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Ateísmo sobre limite do amor de Deus


Recebi um e-mail de um ateu para dar explicações sobre alguns questionamentos. Optei em separar os pontos elecandos por ele para responder melhor. Iniciarei com a primeira suposição de que Deus não aniquila de vez a vioência, a doença, a moléstia e todo tipo de mal, logo Deus não é onipotente e Se Ele pode e não faz, é porque não tem misericórdia e amor infinito.

Pe. Garrigou-Lagrange responderia que Deus tem uma vontade antecedente e uma vontade consequente. Pela vontade antecedente, Deus quer o que, em si, é bom, por exemplo, que todos os homens sejam salvos, porque o bem, enquanto ser, é participação de Sua divina essência. No entanto, é a através da vontade consequente que Ele quer que o bem que deseja pela sua vontade antecedente se realize, uma vez que esse bem, por ser limitado, deve realizar-se necessariamente dentro de circunstâncias específicas, que são o "aqui e agora" em que tal bem irá se realizar. Por isso, nem tudo o que Deus deseja com sua vontade antecedente se realiza. Antes, dizemos que essa vontade antecedente atua condicionalmente, enquanto a vontade consequente, eficazmente.

Deus não pode "fazer melhor", porque a forma com que Ele faz já é a melhor. Deus não pode ter potência para melhorar, Ele tem que ter tudo em ato, e com eficiência máxima.

Não se considera o que Deus pode fazer, mas sim o que é necessário para a existência daquela coisa na mesma natureza.

Então, Deus pode fazer com que todos creiam n'Ele, ou seja, Deus poderia obrigar, mas mesmo não obrigando, existem pessoas que crêem n'Ele, logo, para que exista a Fé sobrenatural, não é necessário que Deus obrigue ninguém (pois alguns já crêem sem serem obrigados).

O que Deus faz é dar a graça para tenha Fé sobrenatural, já que nada voltado à Salvação começa, executa-se ou termina sem a graça de Deus.

Não estamos obrigados ao pecado nem à Santidade, logo, estamos livres.

Sobre o pecado original, somos pecadores por termo-lo contraído, não por termo-lo cometido, donde não se pode dizer que somo obrigados a cometer um pecado.

Sobre conseguir buscar a Deus, o homem poderia buscá-l'O de forma natural, sem o auxílio da graça. É o que acontece com os deístas. Mas com Fé sobrenatural é só com o auxílio da graça mesmo.

Vamos demonstrar porque Deus tem que ser infinitamente misericordioso:

1) Evidência filosófica: Potência é a capacidade para algo, enquanto o ato é este algo acontecendo. Toda potência exige um ato para se concretizar. Assim, uma parede branca (ato) com potência para o vermelho, só ficará vermelha em ato com a ação de uma força sobre ela -- a tinta, que é vermelha em ato.

Você tem potência para aprender, mas precisa de alguém que saiba (ato) para lhe ensinar.

Então deve haver algo que nunca precisou de uma força anterior. Um primeiro Ser, capaz de ser por si só. Ele não pode ter potência, mas somente ato. Ele tem que ser ato absoluto, infinito. Esse alguém é Deus, que não tem potência, somente ato, pois já É AQUELE QUE É.

Deus não pode "ser mais misericordioso", pois Ele não pode ter potência. Ele tem que ter tudo em grau absoluto.

2) Evidência ontológica: Nós, seres-humanos, não temos a capacidade de perceber (conhecer) tudo sobre determinada coisa. Nossa percepção está sujeita aos nossos sentidos e até aos nossos anseios. Assim, alguns conhecem mais da coisa, outros menos. A percepção dos anjos é várias vezes maior que a nossa e a de Deus é infinita (portanto, infinitas vezes maior que a nossa e a dos anjos).

Ora, se não percebemos tudo em determinada coisa, não podemos supor que a misericórdia divina se restrinja ao que percebemos, mas, pelo contrário, usando de anagogia*, que é infinitas vezes maior do que podemos conhecer.

*"Àquele que, pela virtude que opera em nós, pode fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou entendemos," (Ef. III, 20).

3) Evidência analógica: Nós temos misericórdia. Compadecemo-nos uns com os outros. Os anjos também são misericordiosos e, devido à sua natureza angélica, conseguem sentir misericórdia de maneira mais expressiva. Ora, o Criador, Aquele que incutiu misericórdia nas criaturas, tem que ter misericórdia (portanto, é misericordioso), e sua misericórdia deve ser superior à dos anjos e dos homens, pois ninguém pode transmitir o que não tem.

Além disso, nós temos a capacidade de aumentar nossa misericórdia, como podemos também nos tornar insensíveis, duros, sem misericórdia (ou com pouquíssima, se preferir). Se nós temos a capacidade de aumentar a misericórdia de maneira indefinida, conclui-se que Aquele que nos transmitiu a misericórdia a deve ter de maneira infinita, pois não podemos ir aumentado nossa misericórdia até o alcançarmos, pois como eu disse, o Transmitente deve ter mais que o receptor.

4) Evidência magistral: O Sagrado Magistério da Igreja já afirmou inúmeras vezes que a Misericórdia de Deus é infinita. Exite até uma bula papal com este nome, a Infinita Dei Misericordia, do Santo Padre Pio XI.

E o Santo Padre Bento XVI afirmou: "Deste modo tornaremos cada vez mais familiar e próximo Aquele que os nossos olhos não viram, mas de cuja infinita Misericórdia temos certeza absoluta. À Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, pedimos que ampare a missão da Igreja, e invocamo-la exultantes de alegria: Regina caeli..." (Regina Caeli com Sua Santidade, o Papa Bento XVI, 11/04/2.010).

5) Evidência dos ensinamentos dos Santos: São vários os Santos que afirmam que a Misericórdia de Deus é infinita. Disse, por exemplo, Santa Teresa de Lisieux: "A mim Ele deu a sua Misericórdia infinita, através dela contemplo e adoro as outras perfeições divinas! (...) Então todas me parecem resplandecentes de amor, a própria Justiça (e talvez ainda mais do que qualquer outra) me parece revestida de amor" (Audiência Geral com Sua Santidade, o Papa Bento XVI, 06/04/2.011).

A doença é mero fato de ordem natural! Não sobrenatural! Curar o doente, de maneira geral, não contribuiria com a salvação da pessoa, mas no caso em que for contribuir, então Deus cura, através de um milagre, onde a cura seria de ordem sobrenatural, não a doença.

A doença não é um mal (ao contrário, é a falta de um bem). Não sendo um mal, não é falta de misericórdia de Deus não curar a pessoa.

Nascer doente não entra seque na discussão, pois se trata de uma fatalidade, não de um mal moral nem muito menos de uma vontade direta de Deus.

Deus é a causa primeira, as causas secundárias são as Leis morais e as Leis naturais.

No caso de um doente, estaríamos tratando da Lei natural, não sobrenatural.

Para que entenda: O mal não existe como algo concreto. Segundo Santo Agostinho, Deus é o Bem Absoluto. Ele distribui os bens de diferentes formas e em diferentes níveis. O mal é como um buraco numa folha de papel, o buraco não existe, o que existe é o papel. A falta de papel em determinado ponto nós percebemos como se fosse um buraco. Então o buraco seria a falta de papel.

Assim também a doença não é um mal concreto, mas a falta de um bem relativo. Por exemplo, uma pessoa que tenha somente um olho, vai considerar isso um mal. Mas na realidade não é um mal, é a falta de um bem maior, ter dois olhos.

Então, não é falta de misericórdia Deus não curar, pois não é um mal acometendo a pessoa. Entretanto, se a cura for contribuir com a salvação da pessoa (contribuir para que ela alcance o Bem Absoluto), daí sim Deus curará, por um milagre.

O mal moral existe.

No mais, Deus permite os males, que são a ausência de bens relativos, para manter a ordem no mundo. Note que, como eu disse, se os bens são distribuídos de diferentes formas e em diferentes níveis, há desigualdade entre os seres (uma alga em relação a um homem). É isso que mantém a ordem no mundo. Por exemplo: A pobreza, permitida por Deus, faz-nos entender que a riqueza é um bem relativo.

Enfim, mortes, guerras, pecados etc. entraram no mundo pelo pecado original, através do livre-arbítrio de Adão e Eva. Isso desordenou parcialmente a nossa natureza. Mas Deus ainda tira bens maiores desses males.

Se uma pessoa for se tornar soberba por não enfrentar nenhuma doença, então saiba que Deus não agirá de forma a privá-la das doenças (apesar de que isso poderia acontecer pelas Leis naturais).

Sabe a diferença entre os tipos de graça e seus efeitos?

Graça natural, graça sobrenatural, graça habitual, graça atual, graça santificante, graça sanante, graça elevante, graça de entendimento, graça de vontade, graça de iluminação, graça de moção, graça antecedente à livre vontade, graça subsequente ao exercício da livre vontade, graça suficiente, graça eficaz, graça incriada, graça criada, graça de Deus, graça de Cristo, graça externa, graça interna, graça gratis data, graça gratum faciens etc.?

Deus não pode nos forçar a sermos justos. Isso não seria misericórdia, seria uma injustiça, pois não responderíamos por uma justiça que não depende de nós em absolutamente nada. Se Deus forçasse, não teríamos o ato de vontade em aderir (já que aqueles que querem ser ímpios seriam obrigados a ser justos).

O pecado aconteceu, isso é um fato! Suas consequências são apagadas, por assim dizer, pelo Batismo.

Deus não poderia forçar Adão e Eva a não pecar sem interferir em seu livre-arbítrio, e nem deixar de aplicar as consequências desse pecado, pois seria injusto.

Veja o exemplo do demônio. Lúcifer, o portador da luz! Aquele que tem luz, que é cheio de luz. Ele foi criado com uma natureza diferente da nossa. Tinha todos os motivos e condições para não pecar, no entanto pecou.

Sobre termos liberdade de buscar a Deus, e sobre termos livre-arbítrio, diz o Sacrossanto Concílio de Trento:
Declara ainda [o Santo Concílio]: o início da justificação dos adultos deve brotar da graça proveniente de Deus [cân. 3] por Jesus Cristo, a saber, de sua vocação, pela qual são chamados, sem qualquer merecimento da parte deles.

Assim, aqueles que estavam afastados de Deus pelos pecados, se dispõem [amparados] pela sua graça, que excita e auxilia (per eius excitantem atque adiuvantem gratiam), a alcançarem a conversão e a própria justificação, consentindo livremente nesta graça e livremente cooperando com ela [cân. 4 e 5]; de forma que, tocando Deus o coração do homem com a iluminação do Espírito Santo, fica o homem por um lado não totalmente inativo, recebendo aquela inspiração, que poderia também rejeitá-la; por outro lado, não pode ele de sua livre vontade, sem a graça de Deus, elevar-se à justificação [cân. 3] diante de Deus.

Por isso, quando nas Sagradas Escrituras se diz: Convertei-vos a mim e eu me converterei a vós (Zac 1, 3), somos lembrados de nossa liberdade; quando, porém, respondemos: Convertei-nos, Senhor a vós, e seremos convertidos (Lam. Jer 5, 21), confessamos que a graça de Deus nos previne
(D 797).
A preparação para a justificação se efetua do seguinte modo: excitados e favorecidos pela graça divina, recebem a fé pelo ouvido (Rom 10, 17) e erguem-se livremente paras Deus, crendo ser verdadeiro o que foi revelado e prometido por Deus [cân. 12-14] especialmente, que o pecador é justificado por meio da graça de Deus, pela redenção, que está em Jesus Cristo (Rom 3, 24).

Quando eles então, reconhecendo-se pecadores, são abalados proveitosamente pelo medo da justiça divina [cân. 8], lembram-se da misericórdia de Deus e firmam-se confiantes na esperança de que Deus lhes há de ser propício por amor de Cristo. Então começam a amá-lo como fonte de toda a justiça e a se insurgir por isso contra os pecados com ódio e detestação [cân. 9], isto é, pela penitência, que se deve fazer antes do Batismo (At 2, 38); finalmente, se propõem a receber o Batismo, a começar uma nova vida e a cumprir os mandamentos de Deus.

Sobre esta disposição está escrito: Quem se achega de Deus, deve crer que ele existe e que é remunerador dos que o buscam (Heb 11, 6); e: confia, filho, os teus pecados te são perdoados (Mt 9, 2; Mc 2, 5); e: o temor de Deus expulsa o pecado (Ec 1, 27) e mais: fazei penitência e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos vossos pecados e recebereis o dom do Espírito Santo (At 2, 38) e ainda: Ide, pois, ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Padre, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos tenho mandado (Mt 28, 19) e finalmente: Preparai ao Senhor os vossos corações (1 Rs 7, 3)
(D 798).
Cân. 4. Se alguém disser que o livre arbítrio do homem, movido e excitado por Deus, em nada coopera para se preparar e se dispor a receber a graça da justificação — posto que ele consinta em que Deus o excite e o chame — e que ele não pode discordar, mesmo se quiser, mas se porta como uma coisa inanimada, perfeitamente inativa e meramente passiva — seja excomungado [cfr. n° 797] (D 814).

A omnipotência de Deus não é contrária à Sua infinita misericórdia. Pelo contrário, somente um ser omnipotente pode ser infinitamente misericordioso.

E a forma como Deus faz já é a melhor, caso contrário, não seria Deus. Ele não pode ter potência para melhorar.

A interpretação do tomismo clássico é a seguinte: todas as coisas são pela determinação divina. Então, querer saber por que Deus não fez isso ou aquilo é como um vaso de barro perguntar ao oleiro por que foi feito sem alça (veja Romanos 9,20). O livre arbítrio não escapa a essa regra, pois Deus determina todas as coisas sem violentar a natureza delas: assim as causas livres agem com liberdade, enquanto as causas necessárias agem por necessidade, mas ambas são movidas por Deus segundo o seu próprio modo de ser. Esse é o entendimento de Sto. Tomás de Aquino, por exemplo em S. Th., Ia, q.83, a.1, ad.3.

Deus não é causa moral do pecado, mas, mesmo o pecado, é causado no seu ser por Deus. Mesmo o pecado é algo bom na medida em que possui ser, enquanto o mal consiste no que falta ao pecado, ou o seu defeito. Segundo expõe Santo Tomás, o pecado "é ser e ação com certo defeito". O defeito não é atribuível a Deus, mas à criatura (Cf. S.Th., IaIIae, q.79, a.2).

Deus quer as coisas do modo que são, porque é infinitamente sábio e sabe dispor as coisas da maneira que melhor reflete a Sua sabedoria, razão última pela qual o Universo foi criado.

Deus é o único Ser que pode forçar, sem tirar a liberdade. Pe. Garrigou-Lagrange chama a esse agir de Deus, naquele texto que lhe indiquei, fortiter et suaviter.

As pessoas têm a falsa impressão de que o ser movido nunca pode agir com liberdade, porque, de fato, é assim quando uma coisa é movida por qualquer causa que não seja a Causa universal, As causa não universais imprimem a si mesmas, com suas próprias limitações, nos seus efeitos (porque o efeito guarda certa semelhança com a causa), não permitindo que os mesmos atuem livremente. Contudo, Deus contém em Si toda a universalidade do ser, não é limitado de forma alguma, dado que é uma Causa infinita e todo-poderosa. Assim, Deus pode mover as coisas sem tirar-lhes a natureza de liberdade.
Deus poderia tê-los convertido se quisesse, como fez com S. Paulo. Mas ainda assim, eles receberam graças suficientes para sua conversão (que não foram eficazes), e não se converteram porque não quiseram. Deus dá a todos graças suficientes e alguns Ele dá graças eficazes.
Em todos os atos divinos, há misericórdia e justiça, mas na medida correta, de acordo com a Sabedoria divina, de forma que se pode dizer que Ele é justo e misericordioso com todos, mas não há uma misericórdia infinita com o pecador, porque o que faz nas coisas criadas, o faz segundo uma ordem e proporção convenientes, e nisso consiste a razão de justiça. Santo Tomás também demonstra que a obra da justiça pressupõe a misericórdia na medida em que à criatura nada se deve, senão em razão de algo preexistente e pressuposto, o qual também dependerá de algo prévio.

Como não se pode levar a um processo indefinido, chegar-se-á a algo que dependa exclusivamente da bondade da vontade divina. Por exemplo, ter mãos é devido ao homem por ter alma racional; ter alma racional, por ser homem; ser homem, pura e exclusivamente por bondade divina. Assim, em qualquer obra divina, aparece a misericórdia como sua raiz (S. Th., Ia, q.21, a.4).

Na parábola dos dez talentos, a um deu cinco talentos, e outro dois, e a outro um. E mesmo aquele que recebeu um talento tinha chance de granjear e foi punido porque não o fez. Deus distribui a Sua graça de maneira desigual, e não é injusto por causa disso. E quando se fala Deus, frise-se: é o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Inclusive, é pecado contra o Espírito Santo ter inveja das graças que Deus deu a outrem.

Deus ama a todos. Mas Deus ama mais um do que outro. Isso é evidente. A criatura mais amada por Deus, amada de uma maneira que sobrepassa todo o Universo, é Maria Santíssima. E se Deus nos ama gratuita e generosamente a ponto de se entregar por nós, quem é o homem para reclamar mais amor de Deus?

A respostas para outros questionamentos, como mencionado no início, nos próximos artigos.

PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição, Ateísmo sobre o limite do amor de Deus
– Rio de Janeiro, junho de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

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