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Aspectos psicológicos influindo na espiritualidade


C. S. Lewis no seu Cristianismo Puro e Simples faz o seguinte comentário sobre a psicanálise que achei bem equilibrado:

Devemos fazer uma distinção bem clara entre duas coisas: a primeira delas, a teoria médica propriamente dita e a técnica da psicanálise; a segunda, a visão geral de mundo que Freud e outros vieram acrescentar a ela. Essa segunda coisa – a filosofia de Freud – está em contradição direta com a de outro grande psicólogo, Jung. Além disso, quando Freud descreve a terapêutica para casos de neurose, fala como um especialista no assunto; mas, quando discorre sobre filosofia geral, fala como um amador. Portanto, é sensato ouvi-lo falar sobre um assunto, mas não sobre o outro – e é isso que eu faço.

Ajo assim porque me dei conta de que, quando Freud discorre sobre assuntos que não são de sua especialidade e que por acaso eu conheço bem (como é o caso do assunto “linguagem”), ele não passa de um ignorante. A psicanálise em si mesma, porém, separada de todos os enxertos filosóficos feitos por Freud e por outros, não está de forma alguma em contradição com o cristianismo. Suas técnicas coincidem com as da moralidade cristã em alguns aspectos, e seria recomendável que toda pessoa soubesse algo sobre o assunto: as duas técnicas, porém, não seguem o mesmo curso até o fim, já que seus propósitos são diferentes.

A chamada "terapia de vidas passadas" não pode ser considera uma técnica psicológica, pois, como disse C.S. Lewis, coloca uma determinada "filosofia" acima do que é próprio da psicoterapia.

Freud nasceu em família judia, participava de intituições judaicas e se identificava etnicamente como judeu, algo que era imposto na sociedade do Império Austro-Húngaro.

Isso não quer dizer que levasse em conta a fé judaica como diretriz de sua (inexistente) vida espiritual. Além disso, tinha verdadeira temor de tornar a psicanálise uma "ciência judaica", posto haver em seu círculo, a maioria de discípulos de origem judia (Abraham, Sandor Ferenczi, Adler, Melanie Klein, Wilhelm Reich, dentre outros. Isso não quer dizer também estes levassem o judaísmo a sério, mesmo que alguns tenham sido perseguidos posteriormente pelo III Reich).

Freud recebeu várias críticas de rabinos da Europa e Estados Unidos quando expos a teoria do desenvolvimento psicossocial, bem como posteriormente ao publicar o desatroso "Moisés e o Monoteísmo" ( no qual mostra não conhecer absolutamente nada de teologia e arqueologia ) e "O Futuro de uma ilusão", talvez um dois grandes manifestos anti-religiosos do início do século XX.

Muitos livros de Freud foram queimados na Alemanha Nazista, e o próprio Freud teve que fugir. O sucesso profissional e intelectual de um judeu colocaria por agua a baixo aquelas teorias nazistas de raça. Algo como Jesse Owens foi nas olimpiadas.

Essa impressão, sobre o pensamento de Freud, de que ele era
era um pervertido que via sexo em tudo advém de uma leitura parcial. Fala-se muito da parte sexual porque essa parte da reflexão psicanalítica foi um saudável choque para o tipo de cultura que vinha se formando desde o século XVIII, uma cultura que negava a dimensão sexual no ser humano e que foi a causa de tantos males, de tantas neuroses (ainda hoje). O homem é uno, corpo e alma espiritual, toda postura que procura negar isso não produz resultados positivos.

Uma boa parte dessa rejeição da psicologia tem relação direta com um certo medo do que os conhecimentos trazidos pelos diversas ciências, em especial as que têm por objeto algum aspecto do homem, pode fazer à reflexão teológica. É um medo infundado, pelo menos no longo prazo, quando o choque da quebra de certos paradigmas vira passado.

A Teologia não dispensa a mediação científica; pelo contrário, ela a pressupõe. O Deus da Revelação deixou vestígios de seus projetos profundamente impressos em toda e qualquer realidade humana. Basta ter olhos para ver e inteligência para interpretar. A Revelação não é algo estranho: ela se dá na história e é profundamente humana. Desde o mistério da Encarnação do Filho de Deus, que assume integralmente nossa condição humana, é mergulhando no divino que entendemos melhor nossa humanidade e é mergulhando na humanidade que entendemos melhor a divindade. Assim, tudo o que revela o humano, indiretamente ao menos, está revelando o divino: a verdadeira ciência não deixa de ser uma espécie de “revelação natural”.

É nessa perspectiva que temos de avaliar as suspeitas levantadas pelo freudismo (falo freudismo porque os discípulos de Freud nem sempre refletem toda a riqueza de nuances a abordagens de seu mestre).

Sem dúvida, Freud foi um pioneiro na psicologia do profundo. Ele conseguiu lançar um pouco de luz sobre os mecanismos inconscientes. Como também elaborou técnicas para trazer à luz da consciência processos inconscientes. Lançou as bases para uma sexologia séria, justamente uma área propícia para a instalação de escrúpulos de caráter patológico. E isto é um grande mérito. Como também é um grande mérito ter rasgado muitas máscaras de subterfúgios.

Entretanto, como tantos pioneiros, Freud também apresenta seus limites. Um deles é o fato de haver trabalhado quase que exclusivamente com pessoas e situações patológicas. Outro é o de haver supervalorizado algumas de suas descobertas, entre as quais a força quase exclusiva da libido, identificada com a sexualidade. Deixou nas sombras muitas dimensões importantes da mesma sexualidade. Por exemplo, a dimensão sociocultural, bem como a dimensão política, sem falar da dimensão religiosa sadia.

Desse modo, compreendemos que o freudismo, mais do que o próprio Freud, investiu contra a culpa moral como manifestação tipicamente patológica. Escreve o Frei Antônio Moser (O Pecado):

Posteriormente, Jung vai mostrar que a capacidade de se responsabilizar por comportamentos inadequados, e mesmo erros morais, é uma das provas mais cabais da normalidade de uma pessoa. Freud, e mais o freudismo, lançaram suspeitas generalizadas sobre todas as formas de religiosidade. Jung vai demonstrar que a religiosidade não só é constitutiva do humano, como nunca conheceu ninguém que tivesse conseguido harmonia psíquica sem harmonia religiosa. Freud, e mais o freudismo, vão exagerar a força dos chamados impulsos, particularmente para a satisfação sexual, a destruição e a morte. Com isto o pecado não encontra espaço em Freud e, muito menos, no freudismo. A consciência do pecado deveria ser erradicada para que as pessoas pudessem viver sadiamente.

Podemos dizer, então, que a avaliação do papel da psicanálise, em especial da freudiana, não é simples e não pode ter como referência uma postura absolutista, que ache que o fato de se usá-la como instrumental é uma licença para tudo que ela diz.

Freud em sua teoria (quase dogmática) no que diz respeito ao desenvolvimento psíquico do ser humano, praticamente tornou a possibilidade da negatividade da religião como matéria fechada. Além disso para ele a civilização construiu a imagem de Deus como sendo uma entidade todo-poderosa e repressora que de algum modo favorecia o desenvolvimento de neuroses, mas ajudava, de algum modo, por meio dea repressão dos instintos determinada por leis, mandamentos e ritos, na construção da sociedade.

Diga-se de passagem que Freud era ateu. Deus seria uma necessidade psíquica neurótica, porém necessária na construção da sociedade. Lembro que Freud tinha uma imagem distorcida a respeito da fé e não se deu muito ao trabalho de conhecer exegese cristã ou mesmo judaica, posto ter nascido nesse meio para poder falar da questão religiosa na vida psíquica do indivíduo.

Jung foi seu discípulo mas discordava desse ponto de vista, tendo rompido por esse e outros motivos com Freud. Jung dizia que uma imagem doente de Deus é um dado de sofrimento psíquico. Interessava-se por questões religiosas e ressaltava a importância da religião para a nossa saúde mental.

Conhecemos casos de pessoas que nasceram em ambientes familiares desfavoráveis mas que nutriram grande fé ao longo da vida. Isso porque tiverem pessoas e exemplos que de algum modo as levaram a Deus. Lembremo-nos de que o Catecismo diz que todo homem é "Capaz de Deus". Situações inversas também ocorrem. Hoje muitos dos jovens ditos ateus ou agnósticos mal tiveram formação religiosa, mas não presenciaram lares desagregados com maus exemplos parentais ( ainda que a falta de instrução religiosa, seja, no meu juízo de valores, algo bastante desfavorável ).

Com base nisso, digo que elementos de psicologia podem ser úteis em certas situações que um diretor espiritual tem diante de si no sentido de compreender certas dificuldades de seus orientandos. Mas generalizações são perigosas, ainda mais se baseadas apenas numa única escola psicológica.

Há uma passagem de Freud que considero muito infeliz. É quando ele diz que o conhecimento decorre do raciocínio. Isso é de uma impropriedade enorme, especialmente quando se fala dos conhecimentos mais elevados e vitais. Macacos também raciocinam, constroem silogismos, chegam a expressá-los de alguma forma. Para a decepção dos fãs freudianos, porém, tenho de dar uma de estraga prazeres e lembrar que isso não é lá essas coisas. O processamento de dados, mesmo com coerência exemplar e sem falhas "dentro do sistema", assim como a memória em sentido grosseiro (o mero armazenamento de informação), é algo que qualquer conjunto de portas lógicas num circuito elétrico faz. "Raciocinar, simplesmente raciocinar, meu cão faz isso muito bem".

O que caracteriza e distingue a inteligência humana não é a sua capacidade de construir mundos, por mais grandioso e estimulante que isso pareça; é a sua capacidade de ver as coisas de um mundo que já é dado. Essa percepção, quase uma sensação da verdade quase tangível, não pode ser substituída por nenhum conceito. Os conceitos só se formam através de elaborações graduais dessas percepções, e sem elas, tornam-se signos artificiais, muito úteis talvez, mas sem contato com os fatos. A miséria da logística moderna é quase inteiramente devida à falta de "sensibilidade".

Só aprendemos o que quer que seja quando sentimos o objeto de conhecimento, não como um conceito, mas como presença real. Isso vale, é claro, para a moralidade. Enquanto um sujeito não tiver claro para si que uma perversidade é repugnante, por exemplo, não se esperam grandes progressos na sua conduta. É por isso que Santa Teresa ensina a tentar sentir o fedor de nossa alma quando pecamos. E é para facilitar essa visualização da perversidade que os santos usam uma linguagem violentíssima, de fazer corar as boas senhoras burguesas. Tenho certeza que uma certa famosa linguagem violentíssima, toda segunda feira, tem praticamente a mesma finalidade.

Não existem dúvidas sobre a importância da psicologia e da psicanálise para a religião. Umas das coisas precisam ser lembradas é a diferença entre psicoterapia e confissão (ou mesmo direção espiritual) ainda que ambas sejam processos terapêuticos. Um sacerdote bem orientado saberá reconhecer os seus limites ante determinadas situações. O mesmo se espera de um psicoterapeuta decentemente formado e desprovido de preconceitos religiosos.

Algumas boas coisas vem sendo escritas nesse sentido, mesmo que eu não tennha afinidade com alguns dos textos apresentados no que diz respeito a linha teórica. Cabe lembrar que mesmo eu tendo lido por certo tempo no campo das neurociências, sinto que pouco contribuem aqueles autores que procuram localizar no encefálo a região em que se "aloja" a fé como se ela fosse algo palpável e manipulável.

Na psicoterapia o indivíduo pode exorcizar certos "demônios" existenciais sem o caráter confessional e reconciliar-se consigo mesmo ao longo do processo que nem sempre é curto e rápido. Na confissão, por sua vez há um ato sacramental que permite a reconciliação consigo mesmo, com Deus e o mundo. No entanto o que une esses dois universos é o senso de dever ante a SACRALIDADE de um ser humano em sofrimento.

Uma pena que não existem mais cursos de Psicologia do Brasil. No máximo são cursos intensivos de formadores de profissionais na auto-ajuda de botequim.

Ou destruidores efetivos da sanidade mental.

Referências:

PSICOLOGIA DA RELIGIÃO-António Ávila. Ed. Loyola

RELIGIÃO, PSICOPATOLOGIA E SAÚDE MENTAL- Paulo Dalgalarrondo. Ed. Artes Médicas

DIANTE DO MISTÉRIO - Psicologia e senso Religioso. Marina Massimi e Miguel Mahfoud (organizadores) Ed. Vozes

PSICOLOGIA E VIDA MÍSTICA. Leon Bonaventure. Ed.Vozes (Um belo estudo à luz da Psicologia de Jung, ainda que discutível sob a ótica cristã, da obra de Santa Tereza D'Avila).

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição, Aspectos psicológicos influindo na espiritualidade
– Rio de Janeiro, maio de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

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