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Por que Jesus tinha de morrer para sermos remidos?

Ainda alguns não entendem bem o porquê de Jesus ter que morrer tão cruelmente para operar a salvação. Será que ela poderia ter sido feita de outra forma? Não gostamos muito da conjunção condicional "se", mas e se as coisas tivessem sido diferentes? Se os judeus não o entregassem à morte sob Pilatos? Se a história fosse diferente, como se daria a redenção? Creiamos que isso nem deva ter respostas...

Uma vez que esse sacrifício era quisto por ele próprio, enquanto oferta de si mesmo, qual seria o nível de responsabilidade das pessoas envolvidas no processo de sua condenação?

Para quem é esse sacrifício? Por quem, é óbvio, por nós. Mas para quem? Se a Deus Pai, isso não O envolve em uma atmosfera meio sádica, de quem se satisfaz com sangue do seu Filho?

O sacrifício é o sinal mais conveniente para exprimir o soberano domínio de Deus sobre as criaturas. Por isso, o homem, em todos os tempos, honrou a divindade (seja qual nome desse a ela), com um ato sacrifical, constituído da destruído, de algum modo, de algo oferecido a Deus. Isso sobre o sacrifício em geral.

Agora quanto ao sacrifício operado por Cristo, nada mais conveniente do que ser Ele a morrer, uma vez que é Deus (e, portanto, perfeito, de modo que Sua oferenda ao Pai foi igualmente perfeita, e, assim, cumpre-se o preceito natural de que a uma ofensa cabe uma pena de igual tamanho) e ao mesmo tempo (dado que nós, homens, é que pecamos, deveria ser um de nós a sacrificar-se). Se o sacrifício, considerado em tese, é o mais conveniente sinal a expressar a soberania do Criador, ele, na prática (no caso da morte vicária de Cristo), expressa essa verdade.

Deus escolheu esta. O motivo? Porque era conveniente para que nós entendêssemos todos os aspectos da Redenção.


Se os judeus não entregassem Jesus à morte, Deus saberia isso de antemão. Será que Ele mandaria Seu Filho para cá? Pois Ele veio para morrer. Um "se" leva a outro "se". A Redenção poderia ser feita de outro modo, mas uma vez que Deus escolheu o sacrifício (por ser mais conveniente, pela simbologia etc), ele, de fato, ocorre. Deus não está limitado em Sua eficácia.

O fato de Deus prever e mesmo querer algo não nos isenta da responsabilidade própria. Aí é questão de entender como se dão as relações entre a vontade de Deus e a liberdade, que envolve uma das mais difíceis matérias teológicas: o tratado da graça e do livre-arbítrio. O que precisas saber é que, embora Deus queira algo e esse algo de fato ocorra por sua soberana vontade, a liberdade humana não é afetada no sentido de deixar de ser responsável. O homem é livre e Deus, quando prevê algo ou deseja algo, não lhe retira a liberdade. Deus está, também, fora do tempo.

Nós somos os beneficiários do sacrifício de Cristo, mas o Pai é o destinatário. Ele se entrega por nós, ao Pai.

O Pai não se satisfaz com o sangue, e sim com a obediência, que é explicitada pelo sangue. Entender como entra o pecado no mundo e a morte como sua conseqüência, ajuda-nos a melhor compreender a questão. Por outro lado, o Pai não fica feliz com a morte do Filho, e nisso também há a explicitação da generosidade de Deus: é capaz de entregar seu Filho Unigênito para nossa salvação! Olha o tamanho do amor de Deus: prefere "sofrer" pela morte do Filho, desde que isso nos possibilite a salvação.

O resto são especulações para teólogos.

A Deus nada é necessário, pois isso afetaria sua liberdade. Tudo o que Ele faz, faz porque quer. Se morreu na Cruz é porque quis assim, e, se quis assim, poderia escolher outro jeito. Uma gota seria suficiente. Mas todas as gotas em uma suprema angústia significam melhor o sacrifício. A suprema dor da Cruz simboliza melhor a suprema soberania do Criador sobre as criaturas, a qual, por sua vez, é a restauração da suprema ordem original afetada pela suprema ofensa do pecado.

E gota por gota, Jesus já começou a sacrificar-se na circuncisão, pois foi sua primeira gota de sangue derramada, e derramada por nós (pois só veio habitar entre nós e submeter-se às leis judaicas por nossa causa). Não precisava Deus Encarnar-se, e se o fez, foi por nós: assim até a gota de sangue derramada no pequeno corte no prepúcio, por ocasião da circuncisão, foi em nosso benefício.

Vamos além? Só o fato de Encarnar-se, de tornar-se homem, é um sacrifício, uma humilhação. Deus vem do palácio dos céus para morar em meio às misérias da terra. Só o fato de Deus tornar-se homem, "limitando-se", é, em si mesmo, um sacrifício. A Cruz foi só o cume de toda uma vida sacrifical, e sacrifical porque obediente. Sacrifício e obediência estão intimamente correlacionados.

Se nós somos salvos pela aplicação da morte de Cristo que nos é anterior, os antepassados foram salvos pela aplicação da morte de Cristo que lhes foi posterior. Assim como o sangue nos alcança no futuro, pode alcançar outros no passado, que morreram na esperança da vinda do Messias, tendo, então, após sua morte e Ressurreição, adentrado aos céus.

Se os judeus tivessem aceito Jesus, então Deus talvez não O mandasse para morrer. Como, entretanto, Ele veio para morrer, essa hipótese torna-se mera e inútil especulação.

O que é certo, entretanto, é que o judaísmo foi uma preparação para o cristianismo, e a aliança com Israel mera simbologia da aliança com a Igreja, o Novo Israel de Deus. Assim, o tornar-se judeu (pela circuncisão e adoção das leis contingentes aos israelitas) é hipótese sempre descartada. A verdadeira religião era o judaísmo, mas não passou ao cristianismo. Não há uma substituição de religiões, e sim uma continuidade: o que era o judaísmo hoje é o cristianismo, seu continuador, não mero substituto. O verdadeiro judaísmo hoje é a Igreja Católica. O judaísmo que se vê praticado pelos judeus não-cristãos é um arremedo do judaísmo, pois não soube aderir à sua continuação na Igreja Católica.

Deus fez realmente uma aliança com os judeus, mas uma aliança preparatória. Isso está claro em Hebreus. Toda a Patrística diz isso. Santo Tomás também.

Crer que o judaísmo e o cristianismo são apenas alianças distintas é a tese do dispensacionalismo, heresia de uma parcela de protestantes (notadamente, alguns batistas e a maioria dos pentecostais).

Sim, os judeus são nossos irmãos mais velhos quando, sem culpa, ignoram que a aliança velha deu lugar à nova, mas, objetivamente falando, a velha, por ter cessado (melhor dizendo, por se ter convertido na nova), não tem mais valor. Os verdadeiros continuadores da aliança mosaica somos nós, os cristãos.

Há um princípio teológico que diz que "Deus opera na história da salvação de forma mais perfeita possível". Isso significa que Deus poderia ter remido o mundo de N formas, pois para ele nada é impossível, mas se escolheu fazer como fez, é porque indubitavelmente essa era a melhor forma: nascer de uma virgem, deixar-se ser educado por uma família humana, aguardar até a idade adulta para o início da pregação, a escolha dos Doze, as curas, os ensinamentos, os milagres, e finalmente a sua Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão aos céus, e a vinda do Espírito Santo.

Seria absurdo acreditar que, conhecendo Deus todas as possíveis formas de salvar o gênero humano, não escolhesse, por seu infinito amor, a melhor.

A imensa bibliografia patrística que examina todos esses mistérios de fé é uma prova concreta de que todas as coisas operadas em Deus são de uma riqueza espiritual infinita e inebriante.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino