.

A devoção mariana na Bahia


O candomblé é uma religião pagã, de origem africana, e cultua os orixás, voduns e nkisis lá da África; como ele, há outros cultos afro-brasileiros e de origem indígena, e que sofreram certo sincretismo com o catolicismo.

Nosso Senhor do Bonfim é um título atribuído mesmo a Nosso Senhor, com aprovação das legítimas autoridades da Igreja. O problema é que na Bahia, onde se localiza a mais famosa Igreja do Senhor do Bonfim, a tendência ao sincretismo é um problema sério.

O problema é parecido com o que ocorre, por exemplo, com São Jorge, São Cosme e São Damião. São de fato 3 Santos Católicos, mártires, São Jorge soldado e os outros 2 médicos. O problema é que os macumbeiros resolveram usar as imagens deles para representar seus ídolos. Como diz a Sagrada Escritura, a especialidade do encardido é disfarçar-se de anjo de luz.

Pessoalmente, vejo nisso até um estímulo a uma genuína devoção a esses 3 santos (como também a outros cujas imagens são indevidamente utilizadas), que pode ser oferecida em desagravo por tantos erros gerados por esse tipo de coisa. São Jorge foi martirizado por recusar-se a sacrificar aos ídolos, e agora os macumbeiros utilizam sua imagem para representar os malditos ídolos! Isso é uma ofensa gravíssima!


As religiões tradicionais africanas são variadíssimas. O candomblé é dividido em nações: ketu, jeje e bantu. Cada uma das nações cultua suas divindades (que são chamadas respectivamente de orixás, voduns e inquices).

Com respeito a associar as religiões africanas com o culto ao demônio, acredito que isso se deve também aos próprios praticantes de algumas delas, uma vez que não há dúvidas que o demônio é cultuado na umbanda das linhas de esquerda (a chamada quimbanda). Basta dar uma passada no Mercadão de Madureira (Rio de Janeiro), na loja "Mundo dos orixás" ou em outras lojas, que irá se ver que os exus representados na umbanda e na quimbanda têm uma clara associação com o demônio: capa preta, cartola, tridente, e eu encontrei até mesmo uma estatueta que representava um anjo caído (provavelmente, o Exu Lúcifer).

João Paulo II já alertou os bispos do Regional Nordeste 3 da CNBB, em 1995, sobre o perigo do relativismo religioso no tocante à prática de “dar ao culto litúrgico uma feição afro-brasileira”.

Disse o pontífice: ”A Igreja Católica tributa um sincero respeito em relação aos cultos afro-brasileiros, mas considera nocivo o relativismo concreto de uma prática entre ambos ou de uma mistura entre eles, como se tivessem o mesmo valor, pondo em perigo a identidade da fé cristã católica (g. m). Ela sente-se no dever de afirmar que o sincretismo é danoso ali onde a verdade do rito cristão e a expressão da fé podem facilmente ser comprometidas aos olhos dos fiéis, em detrimento de uma autêntica evangelização”. (L’Osservatore Romano n. 40 de 7/10/95, p.7)

Num contexto de evangelização, é possível passar as mensagens cristãs apelando para algo do imaginário do povo catequizado. Assim, um missionário jesuíta poderia dizer que era enviado de Tupã, que São Tomé era Sumé, etc. Agora, isso não é sincretismo, e obrigatoriamente deve levar a uma purificação da antiga religião. Alguns costumes inocentes podem ser mantidos, e festas podem ser cristianizadas.

Agora, num contexto relativista, de que tanto faz ser seguidor de Cristo ou do candomblé, é evidentemente falso.

Por outro lado, há sim uma verdadeira devoção baiana, ortodoxa e fiel ao verdadeiro sentido teológico católico da reto culto ao Santos e a Nossa Senhora.

Nossa Senhora da Conceição da Praia que é a padroeira da Bahia, e São Francisco Xacier o padroeiro de Salvador. A Sé Primacial da Igreja do Brasil fica lá. Muitas ordens ainda são fortíssimas na Bahia.

Quem conhece a Bahia de verdade sabe que o espírito católico do estado e de amor mariano é muito forte, em Salvador há Igrejas seculares, que contam a história do Brasil (poucos brasileiros tem o prazer de participar de uma Missa numa construção do séc. XVII), quase todas dedicas à Virgem. No sertão uma devoção mariano popular que deixa qualquer um emocionado e aos domingos todas as paróquias cheias!

Aliás, em algumas cidades nem existem mais as "baianas" de acarajé, que já foram substituídas por hot-dogs e em alguns casos por
acarajés-evangélicos.

Na Bahia a religiosidade é um dos símbolos do Estado, enquanto outras regiões ainda estavam sendo evangelizadas, a Fé Cristã já era professada a quatro cantos por essas bandas, isso é visível na na sua tradição histórica e artística, é impossível ser baiano e não ter um mínimo de educação religiosa, seja por verdadeira piedade católica, ou então reflexo da mesma cultura.

Os católicos não se misturam ao candomblé (claro que há certos abusos), mas são as baianas, sendo estas com formação no credo africano, que somam a tradição cristã aos seus cultos, por exemplo, quando um adepto do candomblé venera Senhor do Bonfim, na verdade está adorando oxalá, portanto, é IMPOSSÍVEL que um católico veja no Salvador a figura da divindade maior da religião afro-brasileira, porque nesse caso cai em excomunhão automática.

Quanto a presença de baianas nas Igrejas, estas só entram com seus trajes típicos, onde em alguns casos vemos a realização de seus cultos, em algumas festas católicas; Santa Luzia, Santa Barbara, por exemplo, e quando há algum tipo de profanação, atitudes são tomadas imediatamente, tanto é que a Igreja do Bonfim nem abre mais no dia da comemoração.

No dia da lavagem pagã ela sempre tá fechada, as baianas nem chegam nas portas da Igreja, apenas na escadaria externa. Mons. Walter, que infelizmente saiu de lá,
até negava a comunhão para as adeptas do candomblé que iam nas Missas.

Generalização é extremamente prejudicial, acaba que torna as percepções pouco aprofundadas. Conheço padres baianos
tradicionais críticos feroz do sincretismo, ademais, a Igreja católica é majoritariamente opositora as profanações. Os bons católicos, os verdadeiros católicos, não se misturam. A Co-Redenção de Nossa Senhora os fazem livres para pregar o Evangelho a toda criatura baiana.

Quanto a doutrina de Maria ser Corredentora, ela não é doutrina revelada (dogma), mas é ensinamento dos Papas, portanto, magistério ordinário, e é obrigatório para todos os católicos.

Nenhum católico está dispensado de admitir que ela é nossa Corredentora. Isso é doutrina católica, apenas a consciência da Igreja ainda não evoluiu para proclamá-lo dogma. Mas já é doutrina.

A tese da divinização de Maria por meio da Encarnação é defendida por ninguém menos do que o nosso querido Boff.

"Divinização" aqui está sendo usado num sentido diferente daquele usado pelos Padres gregos, portanto, é
heresia. Significa dizer que Maria adquiriu, por meio do Espírito Santo, uma dupla natureza, divina e humana, tal como Cristo.

Ninguém pode ser "quase uma deusa", pois entre Deus e a mais sublime das criaturas há uma diferença de dignidade e de poder infinitos.

A extrema-veneração (hiperdulia) nem de longe se assemelha à adoração, pois, com a inteligência, sabemos muito bem distinguir Deus de Nossa Senhora. Aliás, os protestantes também fazem veneração em graus diversos, mas não é aos santos.

E sendo todos de Maria, somos todos de Jesus. Nosso Senhor quis vir ao mundo por meio dela e, como a vontade de Deus não muda, também quer ir ao coração de cada um por meio dela.

Podemos dividir o Cristo-Deus e o Cristo-Homem? Um deles é filho de Maria e o outro não. Ora, Maria não pode ser mãe de uma natureza. Como Cristo não é uma natureza, nem o filho de Maria pode ser uma natureza, só pode ser Cristo mesmo, Deus-Homem.

Vejamos a definição do concílio de Calcedônia:

"(...) Todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial [hommoysios] ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; “em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado”, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus [Theotókos];

Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, conseparáveis e indivisíveis;[1] a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência [hypóstasis]; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos padres nos transmitiu."
(Denz. 148)

Sendo Deus onipotente, poderia Ele ter feito Jesus aparecer na Terra da forma que bem Lhe aprouvesse: por geração espontânea; a partir de um material qualquer; já como homem feito, etc. Não obstante, quis que Seu Filho vivenciasse plenamente as dores e vicissitudes da humanidade, e portanto decidiu que Ele deveria nascer do ventre de uma mulher, como um ser humano comum. Isto basta para atribuir à Maria função de supina importância teleológica.

São Francisco de Sales, no Tratado ao Amor de Deus, disse:

"E porque Deus viu que podia fazer de várias maneiras a humanidade de Seu Filho, tornando-o verdadeiro homem, como, por exemplo, criando-o do nada não somente quanto à alma, mas também quanto ao corpo; ou então formando o corpo de uma matéria precedente, como ele fez o de Adão e de Eva; ou então por via de geração ordinária de homem e de mulher, ou então, enfim, por geração extraordinária de uma mulher sem homem, deliberou que a coisa se faria desta última maneira, e entre todas as mulheres que com essa intenção podia escolher, elegeu a Santíssima Virgem Nossa Senhora, por intermédio a qual o Salvador de nossas almas seria não somente homem, mas filho do gênero humano."

Fotos: Paróquia Santo Estêvão, padre vigário Luciano Curvelo. Arquidiocese de Feira de Santana, Bahia.


PARA CITAR ESTE ARTIGO:

David A. Conceição, A devoção mariana na Bahia
– Rio de Janeiro, maio de 2012, blogue Apostolado Tradição em Foco com Roma.

 

©2009 Tradição em foco com Roma | "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência" Doctor Angelicus Tomás de Aquino