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A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de Catecismo (2ª Parte, Seção 1, Tópico 20)


“A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de Catecismo” do Pe. Tomas Pégues, O. P., é uma excelente obra para aqueles que desejam iniciar o estudo da Obra Magna de Santo Tomás. Um tanto raro aqui no Brasil, haja vista que sua última edição em português data do início da década de 40, este livro é formulado como todos os catecismos tradicionais em perguntas e respostas e é de agradável leitura.

SEGUNDA PARTE: O HOMEM PROCEDE DE DEUS E PARA DEUS DEVE VOLTAR

PRIMEIRA SEÇÃO: NOÇÕES GERAIS ACERCA DO MODO COMO O HOMEM TEM DE VOLTAR A DEUS

XX. DA GRAÇA, OU PRINCÍPIO EXTERIOR QUE AUXILIA O HOMEM NA PRÁTICA DO BEM


É suficiente a tutela da lei para praticar a virtude e livrar-se do pecado?

Não. Necessita-se, além disso, o auxílio da graça (CIX-CXIV).

O que entendeis por graça?

Um auxílio especial que Deus concede ao homem para ajudá-lo a praticar o bem e fugir do mal.

O homem necessita deste auxílio em todas as ocasiões?

Sim.
Logo, não pode, com suas próprias forças, fazer obras boas nem evitar mal algum?

Sim; em virtude de suas faculdades operativas e com os auxílios da ordem natural, pode exercitar atos de virtude e evitar pecados; porém, se Deus não vem em seu auxílio, remediando os estragos causados ​​na natureza pelo pecado, não poderá praticar todas as virtudes nem evitar todos os pecados. Isto levando em conta as virtudes e pecados na ordem natural, porque, se considerarmos a virtude sobrenatural e seu exercício como meio de conquistar a glória, o homem não pode fazer absolutamente nada sem o auxílio da graça (CIX).

De quantas maneiras o homem participa da graça sobrenatural?

De duas: uma habitual e permanente, e outra em forma de moções sobrenaturais transitórias (CIX, 6).

O que entendeis por estado habitual de graça?

Um conjunto de qualidades que Deus produz e conserva na alma com o fim de divinizar sua essência e suas faculdades (CX, 1-4).

Como se chama a qualidade permanente, que diviniza a essência da alma?

Chama-se graça habitual ou santificante (CX, 1, 2, 4).

E as que divinizam as faculdades?

Virtudes e dons (CX, 3).

Logo, as virtudes e dons estão vinculados à graça santificante?

Sim; e dela se derivam de tal maneira que é impossível que exista graça na alma sem que os dons e as virtudes adornem suas faculdades.

A graça, as virtudes e os dons são coisas de grande estima e valia?
Sim, porque conferem ao homem a dignidade de filho de Deus, e lhe proporcionam meios para comportar-se como filho de tal Pai.

A graça, juntamente com as virtudes e os dons, faz do homem o ser mais perfeito da criação na ordem natural?

Sim;o faz superior aos anjos, atenta somente a sua natureza (CXIII, 9, ad 2).

Haverá, portanto, neste mundo, alguma coisa mais digna de ser ambicionada do que a graça divina?

De maneira nenhuma pode haver objeto mais digno de desejar-se do que a posse, conservação e aumento da graça, das virtudes e dos dons.

De que modo podemos alcançá-la, conservá-la e fazer nela progressos?

Correspondendo fielmente às inspirações do Espírito Santo, que nos convida a preparar-nos para recebê-la, se ainda não a possuímos, e a aumentá-la incessantemente, se já temos a alegria de possui-la (CXII, 3; CXIII, 3, 5).

Que nome tem a moção ou a inspiração do Espírito Santo?

Chama-se graça atual (CIX, 6, CXII, 3).

Logo, é a graça atual a que nos proporciona os meios de dispor-nos para receber a Santificante e para aumentá-la, uma vez adquirida?

Sim.

A graça atual pode produzir o seu efeito, a contragosto nosso e sem a nossa cooperação?

Não (CXIII, 3).

Então, é necessário que o nosso livre-arbítrio coopere com a sua ação?

Sim.

Como se chama esta cooperação?

Correspondência à graça.

Que qualidade adquire o ato do livre arbítrio que coopera com a graça atual, quando possuímos a Santificante?

Adquire a qualidade de ato meritório (CXIV, 1, 2).

Quantas classes há de méritos?

Duas: uma chamada de côngruo e outra de condigno (ibid.).

O que entendeis por mérito de condigno?

O que dá direito estrito e de justiça à recompensa (ibid.).

Quais condições deve reunir o ato humano para ser meritório de condigno?

Que se execute debaixo do influxo da graça atual; que proceda da graça santificante por meio da caridade; que se ordene para a realização da própria felicidade eterna, ou para adquirir maior grau de graça e virtudes (CXIV, 2, 4).

Podemos merecer de condigno, para outro, a vida eterna, a graça Santificante ou seu aumento?
Não, porque só Jesus Cristo pode merecer de condigno para os demais como chefe e cabeça da Igreja (CXIV, 5, 8).

O que entendeis por mérito côngruo?
O mérito de côngruo funda-se em que Deus, em atenção à intimidade que o une comos justos, recompensa ​​de conformidade com as leis da amizade, e não da Justiça, os empenhos de seus amigos por lhes agradar; fazendo-lhes mercê do que pedem e desejam (CXIV, 6).

Então, as únicas fontes de mérito, para o homem, reduzem-se a amizade com Deus e à vida da graçae prática das virtudes sob a inspiração divina do Espírito Santo?

Sim; e quanto, em outras circunstâncias, trabalhe e se afadigue, é inútil, de nenhum proveito para merecer a recompensa eterna (ibid.).

Podereis explicar-me, em concreto, como se formenta e desenvolve a vida da graça, visto que ela constitui o objeto principal de nossa passagem por este mundo?
Sim, pois tal estudo será a matéria do próximo tratado.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino