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Sementes do Verbo e a plenitude da Verdade



Até que ponto as Sementes do Verbo se fazem presentes nas outras religiões?

Esta visão que olha as religiões falsas apenas como embustes do demônio é platônica. Devemo-la muito a Santo Agostinho.

Graças a Deus, o Concílio Vaticano II, nesse sentido, foi aristotélico e tomista. Lembremos da analogia do ser. Há, portanto, verdades nas outras religiões e nas outras culturas, verdades naturais e algumas sobrenaturais. As verdades naturais existem por causa da luz natural da razão humana; as sobrenaturais existem naquelas religiões que são, de algum modo, devedoras da revelação, e que elas conservam.

Santo Agostinho dizia que o intelecto agente precisava de iluminação divina. Por isso, sua ideia mais ou menos que estimulou o pensamento de colocar tudo o que não fosse cristão como falso. Ele tinha algumas ideias erradas no campo da filosofia, mas sua teologia é grandemente honrada pela Igreja e pelo próprio Santo Tomás.

Verdades sobrenaturais como a Trindade, a encarnação, existem naquelas religiões, que uma vez originadas da religião revelada, conservam a crença nessas verdades. Por elas, alguém pode ser santificado - o Catecismo é claro. A única oposição a isso é que saiba que Cristo fundou uma só Igreja e se recuse conscientemente a aderir a ela.

O sentido mais profundo é que o milagre, enquanto graça atual, conduz à Igreja. A ligação do milagre com a Igreja é com respeito à finalidade, mas não no sentido deste ocorrer somente na Igreja ou por intermédio da Igreja (a não ser no caso de uma graça gratis datae).

"São Tomaz (De potentia 6,5 ad.5), por exemplo, ensina que Deus pode realizar um milagre para confirmar simplesmente uma verdade da religião natural (ou seja, uma verdade religiosa que o homem por sua inteligência natural reconhece) ou para atestar o valor de uma virtude praticada sinceramente por quem de boa fé vive fora do Catolicismo; e cita o caso, narrado por S. Agostinho (De civ. Dei 10,26), conforme o qual uma vestal de Roma (virgem consagrada ao serviço da Divindade), para comprovar a conservação de sua pureza, havia conseguido carregar água do Tibre num vaso perfurado."

(D. Estevão, PR nº 006, ano I)

Se a pagão, ajudado pela primeira graça, alcançar outra graça, e assim se preparar para a justificação, pode chegar ao estado de graça, e, permanecendo nele, auxiliado pela graça de Deus, pode se salvar. Para aqueles que já conhecem as verdades de fé, esse caminho é mais fácil. Mas aqueles que ainda não conhecem, se, ajudados pela primeira graça, forem de graça em graça, de fidelidade em fidelidade, Deus lhes revelará aquilo que é necessário crer para se salvar ou lhes enviará um pregador da fé.

Uma coisa importante de se dizer é que ninguém se salva pelo cumprimento da lei natural.

Se entendida no sentido de que a oração de um pode servir para Deus dar a fé a alguém, o que é na verdade um mérito de côngruo (de conveniência), mas não por uma estrita questão de justiça. Só Cristo pôde merecer de condigno o prêmio da justificação para outrem.

Deus, em razão de sua vontade salvífica universal, dá a todos os infiéis negativos (pessoas que nunca ouviram o Evangelho) graças suficientes para se salvar.

Também dá a todos os justos graças suficientes para cumprirem os mandamentos.

Também dá a todos os pecadores graças suficientes para a penitência.

Em razão de sua vontade salvífica particular, dá a todos os eleitos graças eficazes. Mas a questão da eleição e do fundamento da distinção entre a graça suficiente e a graça eficaz é um dos problemas teológicos mais controversos da teologia católica. A Congregação "De Auxilii", depois de estudar por dez anos, deixou a questão sem solução.

Acho interessante um trecho do livro do Bento XVI, o “Fé, Verdade, Tolerância” que fala do cristianismo em posição às outras religiões, talvez responda a algumas perguntas:

“A fé cristã ocupava, na história das religiões, a posição que ela mesma se conferia, formulada basicamente há muito tempo: ela vê em Cristo a única – e com isso definitiva – salvação do homem. Em conseqüência, com respeito às outras religiões, são possíveis duas posições (assim parece). Pode-se considerá-las como provisórias e, portanto, de caráter pré-cursor relativamente ao cristianismo, e, desse modo, avaliá-las positivamente, à medida que elas se deixem colocar na posição dos pré-cursores. Todavia, pode-se também concebê-las como insuficientes, contrárias a Cristo, dirigidas contra a verdade, como religiões que fingem dar a salvação ao homem sem jamais poder dá-la.
(...)

Com efeito, pode-se bem dizer que o relato da aliança com Noé (Gen 8, 20-9,17) confirma a verdade oculta das religiões míticas. Em um regular “morra e venha a ser” do cosmos, consuma-se o poder do deus fiel, que se acha em aliança não comente com Abraão e os seus, mas com todos os homens. E não encontraram os Magos o caminho para Cristo por meio da estrela, isto é, por meio de sua superstição, sua religião? (Se bem que apensar se desviando de Jerusalém, das sagradas escrituras do Velho Testamento). Também não se ajoelhou a sua religião diante de Cristo na pessoa deles, como verdadeiros pré-cursores, ou melhor, com afluentes, ao prestar homenagem a Cristo?

Não parece um lugar-comum, nesse contexto, citar o discurso no Areópago (At 17, 22-32), sobretudo na sua atitude de rejeição à mensagem do Ressuscitado, parecendo à teologia otimista dessa fala antes uma mentira a punir? A religião, dos assim adulados, não convergia ostensivamente para Jesus de Nazaré (...).”


Muito bom o texto de Ratzinger. Avalia as religiões falsas pelos dois lados: pelo que elas têm e pelo que lhes falta. Qualquer postura onde falte um dos lados dessas análise ― seja a de alguns "tradicionalistas", seja a dos relativistas ― é incompleta. Mas também poderia ser colocado aí que, além da graça de iluminação, que age de maneira mediata e extrínseca, há também a graça de moção, que age de maneira imediata e intrínseca.

A fé natural não pode salvar, porque ela não é um dom da graça. Somente a graça de Deus, que nos transforma e nos faz justos, é que pode dar como prêmio a vida eterna.

Pode haver justificação sem fé? Não. O Concílio Tridentino ensinou que a fé é o princípio da salvação e o fundamento e a raiz de toda justificação. Sobre isso, leia-se também a Carta do Santo Ofício ao arcebispo de Boston, a mesma que tratou dos erros do Pe. Leonard Feeney.

O pagão salva-se exatamente como o católico, com a fé sobrenatural, a caridade sobrenatural (sem a qual a fé é morta) e a esperança. Por isso, deve crer em Deus e na retribuição futura. Todos os demais artigos do Credo admitem uma adesão implícita.

A adesão implícita acaba quando a pessoa fica sabendo dos artigos da fé explicitamente. Um milagre serve para comprovar outras coisas também, como as verdades reveladas, e, segundo Santo Tomás, até mesmo as verdades da religião natural.

Se o homem com o pecado original conseguisse cumprir toda lei natural, mas não tivesse a graça, seu destino seria o limbo dos infantes, pois o inferno só se dá como castigo pelos pecados atuais (Inocêncio III, Ecclesia Maiores causas).

O homem caído, sem nenhuma graça, contudo, só cumpriria toda lei natural com o auxílio da Providência natural, isto é, com os auxílios de ordem extrínseca (ao contrário da graça que age intrinsecamente). Num estado de natureza pura, Deus daria esses auxílios ao homem e ele conseguiria cumprir toda lei natural.

Agora, o homem criado num estado de natureza íntegra como foi Adão conseguiria cumprir toda lei com somente a sua natureza. Mais ainda, sendo criado num estado de natureza íntegra e elevada.

Nâo só os auxílios extrínsecos, mas também intrínsecos, pois num estado de natureza pura, o homem necessitaria de auxílios intrínsecos (honestos pensamentos e sentimentos), mas esses se distinguem da graça, enquanto têm em vista um fim natural, e se ordenam ao fim último natural do homem, que é a beatitude natural.

Se a Igreja conhecesse a Verdade em sua plenitude, conheceria a essência de Deus, que é incognoscível, a não ser para Ele mesmo.

Quanto às verdades religiosas, ou teológicas, geralmente é feita uma classificação. Algumas são verdades reveladas por Deus, portanto, imutáveis, mas não plenas. Outras verdades são deduzidas dessas verdades reveladas, com o auxílio da razão. E algumas até são livres ou só são toleradas.

Um exemplo é a resposta que tomistas e escotistas dão à questão: Por que o nosso Deus se encarnou? Isto é, se a encarnação ocorreria com ou sem o pecado original.

a respeito da classificação que os teólogos dão às verdades da teologia, e a sua natureza falível e infalível, reformável e irreformável, sem me ater ao que obriga o Código de Direito Canônico. Pois bem, em termos práticos, é mais útil nos atermos ao texto do Código de Direito Canônico, que divide assim em dois graus o assentimento que os católicos devem ter com os textos do Magistério:

Os textos do magistério papal e do colégio episcopal, quando estes agem como doutores e juízes da fé e dos costumes, são infalíveis. Podem variar quanto à matéria, pois algumas verdades são contidas na Palavra de Deus escrita ou transmitida pela tradição, o objeto primário da infalibilidade, enquanto outras verdades são propostas como definitivas, pelo fato de agregarem, ao dado da fé, elementos não revelados ou ainda não explicitamente reconhecidos como tais; são o objeto secundário da infalibilidade.

A esses dois tipos de verdades tratadas acima, devemos assentimento definitivo de fé, diferindo, todavia, no objeto sobre o qual repousa esse assentimento: enquanto, no primeiro, repousa diretamente sobre a fé na autoridade da Palavra de Deus, no segundo, repousa sobre a fé na assistência do Espírito Santo dada à Igreja.

Outra categoria de verdades ou ensinamentos do Magistério são aqueles não definitivos: os ensinamentos autênticos. A esses devemos assentimento religioso de inteligência e vontade, que não chegue a ser de fé (Cân. 752).

Uma dúvida que tenho é se o Código prevê algum tipo de sanção além da que está descrita no Cân. 751, para quem negar as verdades definitivas, as quais também prestamos assentimento da fé, e os ensinamentos não definitivos do magistério autêntico. O Cân. 751 parece ser restritivo ao classificar o delito de heresia como sendo a negação pertinaz de uma verdade de fé divina e católica (verdade revelada) após o batismo.

Há também um caráter bastante subjetivo que dificulta o homem de alcançar a Verdade: o pecado.

Sabemos que o pecado causou uma séria desordem na natureza humana. O homem, além disso, perdeu todos os dons preternaturais.

Fazendo uma análise 'antropológica' da religião, percebemos com facilidade que o homem sempre procurou a Deus. É umainclinação natural a Deus, dificultada pelo pecado, é verdade, mas sempre presente. É poss´vel reparar, porém, que algumas religiões estiveram muito longe da Verdade, especialmente as que realizavam sacrifícios humanos (atentando contra a própria Lei Natural).

Além disso, a soberba pode ser uma terrível trave no olho da pessoa. Devido ao pecado, o homem possui uma natural tendência de fechar-se em si mesmo, em um comodismo terrível que o impede de caminhar rumo a luz. Chega-se a um ponto de obstinação no erro, mesmo.

Analisando a história dos grandes hereges, notamos esse ponto em comum. Um grande apego às opiniões pessoais em detrimento com o ensinamento perene da Igreja. Essa terrível falta de humildade levou ás mais lamentáveis divisões entre os cristãos ao longo dos séculos.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição, Sementes do Verbo e a plenitude da Verdade
– Rio de Janeiro, maio de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

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