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A Roma invisível


Nota: o item lexical tradicionalista neste artigo não se refere a FSSPX, mas aos leigos ligados às comunidades amiguinhas e aos sedevacantistas que se sentem tradicionalistas, uma vez para esses dois grupos, a Fraternidade outrora tão amada passa a ser detestada por caminhar em direção à Barca de Pedro.

"Não vejo futuro algum para uma posição que se obstina em uma recusa fundamental do Vaticano II. De fato, ela é ilógica em si mesma. Com efeito, o ponto de partida dessa tendência é a mais rígida fidelidade ao ensinamento, particularmente de Pio IX e de Pio X e, ainda mais profundamente, do Vaticano I com a sua definição do primado do Papa. Mas por que os Papas até Pio XII e não além? A obediência à Santa Sé será talvez passível de divisão segundo as datas ou segundo a consonância de um ensinamento com as próprias convicções já estabelecidas?" (Ratzinger, A fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga, pág. 18)

Não poderia começar de forma melhor este artigo. Este conciso trecho do então cardeal Ratzinger, remete ao ponto central dos erros dos tradicionalistas, a saber, a falta de submissão à Roma. Sobre a posição dos “lefebvristas” o Papa a chamava de “unidade invisível”, eu aqui prefiro chamar de “Roma invisível”. Isto faço uma vez que fora da Sé Romana não há unidade. Como disse São Cipriano:

Aquele que não guarda esta unidade, proclamada também por Paulo, poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que abandona a cátedra de Pedro, sobre o qual foi fundada a Igreja, poderá confiar que ainda está na Igreja?”. (A unidade da Igreja, 4,10)

Dom Marcel Lefebvre dizia que estava com a “Roma eterna” em contraste com a suposta Roma herética e apóstata. Só que essa divisão é fictícia e estranha à Tradição da Igreja. A Roma que temos que obedecer é justamente esta que enxergamos, esta bem visível na pessoa do Papa, esta Cátedra de Pedro existente. É uma questão temporal, é onde se encontra o Pontífice. É muito fácil se acomodar, dando um sentido equívoco para a expressão "Roma eterna" e, a partir de então se sentir seguro em ter suas próprias opiniões sobre a fé católica.

Mas a fé católica não é questão de opinião, e sim de sujeição, sujeição ao Papa. O tradicionalismo não traz algo novo, isso já era a saída dos “reformadores”, só que no lugar de Roma idealizavam uma “Igreja invisível”. Pois é claro, o tradicionalismo é um fruto rebelde do modernismo e este último do protestantismo.

Duas ideias de Lutero condenadas pela bula Exsurge Domine servem para a posição tradicionalista, vejamos:

"Mesmo se o Papa com uma grande parte da Igreja pensasse de tal ou tal maneira ele não poderia errar; ainda assim não seria pecado ou heresia pensar o contrário, sobretudo em coisas não necessárias a salvação, até que um concílio universal reprove uma e aprove a outra opinião." (Exsurge Domine, 28)

"Está aberto para nós o caminho para esvaziar a autoridade dos concílios e contradizer livremente as coisas que fizeram, para julgar os seus decretos e professar com confiança qualquer coisa que pareça verdadeira, pouco importa que tenha sido aprovado ou reprovado por algum concílio." (Exsurge Domine, 29)

(Censura: Todos e cada um dos artigos ou erros elencados, Nós os condenamos, afastamos e de todo rejeitamos, respectivamente como heréticos, escandalosos, falsos e ofensivos para os ouvidos piedosos ou como enganando as mentes dos simples e contrários à fé católica).

É previsível que o tradicionalista na tentativa de escapar dessas condenações diga que não segue sua opinião, mas somente o Magistério infalível. Ora, Lutero dizia o mesmo sobre a Bíblia e, no entanto nunca esteve certo. Ter uma fonte infalível não significa que a interpretação também será. Mais, tal contraposição é reduzir o Magistério Ordinário a qualquer leiga manifestação, como se nele não operasse o Espírito Santo. O Papa Pio IX já condenou essa posição quando disse: “... e seu poder papal não aflora apenas em determinados casos excepcionais, mas tem validade e força sempre e em todo o lugar." (Pio IX, Respostas à circular de chanceler Bismarck)

Mas vamos imaginar que possamos duvidar globalmente de um documento, se isso fosse verdade não poderíamos, ainda assim, dizer que duvidamos por razão da Igreja ensinar o contrário, até porque a Igreja ensina também no Magistério Ordinário. Ter em absoluto que o ensinamento de um documento está errado, deixar a questão indiscutível é errado. O documento Donum Veritatis da Congregação para Doutrina da Fé que foi escrito para os teólogos, e cabe aos leigos por analogia, diz que a dúvida em relação a um dito do Magistério deve proceder da seguinte forma:

“Ainda que a doutrina da fé não esteja em questão, o teólogo não apresentará as suas opiniões ou as suas hipóteses como se se tratasse de conclusões indiscutíveis. Esta discrição é exigida pelo respeito à verdade, assim como pelo respeito pelo Povo de Deus (cf. Rm 14, 1-15; 1 Cor 8, 10. 23-33). Pelos mesmos motivos ele renunciará a uma expressão pública e intempestiva delas.” (27)

Nem a primeiro, nem o segundo ensinamento os tradicionalistas seguem, tanto tem como absoluto que muitos documentos do Concílio Vaticano II estão errados, quanto proclamam em alto e bom som para todos e em todos os meios que eles contêm erros.

Lembrar que este documento é também reformável não os ajuda, pois também ao Magistério Ordinário devemos assentimento, mesmo que não seja de fé. Então, querendo ou não, em nome da santa obediência, eles devem apresentar suas questões referentes ao Vaticano II como opiniões pessoais mesmo que fundamentadas ou mal fundamentadas no Magistério. Mas há muito conteúdo dos documentos que não permite esta liberdade por ser uma negação à indefectibilidade da Igreja e assistência divina no Concílio, como é o caso da liberdade religiosa.

Como se poderia levar adiante um contraponto com a Roma visível? Peguemos casos concretos. Esta Roma poderia ser aquela que Santo Agostinho diz que seu juízo encerra o caso? Lembremo-nos que quando o nosso Doutor disse isso, referia-se às confirmações de concílios regionais, e como tais são passíveis de erros acidentais. Podemos contestar a decisão da Sé Apostólica? Responde-nos Papa Zósimo: “Embora a tradição dos Padres atribuiu à Sé apostólica autoridade tão grande que ninguém ousaria contestar sua decisão, e preservou esta sempre em seus cânones e regras, ea disciplina eclesiástica atual em suas leis ainda paga a reverência que deveria o nome de Pedro ...” (Carta 12:01 ao Concílio de Cartago no PL 20:676 AB)

O parecer favorável ao Bispo de Roma é ou não é decisão favorável a São Pedro? Responde-nos Papa Sisto III em 433: "todos sabemos que ao parecer favorável para [o Bispo de Roma] decisão é favorável a São Pedro, que vive em seus sucessores, e cuja fé não falha." O que Roma decide é justo? Papa Júlio I (300 – 352): "Ou não sabeis que é o costume de escrever para nós em primeiro lugar, e que aqui o que é justo é decidido?" (Denziger § 57) São Pedro protege Roma e a guarda em todos os assuntos de sua administração? Papa Sirício: “como nós confiamos, nos protege em todos os assuntos de sua administração, e os guardas seus herdeiros.” (Denziger § 87) O Papa é ou não é o refúgio dos bispos? O Papa é “o refúgio dos bispos” (Conc. de Alex. Ep. ad Jelic.) É o porto seguro da comunhão católica? O Papa é “o porto seguro de toda a comunhão católica.” (Concil. Eom. por S. Gelasio.) É preciso ir além?

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

Nelson M. Sarmento, A Roma invisível, Porto Alegre, abril de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

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