cristo, todos os cristãos vivem a vida de Cristo, como a planta na semente. Portanto, a vida cristã no correr dos séculos deu origem à Igreja e aos sacramentos, com toda razão se poderá dizer, então, que veio de Cristo. Da mesma forma provam que a Escritura e os dogmas são divinos.

- Os cultos resultam de um duplo impulso: dar à religião alguma coisa de sensível e segundo propagá-la.

- Os sacramentos são considerados como meros símbolos ou sinais, mesmo que não destituídos de alguma eficácia.

- Os sacramentos foram só instituídos para nutrirem a fé. O que é uma proposição condenada pelo Concílio de Trento (Sess. VII, de Sacramentis in genere, cân.5): "Se alguém disser que estes Sacramentos foram só instituídos para nutrirem a fé, seja anátema".

- Os livros sagrados são uma coleção de experiências, não as ordinárias, mas as extraordinárias, mais elevadas.

- A inspiração das escrituras é a necessidade que o crente experimenta de manifestar vocalmente ou por escrito sua fé.

- A Igreja é tida como um parto da consciência coletiva, isto é, da coletividade das consciências individuais. O indivíduo tendo tido originalmente uma experiência individual precisa comunicar.

- Como toda sociedade precisa de uma autoridade, assim também precisa a Igreja para regê-la, conservá-la com prudência os elementos que os une. A natureza desta autoridade deve ser deduzida da sua origem; e da natureza, por sua vez, devem coligir-se os direitos e os deveres. Para eles foi um erro na época passada ter pensado que a autoridade emanou de um princípio estranho, isto é, de Deus.

- Como a Igreja surgiu a partir da coletividade da consciência coletiva as autoridades devem andar segundo ela, senão torna-se tirânica. Na sociedade civil a consciência pública quis o regime democrático, logo a Igreja deve curvar-se as formas democráticas.

- Reprimindo e censurando a Igreja se autodestruirá, é por isso que o modernista se vê como um conciliador da autoridade da Igreja com as liberdades dos crentes.

- O Estado e a Igreja devem se separar. A Igreja não deve ser meter em questões temporais, assim um católico não deve se importar com a autoridade, com os conselhos, com as ordens da Igreja, tem o direito e o dever de fazer o que julgar mais oportuno para o bem da pátria. É verdadeiro abuso querer impor ao cidadão uma forma de proceder.

- Assim como a fé deve se submeter à ciência também a Igreja deve se sujeitar ao Estado. O Estado por ser soberano em tudo que é temporal tem autoridade sob a Igreja quando o crente não satisfeito com a religião do espírito quer se manifestar em atos exteriores, como por exemplo, administrar e receber sacramentos. Isto não dizem claramente, mas são obrigados a admitir por força do raciocínio.

-Visto que entendem que as fórmulas devem ser a voz das consciências coletivas, a Igreja não pode proibir a manifestação das consciências individuais que a compõem, pois do contrário seria travar a evolução do dogma..

- A evolução do dogma se apresenta de duas formas: primeiro negativamente, isto é, tirando tudo que é estranho como o sentimento de família ou de nacionalidade; em segundo positivamente, graças ao aperfeiçoamento moral e intelectual do homem, donde resulta em melhor clareza para a ideia divina.

- O culto deve evoluir por causa das necessidades e acomodações históricas e novas formas Governos.

- Há duas forças que se combatem para se efetuar a evolução: uma progressista e outra conservadora. A conservadora é a tradição, que quem exercita é a própria autoridade da Igreja. A progressista é a necessidade que trabalha nas consciências individuais, aquelas, que tem mais contato com a vida.

- Modo que se efetua a transformação e progresso: As consciências individuais, ou ao menos algumas delas fazem pressão a consciência coletiva e esta faz sobre a autoridade, obrigando-a seguir.



O Modernista historiador e crítico



- O modernista historiador, apesar de negar, traz consigo boa carga filosófica e é a partir de bons raciocínios de seus princípios filosóficos que faz sua critica ou história.

- Os três princípios deste modernista são aqueles já aqui falados: agnosticismo, transfiguração das coisas pela fé e desfiguração.

- Segundo o agnosticismo a história como ciência só trata de fenômenos sendo assim tanto Deus quanto qualquer intervenção divina deve ser entregue à fé e ser estranho a pesquisa histórica.

- Tudo que de Jesus Cristo que excede a condição de homem, seja natural, como a psicologia nos apresenta, seja conforme as condições do lugar e do tempo é eliminado e é relegado a fé. Assim dizem que Jesus Cristo não falou aquilo que esteve fora de seu alcance.

- O crítico divide os documentos em duas partes: a história real e a história de fé. Daí resulta, um duplo Cristo, um real, e outro que nunca existiu, mas que pertence ao campo da fé.

- Tudo que acontece na história da Igreja, para eles, deve ser aplicado por emanação vital. Vindo a emanação vital de uma necessidade, todo acontecimento deve ser consequência de uma necessidade, que deve se considerar historicamente posterior a ela.

- O esqueleto histórico de tal acontecimento se adaptará ao documento escrito na época, pois como já dito, tudo se explica pela necessidade.

- Tendo as Escrituras na mão recorrem a crítica textual discernindo se esse ou aquele dizer não está fora do lugar.



O Modernista apologeta:



- Intuito de dirimir as controvérsias religiosas por meio de indagações históricas e psicológicas.

- Defendem a religião não com os livros sacros e as histórias ensinadas por ela, mas através dos métodos modernos.

- O fim que se propõe é mostrar ao homem descrente que na religião, especialmente a católica, há algo de incógnito. Este primeiro caminho é o objetivo que parte do agnosticismo. Para este fim é necessário provar que a religião católica é a mesma que veio de Cristo, mesmo que com desenvolvimento progressivo. E como isso se dá, por mais que eu venha evitando, terei que pôr pelas palavras de São Pio X para melhor entendimento:

“Pretendem eles fazê-lo pela seguinte fórmula: Cristo anunciou a vida do reino de Deus, a realizar-se em breve, sendo ele o seu Messias, isto é, o executor e o organizador mandado por Deus. Depois disto convirá demonstrar como essa semente, sempre imanente na religião católica e permanente, devagar e a passo com a história se foi desenvolvendo e adaptando às sucessivas circunstâncias, assimilando vitalmente tudo o que nas mesmas lhe apresentavam de útil às formas doutrinais, cultuais, eclesiásticas; superando ao mesmo tempo os obstáculos, desbaratando os inimigos, e sobrevindo a toda sorte de contradições e lutas. Depois que todas estas coisas, a saber, os obstáculos, os inimigos, as perseguições, os combates, bem como a vitalidade e fecundidade da Igreja, se tiverem mostrado tais que, conquanto na história da mesma se vejam observadas as leis da evolução, todavia não são bastantes ainda para uma explicação cabal, virá pela frente o incógnito, que se apresentará por si mesmo. Assim dizem eles. Contudo, em todo este raciocinar há uma coisa que não percebem; que aquela determinação da semente primitiva é fruto exclusivo do apriorismo do filósofo agnóstico e evolucionista, e que a própria semente é por ele tão gratuitamente definida, que deveras parece convir à sua causa.”

- Mas por outro lado eles também procuram persuadir que a religião tem muitas coisas desagradáveis. Admitido que possui erros passam a querer desculpá-los e justificá-los, assim, por exemplo, se é o caso de um erro histórico ou científico num livro bíblico tratarão de dizer que de tal livro só deve-se levar o aspecto religioso e moral. Outro exemplo, Cristo terias errado sobre a vinda do Reino e isso se explicaria ao fato de ter vivido à mentalidade do meio.

- O outro método é o subjetivo, voltando-se à doutrina da imanência. Procura dizer que no homem e no íntimo de sua natureza existe a necessidade de uma religião, não de qualquer, mas a católica, posto que esta alcança maior desenvolvimento de vida, o que as outras. Aqui não é só dizer que o homem busca a ordem sobrenatural, mas que é uma estrita e verdadeira exigência.

Isto é sustentado pelos modernistas mais moderados, visto que outros, chamados de integralistas, sustentam que até no descrente há o gérmen de Cristo em sua consciência, e que Cristo transmitiu a todos os homens.




O modernista reformador



- Quer que seja desterrada a filosofia escolástica para a história da filosofia. Que seja ensinada nos seminários a filosofia moderna.

- Para teologia querem que ela desista da teologia chamada racional e que seja fundamentada na filosofia moderna.

- Desejam que a filosofia positiva seja baseada na história dos dogmas.

- Querem que a história seja ensinada por seus métodos (já comentados) e com novos preceitos.

- Afirmam que os dogmas pela sua evolução devem entrar de acordo com as ciências e a história.

- Para o catecismo querem que só entre aquele dogma que tenha sido reformado e que esteja ao alcance da inteligência do vulgo.

- Sobre o culto, uns querem a diminuição das devoções externas, outros para isso se mostram mais indulgentes.

- O regime eclesiástico deve ser renovado, principalmente na disciplina e dogma.

- Deve em acordo com a mentalidade moderna introduzir a democracia; e assim o governo da Igreja deve ser descentralizado.

- Devem ser transformadas as Congregações Romanas, principalmente a do Santo Ofício e do Índice.

- Deve mudar a atitude das autoridades da Igreja quanto as questões sociais e civis não se intrometendo, mas amoldando-se a elas.

- Na moral dizem que as virtudes ativas devem antepor-se as passivas.

- Querem que o clero volte à antiga humildade e pobreza, isto de acordo com o modernismo.

- E finalmente, querem ver suprimido o celibato.

Aqui pudemos terminar, guiado pela Encíclica Pascendi Dominici Gregis, toda a exposição das doutrinas modernistas. Agora, pergunto o que todas essas teorias funestas têm a ver com o Concílio Vaticano II? Não basta que em alguns poucos aspectos (que mais adiante falarei) se assemelhe, deve ser substancialmente igual para fazer jus o nome de modernismo para o concílio. A honestidade não deixará que o leitor tradicionalista diga que tudo isto está nos textos do Concílio. Seria possível, pela lógica e não pela visão católica, supor que algumas coisas do Concílio são frutos do modernismo, mas não que o próprio concílio seja modernista, pois como provei são estritamente opostos, pelo menos, nos aspectos mais gerais.

Dizer que um não é diferente do outro é o mesmo que dizer que o modernismo é protestantismo só porque foi gerado por ele, se fosse o caso que o concílio veio do modernismo. É o caso semelhante de dizer que o Buda é Cristo com o argumento que os dois foram ou pelo menos tentaram ser místicos. Vou além, diremos que o catolicismo ortodoxo é modernista, pois como vimos a imanência bem interpretada é verdade católica, ela o grande Santo Agostinho ensinou. O catolicismo ortodoxo seria modernista por também dizer que as Sagradas Escrituras não são tratados históricos e científicos, e por esta razão podem ter erros em alguns aspectos, mesmo que o modernista queira dizer muito mais com essas palavras.

O catolicismo ortodoxo seria modernista por dizer que o culto deve ir de acordo com as necessidades históricas, mesmo que o modernista queira ir muito mais longe afirmando isso, negando até sua essência. Bom, poder-se-ia citar muito mais. Isto é só para mostrar que não basta que achemos aspectos semelhantes para que atribuamos tal nome pernicioso ao Santo Concílio. Passarei agora a identificar em que o Concílio é acusado, mostrando com maior razão as dessemelhanças com o modernismo. Falaremos de: Liberdade religiosa, ecumenismo, colégio dos bispos, Tradição viva.

Antes um breve esclarecimento: Na leitura do modernista reformador você, caro leitor, deve ter achado muito útil as elencadas, nitidamente iguais à mentalidade de muitos do clero. Mas devo dizer que muito do posto não se caracteriza como heresia e muito menos é culpa do Concílio, mesmo que durante ele se fizesse algum dos ditos. Acabar com o Santo Ofício e com o Índice não é contra a fé, tirar algum peso da escolástica não é heresia, a Igreja viveu muito bem sem eles por muito tempo. Não que eu seja de acordo, mas é bom fazer distinções.

Foi muito ruim a substituição do Santo Ofício pela Congregação para a Doutrina da Fé, em minha opinião deu a impressão que a Igreja esteve errada. Do mesmo modo o fim do Índice, deu a impressão que vai contra o verdadeiro direito da liberdade religiosa. Nem se fala no esquecimento da escolástica no seminário e na cultura em geral, mas seria falso dizer que os Papas conciliares não se importaram com essa questão. Mas tudo isso não se pode imputar ao Concílio. Fiquemos com a letra e só dela falemos. Elementos estranhos aqui não devem ser considerados, até porque o leitor não pode fazer interpretação pessoal sobre o Magistério. Mais uma coisa, eu fiz questão de deixar de lado a questão do “subsistit in” por já estar mais do que explicada nos nossos artigos para a tristeza dos modernistas, não creio que dos tradicionalistas.

O Prof. Alberto Zucchi da Montfort na sua última vídeo-aula tratando do problema Concílio e socialismo falou sobre a questão do “subsistit in”. Disse que só uma autoridade pode dar a interpretação das expressões, dos textos do Concílio, não cabe a nós, e sobre o “subsistit in” disse que o Papa já o deu, que tal uso é ainda mais forte que o simples “est”.

Liberdade religiosa

O Concílio Vaticano II defende a liberdade religiosa como um direito fundado na dignidade da pessoa humana. Os modernistas não defendem a liberdade religiosa como um direito, direito que deva ser respeitado até pelo Estado, pois para eles este teria toda a legitimidade de pôr fim a ela, já que trata de questões temporais. O modernista defende a liberdade religiosa em razão da equiparação que faz da Igreja de Cristo com as demais, todas elas teriam sentido de vida em si, todas ela são de Deus, e é por isto, por somente isto, que aceitam a liberdade religiosa.

Ecumenismo

Pouca explicação eu precisarei dar, alguns trechos do Concílio e da interpretação do Magistério sobre ele valem muito mais:

“Nesta una e única Igreja de Deus já desde os primórdios surgiram algumas cisões” (Unitatis Redintegratio I, 3)

“Ademais, dentre os elementos ou bens com que, tomados em conjunto, a própria Igreja é edificada e vivificada, alguns e até muitos e muito importantes podem existir fora do âmbito da Igreja católica: a palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros
dons interiores do Espírito Santo e elementos visíveis. Tudo isso, que de Cristo provém e a Cristo conduz, pertence por direito à única Igreja de Cristo.” (Ibid.)

“Contudo, os irmãos separados, quer os indivíduos quer as suas Comunidades e Igrejas, não gozam daquela unidade que Jesus quis prodigalizar a todos os que regenerou e convivificou num só corpo e numa vida nova e que a Sagrada Escritura e a venerável Tradição da Igreja professam. Porque só pela Igreja católica de Cristo, que é o meio geral de salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios salutares. Cremos também que o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança ao único colégio apostólico, a cuja testa está Pedro, com o fim de constituir na terra um só corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus. Este Povo, durante a peregrinação terrena, ainda que sujeito ao pecado nos seus membros, cresce incessantemente em Cristo.” (Ibid.)

“Assim, palmilhando este caminho, superando pouco a pouco os obstáculos que impedem a perfeita comunhão eclesiástica, todos os cristãos se congreguem numa única celebração da Eucaristia e na unidade de uma única Igreja. Esta unidade, desde o início Cristo a concedeu à Sua Igreja. Nós cremos que esta unidade subsiste indefectivelmente na Igreja católica e esperamos que cresça de dia para dia. até à consumação dos séculos.”(Ibid, 4)



“10) A isso tudo deve-se acrescentar a nota sobre o Ecumenismo. A Santa Sé louva aqueles que no espírito do Documento Conciliar sobre o ecumenismo, promovem empreendimentos para fomentar a caridade com os irmãos separados, e para atraí-los à unidade da Igreja, mas é doloroso saber que não faltam aqueles que, interpretando a seu modo o Decreto conciliar, querem uma tal ação ecumênica que ofende à verdade da Fé e aunidade da Igreja, favorecendo a um perigoso irenismo e indiferentismo, o que de fato é totalmente alheio à intenção do Concílio ( quod quidem a mente Concilii omnino alienum est).”

“Tais erros e perigos, singularmente se espalham aqui e acolá, o sumário deles, no entanto reunidos na síntese desta carta seja apresentado ao Ordinários dos lugares, para que dele tratem nas próprias Conferências Episcopais e oportunamente os relatem e manifestem sua opinião à Santa Sé antes da festa do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo deste corrente ano...” (Congregação para a Doutrina da Fé, 24 de julho de 1966.)

“Assim, e em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, devecrer-se firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada. Como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua Esposa: « uma só Igreja católica e apostólica ».51 Por outro lado, as promessas do Senhor de nunca abandonar a sua Igreja (cf. Mt16,18; 28,20) e de guiá-la com o seu Espírito (cf. Jo 16,13) comportam que, segundo a fé católica, a unicidade e unidade, bem como tudo o que concerne a integridade da Igreja, jamais virão a faltar... A falta de unidade entre os cristãos é certamente uma ferida para a Igreja; não no sentido de estar privada da sua unidade [a Igreja], mas « porque a divisão é um obstáculo à plena realização da sua universalidade na história »”(Dominus Iesus, IV, 16)

“seria obviamente contrário à fé católica considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado dos constituídos pelas outras religiões, como se estes fossem complementares à Igreja, ou até substancialmente equivalentes à mesma, embora convergindo com ela para o Reino escatológico de Deus.” (Dominus Iesus, VI, 21)

Nestes documentos vimos que o ecumenismo ensinado pelo Magistério conciliar é:

1. De retorno.

2. Que não equipara a Igreja de Cristo com as demais.

3. Que entende que só a Igreja pode dar a salvação.

4. Que não crê que a Igreja não é una e indivisível.

5. Que os elementos das outras religiões provêm da Igreja Católica.

Tudo isso já fora explicado pelo Papa Pio XII que disse que o movimento ecumênico tem um bom intuito e pode ser muito útil; que aceitou que católicos possam ir reuniões e conferências; que possam orar junto com eles para abrir ou fechar as reuniões (tudo isso poderá ser lido na Instrução ao Movimento Ecumênico proclamado pelo Santo Ofício em 20 de dezembro de 1949)

Ecumenismo modernista equipara e divide a Igreja.

O colégio dos bispos

“Pois o Romano Pontífice, em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, tem nela pleno, supremo e universal poder que pode sempre exercer livremente. A Ordem dos Bispos, que sucede ao colégio dos Apóstolos no magistério e no governo pastoral, e, mais ainda, na qual o corpo apostólico se continua perpetuamente, é também juntamente com o Romano Pontífice, sua cabeça, e nunca sem a cabeça, sujeito do supremo e pleno poder sobre toda a Igreja (63), poder este que não se pode exercer senão com o consentimento do Romano Pontífice.” (Lumen Gentium, 22)

Isso não vai contra a constituição monárquica da Igreja, pois ensina que:

1. O Papa tem o pleno, supremo e universal poder que pode exercer livremente.

2. Os bispos não têm esse pleno, supremo e universal poder sem o Romano Pontífice.

3. O exercício desse poder não pode ser exercido sem o consentimento do Romano Pontífice.

Os modernistas querem democratizar a Igreja, o conjunto dos bispos submisso ao Papa não mudaria a questão em nada para eles. E como lemos na nota explicativa prévia o colégio dos bispos inclui necessariamente o Pontífice Romano e somente assim pode ser dito que tem o pleno e supremo poder.

O que diz o Concílio foi sempre professado pela Igreja e encontra sentido com a relação de Pedro, os outros apóstolos e as chaves. No Decreto de Graciano se diz: Graciano: “ao dar a todos seus discípulos um poder igual de ligar e desligar, prometeu a Pedro as chaves do Reino dos Céus antes que a todos e para todos” E para apoiar este ponto de vista citava o texto de Santo Agostinho: “quando Pedro recebeu as chaves, representou a toda a Igreja” (Decretum Gratiani (Corpus Iuris Can. I, ad. Aemilius Friedberg): C. 24, q. 1 dictum post c. 4 Em latim: “Unde, cum Dominus omnibus discipulis parem ligandi atque voluendi potestatem daret, Petro pro omnibus et pré omnibus claues regni celorum se datarum promisit, dicens: “Tibi dabo claues regni celorum”. Ibid., c. 6 “...Petrus, quando claues accepit, ecclesiam sanctam significavit”.

Em 1206 fez saber Inocêncio ao bispo de Pisa que os privilégios jurídicos de que gozava o clero na sociedade medieval não lhes foram concedidos a eles como a indivíduos ou para seu próprio proveito, mas como a um colégio eclesiástico (collegio ecclesiastico) e para o bem público (Migne, Patr. Lat. CCXV, 876)

E mesmo se tivesse um verdadeiro problema essa doutrina poderia ser corrigida. O Papa Paulo VI, na alocução de fechamento do terceiro período conciliar, declara que o colégio dos bispos é “uma segura fórmula doutrinal” (AAS 56/1964/1110) Não é algo infalível.

Tradição Viva

Esta me parece a questão mais boba. O progresso dessa tradição é explicado na Dei Verbum e nada tem a ver com evolução de tradição em si mesma ou do dogma: “Esta tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo (5). Com efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração (cfr. Lc. 2, 19. 51), quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade.” (Dei Verbum, 8)

Pouco antes já tinha dito que a revelação havia terminado: “Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. 1 Tim. 6,14; Tit. 2,13).” (Ibid., 4)

É forçar a barra dizer que isso é aquela teoria modernista de evolução. Um estudo dos escritos do Beato Newman poderia clarear mais a questão. O Papa Pio IX repreendendo o Cardeal Guide, que combatia a infalibilidade papal, disse que a tradição era ele. Nunca foi negado o aspecto vivo dela. Por fim, passemos para a relação de Dom Williamson.

Sedevacantismo x Conservadorismo e x Tradicionalismo

Visão dos sedevacantistas em relação ao Magistério

1. O Magistério tem infalibilidade negativa (isto é, é infalível globalmente, erros só
pontuais, sendo assim não pode ser herético)

2. O Concílio Vaticano II apresenta erros globais.

3. Logo, o Concílio não é do Magistério.

Os conservadores aceitam a primeira premissa, os tradicionalistas a segunda. Por os primeiros negarem a segunda não chegam à mesma conclusão dos sedevacantistas, e por os segundos (tradicionalistas) negarem a primeira não chegam à conclusão.

Visão dos sedevacantistas quanto a Missa

1. As leis litúrgicas da Igreja possuem infalibilidade negativa

2. A Missa Nova possui erros graves de fé

3. Logo, a Missa Nova não é da Igreja.

Os conservadores aceitam a primeira premissa, os tradicionalistas a segunda. Por os primeiros negarem a segunda não chegam à mesma conclusão dos sedevacantistas, e por os segundos (tradicionalistas) negarem a primeira não chegam à conclusão.

Isso significa que atinar para determinada semelhança do conservadorismo com o sedevantismo é se condenar, pois o tradicionalismo também possui semelhança. Aliás, não passa de uma falácia grosseira.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Nelson M. Sarmento, O conceito teológico do modernismo, Porto Alegre, abril de 2012, Dia da Ressurreição do Senhor, blogue Apostolado Tradição em foco com Roma.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino