.

O medo da Morte


Se nosso objetivo aqui na terra é buscar a santidade para conseguir a Vida eterna , por que temos tanto medo da Morte ?

Um trecho da novela Alma Gêmea deixa um certo impacto sobre o destino da alma em pecado mortal:



Vocês buscam a santidade de todo coração? Acredito que sim. E vocês tem medo da morte? Acredito que sim.

Então, a própria experiência de vida já responde a pergunta. Não somos robôs meramente racionais, temos sentimentos, inclinações e instintos. Estes nos influenciam o tempo todo, de modo que nem sempre podemos invocar um estado da alma coreespondente apenas a uma certeza racional ou de fé; mas nos deixamos levar pelas nossas fraquezas humanas. Isso faz parte da essência do nosso ser.

A fraqueza humana não é uma imperfeição em si mesma, mas uma limitação natural, desejada por Deus, para que nos lembremos sempre de que somente Ele é soberano. Ora, até o próprio Cristo, que era Deus, ao assumir nossa humanidade, temeu a morte a ponto de suar sangue e ousar suplicar a Deus Pai que o livrasse do seu suplício.

O medo da morte é instintivo e faz parte da natureza humana. A morte, entendida como a separação entre corpo e alma, não fazia parte do plano inicial de Deus para a humanidade e, em certo sentido, pode ser entendido mesmo como um efeito colateral, um estado irregular do nosso ser; pois corpo e alma são indissociáveis. O estado de morte é um estado que não corresponde à nossa natureza como pensada por Deus, e só teremos essa natureza plenamente restituída na ressurreição final, no dia do Juízo Universal.

Logo, é natural a aversão à ideia da morte. Além disso, é natural que temamos o desconhecido, pois não sabemos como é essa passagem -- só experimentamos a morte uma vez -- nem se será mais ou menos dolorosa. Mais ainda, sempre teremos um medo natural de não termos correspondido à vida para a qual Deus nos chamou, e o que experimentaremos no purgatório ou -- infinitamente pior, Deus não o permita -- se trairemos a fé e nos condenaremos ao inferno.

A morte de Cristo é um exemplo. Deus não toma o culpado por inocente, nem trata o justo como injusto. O que Cristo efetuou foi uma satisfação por todo o gênero humano, pois todo gênero humano foi destituído em Adão (e nisso não havia injustiça, pois os dons divinos eram gratuitos e estavam acima das exigências de sua natureza), e não uma substituição nos termos imaginados pelos protestantes. Cristo realizou nossa salvação a modo de mérito, de satisfação, de sacrifício, de redenção e de eficiência, mas não a modo de substituição.

A satisfação é vicária no sentido de que Cristo ofereceu uma satisfação no lugar do gênero humano, mas não no sentido de Cristo substituiu penalmente os pecadores. Por isso, a doutrina católica condena a tese da justificação forense, de Lutero.

A morte de Cristo teve virtude infinita para salvar todos os homens, e influi sobre todos os homens, na medida em que todos recebem graças suficientes. É tese condenada que Cristo morreu só pelos predestinados e também que os pagãos e infiéis não recebem nenhum influxo da Paixão de Cristo. Contudo, seus merecimentos não são aplicados a todos homens. Sendo assim, diferenciamos a redenção objetiva e a redenção subjetiva.

Ele ressuscitou no mesmo corpo. E seu sangue voltou todo ao corpo, porque estava unido hipostaticamente ao Verbo. Para cumprir a profecia do Salmo 22 (21 na Vulgata).

Deus não negou a Si mesmo. Jesus Cristo é Deus e Ele próprio se ofereceu em sacrifício para nos salvar. Ele disse "Ninguém tira a minha vida, Eu voluntariamente a dou".

Disso temos certeza, porque adoramos ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, portanto, o sangue também está unido hipostaticamente à Divindade.

Algumas células ou gotas de sangue podem não ter retornado ao Corpo ressurreto de Cristo, pois no Santo Sudário haveria sangue. Também o sangue derramado na circuncisão (bem como o prepúcio) podem ter perdido a união com a Verbo. No entanto, é certo que o sangue (provavelmente não todo) está também unido ao Verbo, e é com Ele adorado, com adoração absoluta (não apenas adoração relativa, que é a adoração prestada a Cristo por meio de suas imagens e relíquias que tiveram contato com seu Corpo).

A morte espiritual é fruto do pecado; não tendo Cristo pecado logo conclui-se que ele não pode experimentar uma morte espiritual. O que ele experimentou foram apenas os efeitos da morte espiritual qual seja a morte do corpo.

Sobre se Deus Pai desamparou o Filho: Jesus na verdade cita um salmo de Davi que profetiza sobre o sofrimento do messas. Ao que em parece Jesus sofreu realmente o terror da morte - já no Jardim das Oliverias isso se manifesta. Penso que tal questão só se esclarece na medida em que entendemos que em Jesus há duas vontades: humana e divina.

A vontade humana de Jesus temia a morte, não a queria, mas como ela está unida a vontade do Verbo, ela se submeteu a vontade do Pai pois disse Jesus que seu alimento era fazer a vontade do Pai. O desamparo de Jesus parece se trata do desamparo que sua humanidade sofre na cruz - nela se manifesta essa dualidade de vontades mas que estão unidas - mesmo desamparado Cristo voluntariamente se entrega a morte por amor ao Pai e aos homens.

Quando dizemos que Deus se entristece, sofre ou algo do tipo, estamos nos utilizando de um recurso chamado antropomorfismo. Como se fosse uma metáfora. Assim como não conseguimos expressar pela palavra a eternidade simples sem evocar a temporalidade e as coisas temporais, assim também não exprimimos o Ser simples sem evocarmos seres compostos, pois temos conaturalidade com coisas compostas e temporais.

Um nome abstrato não designa algo que subsiste, mas sim aquilo pelo que algo existe. Como a palavra brancura designa aquilo que faz com que algo seja branco. Já o termo homem é um nome concreto. Utilizamos nomes abstratos e concretos para designar o que compreendemos de Deus, não o que sentimos d'Ele (não conhecemos Sua essência). Assim, com nomes abstratos (bondade, força ou sabedoria) designamos Sua simplicidade e perfeição, e com nomes concretos Sua subsistência e perfeição, como quando dizemos que Deus é um leão -- forte, destemido etc. -- (cf. S. Th., Ia pars, q. 13, a. 1, 2 e 3).

Jesus, enquanto homem, sofreu limitações da natureza humana. Entretanto, no Céu, os homens gozam de felicidade plena, tanto pela visão beatífica quanto pela felicidade natural. Ora, não compete a Jesus sofrer no Céu, se a graça que felicita os outros emana d'Ele mesmo.

Só poderíamos dizer que Jesus sofre no sentido de que, como vontade antecedente, Ele prefere que O obedeçamos, e isso nem sempre ocorre, por causa do nosso livre-arbítrio. Mas não é no sentido de frustração.

Santo Agostinho, A Cidade de Deus - Capítulo XI

Fim da vida temporal, prolongada ou breve.

Prolongada fome, dizem, consumiu grande número de cristãos. Não é outra provação que a piedosa paciência dos verdadeiros fiéis transforma em vantagem sua? Para aqueles que mata, a fome representa, como a doença, completa libertação dos males desta vida; para os que poupa, lição de abstinência mais rigorosa e jejuns mais prolongados.

Quantos outros cristãos, porém, trucidados, engolidos pela inexorável morte que se multiplica de maneira espantosa! Sorte cruel, mas comum a todos os destinados a esta vida. O que sei é não haver morrido pessoa alguma que não devesse morrer um belo dia. Ora, o fim da vida reduz a igual medida a mais longa e a mais curta, pois coisa nenhuma é melhor, ou pior, ou mais longa, ou mais curta na igualdade do nada. Que importa, pois, de que espécie de morte morremos, se, depois de mortos, não podemos ser constrangidos a morrer de novo?

Como as peripécias diárias da vida suspendem, por assim dizer, sobre cada cabeça mortal a ameaça de número infinito de mortes, não é melhor, pergunto, enquanto perdura a incerteza da que há de vir, sofrer apenas uma e morrer do que continuar vivo e recear todas? Não ignoro que nossa covardia prefere viver longo tempo no temor de tantas mortes a morrer uma vez para não continuar receando nenhuma.
Uma coisa, entretanto, é o que causa horror aos sentidos e à imbecilidade da carne, e outra, a convicção esclarecida e profunda do entendimento. A morte não representa nenhum mal, se sucede a vida santa; não pode ser mal, senão pelo acontecimento que a segue. Que importa, por conseguinte, a seres necessariamente votados à morte o acidente de que morrem? Importa, isso sim, o lugar para onde vão, depois da morte. Ora, os cristãos sabem que a morte do pobre bom entre os cães que lhe lambem as feridas é incomparavelmente melhor que a do rico que expira na púrpura e no linho. Pois bem, como poderiam essas mortes horrendas prejudicar os mortos, se viveram bem?Quisera que a bondade de Deus nos deixassem morrer após tê-Lo recebido na Santíssima Eucaristia, pois para a receber é preciso estar em estado de graça, e mesmo que houvesse alguns pecados venias, a Sagrada Eucaristia abona a culpa.

Devemos, portanto, encarar esta vida terrena como o que de fato ela é: uma caminhada, uma romaria para o Céu. Uma subida de degraus.

Ora, quem em sã consciência negaria continuar vivendo, se viver é uma oportunidade de crescer cada vez mais em graça, em amizade com Deus, em glória eterna com Ele?


PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição, O medo da Morte
– Rio de Janeiro, maio de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

CRITICAS E SUGESTÕES SÃO BEM VINDAS:

tradicaoemfococomroma@hotmail.com 

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino